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Rota do Descobrimento

Rota do Descobrimento

500 anos sob os pés

Vindo das terras secas do Centro-Oeste, desembarcar na umidade de Porto Seguro é um tanto impactante. O ar é mais denso, o calor mais íntimo. Fora de sua jurisdição, o vento não trabalha nas ruas estreitas e coloridas da cidade. Recepção calorosa típica da Bahia.

O litoral baiano tem umas divisões interessantes, que remetem a assuntos peculiares de cada região. Por exemplo, a cidade de Ilhéus está contida na Costa do Cacau - e se você já visitou a região, deve ter ouvido falar de fazendas antigas de plantação de cacau ou de algumas lojas de chocolate caseiro. E uma dessas divisões chama-se Costa do Descobrimento, que ostenta o título de primeira região a ser avistada/tocada por Pedro Álvares Cabral e que abriga a movimentada Porto Seguro.

A Rota do Descobrimento interliga as cidades de Porto Seguro e Prado, ambas no sul da Bahia. São múltiplos dias para percorrer uma distância que gira em torno dos 100km, nas areias claras de um litoral dominado por falésias e mares coloridos.

Apesar de ser fácil, percorrer a trilha do Descobrimento requer um mínimo de planejamento. E começando com o clima, é importante entender que as chuvas por lá são bem distribuídas ao longo do ano e que o sol é figura imponente. Mesmo nos meses mais chuvosos, o sol dá as caras de vez em quando. Mas é preciso notar o seguinte detalhe: agosto e setembro são historicamente os meses com menos precipitação; no entanto, essa época coincide com uma turbulência de ventos na região. Não raramente, dias inteiros serão dominados por ventos relativamente fortes e constantes, trazendo instabilidade (chuvas rápidas) e um pouco de frio. O período de janeiro a março chove mais, só que os ventos diminuem e intervalos prolongados de sol acabam dando cores mais firmes ao mar.

O segundo ponto de planejamento é quanto aos horários de caminhada. Vários trechos são cobertos pela água na maré cheia, especialmente nos incontáveis trechos de falésias que se espalham pelo caminho. Observar a tábua das marés é essencial.

Partindo de Arraiá D'Ajuda - Praia do Mucugê

Partir de Arraiá D'Ajuda, distrito de Porto, é melhor para não precisar pegar a balsa do Rio Buranhém antes de iniciar a caminhada. E a probabilidade é que a primeira praia seja a do Mucugê.

Praia de águas bonitas, mas lotada de visitantes e barraquinhas. Com a maré subindo, você vai sendo empurrado para as centenas de cadeiras e mesas que se espalham pela areia.

Praia da Pitinga, Lagoa Azul, Taipe e Rio da Barra

São lugares mais distantes, mais bonitos e menos tumultuados. Precedem as praias de Trancoso. Taipe e Rio da Barra são lugares bonitos e entre eles é necessário atravessar, em maré baixa, uma pequena encosta de pedras.

Trancoso - Praia dos Nativos e Coqueiros

Chega-se em Trancoso após algumas horas de caminhada. A primeira praia é a dos Nativos, com várias barraquinhas e bem movimentada. Ela antecede a praia dos Coqueiros, que é indiscutivelmente bonita, principalmente se observada do alto da Praça do Quadrado. O mar assume tons de verde impressionantes. Mas ela também é muito frequentada.

Falando de Trancoso, é um distrito famoso e um tanto caro, principalmente nas redondezas da praça do quadrado. Alguns dizem que Cabral primeiramente pisou logo ali, no Rio dos Frades. Mas não é consenso, conforme veremos ainda na distante Barra do Cahy.

A partir da praia dos Coqueiros, tudo fica mais solitário. O trecho Arraiá - Trancoso ainda é percorrido por muitas pessoas, mas dali em diante quase ninguém se aventura. A praia vai bordeando algumas propriedades até desembocar numa reserva.

Reserva do Rio dos Frades

A movimentação vai ficando para trás. Uma praia com restinga bem preservada começa a acompanhar o mar. É a Reserva do Rio dos Frades. Ela termina na ponta onde o Rio dos Frades encontra o mar. Vale a pena pernoitar nessa região.

Se a maré estiver baixa, é possível atravessar facilmente o rio (com água no máximo até a cintura). Caso contrário, terá que esperar ela recuar ou então conseguir a travessia com algum canoeiro (tenha algum dinheiro em mãos, nesse caso).

Praia de Itaquena, Curuípe e Jacumã

Após o rio, as praias de Itaquena, Curuípe e Jacumã entram em cena. Elas são tão ou mais bonitas que a já famosa Praia do Espelho, principalmente a Itaquena. Nela o mar recuado forma piscinas bonitas e a areia levemente alaranjada dá um bom contraste. Existem algumas casas de veraneio ao longo dessas praias, mas ficam vazias na maior parte do ano.

Praia do Espelho

Considerada uma praia 5 estrelas para alguns, ela é bonita. Mas hoje em dia não é para tanto. Barraquinhas caras e uma visitação a cada dia maior incomodam. Mas ela é de fato bonita, especialmente na maré super baixa.

No final dela, uma ponta de pedras não permite a passagem. Será preciso subir as falésias e pegar uma pequena trilha lá em cima até encontrar uma outra longa praia.

Praia do Satu

Alguns chamam essa praia inteira de Satu, outras denominam Satu apenas a praia imediatemente anterior ao rio Caraíva. De qualquer forma é uma praia bonita e com águas mais claras. Ao chegar no final da Satu, é preciso subir para a vila Caraíva e pegar uma canoa para atravessar o rio.

Caraíva - Praia da Barra (e da Barra Velha)

Caraíva é uma pequena vila com chão de areia fofa (na chuva fica um lamaçal). Hostels, hotéis e bares/restaurantes dominam o lado de lá do rio. Uma breve caminhada separa o fim da vila da praia mais conhecida de lá, a Praia da Barra.

É uma praia bonita, com uma 'duna' salpicada de mesas cobertas por lençóis coloridos. O Rio Caraíva desagua ali e por isso a cor da água tende a ser mais escura, principalmente quando o vento sopra com teimosia.

Depois da Barra, segue o que parece ser denominado por Praia da Barra Velha. Os últimos quilômetros são talvez os mais chatos de toda a travessia, com uma areia super fofa e inclinada. Não há sombras nesse trecho e antes de enfrentá-lo, tome uma água de coco-gigante lá no "Canpe do Fílo".

Ponta do Corumbau

Corumbau é uma vila interessante: águas calmas e de um verde - a depender um pouco da época - espetacular. Lá tem a Ponta do Corumbau, que na maré baixa expõe uma faixa comprida de terra que avança pelo mar. Antes dessa ponta, no entanto, é preciso atravessar de canoa outro rio.

A vila é bem pequena e pouco movimentada na maior parte do ano. Mesmo em alta temporada, a visitação é reduzida. Existem ali algumas pousadas caras e alguns 'pousos' baratos. A primeira barraquinha após o rio permite acampar no segundo andar mediante pagamento de uma quantia a ser acordada com o dono.

Corumbau marca o fim do município de Porto Seguro e o início de Prado. É também o extremo norte da Costa das Baleias: não muito distante da costa, é possível avistar baleias jubarte nadando nas águas quentes do sul baiano.

Se desde Trancoso (tirando Caraíva no meio do caminho) o encontro com pessoas já era difícil, a partir de Corumbau a probabilidade é de realmente não encontrar ninguém. Moradores locais, talvez, mas mesmo assim é difícil. Serão cerca de 28km, passando por várias pontas, falésias e pequenos rios, até Cumuruxatiba. É importante começar a caminhar com a maré ainda recuando.

Barra do Cahy

A Barra do Cahy divide com o Rio dos Frades o título de primeiro lugar a receber os portugueses nos idos de 1500. Dizem que antigamente havia uma cruz por ali; mas hoje encontra-se uma placa moderna explicando a história do local.

Cahy é o nome do rio muito bonito que desagua nessa praia. O mar é muito bom para nadar. E Logo depois do rio uma barraquinha - aberta o ano inteiro - dá uma trégua a quem está caminhando a manhã inteira sob um sol forte. A água de coco é escandalosamente gelada.

Até Cumuruxatiba serão mais 6km. É bom não demorar muito no Cahy para conseguir pegar os próximos trechos em maré baixa, porque muitos trechos dali em diante não são percorríveis em maré alta (pelo menos não seria agradável).

Praia do Imbassuaba e do Moreira

Logo após a Barra do Cahy, os escombros de uma casa chama a atenção. Até 2009 ela era interessante: possuia dois andares e tinha as paredes repletas de garrafas; nos fundos do segundo andar, uma ponte pênsil levava a um casa em cima da falésia. Seja lá quem a construiu, ignorou completamente a força das ondas.

Adiante, uma avenida de árvores mortas também chama a atenção. Mostram o quanto as águas avançam ano após ano.

A praia do Imbassuaba localiza-se no ponto em que o rio Imbassuaba deságua no mar. Se a maré estiver cheia, melhor é subir a falésia e caminhar pela estrada até as primeiras casas das praias do Rio do Peixe (em Cumuruxatiba de fato). Mas se a maré estiver absolutamente baixa, é interessante prosseguir pela encosta, tendo que andar com água até a cintura. Chegará então a ponta do Moreira, que é realmente bonita com o sol a pino e na época certa.

Cumuruxatiba - Praia do Rio do Peixe, do Pier e do Centro

A praia do Rio do Peixe (Grande e Pequeno) marca o início da Cumuruxatiba, pelos menos o início das primeiras casas de vereneio e das pousadas. Praias bonitas, com bastante vegetação e com um mar que pode recuar bastante. Aliás, o nome Cumuruxatiba tem a ver com a diferença entre a maré baixa e a maré alta.

A cor d'água nas praias do rio do peixe nem sempre ficam com cores fortes (mas podem ficar, principalmente no começo do ano), mas nas praias do centro cores intensas quase sempre estão presentes. Sentar nas barraquinhas e observar o mar recuado e multi-color é incrível!

Cumuruxatiba é uma vila razoavelmente bem estruturada, mas assim como Caraíva e Corumbau, não tem caixa eletrônico. No entanto, estabelecimentos passam cartão de débito. Campings, hostels e principalmente pousadas são encontrados com facilidade. Mas a vila recebe ainda pouca visitação na maior parte do ano. Dezembro e Janeiro fica um pouco mais movimentado.

Duas coisas são importantes notar nas praias de Cumuruxatiba: a quantidade de sargaço (alga) e a probabilidade de encontrar restos de animais. Alguns pontos da praia do rio do peixe, quantidade enormes de alga espalham-se pela areia. E de vez em quando é possível encontrar carcaças de baleia, principalmente nos meses de Julho, Agosto e Setembro, quando as Jubartes concentram-se nos arredores.

Praias da Japara Pequena, Japara Grande, Tororão, Paixão, Faról e Nova Prado

Continuando pelo litoral até Prado, depois de Cumuruxatiba praias mais desertas recomeçam. Logo na primeira, chama a atenção a quantidade de objetos de pesca e restos de concreto. É que no alto da falésia, existiam construções que foram aos poucos caindo. Ainda hoje é possível observar lá no alto alguns postes de eletricidade que estão prestes a cair.

Conforme a caminhada prossegue, as praias começam a ficar bem bonitas. No horizonte da costa, inúmeras falésias. Faixas de areia preta (monazíticas) começam a aparecer. As praias da Japara Pequena e Grande são bonitas. O mar é aberto e de cores mais claras. Há uma barraquinha, mas que só abre em alta temporada.

Praias como Tororão, Paixão e Nova Prado vem depois, mais próximas de Prado. As mais distantes são mais interessantes (Tororão e Paixão, por exemplo) e algumas delas possuem barraquinhas que abrem a depender da temporada.

De Cumuruxatiba até Prado, são cerca de 25km. Chega-se no mesmo dia, em geral. É o marco final da Rota do Descobrimento!

Considerações Finais

As distâncias a seguir são aproximadas e sempre relativas ao local anterior da lista (Trancoso é a partir de Arraiá D'Ajuda):

  1. Trancoso: 12km
  2. Praia do Espelho: 17km
  3. Caraíva: 9km
  4. Corumbau: 12km
  5. Cumuruxatiba: 28km
  6. Prado: 25km

Cidades com caixa eletrônico:

  • Arraiá D'Ajuda
  • Trancoso
  • Prado

Travessias de Rio com canoa/balsa:

  1. De Porto Seguro para Arraiá D'Ajuda (Rio Buranhém)
  2. Rio dos Frades (apenas com maré alta ou parcialmente alta)
  3. Rio Caraíva
  4. Rio Corumbau
Guilherme Alexsander
Guilherme Alexsander

Published on 09/22/2018 22:59

Performed from 08/26/2018 to 09/29/2018

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Bruna Fávaro
Bruna Fávaro 09/23/2018 18:24

Muito bom, Guilherme! Tou estudando para ser minha próxima trip! :D

Luís Gustavo Montes
Luís Gustavo Montes 09/24/2018 14:20

Muito bom nobre!! Espero fazer em breve esse trajeto.

Fael Fepi
Fael Fepi 09/24/2018 17:12

Parabéns! Por compartilhar seu relato. Gostaria de saber em quantos dias foi feito o percurso e se acampou na Praia? Pretendo fazer em breve. Antes treinei Itacaré/BA x Barra Grande (Maraú/BA) que é uma caminhada interessante para futuras aventuras. Abraços.

Guilherme Alexsander
Guilherme Alexsander 09/24/2018 19:00

Fizemos calmamente em 4 dias. Acho que no mínimo dá pra fazer em 3 dias. Mas eu recomendo fazer em 5 para aproveitar mais a praias. Nós acampamos na praia da Reserva do Rio dos Frades.

David Sousa
David Sousa 01/05/2021 12:55

Esta é uma que tenho no minha Lista. top

Marcelo A Ferreira
Marcelo A Ferreira 02/15/2021 17:39

muito legal seu relato Guilherme. Pretendo fazer esse trekking esse ano, mas saindo de Cumuraxatiba (Prado) e indo até Porto Seguro. Lembra os campins que ficou em cada dia? Recomendo algum(uns). Já vi alguns, mas sempre bom ter opiniões. Pretendo fazer em 5 ou 6 dias.

Guilherme Alexsander

Guilherme Alexsander

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Uma vida a caçar trilhas, ampliar horizontes e empreender (mesmo que nunca dê certo). Sempre conduzindo o projeto da minha vida: o Trilhas Perdidas!

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