AventureBoxExplore
Sign Up

Carretera Austral, Parte 1: Puerto Montt x Coyhaique

Quinto episódio da série de relatos da expedição Ciclotrekking - Pra lá do Fim do Mundo. Uma trip de bike até o extremo sul da Patagônia.

Bike Trip Camping Long Distance

Carretera Austral, Primeira Parte: Puerto Montt x Coyhaique

Puerto Varas, 21 de novembro de 2019.

Desde quando eu li(devorei) “Transpatagônia – Pumas Não Comem Ciclistas”, o alucinante livro que relata a viagem de bicicleta que Guilherme Cavallari fez na Patagônia Chilena, uma forte vontade de percorrer aqueles caminhos sinuosos e rústicos da Carretera Austral, tomou de assalto a minha mente de uma maneira quase obsessiva. Era como se eu estivesse escutando uma voz imperativa dizendo o tempo todo que eu deveria percorrer aqueles caminhos também.

A hora mágica chega sempre.” Hermann Hesse

Acordei cedo depois de uma boa noite de sono no hostel. O dia estava lindo e a temperatura bastante agradável. Uma euforia de criança, embriagava minha mente.  Após uma parada de dois dias em Puerto Varas para reparar a roda traseira da bicicleta e repor alimentos no alforje, o dia mais sonhado da viagem finalmente se apresentava diante de mim, e eu estava pronto.

Tentando driblar a euforia, procurava me concentrar em carregar e verificar se tudo estava certo com os equipamentos na bicicleta e dava a última pesquisada nos prováveis pontos de parada para este que seria o primeiro dia na Carretera Austral.

Para chegar em Puerto Montt e encontrar o quilometro zero da Ruta 7, lugar onde oficialmente começa a Carretera Austral, eu precisava pedalar por volta de vinte e poucos quilômetros. Eu tinha duas possibilidades para chegar lá, e após conversar com um funcionário do hostel onde me hospedei em Puerto Varas, decidi seguir a sugestão de não tomar a Ruta 5, que é o caminho mais rápido e movimentado, optando pela estrada secundária V505, mais tranquila e com um visual que deveria ser mais interessante.

Por volta das 10 horas da manhã iniciei o meu pedal. Enquanto seguia meu rumo, comecei a recordar das manifestações populares e seus desdobramentos violentos que estavam acontecendo nas grandes cidades do Chile. Eu tinha a informação de que Puerto Montt enquadrava-se nesta situação e por conta disto, pretendia apenas bater o ponto no quilometro zero e me afastas o mais rápido possível das áreas centrais que eram por onde aconteciam os conflitos mais violentos.

Pouco antes do meio-dia eu já estava pedalando na cidade bastante movimentada e com um transito bem pesado para os padrões da região. Com os sentidos em alerta por conta dos protestos populares, e por outro lado, tentando curtir aquele momento especial, cheguei à orla e encontrei a Ruta 7. Procurei inutilmente localizar a placa ou marco que sinaliza o início da Carretera. Um pouco frustrado por não encontrar, resolvi não ficar dando mole naquela área, pois era visível e fácil perceber que pelo rastro de destruição, eu estava por assim dizer, na arena dos conflitos, embora naquele momento tudo estivesse tranquilo e em paz.

Saí pedalando sem pressa pela ciclovia da orla com uma bela paisagem à beira mar e com uma brisa suave. Enquanto me afastava do centro, procurava também um lugar tranquilo para fazer uma parada rápida para comer algo e descansar um pouco e depois, seguir em frente até um camping que eu tinha pesquisado no app  IOverlander, e  estava distante por volta de 35 quilômetros. 

No meio da tarde eu já estava no camping e como se tratava de baixa temporada, o dono me disse que se eu quisesse, poderia dormir na cozinha ou em qualquer área coberta, sem a necessidade de montar a barraca. Não pensei duas vezes. Fiz meu acampamento na cozinha. Afinal seria um trabalho a menos no dia seguinte.

Dia 22 de novembro

Mais uma vez o clima me presenteava com um belo dia. Acordei cedo, tomei café e dei uma conferida do mapa para ver as distâncias e a altimetria que me aguardavam para o pedal do dia. Antes de sair, o senhor que administrava o camping me presenteou com um adesivo da Ruta 7. Agradeci pelo regalo e tomei meu rumo.

O pedal, a exemplo do dia anterior, parecia que seria tranquilo, com pista asfaltada e poucas subidas, mas depois de algum tempo tudo mudou. O asfalto sumiu e entrou o famoso e esperado rípio( brita e cascalho). Como se não bastasse, avistei placas indicando que a estrada estava em obras e foi aí que o pedal mudou drasticamente.

Uma subida enorme, íngreme e com o rípio solto e levantando uma poeira infernal toda vez que passava algum veículo. Somado a isto, fazia um calor forte.  Os famosos perrengues da Carretera Austral apresentavam suas boas-vindas.

Neste dia também, tive que pegar a primeira balsa para fazer a travessia de Caleta Arena para Caleta Puelche. Uma travessia rápida até, que durou menos de uma hora.

Depois da travessia de balsa e de superar os infernais e quase intermináveis trechos de estrada em obras, a coisa melhorou e novamente voltava ao asfalto e assim foi até chegar ao destino final do dia em Pueblo de Hornopirén

Aproveitei para passar numa padaria para comprar algumas coisas para comer e me orientar na escolha de um camping. Devido ao cansaço optei pelo camping que estava mais próximo. Queria apenas montar minha barraca, tomar uma ducha, comer e descansar. O dia tinha sido dureza e eu estava exausto.

Neste dia tive uma surpresa bacana. Minutos após fazer uma publicação nas redes sociais, recebi uma mensagem no meu whatsapp. Eram meus amigos franceses que eu conhecera em Bariloche, dizendo que também estavam no povoado e que assim como eu, pretendiam pegar a balsa para Leptepú no dia seguinte. Assim, combinamos de nos encontrarmos bem cedo na rampa de embarque para seguirmos juntos.

23 de novembro

Acordei bem cedo, depois de uma ótima noite de descanso. O clima já não estava aquilo que fora nos dois primeiros dias. Céu fechado e cara de chuva.

Fiz todo o ritual matinal e fui direto para a rampa de embarque para comprar o quanto antes meu bilhete de embarque e encontrar meus amigos franceses para conversar e seguirmos em frente juntos.

Neste dia, são duas balsas. A primeira com uma travessia de duração de quatro horas e a segunda com uma previsão de menos de uma hora para percorrer a segunda etapa. Entre ambas, ainda teríamos que pegar uma carona para chegar em tempo de embarcar na segunda balsa.

Não demorou muito para que meus amigos aparecessem e numa rápida confraternização com muita alegria e o agito dos meninos, estávamos novamente reunidos e prontos para seguirmos em frente.

A previsão de chuva para os próximos dias era um fator que estava nos deixando um pouco apreensivos. Não víamos a hora de entrar na balsa para não correr o risco de nos molharmos antes da travessia que demanda praticamente um dia inteiro. Para nossa sorte, não demorou muito e embarcamos antes da chuva começar.

Durante o embarque, o tripulante responsável pelos veículos, nos ajudou com a questão da carona para o translado entre as balsas. Falando com alguns motoristas, conseguimos duas camionetes para colocarmos nossas bicicletas e também a de outro ciclista, um chileno que se juntou ao nosso grupo.

Enquanto navegávamos o clima mudou de vez com a temperatura despencando rapidamente e com ela, vento e rajadas de chuva inconstantes.

Ao desembarcar na Caleta Gonzalo, para nossa sorte, a chuva havia cessado. Tratamos de não abusar da sorte e tocamos apressadamente o nosso pedal para chegar logo em um dos locais de camping já dentro do Parque Pumalín.

Durante o pedal, escolhemos pernoitar no camping do Lago Negro, pela proximidade de apenas 18 quilômetros e por ter uma boa estrutura com banheiros e alguns quiosques que pretendíamos usar de abrigo da chuva para nossas barracas. Além disto, por ser baixa temporada não pagamos nada, pois não havia nenhum guarda parque ou administrador no local para efetuar a cobrança. Era tudo nosso!

24 de novembro

A noite foi bem fria e choveu muito, mas pela manhã tínhamos um céu parcialmente nublado que estava nos dando uma chance de iniciar nosso pedal com as roupas secas.

Apesar do tempo ruim, a experiência de estar pedalando no parque Pumalín era realmente fantástica. Florestas, lagos, montanhas, os sons dos pneus da bicicleta no rípio e o trânsito de veículos praticamente nulo, proporcionavam uma sensação de liberdade absoluta.

Nosso plano de voo, ou melhor, de pedal para o dia, se tudo desse certo, era chegar a El Chaitén e pernoitar por lá, pois estávamos cientes de que durante o dia teríamos chuva em nosso caminho.

Chegamos na cidade durante o meio da tarde. Um domingo frio e com chuva, ninguém na rua e praticamente todo o comércio fechado. Sabe aquela sensação de quarentena? Kkk

Precisávamos comprar comida e definir onde passaríamos a noite. Depois de darmos um giro rápido, encontramos um pequeno mercado onde conseguimos comprar algumas coisas e depois disto,  decidimos não ir para o camping da cidade pois não tinha cobertura para montar barracas. Nesse momento, em frente ao camping, Richard, meu amigo francês, comentou que tinha localizado no IOverlander um lugar um pouco inusitado mas que segundo alguns relatos, daria para resolver nosso problema. Tratava-se da prisão abandonada da cidade, que segundo as informações que o app nos dava, era bem tranquila e abrigada da chuva. Decidimos arriscar.

Ao chegarmos na prisão, a primeira vista não era das melhores. Muito mato alto, um portão meio tombado e dentro do prédio depredado, muito entulho e lixo. Ainda assim, entramos para dar uma olhada. Era bem grande e após vasculharmos tudo, encontramos uma cela que estava praticamente limpa e com vidros em quase todas as janelas. Fizemos uma rápida limpeza no chão e trouxemos toda nossa equipagem para dentro. Tinha um espaço ótimo para nós todos.

Depois da faxina, fomos fazer nosso jantar e ficamos jugando conversa fora enquanto do lado de fora o clima só piorava. Muito vento, frio e chuva intensa. Aquela noite na cadeia foi a melhor decisão, pois se tivéssemos acampado selvagem ou mesmo no camping pago, não teríamos tido uma noite tão tranquila e seca.

25 de novembro

O dia amanheceu mais uma vez com céu cor de chumbo e a previsão climática era de mais chuva. Mesmo assim decidimos ir em frente, pois não estava no plano de nenhum de nós, ficar mais um dia na prisão abandonada.

Tomamos café, montamos as bicicletas e vestimos as roupas de chuva para encarar o dia que indicava ser bastante dureza devido ao clima.

Saímos de El Chaitén por volta das 10 horas da manhã ainda sem chuva, e também para nossa sorte, com um bom asfalto para pedalar.

A moleza durou pouco e não demorou muito para começar a chover. Não uma tormenta como na noite anterior, mas uma chuva moderada e intermitente, o suficiente para molhar tudo com o passar do tempo pedalando. A água sempre encontra um modo de ir infiltrando para dentro da roupa.

Antes de dar a parada para comer, enquanto pedalava na chuva, encontrei parados em um ponto de ônibus, uma dupla de brasileiros. Eram a Rosangela Ludwig e o Guilherme. Uma rápida apresentação seguida de um papo igualmente rápido onde nós combinamos de nos vermos pela estrada ou em algum dos pontos de acampamento pelo caminho. Chovia muito e fazia frio naquele momento.

Ao meio-dia, ao encontrar um pequeno povoado e uma parada de ônibus coberta, parei para esperar meus amigos para nosso lanche de meio-dia e definir até aonde seguiríamos naquele dia. Escolhemos dois lugares possíveis. O primeiro debaixo de uma ponte e o segundo, distante mais 13 quilômetros, uma área de camping desativada da CONAF.

Seguimos em frente com tempo ruim e frio. Ao chegarmos na ponte onde era possível acampar debaixo, encontramos novamente com a dupla de brasileiros que já estavam por lá com suas barracas montadas e tentando secar as roupas. Meus amigos franceses também resolveram ficar por lá devido ao cansaço e a chuva. Eu, ao ver o lugar e não gostar devido ao fato de ter pouca área coberta e abrigada do vento, decidi arriscar e seguir em frente mais uma hora de pedal na chuva. Apostei que no camping desativado da CONAF eu acharia alguma área coberta melhor para acampar. Segui em frente, todo molhado e tremendo de frio.

Enquanto fazia um esforço final para alcançar o camping da CONAF, a chuva e o frio aumentaram bastante. E para tentar manter o corpo mínimamente aquecido e chegar logo, eu procurava manter um ritmo mais forte embora já estivesse cansado. Considero que tive sorte nesse trecho, o asfalto estava ótimo e praticamente não tinha nenhuma subida pesada. 

Em pouco mais de meia-hora de pedal, avistei uma porteira e uma estradinha de terra e ao fundo um bosque com alguns bancos e mesas. Da minha posição na rodovia, não dava para ver mais do que isso. Chequei até a pensar que tinha feito uma má escolha em não ter ficado na ponte com os outros. Decidi então descer a estradinha e após percorrer uns 100 metros, avistei um quiosque grandão. Ufa! Estava salvo.

Corri para debaixo do quiosque e tratei de trocar de roupa para não correr o risco de ficar com hipotermia ou pegar um resfriado. Após isso, montei a barraca e fui preparar algo para comer. Estava muito satisfeito por ter acertado na decisão. Ali no quiosque, por mais que ventasse ou chovesse, minha barraca e equipamentos estariam seguros e secos.

No dia seguinte. por conta da chuva que não cessava, fiquei ali parado no quiosque, matando o tempo, comendo, secando a roupa e vendo a chuva caindo no bosque. Um cenario bucólico e tranquilo onde a trilha sonora era apenas o barulho da chuva caindo.

27 de novembro

O clima continuava ruim porém eu não queria de maneira nenhuma seguir parado ali onde estava, então me preparei para encarar novamente um pedal na chuva.

Para este dia, queria apenas chegar até a Villa Santa Lúcia, diste apenas 16 quilômetros, pois chegando lá, encontraria lugar para acampar, tomar uma ducha quente e comprar comida.

Subi a íngreme estradinha de terra até a rodovia empurrando a bicicleta e sabia que embora o pedal fosse curto neste dia, teria que encarar uma subida longa que somou 9 quilômetros na chuva. Foi dureza.

Depois da interminável e exaustiva subida, começaram os sete quilômetros de descida até a vila, e agora com um vento congelante contra que não permitia desenvolver uma velocidade maior. Esse foi o momento onde até então, encarei o pior frio da viagem.

Cheguei completamente encharcado e congelado na Villa Santa Lucia. Fui direto até o único camping que existe no povoado onde antes de qualquer coisa, tomei uma ducha quente para reestabelecer a temperatura corporal e colocar uma roupa seca. Depois montei a barraca no abrigo e fui comer. Não era nem meio-dia.

Enquanto preparava meu almoço, escutei alguém me chamando. Era a Nathalie, na janela de uma cabana ao lado do camping. A família de franceses estava ali também.

Depois almoçar, fui até a cabana para conversar coma turma. Eles me contaram que a noite na ponte tinha sido horrível devido a chuva e o vento ( exatamente como eu tinha imaginado), e que estavam ali na cabana desde o dia anterior secando roupa e tentando se aquecer. Também me convidaram para ficar ali na cabana, mas eu já tinha montado meu acampamento. Agradeci pela consideração e deixei com eles minhas roupas e o par de botas para secar na calefação da casa. Combinamos que na noite jantaríamos juntos na cabana.

Durante o jantar, verificamos a previsão do clima e o vento, bem como o relevo do trajeto e decidimos ficar parados mais um dia. A situação estava muito complicada. Havia previsão de muita chuva para as próximas 48 horas.

29 de novembro

Após dois dias parados por causa das fortes chuvas, o dia amanhecera bastante nublado e com um chuvisqueiro leve. Tomei meu café da manhã e fui conversar com meus amigos e decidimos encarar a estrada até La Junta, distante 68 quilômetros dali.

Iniciamos o pedal com uma garoa fraca que, para nossa sorte, com o passar das horas ao longo do caminho, parou por completo e com isso, conseguimos chegar secos em La Junta. Aleluias!

No final do dia, até tivemos a presença um pouco tímida do sol, que depois de tanta chuva, era um verdadeiro presente do céu.

30 de novembro

Finalmente uma noite sem chuvas e um amanhecer com cara de que o clima iria melhorar, depois de uma longa sequencia de dias de muita chuva.

O plano de voo era seguirmos até Puyuhuapi e chegando lá, ir para o camping Adhonai que é famoso entre os cicloviajantes. Fama conquistada por ter um enorme galpão fechado com fogão a lenha, ótimas duchas, cozinha completa e serviço de lavanderia grátis para quem viaja de bicicleta. Tudo isso com o atendimento amigável e atencioso de Violeta, a proprietária. Um paraíso!

Neste dia o pedal foi tranquilo e ao chegar no camping para montar minha barraca, encontrei uma dupla te italianos. Eram Lucas e Raffaele, que também estavam viajando de bicicleta e  passando por muitas dificuldades. Ambos estavam com as bicicletas totalmente sem freios. Eu vendo que ambas as bicicletas usavam freios v-brake, ofereci uma ajuda para tentar ao menos dar um reajuste de maneira que fosse possível para eles terem alguma condição de frenagem.

Mexi primeiro na bicicleta do Lucas e tivemos sorte. Bastou reposicionar as sapatas dos freios e dar uma esticada nos cabos. O Lucas, como todo italiano gente boa, após testar os freios, voltou eufórico, me abraçava e agradecia dizendo o tempo todo que eu tinha salvado a vida dele... Foi muito engraçado.

Depois foi a vez da bicicleta do Raffaele, que por sua vez, tinha sapatas de freios novas guardadas. Fizemos a substituição e tudo voltou a funcionar bem. Para comemorar, ficamos o resto da tarde tomando cerveja, rindo e conversando!

No dia seguinte, nosso grupo se dividiu novamente. Eu resolvi ficar e aproveitar o dia de sol para lavar roupa e curtir um ócio no camping. Meus amigos franceses seguiram em frente e combinamos de nos reencontrarmos em mais alguns dias pelo caminho.

02 de dezembro

Amanheceu um dia lindo e sem demora e bem descansado tratei de começar a pedalar. O asfalto logo sumiu debaixo das rodas da bicicleta, dando lugar ao rípio esburacado.

Se por um lado a estrada estava ruim para pedalar por causa da buraqueira, por outro, o visual das montanhas, dos fiordes chilenos e a cor do mar tornavam o pedal um espetáculo fantástico.

Minha ideia inicial para a próxima parada seria o Ventisquero Colgante. Acampar por lá e fazer a trilha para conhecer o parque. Cheguei cedo e com tempo para tanto, mas na tarde o céu fechou e tudo indicava que viria mais chuva com o passar das horas. Apressei  em montar a minha barraca dentro de um pequeno abrigo coberto e bem protegido do vento. Estava meio traumatizado com os dias de chuva.

No final das contas, acabei não indo fazer a trilha. Fiquei em meu acampamento preparando algo para comer e conversando com alguns mochileiros que estavam por ali.

03 de dezembro

Amanhecera um dia lindo e com frio ameno. A chuva que estava prevista para a noite, não aconteceu. Segui a minha rotina, caféda manhã, desmontar acampamento e às 10 horas já estava pedalando na Ruta 7.

As belezas do caminho mais uma vez davam um show para ninguém botar defeito. As florestas do parque nacional, o Rio Queulat e suas corredeiras selvagens... Tudo lindo demais.

Ainda neste dia, enfrentaria o desafio de ter que subir todo um passo de montanha durante o percurso. Uma subida íngreme e sinuosa de cinco quilômetros no rípio, que para ser vencida com a bicicleta pesada, deve-se usar marcha reduzida no câmbio e a velha estratégia “Martinho da Vila”, na base do “é devagar, é devagar, devagarinho”.

Gastei uma hora para fazer os cinco quilômetros de subida e quando cheguei no ponto mais alto, fiz uma parada para comer, descansar e dar uma lagarteada ao sol. Estava muito feliz comigo mesmo por ter vencido o desafio do dia.

Depois disto, ao retomar o pedal, enfrentei uma descida igualmente forte onde mesmo usando os freios, a bicicleta ganhava velocidade. Foi um momento de muito cuidado e adrenalina pura. Um downhill sinistro morro abaixo. Kkk

Assim que a descida acabou as coisas acalmaram e novamente encontrava o asfalto e sem muito dificuldades ou esforço, eu chegava no meu destino do dia que era o pequenino povoado de Villa Amengual onde me hospedei no Refúgio para Ciclistas.

04 de dezembro

Mais uma vez o clima estava perfeito para pedalar, sol e temperatura agradável. Em dias assim a experiência de rodar na Carretera Austral é realmente algo fantástico.

A primavera na região se encarrega de deixar praticamente todo o caminho florido. São margaridas brancas e amarelas nos acostamentos da estrada e muitos lupinos pelos campos. Uma beleza cênica digna de um cartão postal ou daqueles documentários ao estilo National Geographic.

Segui meu caminho sem maiores problemas até Villa Maniguales onde mais uma vez, fiquei em um camping pago.

05 de dezembro

Um dia muito esperado. Dentro da minha visão da Carretera Austral, estaria eu completando a primeira metade do percurso da Carretera Austral quando chegasse em Coyhaique.

Coyhaique é a última cidade grande para quem está percorrendo a Carretera Austral do norte para o sul.

O clima estava ótimo para pedalar e toquei num ritmo rápido até um determinado ponto onde a estrada tem uma bifurcação que faz necessária uma escolha. Seguir a Ruta 7, por um caminho mais curto, porém todo de rípio. Ou então, seguir pelo asfalto, seguindo pela Ruta X-50 e depois entrando na Ruta 240, tendo um acréscimo de quase cinquenta quilômetros no trecho até Coyhaique. Essa última, é a opção que a larga maioria escolhe para o trecho. MAs como eu não sou a maioria... kkk

Obstinado e teimoso, eu estava ali para fazer a Ruta 7 e assim foi feito. Sem dar muita atenção para a sedução do asfalto, segui em frente, deixando todo o movimento de veículos para trás e encarando um sobe e desce bastante sinuoso sem pavimento algum. Em muitas partes da estrada, a largura da pista dava para passar apenas um veículo de cada vez. Um autentico trecho roots da velha Carretera Austral.

Enquanto pedalava, a paisagem por dentro do vale me distraia e ajudava para passar o tempo, uma vez que não era possível andar rápido, dada a condição precária daquele setor. Era muita pedra solta, buracos e valas.

Seguindo em frente comecei a cruzar com tratores e caminhões e não demorou muito para encontrar placas sinalizando que a estrada estava em obras. Isso só piorou ainda mais a coisa para o meu lado, pois agora, a estrada era uma pista de cascalhos soltos de todos os tamanhos. Mais uma vez lá estava eu enfrentando um terrível rali sem pódio de chegada.

Já no meio da tarde, cansado e com fome, ao encontrar uma parada de ônibus coberta, decidi fazer uma parada para comer e descansar. Ainda restavam por volta de vinte quilômetros para chegar à cidade.  Nesse mesmo instante uma camionete 4x4 que passava, parou e deu marcha à ré, parou e de dentro, uma senhora me chamou.

Perguntando se eu estava bem, e tendo a resposta afirmativa, ela me falou que daquele ponto para frente a coisa só iria piorar e que se eu quisesse, me levaria até a cidade. Tomei aquilo como um sinal dos céus, e na mesma hora, concordei com ela. Não queria pagar para ver o que era pior do que aquilo que eu tinha enfrentado até então.

Embarquei a bicicleta na parte de trás da camionete e me sentei confortavelmente no banco de passageiros e fomos rapidamente para a cidade. A mudança de cenário foi tão rápida que me senti como se tivesse sido tele transportado.

Chegando em Coyhaique, fui direto para o camping que dias atrás, tinha comentando com meus amigos franceses e chegando lá, para minha surpresa, além deles, a dupla de italianos também estavam acampados por lá. Foi um reencontro muito divertido e animado.

Na noite, reunimos todos no refeitório do camping e juntos com outros aventureiros, ficamos comendo, bebendo, contando os causos e rindo muito dos perrengues que cada um contava.

Ainda ficamos mais dois dias parados em Coyhaique para descansar, comprar comida, gás e ajustar as bicicletas para seguir em frente e iniciar o trecho mais difícil da Carretera Austral até Villa O’Higgis.

Continua...

Edson Maia
Edson Maia

Published on 04/05/2020 11:47

Performed from 11/21/2019 to 12/22/2019

Views

426

2
Luis Alves
Luis Alves 04/14/2020 07:33

Ótimo relato! Muitas informações e obrigado por compartilhar!

Alberto Farber
Alberto Farber 04/17/2020 10:27

MASSA!!

Edson Maia

Edson Maia

Imbituba - SC

Rox
1196

Um pouco cigarra. Um pouco formiga. Não necessariamente nesta ordem. Instagram: @edee_maia

Adventures Map
www.trekkingrs.com/ciclotrekking

3 Posts

Edson Maia Review: kit de utensílios Stanley Prep + Cook Set
Edson Maia Review Segunda Pele Essential Merino Crew – Solo
Edson Maia O Homem Livre - Dica de Leitura

2540 Following



Minimum Impact
Manifesto
Rox

Bruna Fávaro, Ana Retore and 292 others support the Minimum Impact Manifest


Together
Inclusive Adventures
Rox

Renan Cavichi, Bruno Negreiros and 69 others support the Together page.