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Do Capão Grosso ao Catingueiro

Do Capão Grosso ao Catingueiro

O desfile do Cerrado na temporada das águas

Trekking

Um preâmbulo sobre as condições atmosféricas é sempre necessário. Afinal, o que há na terra que não seja regido pelo tempo? Naquele ano o carnaval desfilou com nuvens carregadas, antecipando o recorde de precipitação que viria nas semanas seguintes. Um início de ano chuvoso inundava continuamente os cerrados do centro-oeste, remexendo as águas com violencia e trazendo consigo quantidade impressionante de raios. Mesmo assim, confiando em pequenos veraneios, prosseguimos com uma incrível travessia de 40km.

O Capão Grosso era o ponto de partida. Dali em diante, campos limpos e sujos alternariam-se por razoável distância, iluminados por um sol intermitente e coloridos por dezenas de tons esverdeados. No horizonte sempre intangível, morros tocavam as nuvens numa linda composição enigmática... um estorvo lembrando-nos de que em breve as coisas poderiam piorar.

Esses cerrados desprovidos de extrato arbóreo, os campos do cerrado, são em geral fáceis de vencer. Mas as chuvas insistentes criaram espelhos d'água sobre áreas de solo saturado e infestado de vegetação rasteira. Resultaram em um chão arredio e notoriamente perigoso: caminhávamos com os pés tateando um emaranhado suspenso de capim, sempre cuidadosos para não enfiá-los num buraco traiçoeiro. Ocasionalmente, a vegetação rasteira desaparecia e dava lugar aos lamaçais, ora cobertos por uma espécie de musgo, ora disfarçados de estruturas rochosas sólidas (chegamos a literalmente atolar numa dessas).

Com o passar das horas, o horizonte foi se aproximando. Os morros suaves - não tão suaves assim - marcavam a transição para um cerrado rupestre, de aflorações rochosas, cidadelas de animais rastejantes e insetos venenosos. Eventualmente topamos com uma jovem Cascavél, inaugurando o sinal de alerta que perduraria por muito tempo... um lembrete de que nada poderia dar errado por ali, longe de qualquer ajuda.

Do alto do primeiro morro tivemos a visão de um enorme vale retalhado pela sombra das nuvens. Uma vista poderosa, desobstruída o suficiente para ter noção espacial e do arranjo das coisas: o encontro de dois rios; a largura das matas ciliares; o vale terminando nos morros que marcavam a borda do chapadão. Era possível visualizar inclusive as redondezas do leito que, sabíamos de ante-mão, conteria pequenas cachoeiras, mas que não seriam alcançadas devido ao mal tempo que se aproximava. A prudência exigiu a busca por abrigo. Logo desceram as chuvas, descemos nós.

Lá em baixo mais algumas porções de charco e a travessia de dois leitos. O último córrego - escuro, manso, avermelhado e de frieza ultrajante - evocou sensações diversas, mas convergentes em idéias fúnebres. Como se estive ali, estirado há séculos, intocado, quase morto, ainda que sob a superfície borbulhasse vida. Abrindo espaço pelo corredor curto de sua mata ciliar, planícies consistentes voltavam à cena. Um bom local para se passar a noite.

Aliás, noite escura por lá. Só era interrompida por relâmpagos distantes e assustadoramente frequentes. Colocavam o sono numa espécie de limbo, numa linha tênue. Estranho sonho. A criança brincava com o interruptor do quarto. Estaríamos seguros naqueles vastos planos?

No dia seguinte, campos sujos e limpos voltaram a se intercalar até que finalmente uma serra mais incorpada surgiu. Do alto dava para ver tempestades indo e voltando. O caminho tornou-se bem mais complicado. Rochas escorregadias, interrompidas por matagal, eram presenças constantes. Para fugir delas e ter acesso ao vale que antecedia o chapadão, foi preciso andar em uma grota larga, comprida e de vegetação densa. Em alguns trechos o capinzal chegava facilmente aos 2 metros de altura, escondendo valas enormes abaixo.

O último trecho da travessia coincidiu com a descida de uma serra bastante imponente. Tudo parecia estar abaixo dela. Formações rochosas estavam por toda parte. Alguns córregos de chuva vertiam formando cachoeiras temporárias. Sabíamos da existência de algumas cachoeiras permanentes nas redondezas, mas a complexidade da descida não permitiu explorações maiores na região.

Naturalmente, a vegetação densificou-se com o abaixamento da altitude. De modo que o maior problema com a descida não foi a inclinação do caminho, mas a floresta que durou horas para ser vencida. A falta de vento, os tropeços e os mosquitos combinaram-se para tornar o processo enfadonho. E ainda que tudo indicasse um caminho suave, havia o medo velado de subitamente encontrar penhascos intransponíveis. Mas eventualmente chegamos na base e acessamos o rio que marcaria os finalmentes da travessia. Estávamos alagados de felicidade. Alguns quilômetros em trilhas e estradas pouquíssimamente usadas nos separavam da fazenda de resgate.

Chegava ao fim a Travessia Capão Grosso - Catingueiro.

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Priscila Nascimento
Priscila Nascimento 05/29/2019 14:50

Muito bom

Guilherme Alexsander

Guilherme Alexsander

Brasília - DF

Rox
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Uma vida a caçar trilhas, ampliar horizontes e empreender (mesmo que nunca dê certo). Sempre conduzindo o projeto da minha vida: o Trilhas Perdidas!

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