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Um aniversário em 600 km (parte 1)

Em março de 2021 comemorei meus 60 anos com um pedal de 600 km em 10 etapas diárias de 60 km.

Como se começa uma pedalada de 600 km? No meu caso comecei lendo um livro, Nascido Para Correr. O autor, Christopher McDougall, conta sua experiência em corridas de longa distância com os Tarahumara, uma tribo de corredores no México, e de como a corrida fez parte da evolução do homem.

Mesmo tendo corrido durante algumas épocas, nunca corri regularmente, mas nunca esqueci de quando tinha uns dezesseis anos, estava com um horário livre e, num dia nublado e com uma chuva fina, fui para a pista de atletismo do colégio onde estudava. Corri sozinho várias voltas seguindo as raias em torno do campo de futebol. Lembro até hoje de como foi boa a sensação do vento, da chuva e dos pés descalços na pista de terra batida. Ler o livro me deu vontade de experimentar aquilo de novo. Comecei a treinar sem seguir nenhum programa com metas definidas. Só queria ter resistência para correr longas distâncias.

Estava correndo, escalando e fazendo trilhas de montanha regularmente e em abril de 2018, nos exames que faço todo ano, o resultado do teste ergométrico me classificou na faixa logo abaixo de atletas da minha idade, mas uma ressonância mostrou um nódulo estranho no rim direito. Mais alguns exames e veio a confirmação de um câncer e a necessidade de cirurgia.

Morrer era uma perspectiva concreta, bem concreta para dizer a verdade. Aceitei com a certeza de que morrer faz parte de estar vivo. Fui numa festa de aniversário num dia e no dia seguinte operei. Tudo correu bem e a recuperação, que nem durou tanto tempo, foi tranquila. Espero continuar por aqui ainda por bastante tempo, mas vou precisar fazer consultas e exames periodicamente para saber se está tudo ok. Isso tudo fez o projeto das corridas ir para a gaveta, onde ficou um tempo.

No início de março de 2020, um pouco antes da pandemia de covid-19, participei da Segunda Jornada Científica de Montanhismo. Ver aquele povo motivado e que tinha feito tanta coisa interessante me deu um gás para me tirar do baixo astral que estava sentindo na época e voltar a me mexer.

Estava com quase 59, faço aniversário no final de março, e tive uma idéia meio maluca, correr 60 km enquanto estivesse com 60 anos, entre março de 2021 e março de 2022. Acertei, com o Anderson Brandão e a Renata Souza que estavam palestrando na Jornada, um programa de treinos para me preparar para todos esses quilômetros.

Na Jornada também conversei com o Guilherme Cavallari, que tinha visto no documentário Transpatagônia na Netflix. A conversa me deu vontade de viajar de bicicleta, coisa que penso desde adolescente. Comprei uma bike decente e me inscrevi num treinamento de bikepacking do Cavallari.

Uma previsão de treinos para corrida e viagens de bicicleta que fizeram água quando a pandemia do coronavírus caiu na cabeça de todo mundo junto com o distanciamento.

Fiquei um bom tempo dentro de casa aproveitando o pôr do sol do outono, o home office e vendo TV. Zero saudade de andar de ônibus e metrô. Só saía de casa para ir ao mercado ou dar uma volta de carro no fim de semana para ver a rua. A partir de agosto de 2020 comecei a dar umas pedaladas nos fins de semana, saindo do Recreio dos Bandeirantes, onde eu moro, até a Barra da Tijuca ou Vargem Grande. Como por aqui tudo é longe, os pedais variavam entre vinte e sessenta e poucos quilômetros. Descobri a Estrada do Pontal que tem um visual fantástico para pedalar e onde tomei um susto com um pedaço de móvel forrado com estampa de onça. Subi a Grota Funda de bicicleta pela primeira vez, depois de perder a conta de quantas vezes passei por lá de carro. Continuei pedalando praticamente todos os fins de semana até fazer um máximo de 81km no sábado de Carnaval, em fevereiro de 2021, com uma Marathon contra-pedal que deve ter mais aniversários do que eu.

(A "onça")

(A Marathon que me levou num pedal de 81 km)

Meu aniversário estava chegando. Sabia que não daria para correr os 60 km, mas queria comemorar de algum jeito. Tinha acompanhado pelo Instagram o Nestor Freire, do Projeto Giraventura, pedalar do Oiapoque ao Chuí de setembro a novembro de 2020. Já havia lido os livros Transpatagônia e Highlands do Cavallari e estava esperando chegar Transmongólia, que ele estava lançando. Juntei isso, a oportunidade de estar de férias e tudo mais que passava pela minha cabeça e decidi que iria comemorar pedalando. Multipliquei os sessenta por dez e resolvi fazer 600 km em dez dias, 60 km todo dia. Sabia que não era nada de super extraordinário para muita gente, mas era uma quilometragem que eu podia fazer e que iria me divertir fazendo. O projeto 600 km estava lançado.

Avisei alguns amigos junto com um convite para pedalar algum dia comigo. Começaria no dia 13 de março de 2021 para terminar no dia do meu aniversário, dia 22. Tinha uma programação de roteiros flexível. Ia sair do Recreio e, sabendo as distâncias para fechar os 60 km por dia, iria até a Barra, Grumari, Guaratiba, Vargem Grande e Vargem Pequena, variando os percursos e as bicicletas, são sete aqui em casa. Dependendo do tempo e da disposição iria decidir por onde ia pedalar. Melhor do que ter um caminho determinado é saber onde se quer chegar.

Fui dormir no dia 12 um pouco ansioso e com um tanto de dúvida se realmente iria levar os 600 km até o final. Nunca fui de planejar muito as coisas e ainda não tinha feito um projeto com um compromisso desse tipo, fazer algo que ia consumir bastante esforço só porque eu queria fazer. Não havia necessidade nenhuma, nem minha nem de ninguém, que eu precisasse atender. Apesar da ansiedade coloquei a cabeça no travesseiro e dormi sem dificuldade.

(Os 600 km começaram assim)

Na próxima parte eu conto como foi o pedal...

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André Leopoldino (Dino)
André Leopoldino (Dino) 07/28/2021 21:44

Que irado o relato Fialho! Estava acompanhando seu pedal diário mas não sabia dessa história por trás! Agora, 80Km com contrapedal é só para os fortes💪🏾💪🏾

Rafael Damiati
Rafael Damiati 07/28/2021 22:19

Boa! Ansioso pra saber os detalhes da sua empreitada! 🤘🏼