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A Travessia dos sete cânions.

A Travessia dos sete cânions.

Trekking pelos Campos de Cima da Serra, em São José dos Ausentes, procurando conhecer os cânions do norte do Rio Grande do Sul.

Trekking Mountaineering

Esta viagem estava marcada para junho deste ano porém dois cancelamentos sucessivos de voo devido a pandemia me fizeram remarcar para final de outubro, que não é mais a época ideal para este roteiro.

As trilhas pelas bordas dos cânions de SC e do RS estão entre as mais belas do País, embora sejam bem menos divulgadas que algumas badaladas, que não tem um cenário tão grandioso e bonito. Mas percorre-los depende muito da meteorologia. A proximidade do litoral pode mudar totalmente o tempo de um dia para outro.

......

Eu saltei em POA e segui de ônibus para Veranópolis, terra do grande amigo e companheiro de trilhas Edver Carraro. Assim revi Edver e Daí e conheci a Malu, filhota de 1 ano e um mês.

Geancarlos, o terceiro membro do time, se encontrou conosco e arrumamos as mochilas. Edver me emprestou bastões de trekking, espeques, faca e gás, tudo que não podia trazer na bagagem de mão no avião.

Dia seguinte partimos cedo para São José dos Ausentes, um dos pontos mais frios do Brasil juntamente com São Joaquim/SC. Passamos pela cidade de Antonio Prado, la cittá più italiana del Brasile, com seu bonito centro histórico.

Casario típico italiano da época da colonização.

Passamos por São José dos Ausentes mas antes de ir para a pousada fomos conhecer o desnível dos rios, coisa incrível, dois rios que correm em paralelo, porém um 18 m mais alto que outro, e o Cachoeirão dos Rodrigues. Campos limpos parecendo tapetes verdes, pastagens com florestas de araucárias e coxilhas. Cada vista parecia um cartão postal. Gramado e Canela não alcançam a beleza deste lugar.

O rio da direita está 18 metros acima do rio a esquerda.

Cachoeirão dos Rodrigues. A pastagem parece um tapete verde.

Dia de sol lindo. Ao final da tarde chegamos ao nosso pouso, a caprichada Pousada Vale das Trutas onde havíamos reservado um chalé. Lugar bonito. O jantar de trutas recém pescadas com cerveja artesanal foi a cereja do bolo deste dia.

Dia seguinte o senhor Arcangelo, dono da pousada, nos levou de 4X4 até o inicio do trekking, o Morro da Cruzinha, perto da divisa com SC. O carro ficaria na pousada, destino final de nosso trekking.

Duas garotinhas lindas nos receberam na fazenda onde fica a Cruzinha. Disseram que os pais estavam no estábulo bebendo camargo (leite tirado do úbere da vaca direto para a caneca do café).

Gean, Edver e eu.

Ali iniciaríamos a travessia dos 7 cânions Ausentinos: Cruzinha, Montenegro, Coxilha, Boa Vista, Encerra, Tabuleiro e Rocinha.

Começamos a caminhar as 9:30 e seguimos para a borda do cânion. As 10:30 notamos no horizonte a viração subindo. Sinal de que teríamos pouca visibilidade. Com cerca de uma hora chegamos na borda a tempo de ver as nuvens transbordando por ela e se esparramando pelos Campos de Cima da Serra. Zero de visibilidade para os cânions. A partir daí tivemos que usar o GPS e o Wikiloc pois não conseguíamos enxergar 50 m adiante. Apenas imaginávamos o abismo de pelo menos 300 m verticais na borda, paralela ao nosso caminho (os Campos de Cima da Serra estão a 1.200 - 1.300 metros acima do nível do mar, um grande desnível em relação a planície litorânea).

Na borda, o voo para a eternidade. Não se via o fundo do abismo.

O gado começou a fugir da névoa a medida que a viração subia. A borda um pouco mais a esquerda.

A viração ocorre quando o vento carregado de umidade vem do litoral e bate nos paredões dos cânions e sobe para os campos de cima formando névoa. É muito comum, mas no inverno a frequência da viração cai bastante.

Notamos logo que a trilha é bem mais seca, com menos charcos que os Campos de Santa Catarina (vide relato “Um trekking espetacular - a travessia dos cânions”).

Sem visibilidade, com a ajuda do GPS, chegamos ao Montenegro, o ponto mais alto do Rio Grande do Sul com 1.405 m. Na subida para o cume, através da mata nebular, observamos vários pontos com a escavação de javalis, que se tornaram uma praga no RS.

Típica mata nebular.

No topo, dentro de uma casinha de estação meteorológica, encontramos o livro de cume. Edver escreveu uma mensagem e assinamos o livro. Pelo adiantado da hora, resolvemos fazer um lanche-almoço. Após 30 minutos, descemos através da mata, descida chata e sem trilha.

No sopé do morro começou uma garoa que nos acompanharia pelo restante da tarde. Sempre com a ajuda do GPS e do Wikiloc seguíamos, volta e meia pulando cercas.

Edver fez a navegação com muita tranquilidade e competência (já vi gente se atrapalhar mesmo com o GPS e o Wikiloc!)

Não podíamos parar porque o frio era intenso, algo em torno dos 10°C ou abaixo, devido ao vento. Após 2 ou 3 horas nossos abrigos de chuva estavam saturados e deixavam passar água para o fleece. E não podíamos também reclamar. Quem reclamasse ouvia um gauchês politicamente incorreto "não te fresqueia tchê!" ou um "te afirma gelatina!" entre risadas. Bah! Tudo bagual tchê!

Edver então sugeriu um plano B. Seguir para a Pousada Boa Vista e tentar obter um chalé. O frio, a chuva e o vento nos desanimaram a bivacar com as tarp.

Seguimos então além do ponto planejado para o primeiro acampamento, rumo a pousada. O Wikiloc indicava que deveríamos cruzar um trecho de reflorestamento de pinus. No começo um bonito bosque, inclusive com locais planos e limpos nos quais cogitamos acampar. Porém, logo depois, percebemos o quão perigoso era pernoitar ali. Dezenas de pinheiros derrubados pelo vento formavam um emaranhado de troncos e galhos tornando muito difícil a passagem. Parecia uma floreta de filme de terror. Sobe, desce, passa por baixo, contorna, com uma progressão lenta através daquele mar de troncos caídos.

Este trecho do bosque ainda estava fácil de caminhar. Mais adiante a coisa ficou feia.

Finalmente chegamos à pastagem e prosseguimos bordeando aquele bosque macabro. Mais uma caminhada de 40 minutos e chegamos pouco depois das 4 da tarde na Pousada Boa Vista, envolta em névoa.

Seu Daniel nos recebeu gentilmente, um pouco surpreso pelo fato de surgir gente ali, com aquele tempo. Acho que ficou penalizado com nosso estado e nós ofereceu um chalé a preço de camping, com toalhas para banho e ainda disponibilizou a secadora de roupas.

Fomos imediatamente para o chalé para tirar as roupas encharcadas e tomar uma ducha quente.

Banho tomado, com roupas secas, fomos para o restaurante e salão principal da pousada onde colocamos as roupas molhadas na secadora. Enquanto a roupa secava, fizemos nosso jantar de comida liofilizada. Horrível, a Liofoods ainda tem muito o que aprender para fazer boa comida liofilizada. Aproveitamos o Wi-Fi para atualizarmos as notícias e falarmos com nossos familiares. O plano B do Edver foi a melhor decisão! Seria uma noite de cão caso mantivéssemos a ideia do acampamento selvagem. Percorremos um total de 17 km neste dia.

Os chalés, quando chegamos.

Acordamos 5:30 no dia seguinte, esperançosos, mas a nevoa continuava baixa, outro dia com viração. Deixei o relógio na varanda e ele acusou 8 °C (isto sem o chill factor, pois ventava bem). Provavelmente durante a noite fez uma temperatura ainda menor.

Preparamos o café com nossos fogareiros dentro do chalé e após comermos e arrumarmos as mochilas fomos acertar as contas.

Despedida. Seu Daniel ao centro.

Partimos por volta das 7 horas. Dia frio com névoa, ao menos não chovia. Seguindo a sugestão do seu Daniel, optamos por seguir pela estrada que ligava a pousada até o cânion do Encerra, perto de onde fica a cachoeira do Amola Faca. Sem visibilidade não valia a pena seguir pela borda do cânion. Economizaríamos assim alguns quilômetros.

Rio cruzando a estrada.

A estrada percorria pastagens intercaladas com matas nebulares, de araucárias e coxilhas.

Em determinado ponto saímos da estrada e pegamos a trilha novamente, rumo ao cânion Tabuleiro.

Apenas na fazenda Zamban o tempo abriu permitindo ver a nossa frente o começo do cânion Encerra e ao fundo o cânion Tabuleiro. Paramos para lanchar e tirar fotos nesse primeiro momento de visibilidade boa.

Pouco adiante avistamos a bela cachoeira do Escorpião no fundo do cânion Tabuleiro. E no topo da queda d’água um lindo platô gramado, excelente para acampar. Mas era apenas meio-dia e não queríamos parar tão cedo. Aproveitamos para lanchar com aquela vista linda, curtindo a paisagem.

Decidimos que acamparíamos em algum ponto entre esse local e a Pousada Vale das Trutas nosso destino final, no dia seguinte. Um ponto que tivesse água, abrigado dos ventos e plano.

Edver com a cachoeira Escorpião ao fundo. Note pelo vestuário que apesar de ter aberto o dia ainda fazia um bom frio.

Dá para adivinhar por que Escorpião?

Contornamos o cânion, atravessando o rio que deságua na cachoeira. Subimos para um platô bonito com pinheiros isolados, parecendo uma trilha através de uma pradaria dos Estados Unidos.

Do alto de um morro avistamos uma pequena cachoeira com uma construção abandonada. Decidimos ir pra lá verificar se era um bom lugar para acampar. Cachoeira linda, mas a construção era um casebre queimado, cheio de entulho e sujeira. Desistimos de ficar ali.

Cachoeira linda.

Subimos um pouco mais o arroio e descobrimos outra cachoeira bonita porém sem terreno plano para acampar.

Caminhamos então para um ponto que o GPS indicava como sendo a nascente do Rio das Antas, rio que passa perto de Veranópolis, a cidade de Edver e do Gean. Este trecho tem uma série de banhados (charcos), obrigando-nos a contorna-los. Local muito desabrigado, com ventos fortes que subiam da borda do cânion, um pouco mais a nossa esquerda.

Cada um, desde a partida ontem, usava um fleece e um agasalho de chuva o tempo todo, sem sentir calor e sem suar.

Decidimos seguir adiante. Depois daquele platô a trilha começava uma descida rumo ao Vale das Trutas. Procuramos ainda outros locais para acampar, especialmente junto as manchas de vegetação nativa, para ter um abrigo do vento.

Não encontramos nenhum local perfeito. No meu caso, na verdade, estava querendo outra noite num chalé, comendo trutas e bebendo uma cerveja artesanal. Apenas Gean estava desejando fazer um camping selvagem.

Paisagens típicas.

Como não encontramos local adequado resolvemos seguir direto para a Pousada Vale das Trutas, embora estivéssemos já bem cansados. Por volta de 17 horas chegamos aos chalés onde o senhor Arcangelo nós recebeu surpreso, porque só nos esperava no dia seguinte. Percorremos um total de 28 km neste dia. Da pousada miramos as montanhas acima do vale e observamos a viração ocupando os platôs superiores.

Ponte sobre o Rio das Antas logo antes dos chalés.

Noite de rodízio de trutas e cerveja. Comemos demais! Fora fazia 10 °C. Nada como uma lareira acesa.

Choveu e fez bastante frio durante a noite. Nós felicitamos pela decisão de caminharmos mais para dormir no chalé.

No dia seguinte após o café fomos para o mirante da Rocinha de carro. Lá, além de antenas de celular, há uma estação do gasoduto Brasil-Bolívia e uma rampa de vôo livre. Mas infelizmente também sem visibilidade devido às nuvens. Abortamos também a nossa ideia de caminhar até o cânion da Rocinha. Dali rumamos de volta para Veranópolis onde chegamos no meio da tarde.

No caminho, num pipi stop na beira da estrada, vimos um filhote de graxaim (raposa em gauchês). O fazendeiro explicou que encontrou o pequeno órfão ferido a beira da estrada e cuidou dele. Agora estava bonito e saudável. Seria solto quando crescesse mais. É muito pequeno para sobreviver se fosse devolvido a natureza neste estágio. Ainda existe muita gente boa no mundo.

Nesta travessia dos 7 canions avistamos apenas dois deles devido à viração (Encerra e Tabuleiro). No verão normalmente a situação é pior ainda. Edver me falou que quem conhece a região dos cânions tanto de Santa Catarina como do Rio Grande do Sul diz que os cânions do RS são mais bonitos. Não duvido, pelo pouco que vi.

A travessia completa pela borda dos cânions com boa visibilidade ficará para outra vez, pretexto para visitar novamente esta maravilhosa região do nosso País. Em todo caso andar em meio a neblina, com vento e frio não deixam de ter seus atrativos. As nuvens baixas tem também sua beleza, criam uma atmosfera mística. Andar no vento e no frio criam resiliência. Mas as noites foram vip (chalés) e gourmet (exceto pela liofilizada).

Edver e Gean excelente companhia, sempre de bom humor e disposição. Enfrentavam os perrengues dando risadas.

RECOMENDAÇÕES

A melhor época é de maio a julho, no inverno. Menor probabilidade de viração. Mas atenção as frentes frias. Agosto, embora inverno, é a época das queimadas de pastos e pode inviabilizar a caminhada.

Tanto a Pousada Boa Vista como a Vale das Trutas dão um bom suporte para os trekkers.

Cuidado ao andar pelas bordas. Uma queda é caixão e vela.

Não acampe dentro dos bosques de reflorestamento de pinheiros. Parece boa ideia mas é muito perigoso num vendaval forte, que volta e meia atinge os Campos de Cima da Serra.

GPS e Wikiloc são fundamentais devido a viração e a baixa visibilidade nestes momentos.

Não pegamos sinal de celular nas bordas dos cânions, não sei se devido ao tempo. Usei meu Spot X acaso ocorresse uma emergência.

Vestuário adequado e pensando no pior, especialmente no risco de hipotermia. Quatro dias depois teve granizo em Curitiba, pleno novembro. Tempo maluco!

Não falta água na trilha. Não precisa carregar muita no caminho.

AGRADECIMENTOS

À Daí e a pequena Malu por terem emprestado o Edver à expedição e pela hospitalidade.

E a estes dois grandes trilheiros gaúchos. A minha direita, Geancarlos Cenci e Edver Carraro (mochila amarela).

Peter Tofte
Peter Tofte

Published on 11/04/2020 15:54

Performed from 10/28/2020 to 10/30/2020

1 Participant

Edver Carraro

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Peter Tofte
Peter Tofte 11/06/2020 07:42

Marcelo e Paulinha, vale mesmo muito a pena no inverno!

Peter Tofte
Peter Tofte 11/06/2020 07:42

Valeu Gean!

Edver Carraro
Edver Carraro 11/07/2020 17:28

Valeu a parceria Gean! Te organiza pra Chapada Diamantina em maio de 2021!

Tiago Jose Bordignon
Tiago Jose Bordignon 11/09/2020 00:57

Belo relato Peter, e parabéns ao trio, naquela fazenda abandonada antes de baixar pro vale das trutas, se for acompanhar os muros de taipa, chega se ao rio das Antas , onde tem uma trilha muito linda acompanhando o rio, diria que é a sobremesa da trilha pois o rio corre entra as pedras , e a direita lá embaixo tem também a cachoeira das moças, se não me engano é esse o nome, muito linda, na próxima recomendo voltarem por ali, vale muito a pena!

Peter Tofte
Peter Tofte 11/14/2020 06:51

Boa dica Tiago! Vamos fazer sim. Valeu!

Roberto
Roberto 04/15/2021 08:56

Bom dia, Edver. Você sabe quem pode nos guiar para fazer parte do trekking da Ferrovia do Trigo daqui 2 semanas? Se sim, qual o contato? Você ou outra pessoa...fico no aguardo. Obrigado.

Peter Tofte
Peter Tofte 04/15/2021 16:31

Não moro no RS Roberto. Vou perguntar para o Edver Carraro que é meu amigo e que já fez algumas vezes a ferrovia se ele pode.

Jose Antonio Seng
Jose Antonio Seng 08/28/2021 07:27

Bom relato, Peter. Que azar esse tempo. Acabei de vir de la e foram dias ótimos, com visibilidade total dos cânions. Ainda vou postar aqui. Abs

Peter Tofte

Peter Tofte

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Carioca, baiano de criação, gosto de atividades ao ar livre, montanhismo e mergulho. A Chapada Diamantina, a Patagônia e o mar da Bahia são os meus destinos mais frequentes.

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