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Trepators 14 - Pico da Bandeira

Trepators 14 - Pico da Bandeira

E desta maneira, Senhor, dou aqui à Vossa Alteza do que nesta vossa terra vi.

Trekking Mountaineering Camping

Senhor;

Haja vista que outros capitães entregarão à Vossa Alteza as boas novas, dirijo-me a dar conta sobre o que vi no achamento desta nova terra (Pero Vaz de Caminha).

Ao sexto dia de Setembro dos dois mil e quatorze anos de Nosso Senhor, aportamos nossas caravelas nas províncias de Alto Caparaó que despontava com suas montanhas desafiadoras ao leste. Partiram de Curral Del Rey Dom Afonso, Dom Barreto, Dom Coimbra, Dom Castilho, Dom Pereira D'almeida, Dom Pinheiro, Dom Corrêa e Dom Fagundes, liderados por Dom Polaro dos Santos. Rumaram à hospedaria do Senhor Lucas de Bezerra, onde houveram trocas de reverências e abundância do que comer. Lá descansaram os seus alforges, comeram e beberam das provisões de Dom Lucas e sua esposa, senhora virtuosa nas práticas de cozinha.

À convite honroso de um sargento do destacamento, Dom Polaro e seus asseclas foram recebidos com honrarias militares. Foram levados a conhecer a terra que descansa aos pés da gigante Serra do Caparaó e seus nativos ora acenavam e gritavam: "Salve a coroa trepatoriana!".

O amistoso sargento nos levou ao mercador de onde provinham tabaco, açúcar mascavo, noz moscada e outras especiarias. Dom Pereira D'almeida angariou para si um colant e nos dirigiu a pergunta: '' Ó gajo, 'tás a ver' tal vestimenta: me viria a calhar?''. Neste instante Dom Barreto veio a emitir uma gargalhada que ecoou pelo mercado, fazendo com que Dom Pereira desfizesse sabiamente de tal peça. Como a imitar uma brincadeira entre miúdos, Dom Pinheiro e Dom Pereira laçaram Dom Castilho pelos braços para que tomasse de assento uma cadeirinha de bebês em um carrinho de se pôr as provisões. Do armazém levamos capichamas que nos garantiriam uma noite menos hostil. Passamos então a subir, ainda de manhã, o monte ao chegarmos na Tronqueira.

Na Tronqueira ajeitamos as nossas cargas. Quatis comiam de nossas mãos. Reunimos os homens, calibramos nossas bússolas e Dom Polaro deu a ordem da subida.

A julgar-se o tempo frio, Dom Castilho ousara levantar dúvidas quanto a Dom Corrêa que cogitara se banhar no ribeirão gélido e assim o fez, para espanto e admiração de Dom Castilho.

No acampamento alto conhecido por Terreirão, estendemos as nossas tendas. O frio da tarde trazia-nos a lembrança de Leiria e Bragança. O sol em tom alaranjado ao oeste se despedia e uma névoa densa se aproximava para tomar o acampamento, tal qual os nevoeiros às nossas embarcações, porém como magia ela se retraiu magnificamente por detrás dos montes. A Lua cheia já despontava quando vimos as últimas mulas trazerem as tralhas de caminhantes menos laboriosos.

Retiramos de nossos alforjes nacos de carne, grãos prensados e pó de café. As bolsas de couro continham provimentos que iriam saciar nossa fome. Haviam no Terreirão outros caminhantes desconhecidos e incautos que abusavam do tabaco e pareciam não ser de bons princípios. No refúgio dos guarda parques cozinhamos nosso jantar e após longa conversa à mesa, regada à bebida quente e risos, retiramo-nos para o descanso. Levantamo-nos às duas horas e trinta minutos da madrugada do dia sete. Vestimos nossos chapéus e casacos, calçamos nossas botas ante o frio que fazia-nos bater os ossos. O monte culminante da província do leste nos aguardava.

Lucas de Bezerra conclamou aos caminhantes: ''Guardai vossas lanternas e bússolas. Ide ao monte guiados pelo brilho prateado da lua cheia''. Assim Dom Barreto e Dom Coimbra se puseram à frente. Marchamos os nove cavalheiros da coroa trepatoriana e à quinta hora já havíamos cruzado a serra.

Dom Polaro e Dom Pinheiro, líderes de expedição e outrora divergentes quando assuntavam sobre os rumos da tropa, deixaram suas diferenças de lado por força da temperatura mui cortante que se fazia implacável e os mesmos se dispuseram numa pedra d'onde ficaram protegidos e encolhidos, descobertos apenas os olhos ansiosos pelos primeiros raios da manhã.

Ora ou outra ouvíamos Dom Barreto com sua característica gargalhada abafada rir de algumas lamúrias oriundas de Dom Castilho. Dom Corrêa, D.Pereira, D. Fagundes e D.Coimbra também se apertavam em compadrio para se aquecerem, enquanto D.Afonso fazia os registros.

Os registros que fazia eram de beleza única. Em meio à escuridão vimos entreabrir-se nas nuvens uma''janela'', nos possibilitando avistar as luzes da aldeia abaixo. O mar de nuvens de certo nos rememorava o oceano nebuloso que causava pavor em nossas naus. No horizonte picos despontavam acima da altura das nuvens, como cabeças de dragões emergindo nas águas do Atlântico. Essa visão de beleza imensurável mostrava-nos que havia algo além mar pelo que ainda buscar.

Viram os nove homens brotar por sobre as nuvens os primeiros raios de sol. Erguemos a nossa bandeira a mando da Coroa em Sete de Setembro de 2014, às sete horas. Serenamente, estes senhores com o peito cheio de orgulho, encheram os seus pulmões com o bom ar da Serra de Caparaó e agradeceram à Deus. O Pico da Bandeira se fazia tangível e real.

Assim que aquecidos os seus corpos rígidos pela noite de intenso e frio negativo, deixaram essa terra estranha e hospitaleira.

E nesta maneira, Senhor, dou aqui à Vossa Alteza do que que nesta vossa terra vi.

Era um dia sete de Setembro de 2014, ano de Nosso Senhor.

Alexandre Polar
Alexandre Polar

Published on 03/03/2020 04:18

Performed from 09/06/2014 to 09/07/2014

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