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A casa do capeta

A casa do capeta

Expedição espeleológica à Gruta da Boa Vista, a maior do hemisfério Sul. 18 horas percorrendo-a para conhecer esta maravilha subterrânea.

Cave

"Passarinho que anda com morcego acaba dormindo de cabeça para baixo".

Dito popular.

A gruta da Boa Vista em Campo Formoso/BA é a maior gruta horizontal do hemisfério Sul com cerca de 120 km mapeados. A Bahia já tem o maior litoral, algumas das mais belas praias, a Chapada Diamantina e as mais altas montanhas do Nordeste. As vezes acho que devíamos cobrar taxa de visitação e visto para quem vem para o estado.

Cris e Fabio, que são espeleólogos amadores, se inscreveram numa lista de interessados, lançada pelo SEA – Sociedade Espeleológica Azimute, de Senhor do Bonfim/BA, para fazer parte de uma expedição na gruta. Por sua vez eles me inscreveram também após autorização do grupo.

Chegamos ao pequeno vilarejo de Pacuí as 21 horas de sexta feira onde encontramos a maioria do grupo hospedado na Pousada de Dona Derli. É área de caatinga, mas fazia 19°C.

Jorgean, um dos guias da região, disse que o nome Pacuí vem da matança de um porco. O cara faz PÁ e o porco CUÍÍÍÍÍ. Mas o que tinha mais era cabrito andando pelas ruas do povoado. Mais cabrito que gente.

Dia seguinte partimos depois de um café da manhã reforçado. A gruta fica apenas a 9 km de Pacuí. Após estacionarmos os carros André (fundador do SEA) fez um rápido briefing e nos equipamos.

Logo na entrada um desafio. Um ninho de abelhas no teto da caverna. Teríamos que passar em silêncio até chegar a parte escura. Pessoas já foram picadas anteriormente. Thiago Mattos foi na frente e o restante o seguiu espaçadamente. Esta é a entrada clássica da gruta, a entrada horizontal.

A entrada vista de dentro.

Ingressamos por um portão gradeado as 9:20 da manhã. O início da caverna é amplo e alto. Uma das galerias iniciais se chama conduto Afonso Pena, homenagem de um grupo mineiro a uma avenida de BH, grupo que iniciou a exploração sistemática da caverna.

Mas quanto pó neste trecho! Pó fino que nem talco na altura dos tornozelos. Cada pisada levantava uma nuvem de poeira.

A caverna é totalmente seca por isso cada um levava 6 litros de água na mochila. A estimativa era passar de 15 a 20 horas dentro dela.

Descendo. Embora a caverna fosse basicamente horizontal haviam altos e baixos.

O pior era a temperatura: 31 a 32° C com umidade superior a 90%, ambos medidos enquanto progredíamos.

Uma guanamite, estalagmite feito pelo guano de morcegos. Andre mostrou que eram morcegos frugíveros pois tinham restos de frutas e sementes nas fezes.

Com cerca de meia hora chegamos num ponto onde derivamos em relação a rota tradicional. Para evitar fazer um rapel de 12 metros pegamos um desvio com teto baixíssimo o que nos obrigava a rastejar rebocando a mochila (não dava para usar nas costas). Perfeito para quem é claustrofóbico.

Chegamos pouco depois no salão dos Discos Voadores onde bonitas colunas (união de estalagmites com estalactites) tinham um disco preso a meia altura, marca do nível da água há milhares de anos atrás. Um dos salões mais belos e especiais da gruta.

Salão dos Discos Voadores.

Após mais uma camnhada chegamos ao Shopping Center, área cheia de condutos laterais. Já estávamos cansados, o calor cobrando seu preço.

Numa galeria encontramos a múmia da coruja suindara. A primeira vez que André a viu foi em 2009 e ele disse que alguém já havia reportado a presença dela anteriormente. Penugem intacta. O calor e a ausência de micróbios e bactérias mumificaram o corpo da ave.

Coruja suindara mumificada.

Mais adiante, com hora e meia desde a entrada da caverna as claraboias (abismos do Sapo e do Bode) por onde a coruja entrou. As árvores na superfície estavam explorando o local através de raízes verticais que pendiam do teto até o chão da caverna. Luz, folhagens e alguns galhos entravam pelas estreitas claraboias e forravam o chão.

Junto a uma das raízes que entrava pela claraboia até o chão da caverna.

Paramos para relaxar e comer pois estava um pouco mais fresco.

Alguns fósseis e ossadas de animais encontrados na caverna são explicados por estas aberturas. Os animais caíram através daqueles buracos. Os nomes abismo do Sapo e do Bode tem origem na carcaça destes animais ali encontrados.

Seguimos com muito sobe e desce. No salão Quadrado descansamos e fizemos um lanche. Deixamos uma água mineral de 1,5 litros neste ponto e tiramos fotos do grupo com ajuda de iluminadores ao fundo. Este salão é o resultado de um desabamento de teto da galeria.

Foto do grupo no salão quadrado.

Ao sair dele, tivemos de descer uma fenda estreita.

Após cerca de meia hora chegamos na Fechadura, local onde os grupos espeleológicos também costumam deixar água em garrafas PET. O calor e a logística da água é o principal problema desta gruta.

As paradas de descanso estavam cada vez mais frequentes e longas.

Esta sala tem o nome Fechadura porque para continuar devemos passar escorregando através de uma estreita abertura num declive de 45º. As mochilas passam depois.

Passando pela fechadura.

Para alegrar a galera em seguida vinha o Caminho Baiano. Terrível, muito teto baixo forçando a andar de cócoras ou de quatro ou rastejando, quem não tinha joelheiras sofria.

Rastejo. Teto muito baixo. Como adorávamos!

Chegar ao Salão da Laje foi um alívio. Ninguém mais se sentava. Todo mundo logo se estirava no chão, barriga para cima. Ali alguns disseram que estavam exaustos, não dava mais para prosseguir. André, o líder, sugeriu parar mais adiante no salão Drago, onde tinha uma areia fofa para se deitar. Lá teríamos um descanso maior de 50 minutos.

Parando para amarrar o cadarço. Cris aproveitou para tirar uma foto e colocou a legenda "refletindo no banco mais antigo da Bahia". Reflexão abissal esta.

Prosseguimos e após cerca de meia hora chegamos no Drago. A areia fina estava convidativa e todos se deitaram. Alguns pegaram no sono instantaneamente. Todos com roupa molhada de suor. Ao deitar na areia virávamos um bife à milanesa.

Eu e mais dois sofredores avisamos que esperaríamos ali. Estávamos exaustos e pensávamos já no esforço que seria feito para voltar. Meu sentimento era que se continuasse não teria energia suficiente para regressar a boca da caverna.

Já fazia algum tempo que sentia alguns sintomas do que os americanos chamam de heat illness (mal do calor) quando o corpo não consegue dissipar o calor produzido pelo esforço físico e a temperatura corporal aumenta. No meu caso o principal sintoma é o aumento do batimento cardíaco que não diminui com o descanso (já senti isto uma vez subindo uma serra íngreme da Chapada Diamantina debaixo do sol do meio dia).

Com o aumento da temperatura corporal o organismo dilata os vasos superficiais, aumenta a frequência cardíaca e o fluxo de sangue é desviado para estes vasos perto da pele para acelerar a perda de calor. Mas quando estamos exercitando e o ambiente está muito quente o processo não funciona bem. Pode levar a vertigem, visão de túnel e fraqueza (e como me sentia fraco). E, por fim, o desmaio.

Algumas pessoas já tiveram alucinações nesta caverna, provavelmente pelo calor excessivo. Parecia que visitávamos a casa do capeta!

Assim fiquei com mais duas pessoas no salão Drago. Combinamos que entre 20:30 e 21:30 os demais estariam de volta. Iriam para o salão dos Mortos Vivos, nome dado porque os espeleólogos chegam lá mais mortos do que vivos.

Tirei o macacão laranja encharcado de suor e vesti uma calça leve de trekking. Enfiei o macacão na mochila. Comi alguma coisa e me deitei sem camisa para melhorar a dissipação de calor. Desligamos as headlamps mergulhando na escuridão e tentamos dormir. Mas por 3 horas não consegui adormecer. Os meus dois companheiros penso que dormiram um pouco.

O pessoal regressou exatamente as 20:30. Estavam exaustos.

Retorno

Retomamos o caminho. Me sentia bem melhor.

Longa volta. A caverna é tão labiríntica que por vezes os espeleólogos experientes que estavam na frente perdiam o caminho e tínhamos que dar meia volta até redescobrir o correto. Imprescindível um mapa da caverna com os pontos de marcação plotados. Quando encontrávamos um ponto (uma fita com um código escrito) se verificava no mapa onde estávamos. Foram necessárias ao menos 21 expedições de grande porte desde 1987 para mapear estes 120 km de labirintos.

Fábio estava ajudando muito neste processo de localização para achar a rota de saída sempre que havia dúvida.

Na foto abaixo quem está na dianteira está consultando uma prancheta com o mapa. Se perder numa caverna é muito pior do que na superfície.

Cada salão reconhecido era uma alegria, um pouco mais perto da saída. Paramos para uma dormida de uma hora na Fechadura. O duro era despertar, levantar e depois recomeçar.

Num trecho de exposição inspirei poeira e comecei a tossir. Senti um engulho e vomitei água (estava procurando beber bastante para não desidratar). Parte do vomito bloqueou a via aérea e veio a sensação de sufocamento. Após três inspirações desesperadas recuperei o fôlego. Cris, que estava logo atrás, me afastou da beira do precipício. Meu anjo da guarda. Segui e me sentei. Ainda vomitei duas vezes água. A náusea é também um sintoma de heat illness.

Já estávamos no salão do Livro, onde há um livro para assinatura dos visitantes. Estava tão cabisbaixo, abatido e envergonhado que pedi para Fábio preencher meu nome no livro.

No abismo do Sapo sentimos um pouco do frescor. O ar a 31ºC devia subir para a superfície e entrava o ar a 19º C. Senti até um friozinho na camisa molhada de suor. Comi algo e bebi água.

As bonitas formações fotografadas por Cris ao longo da gruta.

Estávamos a uma hora da saída. Cada passo adiante era uma conquista.

Pouco antes da saída, no último rastejo o grupo se dividiu em dois. Eu e Paulo bombeiro acabamos pegando uma derivação a esquerda e descemos uma ladeira bem íngrime e escorregadia. Os companheiros notaram o erro e fomos forçados a subir aquela encosta quase sem agarras. Mas uma mão providencial nos ajudou a chegar no topo e retomamos para o caminho correto.

Mais 40 minutos percorrendo o empoeirado conduto Afonso Pena e chegamos no portão. Ar fresco! Que alegria! Que diferença aquele friozinho em relação ao interior da caverna! Deixamos a caverna as 03:40 da madrugada de domingo, quase 18 horas e meia contínuas debaixo da terra.

Nunca saí tão exausto, imundo e esfomeado de uma aventura. Percorremos pelo menos 18 km por um trajeto acidentado e difícil.

Chegamos cansadíssimos na Pousada de D. Derli.

Tomei um banho frio caprichado, com duas ensaboadas e enxaguadas. Mas ao me enxugar fiquei espantado com a sujeira que ainda ficou na toalha. O pó e a terra entranharam nos poros dilatados!

Vestindo roupa limpa fui comer. Dona Derli tinha preparado um cabrito assado, ovo frito, feijão, arroz, abóbora e feijão de corda. Devoramos! A claridade começou a despontar no horizonte. Estava amanhecendo. Na ocasião D. Derli, que é crente, disse que jamais entraria na gruta porque ali era a casa do demo. No meu pensamento eu concordei. Com aquele calor realmente é a casa do capeta! Mas casa bonita que valeu muito a pena visitar apesar do desgaste. Diferente de tudo que conhecemos apenas pisando acima da terra.

As excelentes fotos deste relato são todos da talentosa Cris Macedo, tiradas a partir de um smartphone.

Membros da expedição: Andre Vieira de Araújo, Cristina Alves de Macedo, Fabio Dal Gallo, Danilo Araújo, Eugênia (até hoje não conta aos pais aonde vai kkkk), Jessica Carolyne, Jorgean Silva, Juliano Racha Pindobaçu, Laio Araújo, Leonardo Bamberg, Matthaus Dartagnan e Thiago Mattos.

Recomendações

A gruta é bela mas NÃO é turística. Só vá com um grupo de espeleologia experiente ou com guia que conhece muito bem a caverna. E se prepare para uma das experiências mais especiais (e exaustivas) de sua vida. É Aventura com A maiúsculo.

Acesso livre. Não se cobra para entrar na gruta.

Foi a minha primeira gruta não turística. E comecei pela maior e uma das mais difíceis sem o devido preparo devido a pandemia. Ela exige um bom condicionamento físico.

Procure se aclimatar com 10 dias de antecedência a uma temperatura de 32º C. Ajuda no processo (recomendação do Manual da NOLS, Wilderness First Aid).

Não leve máquina fotográfica. A poeira é tão fina que vai entrar na câmera exigindo depois uma limpeza interna trabalhosa e cara. Leve um smartphone bem protegido.

Se pretende passar de 15 a 20 horas na gruta, carregue no mínimo 6 litros de água.

Use uma mochila específica de espeleologia. As de trekking e montanhismo não aguentam o tranco. A que usei, excelente, eu tomei emprestada de Fábio e Cris (fabricação própria deles).

Calce uma bota velha, na qual ainda confia. Se usar uma nova ela vai envelhecer 5 anos numa só expedição.

Embora macacão seja necessário numa caverna deste tipo (devido ao rastejo) tente vestir um mais leve por causa da temperatura. Na volta acabei retirando-o devido ao calor. Joelheiras também são necessárias se quiser poupar seus joelhos.

Capacete, imprescindível. Muito teto baixo e irregular esperando você para dar uma boa cacetada na sua cabeça. De preferência aqueles capacetes de montanhismo.

Guia da gruta: o Thiago Mattos (muito bom e grande conhecedor da caverna) e Jorgean (também conhece muito a gruta e é o guia mais ativo da região).

Página do SEA:

http://seazimute,blogspot,com/?m=1 (com bons relatos de explorações de cavernas)

Pousada Pacui, da Derli. Não se esqueça de encomendar um cabrito assado.

Agradecimentos.

Ao André Vieira Araújo, fundador do SEA pelo trabalho maravilhoso de muitos anos explorando as grutas do interior da Bahia.

Aqui ele no briefing antes de entrar na caverna, dando as ultimas orientações.

A todos os companheiros da empreitada, veteranos de espeleologia, atenciosos e solidários com os inexperientes. Pessoal muito gente boa do sertão da Bahia e de Pernambuco.

Aos amigos Cris e Fábio por terem me chamado para esta expedição e por todo o apoio. Sempre gentis e cuidadosos. Os melhores companheiros que alguem poderia desejar para uma aventura.

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 06/01/2021 21:11

Performed from 05/29/2021 to 05/30/2021

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Peter Tofte

Peter Tofte

Salvador, Bahia

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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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