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No Limite (na Pedra do Sino)

A história de uma tempestade que me impediu de chegar ao cume da Pedra do Sino (a 50 metros dele). Realizada em maio/2018.

“Se quero subir ao Mercedário, é bom começar a me preparar”. Foi com esse pensamento que, um ano antes de minha ida à Argentina (programada para fev/2019) comecei a me preparar para a grande expedição.

Comecei mudando o foco de meus treinos de aeróbico para físico, o treino principal subindo os 28 andares de meu prédio repetidamente, com mais de 10 kg de livros nas costas. Também comprei, de um famoso site chinês, crampons para as botas e duas lanternas de cabeça.

Mas não bastam condicionamento físico e equipamentos, também é necessário o treinamento prático: subir montanhas! E foi com essa necessidade que decidi subir a Pedra do Sino da Serra dos Órgãos, o 19º pico mais alto do Brasil.

Ok, decidido o local, faltava a data. Quando ir? Trabalho em jornadas 6x1 num hotel, e nesse mês de maio não teria nenhuma folga dobrada (a famosa dobradinha, evento raro que acontecia uma vez por mês na escala de cada funcionário). Teresópolis está a 465km de casa. Será que daria pra ir com um único dia de folga? Não tinha opção. E adoro desafios. Não tive dúvidas, comecei a me programar. Troquei de horário com um colega pra poder sair de madrugada e ir direto. Entraria no serviço às 19h da sexta-feira (18) e sairia às 03h do sábado direto pra estrada.

O último detalhe, pra finalizar o quadro da preparação: a barraca. Eu tinha uma barraca muito boa para trilhas, a Arpenaz 2 da Quechua. Compacta e muito resistente. Porém, ela apresentou um defeito e a troquei por uma bota pra trilha, pensando que não voltaria a precisar dela (e não precisei por um bom tempo). Abrindo um breve paralelo: conheci o pessoal de um motoclube, e foi a eles que pedi uma barraca. Kaleb prontamente me ofereceu a sua, e fui até sua casa em Itaquá buscar. Fiquei com um pouquinho de medo quando vi o modelo: aquela barraquinha da Mor, azul com o topo amarelo, a mais simples que existe. “Isso aí não serve pra montanha”, pensei logo de cara. “Mas vai ser só uma noite, acho que dá sim”. Agradeci pela barraca e prometi que a devolveria assim que desse.

Sexta-feira faltei na faculdade pra poder dormir até as 11h00. Amarrei minhas coisas na moto (estribo de alumínio, barraca, uma tenda pra cobrir a barraca em caso de chuva, saco de dormir e mochila cargueira) e fui pro serviço pronto pra viagem. 02h45 me despedi do pessoal, me troquei e, umas 03h10 estava na estrada rumo a Teresópolis.

Às 09h30 estava tirando fotos do Dedo de Deus num mirante da estrada (um vento muito forte que chegou a derrubar a moto de um rapaz que ajudei a tirar fotos). Perto das 10h00 estava estacionando minha moto no Parna Serra dos Órgãos. Estava tendo uma corrida dentro do parque. Estava lotado. Me troquei ali no estacionamento mesmo e dei inicio à ascensão. Subi os primeiros três quilômetros pela estrada da barragem até seu ponto final, a barragem, pra descobrir que poderia ter estacionado a moto lá mesmo. Muito obrigado pela informação ocultada, funcionários do parque! Ao fim dessa desnecessária primeira subida, além de confirmar a informação do estacionamento, confirmei a distância até o pico: 11 km. “Qual é o trecho mais difícil?”, perguntei a um velho guarda-parque (que julguei saber bastante sobre o parque). “Depois da Cachoeira do Véu da Noiva tem uma subidinha bem difícil”. Isso seria verdade, se ele estivesse desconsiderando os primeiros dois quilômetros até a tal cachoeira, que são uma pirambeira só! Fui super-rápido nesses dois primeiros quilômetros com a expectativa nunca atendida de que logo ficaria mais plano até a cachoeira, mas descobri ser uma subida invencível até lá! Ainda passei por uma caverna habitável, que descobri ser o Abrigo 2. Mesmo acelerado, fiz esse primeiro trajeto em 45 minutos, na mais densa mata atlântica. Encontrei várias pessoas descansando nesse primeiro check-point, à beira da cachoeira. Olhando pra cima, víamos a serra encoberta por um denso nevoeiro. Um rapaz que subiu quase sem nada, só uma mochila pequena nas costas, logo disse: “é pessoal, acho que tá bom por aqui, eu vou é descer”, ao olhar pra cima. Ele subia a montanha em uma velocidade muito alta, quase correndo. Ele estava conversando com outros dois trilheiros. Após lanchar e abastecer de água, perguntei quanto faltava ao pessoal, e fui informado por uma placa logo em frente: 7,7 km. Uma moça me informou, porém, que a trilha entraria em uns zigue-zagues mais planos. Essa foi a primeira informação correta que alguém me deu nesse parque.

Após um pequeno trecho mais íngreme, a trilha foi ficando cada vez mais plana. Por mim passavam vários trilheiros com menos carga que eu subindo, e vários outros descendo, sempre dizendo bom dia/boa tarde. Cheguei então numa clareira, o Abrigo 3, e uma placa, que me assustou tanto que gritei em voz alta: “Seis quilômetros!!”. Achei que estava sozinho, mas havia um senhor logo depois da placa se arrumando pra partir, que me deu uma breve olhada assustado. Uma cena engraçada. “Depois de tudo isso, ainda faltam 6,4 km??”. Pois é, estava praticamente na metade do caminho, já bastante cansado. Devia ser 14h00, já estava 27 horas acordado e rodado toda aquela quilometragem de moto, e o pior: estava pensando nesses fatores de cansaço naquele momento, o que só aumentaria o cansaço ainda mais.

Nem parei pra descansar no Abrigo 3, e segui viagem. Andei, andei e andei até perceber a vegetação começar a mudar e ficar cada vez mais rasteira. Parei em um mirante pra observar a Serra. Ah sim, de lá já conseguia observar a Pedra do Sino, mesmo sem saber ao certo se era ela mesmo. Segui mais um pouco e parei em outro mirante, com uma vista melhorada do primeiro, dessa vez pra comer e beber. A barraca e a tenda estavam escorregando da mochila e eu precisava ficar constantemente alerta e corrigindo suas posições. Acabei retirando da mochila e levando na mão mesmo. Fiz algumas fotos, me organizei e parti.

Segui até o topo da montanha em que estava. No caminho, perguntei a alguns trilheiros que desciam do pico, todos agasalhados, o quanto faltava até o Abrigo 4 e, achando que me reconfortavam, diziam: “falta menos de uma hora”, e me deixaram curioso: “vai subir e descer, passar por um pântano e já está lá”. Pântano? Puta merda...

Agora também, ao invés do simples “boa tarde”, já ouvia “boa sorte” e “vai acampar lá? Corajoso...”.

Nesse momento já era 15h30 e estava exausto, pensando em como teria sido bom montar a barraca dentro da caverna e ter ficado por lá mesmo. “Calma, já tô quase chegando. Vou montar acampamento e dormir merecidas oito horas”, esse era meu pensamento naquele momento. Lá em cima já estava tudo envolto por uma neblina densa, e foi com essa neblina que atravessei com alguma dificuldade o pântano, enquanto dois rapazes de regata, bermuda e chinelos passaram voando por mim. “Eles subiram essa merda toda de chinelo?”. Não tinham nem uma mochila nas costas, nem uma mísera garrafinha de água. Fiquei sem entender nada.

Uns 20 minutos depois, e finalmente estava no Abrigo 4! A esse momento já nem cogitava passar no pico, distante uns 20 minutos do abrigo. Já não tinha forças e o tempo estava muito fechado.

Atravessei a área de camping, passei pelas barracas pré-montadas que são alugadas pelo parque e cheguei à cabana do abrigo. Me sentei num banquinho do lado de fora, ao lado de um dos rapazes de chinelo. “Eu só queria um lugar pra cair morto!”, desabafei a ele. “Cansa, né”, me respondeu rapidamente.

Em três minutos me levantei e voltei à área de camping para montar minha barraca. Comecei a montagem. Uma barraca bem simples, mas fiz algo de errado. Nem me lembro o que fiz de errado, mas acho que tentei montar a primeira estaca sem antes ter encaixado a segunda, e começou a chover no exato momento. No desespero, fiz alguma força a mais e a estaca quebrou no meio. Ela é formada por vários canudos que se encaixam e se seguram através de um elástico. A estaca dessa barraca específica era muito fininha, e um canudo quebrou dentro de outro. Pedi ao grupo ao lado um canivete emprestado pra tentar retirar a parte quebrada de dentro, sem sucesso. Estava oficialmente fudido, “de verde e amarelo”, como disse na hora. Com uma das estacas quebrada, a barraca ficou insustentável. E logo senti como se tivessem ligado uma ducha em cima de mim. Não era uma simples chuva, era uma tempestade.

Na tentativa de montar um abrigo de emergência abri meu toldo em cima da barraca quebrada e tentei fixá-lo no chão. Após fixa-lo, olhei pra minha mochila, que havia deixado embaixo de uma pequena árvore, agora tomando um banho de cachoeira. Corri pra pegá-la e jogar tudo dentro da barraca. O estribo de alumínio estava molhado, o saco de dormir estava molhado. Era o fim.

O vento cada vez mais forte jogava o toldo contra a barraca. Vários no camping gritavam, uma mistura de alegria com medo. Estava dentro da barraca, sentado em uma posição estranha, imóvel, observando a força da tempestade, o castigo da montanha pra quem a subestimou.

Fiquei paralisado uns cinco minutos, até que decidi abandonar navio e correr pro abrigo antes de ganhar uma hipotermia. Só que eu não fui o único que correu pra lá. Haviam outras pessoas que também tinham perdido a barraca e outras que estavam de bate e volta no pico. Isso fora as pessoas que haviam alugado uma cama ou bivak dentro do abrigo. Estava lotado.

Me sentei na varanda, num banco, semi-protegido do temporal, com frio e prevendo uma hipotermia. Já era quase 18h00. Estava 31 horas acordado.

Um guarda-parque do abrigo guardava a porta: “Não cabe mais gente lá dentro”, dizia aos pelo menos oito trilheiros e desabrigados na varanda, a maioria em pé. Alguns ainda voltariam para tentar salvar suas barracas. Outros já cogitavam descer a montanha. De repente, uma das barracas montadas pelo parque em frente à cabana do abrigo saiu voando. Era quase um furacão, estávamos próximos dos 2.200 metros de altitude.

Depois de alguns minutos sentado, sem saber o que faria, me levantei e me dirigi à porta: “Tem como eu entrar?”. “Calma aí cara, não entra quem quer não, não é assim que funciona não!”, me respondeu o guarda assustado e zangado ao mesmo tempo. “Ele só perguntou se podia entrar”, retrucou um trilheiro que estava ao lado dele. “Mas não é assim que funciona, eu tenho que saber quem é você, o que tá fazendo aqui. Eu não posso pôr qualquer um pra dentro”. “Eu tava no camping”. “Então, mas você não reservou lugar no abrigo”. “Eu só preciso comer e beber, só isso”. Com essa ele cedeu e liberou minha entrada. Achei um canto pra me sentar, entre o banheiro e o quarto, e me cobri com minha toalha, que não estava muito molhada. Fiquei ali me aquecendo por alguns minutos antes de começar a comer um salgadinho que havia trazido. Após comer e beber um achocolatado permaneci sentado, encolhido com a cabeça entre as pernas, tentando me aquecer e recuperar alguma energia.

Um outro guarda-parque, mais educado e calmo que o primeiro, me chamou e pediu pra que eu sentasse no banco e saísse do chão frio. O banco fica junto à mesa de jantar, e lá observei outras pessoas também desoladas e outros aguardando sua vez no banho quente. (Sim, lá há um banho quente que deve ser reservado a R$15,00 por 5 minutos pelo site, junto com os ingressos do parque).

Eu estava exausto, sentado no banco, e vi que não tinha muitas opções. Um rapaz arrumava sua mochila no banco ao lado, quando me perguntou: “Você está sozinho?”. O abrigo estava lotado e o pessoal não parecia que ia dormir tão cedo. Muita gente fazendo muito barulho. Havia ainda um pessoal cozinhando na cozinha aberta. Se ficasse, até teria algum canto pra dormir de emergência, porém não dormiria cedo. E tinha que voltar pra trabalhar no dia seguinte às 15h, meu horário normal de entrada no serviço. A tempestade já havia passado a essa hora. Não tinha outra opção: teria que descer. Quando fui mexer minhas pernas, senti câimbras na coxa direita. Enquanto a massageava, uma moça que se trocava a meu lado me emprestou sua pomada vick assim que me percebeu. Com as pernas esticadas em cima do banco continuei a massageando com a pomada. Senti algum alívio.

Devolvi a pomada e agradeci. Ela logo me perguntou: “você está sozinho?”. Fucei minha mochila e retirei uma de minhas lanternas de testa (havia trazido as duas que comprei da China). A coloquei em cima da mesa e continuei na mochila, procurando por minha roupa extra para garantir que não sentiria frio na descida. Ótima notícia: minha blusa segunda pele só havia molhado um pouco na manga. Retirei minha blusa, coloquei a segunda pele em cima da camiseta e coloquei a blusa de volta. Agora só esperava encontrar minha bota e anorak do lado de fora, na varanda. Nesse meio tempo, um rapaz entrou no abrigo precisando de uma lanterna, enquanto encarava sua amiga sentada em outro canto. Deveria estar tentando montar sua barraca, já era noite. Não pensei muito e logo o ofereci a minha.

Enquanto aguardava minha lanterna voltar, pensei (ou tentava pensar, de tão exausto que estava), em como seria difícil a volta. Primeiro, voltar toda essa trilha enorme. Depois, ainda, os três quilômetros que poderiam ser evitados não fosse a falta de informação do parque. E, ainda, os 460 km até minha casa. Será que aguentaria? Nem me fiz essa pergunta aquela hora. Já achava demais estar vivo. 31 horas acordado.

Minha lanterna foi devolvida. Coloquei-a em minha cabeça, fechei a mochila e avisei o guarda-parque, o mesmo que quase me barrou a entrada. “Avisa o pessoal lá embaixo que estou descendo”. “Tá descendo? Podia ter ido com o pessoal que foi agora há pouco, irmão. Seu nome?”. “João”. “João o que? Pedro, Vitor, Guilherme”. “Magalhães”. “Tá OK”.

Fui pra varanda. Lá estava tudo que havia deixado: a capa, saco de dormir, isolante térmico e botas”. Ainda haviam algumas pessoas na varanda, todos molhados. Enquanto colocava minhas botas perguntei a um rapaz, num estado pior que eu, que arrumava sua mochila. “Você vai descer?”. “Não, vou pra trilha”. Quando ele falou e iluminei seu rosto, vi que estava em estado de choque. Totalmente pálido, lábios roxos e olhos vermelhos. “Vai pra que trilha?”. “Pro camping. O guia vai levar a gente lá”. Estava num estado pior do que eu. Não percebi com que grupo estava, ou se sabia de que guia estava falando. O único guia que ele precisava era de algum Deus.

Tudo pronto, dei a volta na cabana em busca do banheiro externo. Precisava urinar e encher a garrafinha de água. Estava ocupado, e uma mulher aguardava na fila. Voltei pra dentro do abrigo até a cozinha para encher a garrafinha, enquanto as pessoas cozinhavam e lavavam louça. Saí pela última vez do abrigo. Passei pela área de camping e consegui salvar meu toldo. A barraca deixei por lá mesmo.

E tenho que agradecer muito dois itens que me foram de extrema importância: a capa de chuva, anorak, que além de me manter seco, me protegeu do vento e me manteve quente, e a lanterna de cabeça, porque com o celular na mão não teria feito essa trilha nem por um milagre.

Parei rapidamente pra mijar e, sem muita cerimônia, iniciei o longo caminho de volta. A lanterna me iluminou muito bem o caminho e, com uma duração de oito horas, não precisei nem me preocupar em ter que usar a segunda.

Foram 03h20 de uma longa e solitária descida em meio à escuridão. Fui cantando boa parte do caminho, pois o silêncio absoluto me deixaria louco. Nem preciso dizer o que a imaginação não me fez nos momentos de silêncio, quantas vezes não fiquei com medo de ouvir algum barulho sinistro, de virar pra trás: aquela apavorante sensação de estar sendo seguido ou vigiado me surgiu diversas vezes. Depois que deixei de ouvir o barulho de um motorzinho do abrigo, não ouvi mais nada nem ninguém pelas três horas seguintes.

Atravessar o pântano foi horrível. Já nem ligava onde pisava, se iria molhar ou não. A trilha se transformou num córrego.

Tive que transpor três árvores que caíram atravessando a trilha e tenho quase certeza que em uma delas meu saco de dormir caiu da mochila. Nem percebi.

Meus pontos de referência eram a Cachoeira do Véu da Noiva e o Abrigo 2, a caverna, mas não lembrava qual veria primeiro. Cheguei no Abrigo 3, distante 6,4 km da saída, segundo a placa, e havia andado por uma hora ou mais. Nem parei pra descansar, segui descendo. Não chegava nunca. Ouvia o barulho de uma queda d’água e logo pensava: “já estou chegando na cachoeira”. Isso se repetiu algumas vezes. Quando o barulho cessava, vinha a decepção.

Sentia a terra em atrito entre a bota e meus pés. Minha meia, não muito longa, não protegia a região próxima dos tornozelos.

Após finalmente chegar na cachoeira, fiz minha única parada, tirei as botas e as lavei no pequeno lago pra retirar a terra, junto com as meias e os pés. Bebi uns 400 ml de água, enchi a garrafinha e segui viagem. Esses últimos dois quilômetros pareceram os mais infindáveis. Tentei contar a metragem percorrida só para descobrir que, apesar de todo o esforço de descer rapidamente sobre as pedras da trilha, meu deslocamento era muito mais devagar do que me aparentava. Fazendo as contas, 18 minutos por quilometro, o que dá a dízima periódica de 3,33 km/h. Por isso nunca chegava, andei na velocidade de uma dízima infinita!

Após os últimos longos dois quilômetros cheguei à barragem, onde havia uma mulher e um senhor aguardando outro componente do grupo que foi buscar o carro no estacionamento abaixo. O nome do senhor acredito que era Pedro, um senhor uruguaio, que falava português com sotaque francês. Eles logo me convidaram a descer a estrada no carro com eles. “Você está sozinho?”, logo me perguntou a mulher. Eles haviam feito a travessia de Petrópolis a Teresópolis, com uma distância um pouco menor que o meu bate-volta à Pedra do Sino, porém com um grau de dificuldade muito maior, com trechos que exigem o uso de corda.

Após vencer os últimos 3 km de carona, e toda a preocupação do grupo com minha volta a Guarulhos (até houve um tímido convite para que eu pernoitasse na casa deles em Nova Iguaçu), me despedi e agradeci a carona até a moto. Me troquei, comi e bebi meu último achocolatado e saí do parque às 22h50. Só conseguia pensar: se eu chegar inteiro em casa, posso dizer que estou pronto pra quase qualquer desafio. 36 horas acordado.

Me lembro muito bem da silhueta do Dedo de Deus à noite, enquanto descia a serra. Rodei pelo arco metropolitano do Rio completamente sozinho, ninguém à frente ou atrás, na maior escuridão (estranhamente os enormes postes com painéis solares por toda a rodovia estavam apagados, somente um ou outro piscava aleatoriamente). Só fiquei meio impaciente com a velocidade da moto, que não passava dos 110 km/h. Em alguns momentos, no meio da escuridão total, parecia ver alguém atravessando a pista, e reduzia a velocidade e forçava a vista tentando ver a pessoa, pra perceber que só se tratava de uma ilusão. Estava exausto.

Rodei quase no limite de combustível pra abastecer no Estado de São Paulo, que tem um preço de combustível bem abaixo do Rio. Minha moto tem autonomia pra rodar uns 420 km por baixo, e cheguei no posto com 380 km no hodômetro.

Já na madrugada congelante, ainda peguei um trecho de chuva suficiente pra encharcar minhas botas. Parei num posto pra colocar botas e meias nos secadores do banheiro. Não muito depois da parada estratégica, novamente chuva. Deviam faltar uns 200 km ainda. Mas não parei mais, fui direto até em casa. Congelando com os pés super gelados. Quase dormindo. Cheguei às 05h00. 42 horas acordado. Coloquei o chuveiro nos 40º e tomei um longo banho (15 minutos pra mim já é longo, pra outros um banho comum). Acordei às 13h30, almocei com a família e meu avô, que vem sempre aos domingos, e avisei à minha chefe plantonista que entraria às 16h, pois havia tido um contratempo na viagem (já a havia deixado um aviso prévio). E assim foi meu fim de semana.

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