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Travessia Borborema x Bananeiras

Travessia Borborema x Bananeiras

Travessia entre as cidades de Borborema e Bananeiras na Paraíba passando pelos caminhos da antiga ferrovia

Trekking

INFORMAÇÕES

Nome: Caminho pela Antiga Estrada de Sonhos

Data: 19 e 20 de dezembro de 2020

Resumo: O percurso compreendeu as cidades de Borborema e Bananeiras percorrendo parte da antiga ferrovia e outros pontos turísticos de grandes valores históricos.

Tipo: Trekking Independente

Toda a logística, roteiro e navegação foram realizados de forma autônoma.

Tracklog: https://www.wikiloc.com/hiking-trails/travessia-borborema-x-bananeiras-78663652

Dias: 2 dias

Distância: 31 km

Elevação acumulada: 564 m

INTRODUÇÃO

Poder conhecer os pontos turísticos dessas duas cidades era um antigo desejo. Após alguns estudos em geo-planejamento me veio a ideia de visitá-los numa travessia. As fotos que via sempre me chamava atenção. Posteriormente, através de pesquisas e conversando com os moradores durante a travessia, pude perceber o quão rico historicamente é cada ponto.

Como ainda não havia tido a oportunidade de visitar por alguma agência, sempre surgia a curiosidade de ir por conta própria, o que não acontecia por falta de experiência.

A ideia dessa travessia surgiu após meus primeiros aprendizados sobre planejamento de trekkings e travessias. À medida que eu conhecia mais sobre o assunto surgia a necessidade de aplicá-los em campo.

O local escolhido foi o cenário ideal para este começo por mesclar zona rural com área remota. O objetivo era sair de Borborema até Bananeiras, percorrendo alguns dos caminhos que o trem havia passado, em uma trilha com acampamento de 2 dias.

Ao todo foram 31 km, com 19.4 km (elevação acumulada de 564 m) no primeiro dia para chegar até o ponto de camping. No segundo dia foram mais 11.6 km (elevação acumulada de 262 m).

O local da travessia fica situada na região do Brejo paraibano, possuindo nos meses de junho a agosto maiores possibilidades de chuva e temperaturas amenas (18°C a 26°C). Com uma boa brecha no tempo, essa seria a época ideal para fazer a travessia.

Pelo fato de ter ido em um dos meses mais quentes (temperaturas entre 22°C a 34°C), foi preciso adotar uma estratégia de aproveitar o horário mais frio do dia para caminhar. No período mais quente era inevitável ficar a sombra de uma bela árvore, bastante presentes na região. Com bons ventos e temperatura amena no começo da manhã renderam boas pernadas em meio às paisagens brejeiras.

Falando um pouco do percurso em si, ele teve como início no centro da cidade de Borborema e terminou na antiga estação ferroviária de Bananeiras. Os caminhos tiveram como base a antiga ferrovia e as estações ferroviárias que ligavam o ramal de Borborema à Bananeiras.

O percurso possuiu poucas trilhas. Por ter sido uma primeira experiência em trekking a maior parte do percurso planejado foi por estrada rural. Essa escolha visou facilitar a navegação, o deslocamento, possível comunicação com nativos e em casos de problemas maiores facilitação de uma possível evacuação.

RELATO

DIA 1 - BORBOREMA AO MIRANTE NO TOPO DA SERRA

No primeiro dia foi preparado a logística do trekking. Pelo fato do destino final ser dentro da cidade, resolvemos deixar o carro em Bananeiras para pegá-lo no dia seguinte. Sendo assim, nos dirigimos à Borborema usando um transporte local. Entre as opções você pode usar moto-táxi ou carros alternativos.

A trilha desse tracklog se inicia em uma estrada rural às margens da PB-087 (à esquerda de quem vem por Bananeiras) a 800m da entrada da cidade. O caminho segue por essa estrada rural contornando a esquerda o açude de Borborema. Mais a frente chegamos na nossa primeira parada: a antiga Usina Hidrelétrica de Borborema. Contornando o açude da cidade (Canafístula), logo nos deparamos com os paredões de concreto da antiga usina.

Sendo a primeira usina do Nordeste a utilizar diretamente a força geradora das águas, aproveitava um desnível natural do rio Canafístula para gerar a energia elétrica. Construída por engenheiros alemães tem design que se assemelha às usinas hidroelétricas atuais (porém numa escala menor).

Geração de energia para a antiga vila de Borborema e vilas vizinhas

Tomando como base a Serra da Samambaia, seguiu-se até chegar ao Túnel da Serra da Samambaia em Borborema. À medida que se caminhava a estrada rural cada vez mais se afunilava e se tornava apenas em um espaço para a passagem de um trem.

Pelo fato de ser uma estrada desativada, nesse ponto, a travessia começa a tomar um aspecto de trilha devido ao pouco espaço e crescimento da vegetação em volta. Apesar dos trilhos não mais existirem, observando o formato e estrutura da estrada, era possível perceber que ali passara um trem.

Trecho de rocha da serra que fora quebrado para a implantação dos trilhos.

Pesquisando um pouco do histórico da linha, sabe-se que na época tinha como nome E. F. Independência ao Picuhy. A mesma deveria ligar a estação de Independência (hoje Guarabira) à localidade de Picuhy (hoje Picuí). Em todo percurso desse ramal foram construídas as estações de Guarabira, Pirpirituba, Borborema, Manitú e Bananeiras.

O ramal teve seu primeiro trecho entregue em 1910 e somente chegou à Bananeiras em 1925. Foram 15 anos para entregar 35 km e deveria avançar mais outros 35-40 km até Picuí, o que jamais aconteceu. Bananeiras ficou sendo como o final da linha.

A estação de Borborema (antigamente Vila de Boa Vista) foi inaugurada em 1913 pela Great Western, como passagem de linha do ramal. Antes dela, em determinado ponto, a antiga estrada férrea permeiava o redor da serra a uma altitude por volta dos 300 metros.

Ao fundo o vale de Borborema e na frente uma estrutura de concreto para escoamento de água

Após ter encontrado um entrave natural na serra, a estrada só pôde seguir seu curso após a construção de um túnel. Todo esculpido em rocha, o Túnel da Serra Samambaia foi o primeiro túnel construído na Paraíba entre 1911 e 1913.

Possuindo uns 52 metros de comprimento, sua principal particularidade é ser curvo (provavelmente um desvio proposital já que há indícios que seria reto). Devido a esse fato, no meio do túnel não há presença de luz o que contribui para a presença de morcegos mesmo durante o dia.

Túnel da Serra da Samambaia. Boca sentido Pirpirituba

Foi possível notar que apenas uma das chamadas "bocas" do túnel foi devidamente revestida (sentido Pirpirituba-Borborema), a outra extremidade (sentido Borborema-Pirpirituba) está em estado bruto sem nenhum revestimento.

Boca sentido Borborema

Hoje em dia, em nenhum lugar, não mais existe nenhum trilho. Apesar da estrada não ter sido reaproveitada para passagem dos carros até Borborema, nenhuma dormente sobrou para contar história. Aparentemente, ela tem servintia às pessoas como acesso, já que uma outra estrada para os carros existe na base da serra. Essa não sei se foi construída antes ou depois da ferrovia.

Visão do prolongamento da serra a partir do local por onde os trilhos passavam

Seguindo em direção a cidade de Pirpirituba, chegamos à estrada que corta o vale. Da estrada, já era possível avistar, à esquerda, o prolongamento da Serra da Samambaia e o quanto deveriamos subir para chegar na região do topo da Cachoeira do Roncador.

Prolongamento da Serra da Samambaia já embaixo na estrada

A subida foi puxada, mas não técnica. Fazendo algumas paradas curtas de descanso, saímos da cota de 132 metros para 326 metros com algumas subidas bem ingrimes. O visual lá de cima compensou apesar do período de estiagem.

Lá em cima, a ideia inicial era explorar a região do topo da Cachoeira do Roncador e conhecer o visual lá de cima bem como o rio que alimenta a cachoeira. Mas devido ao tempo bastante adiantado seguimos em frente, ficando para uma outra oportunidade.

A travessia passou pelo povoado de Vila Maia, distrito de Bananeiras, e segue em direção à antiga estação Manitú. Inaugurada em 1922 pela Great Western, a estação de Manitú conta como ponta de linha do ramal de Bananeiras. Por um bom tempo funcionou como a estação final do ramal, até a estação de Bananeiras ser inaugurada 3 anos depois em 1925.

Antiga estação de Manitú

Dístico da estação

Antigo armazém da estação. Hoje em dia é a capela do povoado

Casa do agente da estação

Paredes da frente da estação

Foi interessante notar os prédios com arquitetura antiga e o crescimento do povoado em torno da antiga estação. Mesmo hoje em dia a estação ainda está de pé, porém bastante degradada.

Após visita à Manitú, fomos para nosso ponto de acampamento. A chegada teve bastante tempo para montar a barraca e apreciar o pôr do sol de cima da serra de Borborema. O local era um belo mirante com vista para a cidade de Borborema e os mares de serras e morros em volta, bem característicos dessa região.

Acampamento no topo da serra no nascer do sol

Foi interessante observar nesse primeiro dia que boa parte da mata atlântica das serras foram devastadas para dar lugar à agricultura e à criação de gado. Algumas poucas manchas de mata ainda restam.

O acampamento foi no topo da serra de maior altitude de Borborema a noroeste da cidade. Essa serra beira o açude Canafístula II e possui 562 m de altitude. Chegamos com tempo de montar acampamento e apreciar o pôr do sol. Por estar próximo à cidade também foi possível observar Borborema ao fundo durante a chegada e olhar as luzes da cidade à noite.

DIA 2 - MIRANTE NO TOPO DA SERRA À ANTIGA ESTAÇÃO DE BANANEIRAS

No dia seguinte acordamos cedo para tomar café, levantar acampamento e aproveitar o horário mais frio para começar o trekking. Ainda tinham alguns quilômetros pela frente até a antiga estação de Bananeiras.

Nosso primeiro destino foi o restaurante Bica dos Cocos. Antes disso, no ponto de água as garrafas de água foram reabastecias. Após uma breve caminhada já estávamos em Bananeiras e alcançamos o maior ponto de elevação da travessia (591m). Lá de cima tinha uma vista do vale cortando Borborema e Bananeiras e das serras no entorno.

Quando na ida para a Bica dos Cocos, no sítio cocos, chegamos novamente a antiga estrada da linha férrea. Era a continuação do trecho que ia de Manitú à Bananeiras. Saindo da estrada, por um momento, chegamos ao restaurante.

A Bica dos Cocos é um restaurante de comida regional imerso numa reserva de mata atlântica. Afastado da cidade é um ponto de turismo rural bastante frequentado. Aproveitamos o espaco para comer, esperar passar o horário mais quente e também descansar porque ninguém é de ferro.

Bica do restaurante formado de uma nascente da mata (olho d'água)

Antes da saída a água foi abastecida usando a própria nascente do restaurante e seguimos para a próxima parada: Túnel da Serra da Viração. Voltando pelo mesmo caminho, acessamos de volta a estrada dos antigos trilhos.

Eles cortavam o meio da serra até chegar às estação de Bananeiras. Hoje em dia, assim como em Borborema, os trilhos não mais existem. Apesar de ainda ter sido reaproveitada como estrada para automóveis (ao contrário de Borborema), por ali também chegou a passar a antiga estrada dos sonhos.

Pelo fato deles não mais existirem é difícil imaginar que por ali passava um trem. Mas foi interessante perceber que ainda havia uma das estruturas de concreto que era utilizada para escoamento de água. Um verdadeiro legado da linha férrea que ainda não havia sido retirada e nem coberta pela terra.

Estrutura em concreto para escoamento d'água

Os trilhos eram uma prova viva do trem e é uma pena que não mais estejam por lá para contar história. É triste que não tenha havido uma iniciativa tanto por parte do governo como da população para preservar a linha férrea. Conversando com um morador local, o mesmo disse que quando a linha foi desativada os próprios moradores retiraram as linhas. Além disso, nenhuma estrada alternativa para os automóveis fora construída.

A construção empreendeu um grande esforço humano. Muitos trechos de pedra da serra precisaram ser quebrados. Devido a estes obstáculos a linha férrea demorou anos para ser concluída. É uma pena que nada tenha sobrado.

Mais alto trecho de pedra escavada com cerca de 8m de altura

Outro ponto de complexidade que trouxe ainda mais demora para seu término foi a construção do túnel de pedra de 202m que corta a serra da viração.

Túnel da Serra da Viração talhado em pedra

Nesse dia a parte da "boca" no sentido da estação estava sendo calçada. O outro sentido já havia sido calçado a algum tempo.
Saindo do túnel, chegamos à estação Bananeiras, o ponto final da travessia. Apesar de não mais existirem os trilhos, a estação é a prova viva do trem. Um legado importante para as próximas gerações.

A estação de Bananeiras chegou antes do trem. Construída em 1922, teve que esperar a construção dos trilhos até 1925, quando foi finalmente aberta oficialmente para o tráfego. Antes disso tinha sido em caráter provisório. Tudo por conta da complexidade de construção da estrada, como pôde ser visto durante a travessia.

Estação de Bananeiras. Última parada

Muito tempo antes da linha férrea, em 1852, Bananeiras era o maior produtor de café da Paraíba e o segundo do Nordeste. A esperança era que com o trem a produção de café chegasse mais rapidamente aos grandes centros. Entretanto, o trem só chegaria 72 anos depois. Infelizmente, uma praga acabou com o café em 1923 e o trem só veio a chegar quando o café foi dizimado.

Após o cafe, o trem transportou produtos estratégicos da economia regional como cana-de-açúcar, o fumo, o arroz e, posteriormente, o sisal e transporte de pessoas. Entretando, com o incentivo do governo cada vez maior na indústria dos automóveis e construções de estradas, o trem foi cada vez mais perdendo seu espaço.

Em 1966, o trem deixou de circular pelo ramal e em 1970, o ramal foi oficialmente suprimido. Atualmente apenas as estações e seus prédios administrativos estão de pé. Toda a linha férrea não mais existe e em alguns trechos dela deram lugar a estradas de carro e plantações de banana.

Dormentes ainda presentes na antiga estação de Bananeiras

Nenhum trilho restou de lembrança para as gerações futuras restando apenas na memória das pessoas com mais idade de que naquela estrada de sonhos passara um trêm.

Thales Pordeus
Thales Pordeus

Published on 01/06/2021 17:30

Performed from 12/19/2020 to 12/20/2020

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Priscila Matias
Priscila Matias 01/16/2021 10:18

Muito bom Thales! Relato inédito, super completo e com fotos lindas. Parabéns pela iniciativa!

Thales Pordeus
Thales Pordeus 01/16/2021 17:56

Obrigado mesmo Priscila 😁. Suas dicas de como escrever me ajudou bastante. Vamos escrever mais. 🙌👊