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ENTREVISTA: MARCELO FLORENTINO SOARES - MIXIRICA

Apenas 10 ciclistas convidados, desses apenas 3 aguentaram até o fim. E nesse seletíssimo trio está 1 brasileiro, Marcelo Florentino Soares

Alma Outdoor
Alma Outdoor 08/19/2020 18:00

Por: Sandro Gavião

Atualizado em Agosto de 2020 Essa entrevista com o Marcelo Florentino "Mixirica", um dos maiores ciclistas de loga distância do nosso país, foi feita em Agosto de 2017. Na ocasião ele havia acabado de completar a Red Bull Trans-Siberian, umas das provas de ciclismo de longa distância mais díficeis do mundo. De lá pra cá muitos quilometros já rolaram por baixo de seus pneus. Ele participou de outras edições da prova, encarou a Race Across America, o que lhe rendeu um documentário no Canal OFF, além de incontáveis provas de ciclismo de estrada e mountain bike pelo Brasil.

Confiram o que ele me contou em 2017 sobre os treinos, apoio (ou a falta dele), frio siberiano e muito mais.

​Está cada vez mais difícil encontrar desafios dignos que satisfaçam a fome por quilometragem dos atletas de endurance. Não é incomum hoje em dia encontrar aquele colega de trabalho que correu uma maratona ou um vizinho que completou um desafio de ciclismo de 1000 quilômetros. Por isso poucas coisas impressionam ultimamente. Apesar de ver constantemente notícias de recordes sendo quebrados e limites ficando para trás. Nada que treino, disciplina e força de vontade não deem conta.

Mas então surge a notícia de que um brasileiro foi um dos 3 únicos atletas do mundo a completar a prova de ciclismo mais difícil do mundo. A Red Bull Trans-Siberian Extreme 2017.
São 9.211 quilômetros divididos em 14 etapas, largando de Moscou percorrendo a famosa rota ferroviária Trans-siberiana até Vladistok. A prova é tão punk que os ciclistas cruzam por oito fusos horários diferentes e cinco zonas climáticas.

As Provas mais Punks!

Tour de France: A edição de 2017 teve 3.540 quilômetros divididas em 21 etapas, largando de Düsseldorf na Alemanha e chegando em Paris.
Race Acroos America: 4.828 quilômetros cruzando 12 estados americanos largando na California e com chegada em Maryland.

Red Bull Trans Siberian: 9.211 quilometros em 14 etapas. Largando de Moscou, cruzando a Sibéria chegando em Vladistok. Sentiu a pressão?

Apenas 10 ciclistas convidados, desses apenas 3 aguentaram até o fim. E nesse seletíssimo trio está 1 brasileiro, Marcelo Florentino Soares , também conhecido pelo apelido de Mixirica.

Com essa extraordinária conquista não é difícil pensar que Marcelo é um desses atletas bem nascidos, com milhares de seguidores nas redes sociais, recursos para adquirir um equipamento de ponta, tempo de sobra para se dedicar aos treinos entre uma sessão de pilates e a consulta com nutricionista. Mas não é bem assim. Para juntar os recursos necessários e realizar seu sonho de completar a Trans-Siberian, Mixirica teve que suar muito, não só em cima da bike.

Sem nenhum apoio ou patrocínio, ele chegou a vender latinhas (se liga aí empresas do setor. O que estão esperando para patrocinar?) como conta na entrevista.

​Eu pedalava todo tremendo, com um monte de roupa, gorro, capa, etc. E os russos e alemães só de camiseta.

Mixirica tem 45 anos, nasceu no bairro de Santo Amaro em São Paulo. Ganhou o apelido depois que uma queda durante o Campeonato Brasileiro de Mountain Bike em 92 fez com que algumas unidades da fruta saíssem rolando pelo chão.

E já foi:
6 vezes campeão do MTB 12 horas;

Campeão Paulista de mountain Bike;

Em 2015 atravessou do extremo norte ao sul do Brasil em tempo recorde. Foram 10.360 quilômetros em 57 dias. Credenciando-o a participar da Trans-Siberian;

E essa foi sua segunda participação no Red Bull Trans-Siberian. A primeira foi em 2016 chegando na terceira posição. Confira a entrevista que o Marcelo concedeu ao Alma Outdoor.


Participar de provas aqui no Brasil já é complicado. Como foi esse processo para montar uma estrutura para participar de uma prova na Rússia?
Foi com muito sacrifício. Ainda estou pagando as contas do Red bull Trans-siberian Extreme 2016.
Vendi bicicletas, trabalhei de bike currier (entregador), trabalhei na ciclofaixa de domingo, catei latinha, fiz de tudo. E tive a ajuda da família e amigos.

Teve apoio de alguma empresa?
Esse ano tive o apoio da Merida Bikes que me forneceu a bike e equipamentos. Mas em 2016 tive só a ajuda de amigos e família.

Então você não vive do esporte?
Não. O esporte é que vive em mim. Não ganho nenhum salário com o esporte. É tudo pelo amor ao ciclismo.

Para participar do Red Bull Trans-siberian Extreme é preciso ser convidado pela organização. Como eles fazem essa seleção?
Realmente, tem que ser convidado. É preciso que o atleta tenha um histórico de provas desse gênero.

Essa foi sua segunda participação na prova, o que mudou de um ano para o outro? Sua preparação, treinos... O que sua experiência anterior fez você mudar para esse ano?
Esse ano o nível dos adversários estava nervoso.
Para essa prova eu levei uma chefe de Equipe, a Neusa Telheiro, ela foi fundamental . E os novos equipamentos, sapatilhas, bike...

A primeira coisa que se pensa quando se fala em pedalar atravessando a Sibéria é no frio. É esse frio absurdo que a gente imagina mesmo?
Não, muitas vezes estava mais calor que aqui. Mas durante as madrugadas fazia -2 graus, era desumano. Eu pedalava todo tremendo, com um monte de roupa, gorro, capa, etc. E os russos e alemães só de camiseta.

Quais foram os momentos mais marcantes? Aquela imagem que vai ficar na sua mente para sempre.
Quando Subi umas das Montanhas mais duras da prova e só ficou eu o alemão e o russo. Falei para mim mesmo: só estes três caras aqui conseguem chegar aqui, só três caras deste planeta.

Você pedalou por lugares extremos e exóticos, dá tempo de curtir alguma paisagem?
Nada! Só vi o asfalto. Não tive tempo de ver nem as fotos e vídeos direito.

​Qual foi o momento mais difícil durante a prova?
Os ataques dos adversários, era porrada o tempo todo.

Eram apenas 10 atletas, como foi a interação entre vocês? Rolava uma camaradagem ou era um clima competitivo o tempo todo?
Competitivo o tempo todo. Só quando saiamos da pista melhorava um pouco. Mas mesmo assim olhavam meio torto.

Como funciona a estrutura de apoio da prova? Há algum apoio da organização ou é tudo autossuficiente?
Tem todo apoio da organização. A cada 200km tinha médicos, fisioterapeutas, chefes de cozinha, mecânicos... E também uma van para cada atleta com 2 motoristas. Se não ninguém aguenta. Além da minha equipe de apoio.

Como era sua alimentação durante a prova?
Tinha tudo que você imagina. Comia macarrão, frutas, refrigerante, barrinhas...

Me fala um pouco da bike que você usou.
Uma Mérida Scultura 4000 com grupo Shimano Ultegra. Rodas carbono tubular Taiwan 2008.

Precisou fazer alguma adaptação ou mudança para essa quilometragem?
Nada!
E só furou o pneu apenas uma vez.

Caramba! Com toda essa quilometragem só furou uma vez?
Só. Bati numa pedrona em um trecho de estrada de terra.

Qual o próximo desafio?
Ainda não sei, ainda estou confuso. Não coloquei as coisas no lugar. Estou me recuperando, depois desta prova você fica meio zumbi, confuso, muito cansado e machucado.

Depois de completar uma prova tão extrema como essa fica difícil arranjar outro desafio à altura?
Não tem... Essa é a mais nervosa do planeta!

Quer deixar algum agradecimento ao pessoal que te apoiou?
Minha família. Minha mãe Josefa, meu pai Amaury, meus irmãos Marcos, Paulinho, Patrícia. A Neusa Telheiros que foi chefe da equipe. Todos eles me ajudaram muito durante a prova e aqui. Hoje mesmo minha mãe veio me trazer comida por que eu tô sem grana para comprar um ovo. A Neusa e meus pais me ajudaram muito, essa vitória é deles também.

Obrigado também a todos que torceram durante a prova. Beijos abraços. Deus abençoe a todos!

Fotos: Reuters

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