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Cânion Índios Coroados e Cânion Malacara

Cânion Índios Coroados e Cânion Malacara

Conhecendo um pedacinho da transcanions

Mountaineering Trekking Camping

Ando meio atrasada pra colocar os relatos em dia, mas bora lá contar essa aventura do ano novo.

Como havia contado no relato anterior, chegamos em Porto Alegre na terça a noite já arrumando as cargueiras para sair manhã seguinte sentido Praia Grande. Tudo já estava planeado com bastante antecedência e tínhamos nossas passagens compradas de Porto Alegre para Sombrio, de onde pegaríamos um segundo ônibus para a pequena cidade de Praia Grande, em Santa Catarina.

Vista chegando em Praia Grande - SC

Tudo correu bem na viagem e em Praia Grande fomos para a residência onde havíamos alugado um quarto no Airbnb na casa de um simpático casal de idosos, aliás, o povo da cidade em geral é muito simpático e receptivo. Daí em diante nossa viagem já não era tão planejada.

A verdade é que a nossa primeira ideia em Praia Grande era fazer um pedaço da Transcânions, um trecho que iria da Estrada da Serra do Faxinal, em Praia Grande, até a RS020, estrada que leva a São José dos Ausentes. Seriam cerca de 85km de trilha, o que num primeiro momento pensamos “Beleza! A gente faz uns 20km por dia aqui pelas nossas trilhas, dá pra fazer isso em 5 dias”. Bom, foi o que a gente inocentemente pensou num primeiro momento. Aos poucos fomos lendo alguns relatos do Maurício Melati, o responsável pelo conteúdo do Graxaim Congelado e que mantem as atualizações sobre a Transcânions. Cheguei a conversar com ele por rede social sobre a nossa pretensão e ele nos alertou sobre alguns fatores, principalmente a mudança de tempo e as chuvas de verão.

O nada receptivo céu de raios da primeira noite

Depois de analisar muitos informações recebidas e possíveis problemas como previsão do tempo, terreno desconhecido, animais selvagens, moscas e navegação, passamos a repensar nossos planos e descontinuar a ideia da travessia, até chegar ao plano de andar até onde a gente quisesse, pernoitar o reveillon por lá e voltar. A ideia era sair de Praia Grande na madrugada de 30 para 31, andar bastante e chegar o mais distante possível. As 4h da manhã quando acordamos o som dos raios caindo nos cânions era assustador. Foi um balde de água fria e desanimados voltamos a dormir. Pra nossa surpresa, de manhã já fazia um dia lindo, o que nos permitiu manter o plano de ir para os cânions e andar até onde desse, agora com um pouco menos de tempo.

Vista do Cânion Índios Coroados

Ligamos para alguns motoristas que fazem essas viagens com valores fixos e começamos a nos ajeitar. O quarto ficaria alugado, então subiríamos apenas com o necessário, deixando roupas e algumas poucas coisas lá. A verdade é que o nosso necessário é quase tudo, então fomos nós com nossas cargueiras cheias.

O caminho até a entrada da trilha é uma estrada de 14km. O inicio dela é asfaltada, depois passa a intercalar pedaços de asfalto e estrada de terra. O nosso falante motorista contou que a estrada estava sendo asfaltada até que uma juíza embargou a obra por constarem a presença de um sapinho endêmico da região. Isso foi o que ele nos contou. E que a juíza na verdade só fez isso porque “os magnatas” de Gramado não querem que o acesso aos cânions e a estrada que liga Praia Grande a Cambará do Sul seja revitalizada, o que tiraria os turistas de Gramado e Canela, porque a cidade de Praia Grande é muito mais bonita. Eu, como gaúcha muito regionalista que sou, devo concordar que a região dos Cânions na questão beleza ganha de longe de Gramado e Canela.

Além de seu parecer sobre a estrada, nosso motora também nos deu algumas dicas sobre a região e nos alertou muitas vezes sobre entrar nas terras do Cânion Índios Coroados. E ele não foi o único.

O Cânion Indios Coroados é o mais acessível dos cânions, por estar ao lado da estrada a uma distância de uns 300m. Porém, entretanto, todavia, o Índios Coroados fica dentro das terras do “cara muito rico lá de Porto Alegre”, as pessoas geralmente se referiam a esse dessa forma e com certo desprezo e temor. Ele é dono das terras, diga-se de um Parque Nacional, desde o Cânion Índios Coroados até o Canion Fortaleza, o mais famoso Canion da região. Motivo esse pelo qual o motorista nos alertou sobre a região, o dono das terras deixa capatazes por lá, além dos javalis e búfalos soltos. Ele também estava cobrando um preço fixo para as pessoas entrarem nas terras, mas o MP vetou isso. Bom, fomos nós para a trilha, agora um pouco mais ressabiados. Não bastasse esses alertas, um pouco antes de ficar completamente sem sinal, minha mãe me mandou uma mensagem avisando que meu pai estava com suspeita de Covid, com seus pesinhos a mais e pressão alta, mais um fator estressante pra levar junto na mochila emocional da viagem.

Como o Google mostrava ser a entrada da trilha e como realmente era

Mas lá fomos nós. Já na entrada do Cânion Índios Coroados, o que há 3 meses atrás o Google Earth mostrava como uma casinha abandonada do ICMBio agora era uma casinha toda reformada e com um capataz cuidando a entrada das terras. Sim, pra fazer a trilha a gente meio que invade uma propriedade privada que também é um Parque Nacional. O capataz era bem de boa e nos deixou entrar, ele não cobrou a entrada, mas pediu que a gente deixasse uma contribuição voluntária ao sair. Resolvemos falar pra ele sobre nossos planos de pernoitar lá. Nossa intenção era entrar no nosso jeitinho carioca, mas depois de tantos alertas sentimos mais paz em contar ao rapaz que pretendíamos ficar lá dentro, até pra saber como estavam os bichinhos selvagens por ali. Ele nos deu algumas dicas, explicou que por conta do episódio em que um búfalo atacou uma turista no Fortaleza, o dono das terras havia retirado os búfalos de algumas partes e só teria depois de tal lugar. Ficamos mais tranquilos e riscamos um possível problema da nossa prévia lista. E lá fomos nós rumo a algum lugar no meio dos cânions.

A vegetação

A vegetação da região é uma mistura de floresta de araucária, mata atlântica e campos de altitude. Num primeiro momento não é necessário muito o gps, a estrada é bem demarcada, não porque muita gente faz a trilha, mas por ali passam os capatazes com seus cavalos e as vaquinhas da região. Durante o caminho tem muito charco, não tem muito pra onde escapar deles. A gente já tinha feito a lição de casa e estávamos cientes de todos os possíveis problemas (na verdade quase todos). Pra quem curte os tênis respiráveis estilo trail run, é uma boa opção assumir os pés afundando nos charcos e molhados mesmo. Eu já prefiro tentar mantê-los secos e fui com minha bota, ela tem (tinha) uma boa impermeabilidade e aguentou bastante tempo.

Quando a trilha passa pelo meio da floresta de mata atlântica a navegação ficou meio estranha. Já havíamos lido que era importante levar um gps de backup, não tínhamos, então foi o gps e o wikiloc no celular. Importante não ignorar as dicas de quem conhece a região, ainda mais em um terreno desconhecido. Quando a gente entrou na floresta meu Garmin ficou meio doido, ele apontava uma direção e o wikiloc no celular do William outra. Seguimos o Etrex até perceber que estávamos quase fazendo um circulo atravessando uns riachos e caminhos de bois de um lado para o outro. Percebemos também que nem o Spot estava conseguindo enviar sinal do rastreamento há algum tempo. Voltamos o caminho e decidimos seguir o gps do celular, deu certo. Mas a dificuldade na navegação se repetia ao entrar novamente na mata, uma mata densa e bastante úmida.

Trecho entre uma e outra floresta e o gps já tava doidão

Depois dos problemas na navegação, enfim voltamos a vegetação. Também já havíamos lido sobre as muitas moscas na região, elas não dão a mínima se você está com repelente, e basta elas pousarem em você pra começar a arder, por cima da roupa mesmo. São as mutucas. Eu já as conhecia das minhas idas a Monte Negro buscar mel quando criança, mas não lembrava da chatice delas.

Os charcos

Raios, navegação complicada, moscas, charco, tudo que lemos sobre os cânions em algum momento apareceu, os únicos que não sugiram foram os javalis e as cobras, mas permanecemos durante toda a trilha com perneiras. Bom, menos mal que a gente já estava ciente da possibilidade de problemas e não fomos pegos de surpresa. Só não estávamos preparados para um problema, encontrar um bichano selvagem. E olha, foi a pior parte do rolê. Desde então não ficamos mais tranquilos.

Quando o vimos achamos que era um búfalo, mesmo o capataz dizendo que não iria ter naquela região. O bicho era enorme e marrom. Ele saiu correndo de onde estava, no meio das vacas, urrando assustadoramente, foi para o meio da trilha onde a gente iria passar e ficou nos encarando. Outro passou por trás da gente e entrou no mato. A gente nunca tinha visto um búfalo pessoalmente, mas pelo tamanho da criatura a gente achou que fosse algum parente. Corremos até uma pequena colina e ficamos ali abaixados até o bichano ir embora. Depois de uns minutos ele foi e a gente passou juntinhos pela trilha, quase como uma pessoa só pedindo pra Deus nos proteger.

Ficamos tensos com a possibilidade do bicho reaparecer e pra melhorar a tensão, começou a viração. É o vento que sobra do mar no fim da tarde, trazendo as nuvens aos cânions e dificultando a visibilidade. Dizem os moradores da cidade que muitas pessoas já caíram dos cânions ou ficaram perdidos por lá por perder a noção de onde estão por não conseguirem enxergar muita coisa a sua frente.

Nossa casinha e a viração

Bom, com todos esses fatores decidimos que era hora de parar, fazer nossa janta e esperar o réveillon rsrs. Chegamos em um bosque de árvores com um gramado simpático e ali resolvemos ficar. Vimos pelo gps que estávamos bem ao lado do Canion Malacara, de onde se tem vista da cidade de Praia Grande. É interessante mencionar essa frase da vista porque quando fui para os cânions acreditava que a trilha era realmente margeando os cânions, e até é, mas cerca de 1km de distancia das bordas, então não é sempre que se tem vista.

A ideia então era montar a barraca, comer, dormir e acordar no dia 1º de janeiro de 2021 para ver o amanhecer do Canion Malacara. Era a ideia se durante toda a noite a gente não ouvisse o tal bicho doido gritando por perto. A noite ficamos tensos, eu preocupada com meu pai, com o búfalo, com a ida embora, foi um réveillon não muito agradável rsrs. 3h da manhã eu acordei e ouvi som das patadas na terra do bicho correndo. E não, eu não to exagerando rsrs. Foi bem tenso. Quando amanheceu o dia a gente só queria ir embora, nada de ver a vista do Malacara ou do que quer que seja. Desmontamos o acampamento e lá fomos nós voltar pra praia Grande igual ao cão arrependido com o rabo entre as pernas. Na volta para a estrada o bicho ainda apareceu umas 2 vezes numa colina gritando pra gente. A volta foi tranquila, tirando esses gritos, nada mais complexo aconteceu. Refizemos o caminho até a estrada e dessa vez voltamos os 14km da estrada andando, pois não haveria sinal para chamar algum resgate.

No dia seguinte já tínhamos marcado de fazer a trilha do Rio do Boi, é a trilha que adentra o cânion pela parte baixa do Itaibezinho. Ela tem cerca de 16km ida e volta, a maior parte beirando e atravessando o Rio do Boi. É uma trilha fácil, mas é obrigatório fazê-la com guia. Nossos guias, Daniel e Bugra são excelentes. Contamos pra eles a nossa aventura no dia anterios na parte superior dos cânions e descrevemos um pouco do bichão que não curtiu nossa presença. A Bugra terminou de descrever ele por nós fazendo perguntas que descreviam perfeitamente o seu comportamento, como se ela soubesse exatamente quem era o monstrinho, e sabia. Era um touro Red Angus. Ele fica agrassivo quando acha que tem algo que possa colocar em risco as vaquinhas ou quando tem algum filhote. Fomos nós na internet constatar a informação e de cara reconhecemos o vilão da nossa trilha. Taí proceis uma foto do pequeno tirada da interne.

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Na trilha do Rio do Boi

No último dia da viagem tivemos a oportunidade de ir ao Cânion Fortaleza de carro. Era onde nos nossos sonhos a gente gostaria de chegar andando, mas realmente não ia rolar. Quem sabe, agora que conhecemos um pouco melhor a região e o terreno, possamos nos preparar para uma próxima aventura.

Cânion Fortaleza

Josye Villela
Josye Villela

Published on 05/18/2021 18:28

Performed from 12/31/2020 to 01/01/2021

1 Participant

William Nascimento

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Douglas Dessotti
Douglas Dessotti 05/19/2021 03:20

👏👏👏