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Serra Fina ou Marins-Itaguaré: qual é mais difícil?
Muitos têm a travessia da Serra Fina como a mais difícil do Brasil. Opino, porém, que a vizinha Marins-Itaguaré é mais difícil.
Trekking Acampamento MontanhismoTravessia Marins-Itaguaré
Entre trilheiros circula a lenda de que a Serra Fina é a travessia mais difícil do Brasil. Discordo. A meros 20 quilômetros dali está uma travessia mais difícil, a Marins-Itaguaré. Fiz ambas. Gastei os mesmos dois dias para uma e para outra. Levei os mesmos 12 kg de carga. No entanto, despendi muito mais energia física na Marins-Itaguaré do que na Serra Fina.
O nome Serra Fina foi bem escolhido. As cúspides dos divisores de água muitas vezes são bem finas.
É bem verdade que quando fiz a Serra Fina eu tinha apenas 68 anos e quando fiz a Marins-Itaguaré eu já havia passado dos 70. Contudo, esta diferença de dois anos não pode ser tão grande que me levasse a confundir o enfraquecimento natural da idade com o nível de dificuldade da trilha.
Outra diferença: a Serra Fina, fiz solo, no inverno. Marins-Itaguaré fiz com um grupo, na primavera. O clima estava diferente. Na Serra Fina o frio era congelante, mas na Marins-Itaguaré chovia e fazia calor.
Quanto às dificuldades, para começar, na Serra Fina não há mais do que um ou dois lugares em que precisamos usar brevemente as mãos para vencer alguma passagem mais íngreme. Já na Marins-Itaguaré, são vários trechos. Alguns verticais ou quase verticais que exigem trabalho forte e harmônico de braços e pernas. Para vencê-los, só com escalada.
Além disto, há muitas descidas fortes que maltratam o joelho e exigem muita atenção. Uma escorregadela pode nos levar ao precipício. A musculatura da coxa sofre.
Há um trecho que se transpõe com corda. Até dá para fazer sem corda, mas não vale nem o risco nem o dispêndio de energia.
Na Marins-Itaguaré há paredões sem equivalente na Serra Fina.
Na Serra Fina as subidas mais exigentes são o Capim Amarelo e a Pedra da Mina, já na Marins-Itaguaré há várias subidas exigentes. O Marinzinho, por exemplo, exige um esforço mais árduo do que a Pedra da Mina. A ascensão se faz por trilha estreita que se contorce entre pedras. O piso é irregular e os degraus são altos – metro ou mais. Portanto, exige muito dos braços e das coxas.
Também são muito exaustivos os três quilômetros finais. É descida contínua, mas as pedras, as raízes, os degraus elevados e o perigo constante de escorregar impõem uma carga enorme nos músculos das pernas e exigem atenção redobrada para não cair.
Enfim, no somatório, se eu desse dificuldade 10 para a travessia Marins-Itaguaré, eu teria que dar 8 para a Travessia Serra Fina.
O Pico dos Marins é uma rocha e a subida é pelo paredão. Já na Serra Fina, as subidas são geralmente em terra. A subida ao Pico da Mina é praticamente todo em barro preto, turfoso.
Beleza
As duas travessias são lindas. Mesmo assim, confesso que a Serra Fina me deixou mais deslumbrado. Talvez porque lá tive tempo firme, com céu claro e vista ampla e límpida. No nascer e no por do sol, o céu caprichou nas cores e na decoração com nuvens iridescentes.
Onipresente, a beleza nos toca a cada olhar.
Na Marins-Itaguaré o tempo estava chuvoso. Chuva fraca mas continuada, intercalada por momentos de céu aberto. As nuvens baixas quase sempre cobriam tudo. Formavam como que colchões de algodão e podiam tomar feições fantasmagóricas, mas eram sempre majestosas. Quando contidas nos contrafortes de algum morro o panorama se abria claro de um lado e se transformava num tapete brumoso do outro.
Na Mantiqueira nefelibata não é só uma palavra incomum nem mera expressão lietrária, é uma realidade.
Ambos os cenários nos emocionam, mas não são causa para surpresa. Afinal, estamos falando da Mantiqueira. Onde quer que estejamos nela, qualquer que seja a estação, a beleza extravasa por todos os poros da serra que chora, comove e arrebata.
Água
É lenda que a Serra Fina é a travessia mais difícil do Brasil. É também lenda que há enorme escassez de água nas travessias Serra Fina e Marins-Itaguaré. A água não é abundante, é certo. Ela não jorra de todas as pedras e não há rios e riachos acessíveis por todos os lados. No entanto, está longe de ser tão escassa como se ouve por aí. Com prudência e comedimento, há água suficiente para se fazer uma travessia tranquila. Ninguém precisa carregar cinco litros d’água por medo de morrer de sede. Não precisa e não deve, porque tanta água só faz nos atrasar e tornar nossa caminhada menos agradável.
Planejamento sobre carta topográfica: por onde seguir, onde há água, onde há lugar bom para acampar. O planejamento permite reduzir riscos e oferece alternativas caso ocorra alguma emergência. As cartas topográficas, por si só, já são um instrumento relevante.
Mas, entre as duas, a Serra Fina tem mais pontos de água perene. O que é melhor: eles estão mais bem distribuídos ao longo da trilha. Contudo, em nenhuma das duas travessias precisamos levar mais do que dois litros de água de cada vez. Mesmo os mais cautelosos e os mais medrosos não precisam arcar com três litros ou mais. Os experientes que são mais rápidos e gostam de mais leveza, quase sempre poderão se contentar com um litro de reserva.
No entanto, o que vi foi muita gente se esfalfando sob o peso de quatro, cinco e até oito litros de água. Na Serra Fina vi gente subindo a Pedra da Mina com seis litros. É muita água e muito peso. Se mais não fosse, porque há água cristalina, abundante e acessível no pé do morro tanto para quem sobe quanto para quem desce.
Não sei você, mas eu não preciso de mais do que meio litro de água para fazer o desjejum e outro meio litro para fazer uma refeição completa. Preciso de outro litro ou dois para me dessedentar ao longo do ai. Assim, usando com cuidado, varo o dia com dois litros, mas me sinto mais confortável com três. Claro, lavar mãos e rosto, tomar banho, lavar roupa, só quando estou ao lado da fonte. A água que carrego é para beber e preparar comida.
Na Marins-Itaguaré as fontes perenes são mais escassas do que na Serra Fina. A distribuição também é pior. Isto exige um planejamento melhor. Mas, como na época que fui estava chovendo, não me preocupei com isto. Numa emergência eu poderia coletar água diretamente da chuva, das poças e até do capim molhado. No entanto, nada disto foi necessário. Saí com três litros do Refúgio Marins e ela durou até a manhã do segundo dia. Deu para o desjejum e para o início da caminhada. No segundo dia não almocei, embora tenhamos chegado ao destino por volta das três da tarde. Com isto eu poderia ter vencido o segundo dia sem mais água. Mas, logo de manhã ganhei um litro de um companheiro que levou água em demasia. Precisando se livrar do peso desnecessário, mas com pena de jogar fora, ele me deu de presente.
De qualquer sorte, a parte final da travessia Marins-Itaguaré segue ao longo de riacho e água não é um problema.
Nos dois dias, consumi quatro litros. O último gole tomei enquanto esperava a condução que nos levaria de volta a Marmelópolis.
Prefiro (e preciso) andar leve, por isto dispenso qualquer excesso de água. Mas isto não significa que eu não coloque a hidratação na mais alta prioridade. Quando se trata de água, nunca é excessivo repetir: tenha o suficiente. Informe-se sobre as fontes perenes, pense em alternativas e saiba usar com inteligência. Além disto, jamais se esqueça: água de trilha — mesmo que de fonte borbulhante e riacho corrente e cristalino — é sempre suspeita. Antes de beber, trate com iodo, com cloro, com fervura. Diarreia não tem graça e pode matar muito mais rapidamente do que a própria sede.
Prepare-se para os imprevistos
Não tive imprevistos em nenhuma das duas travessias. Aliás, na Serra Fina peguei a trilha errada por duas vezes. O primeiro erro me custou uns 15 minutos e algumas calorias para subir de volta o paredão que desci errado. O segundo me custou umas duas horas. Primeiro, para eu descobrir que estava fora da trilha, depois para conseguir voltar à trilha correta.
Na montanha é bom levar um par de cajados. É peso a mais, mas ajuda muito na transposição de trechos que sacrificam o joelho, seja subindo ou descendo.
Nas duas travessias larguei com 12 quilos — contando com a água. Para mim, é muito. Prefiro menos. Mas, na Marins-Itaguaré meus companheiros estavam bem supridos. Supridos demais, eu diria. Ou seja, excesso de peso provocado por muita comida, muita água, muito gás, muitos petrechos de cozinha.
Mas, como são jovens, robustos e bem treinados, conseguem arcar com esta carga toda de 15 e até 18 ou 20 quilos. Mas não precisavam. Acho até que não deviam. No final da trilha, quando sobra muita água e muita comida, é sinal de falta de planejamento.
Meu ideal é partir com mochila de 10 quilos. Nas montanhas não consigo, pois sou mais precavido. Não sei se chove, não sei se venta, não sei se faz frio. A montanha nos prega peças. Então, mesmo no inverno levo poncho para chuva, roupa impermeável e barraca que resiste a temporais. Mesmo no verão levo agasalho. Esta prudência aumenta o peso na mochila.
Acima eu disse que não houve imprevistos, mas me lembrei que houve sim. Não na trilha, mas depois dela, no resgate.
O resgate se tornou uma operação mais demorada e mais complexa do que deveria. Primeiro, porque a chuva havia tornado a estrada quase intransitável. Segundo, porque o primeiro veículo que nos pegou foi uma caminhonete com caçamba aberta porque a van não chegava ao ponto do resgate. Terceiro, porque após sermos transferidos para a van, ela pifou.
Na caminhonete, acomodados precariamente na caçamba, tomamos um banho de chuva e de lama.
Baldeados para a van, a primeira coisa que tivemos que fazer foi empurrá-la para pegar no tranco. Ela não tinha bateria. Mas, depois disto, deslizando na lama, descemos uma longa encosta. Quando começou a subida na outra vertente, kaput!
Tivemos que esperar o resgate do resgate. Mesmo assim, nada que nos roubasse o bom humor.
Já anoitecendo um terceiro carro me deixou de volta no Refúgio Marins. Um quarto carro deixou meus companheiros de travessia na pousada em Marmelópolis.
Na Serra Fina o frio pode ser extremo com formação de gelo em alguns pontos.
Missão cumprida. Agora tínhamos que pegar o caminho de casa. Mais 500 quilômetros.
Montanha não é lugar para irresponsáveis como vimos acontecer recentemente no Marins, quando um coach abestalhado achou que podia vencer obstáculos com palavras de livros de autoajuda. Ele não colocou somente sua própria vida em risco, colocou também a vida de várias dezenas de pessoas que não tinham a menor noção do que é subir montanhas.
Nas montanhas sempre há riscos. Por isto o preparo, a cautela e a prudência devem prevalecer. Mas isto não significa que só jovens bombados podem fazer travessias e desfrutar das suas belezas e dos seus encantos. Qualquer um pode, desde que planeje e desde que reconheça suas próprias limitações e aja de acordo com elas.
Respeitando suas próprias limitações e seguindo as recomendações aplicáveis, qualquer pessoa bem-disposta pode fazer a Serra Fina e a Marins-Itaguaré em dois dias. Os menos preparados farão em três sem perrengues.
Mas há uma coisa que tenho por certa: é melhor fazer a Serra Fina como preparação da Marins-Itaguaré, não o contrário. A despeito das lendas e fábulas que cercam a travessia da Serra Fina, a Marins-Itaguaré exige mais preparo físico. Mas, ambas valem a pena.
Vá, faça ambas as travessia. Se você não for, não sabe o que está perdendo. Se for, boa travessia!
Final de novembro não é a melhor época para fazer travessias na Mantiqueira. Chove muito. Mesmo assim, não tivemos grandes perrengues por causa dela. Só ficou um pouco mais difícil montar a barraca quando a primeira jornada terminou e a chuva decidiu cair antes de termos podido completar a tarefa. Depois de montar a barraca e tirar a água que ficou no piso, problema resolvido e uma excelente noite de sono. (Na imagem, as garrafas onde levo os três litros de água do dia. As garrafas PET são mais leves do que as caramanholas. Carregá-las no peito ajuda a equilibrar o peso da mochila, é fácil para beber e permite manter controle da quantidade de água que ainda temos. Facilita o reabastecimento também.)
Companheiros de travessia na Marins-Itaguaré:
Marcos Libério dos Santos
Washington Lirou
Msis dificeis do Brasil? Isto é bem relativo...Mais difíceis de SP pode ser.
Concordo, Peter. Mais difícil é sempre relativo por razões objetivas e subjetivas. No entanto, muitos relatos apresentam a Serra Fina como a travessia mais difícil do Brasil. Como não conheço todas as travessias do Brasil, não tenho como comparar todas. No caso específico, só estou comparando Marins-Itaguaré com Serra Fina. Neste caso tenho a convicção firme de que a Marins-Itaguaré é mais difícil (por consequência, estou discordando da afirmação de que a Serra Fina seja a mais difícil). O certo é que o clima, as companhias, o preparo físico, as escolhas feitas podem nos dar diferentes sensações de dificuldade.