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LA RUTA DE LOS PIONEROS

Relato e fotos da primeira travessia em trekking selvagem e exploratório de Villa O'Higgins a Cochrane, na Patagônia Chilena

Trekking

TEXTO: Guilherme Cavallari

FOTOS: Javier Cencig @javiercencig

MATERIAL PUBLICADO ORIGINALMENTE (E COM MAIS CONTEÚDO) NO SITE: www.kalapalo.com.br

Quem leu o livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS, de minha autoria, sabe que deixei assuntos pendentes na Patagônia e na Terra do Fogo. Apesar de ter passado seis meses pedalando e fazendo roteiros de trekking sozinho na região, aventura narrada tanto no livro quanto no premiado filme-documentário TRANSPATAGÔNIA, não fiz tudo o que queria fazer. Assim, volto todos os anos, no verão, para ticar mais um item na longa lista de desejos. 

Desde 2013, tenho retornado ao extremo sul com alunos do nosso CURSO DE TREKKING e do nosso CURSO DE BIKEPACKING, dependendo do roteiro. Nesses cursos regulares, ministrados por mim no REFÚGIO KALAPALO, nossa escola de aventura em Gonçalves (MG), na Serra da Mantiqueira, os alunos têm contato prático com técnicas, equipamento e conceitos essenciais para trekking e bikepacking autossuficientes. Mas é somente numa expedição que técnicas, habilidades e conhecimentos teóricos se transformam em experiência e sabedoria prática. É somente no ambiente selvagem e isolado, quando a navegação, o minimalismo, a eficiência do equipamento e os limites físicos e psicológicos são testados, que logramos um passo definitivo rumo à autossuficiência. Essas expedições didáticas são fundamentais na evolução dentro dos esportes de aventura. 

O ROTEIRO

Ouvi falar da RUTA DE LOS PIONEROS antes que ela tivesse recebido esse nome. Lembro do dia e da hora em que travei o primeiro contato com esse caminho e descrevi o momento no livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS. Os carabineiros do Chile comentaram comigo, enquanto eu cruzava a Entrada Mayer, que faziam rondas regulares por essa trilha em visita aos moradores isolados. Isso foi em 12 de novembro de 2012. Imediatamente perguntei se seria possível fazer o percurso de bicicleta. Lembro da cara de espanto e dúvida do policial, que foi educado o suficiente para não duvidar de minhas capacidades e concluiu apenas que “eu teria que carregar a bike em diversos trechos”. De lá pra cá, a maioria desses moradores faleceu e o caminho ficou ainda mais selvagem.

Antes da chegada da Carretera Austral à Villa O’Higgins (estrada que mapeei e publiquei no GUIA DE TRILHAS CARRETERA AUSTRAL), no ano 2000, o que hoje é chamado de RUTA DE LOS PIONEROS era a única ligação por terras chilenas entre Villa O’Higgins e a cidade de Cochrane. Villa O’Higgins tinha, até o ano 2000, mais conexão com a Argentina do que com o Chile devido à sua proximidade com a fronteira internacional. Aliás, esse enorme isolamento de comunidades chilenas e essa grande dependência da República Argentina, foram os principais argumentos para a construção da Carretera Austral — projeto iniciado pelo ditador Augusto Pinochet em 1976 e até hoje em obras.

Meia dúzia de famílias chilenas criavam gado, cavalos e ovelhas em total isolamento nas margens do Lago Christie e do Lago Alegre, para depois tocá-los em manadas coletivas até o mercado de Cochrane, que recebeu a Carretera Austral em 1988.

Numa pesquisa na internet, descobri no site WIKIEXPLORA a descrição do percurso, estimado em 95 km de extensão, feito normalmente no sentido norte-sul, de Calluqueo, a 40 km de Cochrane, até a ponta sul do Lago Christie, a 50 km de Villa O’Higgins. Junto à descrição e diversas fotos, havia dois tracklogs razoavelmente recentes. Na minha mapoteca encontrei dois mapas 1:100.000 que cobriam toda a região. Esse foi o material usado para planejar a expedição.

O GRUPO

Como 2019 foi um ano atípico pra mim, pois permaneci quatro meses fora do Brasil na expedição MONGÓLIA BIKEPACKING — quando cruzei sozinho, em bicicleta, de forma independente e autossuficiente, evitando asfalto, toda a extensão oeste-leste da Mongólia —, não tive muito tempo para divulgar o projeto de fazer a RUTA DE LOS PIONEROS, que batizei de Patagônia Profunda. Três alunos dos nossos CURSO DE TREKKING e CURSO DE BIKEPACKING se entusiasmaram e aderiram à proposta. 

Roberto Machado Carneiro da Silva, carioca, 53 anos, veterinário, produtor de leite, fez nosso CURSO DE TREKKING em agosto de 2016 e não tinha experiência prévia em expedição.

Luis Gustavo Wiggers Mees, catarinense, 37 anos, advogado, participou do nosso TREINAMENTO DE TREKKING em novembro de 2019 e também não tinha experiência prévia em expedição.

Javier Esteban Cencig, argentino residente no Brasil desde os quatro anos de idade, 44 anos, ator e fotógrafo, fez nosso CURSO DE BIKEPACKING em 2018, fez dois treinamentos BIKEPACKING MANTIQUEIRA também em 2018 e participou da EXPEDIÇÃO BIKEPACKING TERRA DO FOGO 2019.

Todos passaram pelo rígido processo de seleção que imponho a esses projetos de expedições autossuficientes, preencheram longas fichas de inscrições, foram entrevistados quando necessário e passaram por treinamentos conosco. As exigências básicas são: 1) estar bem de saúde; 2) estar fisicamente bem condicionado, não necessitando ser atleta; 3) estar equipado nos padrões exigidos pelas características do projeto, com equipamento de qualidade, compacto, leve e em perfeito estado; 4) ter o perfil psicológico necessário; 5) entender e aceitar as características do projeto, que incluem autossuficiência, imprevisibilidade, independência, trabalho coletivo, algum desconforto físico e, principalmente, compromisso com o esforço, não com o resultado

A PREPARAÇÃO

Definido o roteiro e enquanto o grupo se formava, orientei os participantes já comprometidos com a expedição a adquirirem o que faltava de seu checklist individual de equipamento. Enviei a cada um deles o CHECKLIST TREKKING PATAGÔNIA PROFUNDA, que depois publiquei aqui no site. Toda a cozinha coletiva seria fornecida por nós, assim ninguém precisaria ter fogareiro, panela e afins. Mas cada um deveria ter seus próprios itens pessoais de acampamento, além de mochila, roupas e calçados técnicos apropriados. Como sempre faço, levei um rastreador pessoal via satélite SPOT GEN-3 para nossa segurança.

Havia uma questão complicada de logística para chegar de Coyhaique, cidade com aeroporto que usaríamos como base, até o início da trilha e voltar do fim da trilha para a cidade. Depois de pesquisar muito, decidimos contratar os serviços de um argentino residente no Chile, Wilfredo Yaconis, proprietário da empresa MOTORENTADVENTURE que aluga motocicletas na Patagônia, acessível pelo email wyaconis@gmail.com e pelo telefone +56 9 56829881 (Whatsapp). Wilfredo nos levou de van até Villa O’Higgins e depois nos resgatou em Calluqueo. 

Decidimos fazer o percurso da RUTA DE LOS PIONEROS no sentido inverso, de sul para norte, ou seja, de Villa O’Higgins para Cochrane, para não deixar o trecho mais longo de carro para o final. Se optássemos por usar transporte público, teríamos que pegar um ônibus de Coyhaique até Cochrane, dormir uma noite na cidadezinha, depois tomar outro ônibus de Cochrane até Villa O’Higgins e dormir uma noite em Villa O’Higgins antes de começar a caminhar. Também teríamos que contratar um táxi que nos levasse até o começo da trilha, no Lago Christie, além de contratar outro táxi que nos levasse de Calluqueo até Cochrane. Tem muita gente que pega carona nesses trechos, mas para isso teríamos que reservar pelo menos mais quatro dias de viagem.

A única coisa extra de equipamento que decidimos levar, além do material de trekking necessário a qualquer travessia, foram 40 m de corda de escalada de 8 mm de espessura, que compramos em Coyhaique mesmo. O Javier não tinha mochila cargueira e não quis comprar qualquer uma só para essa primeira experiência em trekking, então aluguei uma para ele do material que usamos no CURSO DE TREKKING.

No primeiro dia de preparação em Coyhaique compramos todos os mantimentos necessários para nove dias de trekking autossuficiente. Um dia a mais do que o previsto, pra garantir. Não levamos comida do Brasil. Encontramos polenta, cuscuz, latas de atum, latas de salmão, salame, queijos, granola, frutas secas, castanhas, leite em pó, chocolate, café e chá. Fizemos sanduíches e ovos duros para os primeiros três dias de trekking. Todos os mantimentos foram reembalados em sacos estilo Zip-Lock, com fechos, para evitar acidentes e desperdício. Nossas mochilas terminaram com aproximadamente 18 kg cada.

No segundo dia de preparação passamos horas analisando o roteiro no GOOGLE EARTH e medindo distâncias. Retraçamos na tela do computador, que o Javier levou por razões profissionais, traçados obtidos no WIKIEXPLORA e no WIKILOC. Eu e o Javier usaríamos aparelhos de GPS, Roberto e Gustavo usariam os celulares para navegar. Normalmente prefiro usar cartas topográficas e bússolas analógicas, em que confio mais, mas nesse caso os mapas que eu possuía não tinham resolução suficiente. Mas a navegação era bastante lógica: seguiríamos o Lago Christie, depois o Lago Alegre, em seguida o Rio Bravo até sua nascente, ponto em que subiríamos uma montanha de 1.300 m de altitude para fazermos um paso de montaña, que nos levaria brevemente para terras argentinas. Depois da montanha deveríamos seguir para o norte por um corredor de montanhas altas até o fim da trilha. Identificamos três grandes obstáculos no caminho: a travessia do Rio Bravo, o Portezuelo ou um paso de montaña e o Paso la Picota — uma grande erosão na beira de um rio de degelo que exigira toda nossa coragem e atenção.

DIA 1 (LAGO CHRISTIE – PUESTO RUBÉN PRADANO)

Depois de percorrermos os 563 km de Coyhaique até Villa O’Higgins, que nos custou cerca de 14 horas, dormimos uma noite no confortável albergue EL MOSCO, de Villa O’Higgins. A simpática proprietária, Fili, nos acomodou num dormitório onde já havia um hóspede: um norte-americano sexagenário chamado Eric, do Alasca, especialista em trilhas que trabalhava para um parque nacional estadunidense. Eric havia acabado de fazer a RUTA DE LOS PIONEROS sozinho no sentido norte-sul e, depois do jantar que preparei de macarrão farfalle com salmão em lata, ervilhas e creme de leite, deu algumas dicas do roteiro.

— Quando vocês chegarem acima do Paso la Picota, não desçam a trilha até o rio, procurem uma outra trilha no bosque que vai evitar a erosão por cima das montanhas.

Ele ainda mostrou duas fotos da região e insistiu que nós não teríamos dificuldade em encontrar essa trilha alternativa. Uma dica importante que no final atrapalho mais do que ajudou. Na minha cabeça, por mais que eu insista que não sou supersticioso, encontrar um trilheiro do Alasca — lugar que está no topo da minha lista de aventuras futuras — era um sinal de bom agouro. Tudo daria certo, por alguma razão inexplicável, nós terminaríamos a trilha bem e eu ainda reencontraria Eric lá na terra dele, entre lobos, ursos e alces.

O dia seguinte amanheceu gelado, apenas 4,5Ëš C segundo o termômetro da van do Wilfredo. Fizemos os 50 km até o Lago Christie sem transtornos, todo mundo um pouco mais calado do que o normal, apreensivos. Pouco havia mudado desde minha última visita, em 2013, para terminar a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA.

Segundo as imagens de satélite do GOOGLE EARTH, eu esperava um terreno pedregoso e quase sem vegetação, mas encontramos arbustos altos, matas de calafate com seus espinhos afiados e uma trilha bem pisada por incontáveis cascos de cavalos e vacas. Havia até grotas cobertas de árvores onde animais não passavam. Nos pontos mais altos, o Lago Christie aparecia com suas águas azuis muito escuras e de aparência gelada. Com exceção da trilha que seguíamos, não havia qualquer outra referência humana à vista. As florestas eram densas e aparentemente impenetráveis em todas as direções. As montanhas mais altas guardavam ainda grande quantidade de neve por conta do inverno rigoroso e do verão mais chuvoso que o normal. A umidade no ar dizia que haveria muita lama em nosso caminho.

Caminhamos apenas 10,24 km, dos 22,57 km previstos para esse primeiro dia. Nossas mochilas pesadas, o terreno duro que subia e descia, sem um metro de plano, pediu que parássemos quando chegamos ao Puesto de Don Rubén Pradano. Esses puestos são postos avançados onde os gauchos, os cowboys locais, descansam, alimentam seus cavalos e o gado que tocam. Um barraco de tábuas grossas e irregulares, com frestas por onde passam dedos e às vezes mãos inteiras, de chão de terra batida com um canto marcado por incontáveis fogueiras, pode ser um hotel cinco estrelas numa noite fria de inverno ou debaixo de uma tempestade fria de verão. Puestos seriam uma marca registrada da travessia, um testemunho palpável da dureza da vida na Patagônia profunda.

Cozinhar e comer protegido por teto e paredes, por mais esburacados que sejam, é um luxo em qualquer roteiro de trekking selvagem. Fizemos uma fogueira porque havia local apropriado para isso (nunca faço fogo fora dessas condições favoráveis) e pudemos relaxar enquanto nos aquecíamos. Em frente ao gramado onde erguemos nossas barracas havia um belo rio que nos oferecia água potável. Um cavalo solto indicava que estávamos em área habitada, próximos à casa de Don Rubén Pradano, o último residente do Lago Christie.

Resumo do primeiro dia: 10,24 km percorridos, com 650 m acumulados de subidas e 648 m acumulados de descidas.

DIA 2 (PUESTO RUBÉN PRADANO – PUESTO ENTRELAGOS) 

O começo do segundo dia nos levou montanha acima, com muita lama, por um ziguezague entre formações rochosas que escondiam as marcas da trilha. Depois de caminhar cerca de trinta minutos, desviamos de um enorme lamaçal e reencontramos a trilha depois de rasgar um trecho curto de vegetação abrindo caminho à força. De repente havia pegadas humanas pra seguir e relaxamos na navegação. Mais meia hora e estávamos de volta ao barracão do nosso primeiro acampamento. Havíamos andando em círculo por sessenta minutos e percorremos pouco mais de dois quilômetros! 

Segundos depois, apareceu um senhor chileno baixo, sexagenário, vestido numa sobreposição de roupas coloridas e esfarrapadas de vaqueiro, de bigodes pontudos grisalhos e com uma boina na cabeça. Ele vinha montado em um cavalo e puxava outro a reboque. Era Rubén Pradano, proprietário das terras onde estávamos. Ele não escondeu o riso quando soube que havíamos nos perdido em seu quintal.

— Vocês viram uma égua no caminho?

No dia anterior, nós havíamos visto um de seus cavalos, o mesmo que ele trazia atado a uma corda, amarrado sozinho perto de um telhado rústico de tábuas recostadas. O bicho parecia triste e eu até pensei em sequestrar o animal pra levar nossas mochilas. Vimos também dois alforjes cobertos por uma lona plástica, sinal que o gaucho não estava longe. Mas nem sinal da égua fujona. Nos despedimos com a promessa de nos vermos em seguida. Uma hora e pouco mais tarde, dessa vez sem erros, chegamos à sua residência.

A casinha simples de tábuas parecia sólida. Uma bandeira chilena tremulava nervosa sob o vento austral. Como manda a hospitalidade gaucha, fomos todos convidados a entrar para tomar mate. Dentro, o fogão a lenha aceso, um gato peludo e uma infinidade de objetos de decoração ajudavam a criar uma atmosfera de lar. Num dos únicos quadros emoldurados havia um senhor alto e rosto anguloso e um rapaz baixo de bigodes negros.

— Esse sou eu aos 20 anos de idade e meu pai de adoção, — explicou Rubén Pradano, feliz por poder falar com mais alguém além dos interlocutores no aparelho de rádio no canto da sala.

Nascido em 1955, Don Rubén foi aos dez anos de idade para a beira do Lago Christie onde seu pai de criação era um dos pioneiros. Descontados os cinco anos que passou “na cidade”, entre os 15 e os 20 anos de idade, quando inclusive se casou, ele nunca deixou a propriedade. Ele aparece no documentário LA HUELLA DE LOS PIONEROS, de Ramiro Zamorano, que mostra detalhes da vida desses vaqueiros austrais e seu amor pela região. Com a morte do homem que o criou, Pradano herdou as terras e continuou a criar animais às margens do lago.

— Hoje tenho 23 vacas e 21 ovelhas, — contou Don Rúben enquanto tomava seu mate. — Era pra ter muito mais, mas um puma matou 18 ovelhas numa só noite.

Perguntei se fazia muito tempo que ele morava sozinho.

— Não faz muito tempo, não. Eu tinha uma cozinheira, mas ela se cansou de viver aqui isolada e foi embora.

— Quando foi isso?

Ele pensou um pouco e respondeu:

— Nove anos.

Deixamos Rubén Pradano, seus cavalos, gato e galinhas e seguimos nosso caminho. O gaucho nos acompanhou a pé, a passos rápidos, por meio quilômetro até uma bifurcação, para que não nos perdêssemos. De sua casa, caminhamos mais cinco ou seis quilômetros na tarde fria, porém mais quente que o dia anterior, até um acampamento próximo à ponta sul do Lago Alegre, o Puesto Entrelagos. Montamos nossas barracas num bosque sombrio e úmido, ao lado de um barraco de tábuas e teto de chapas de metal corrugado. Dentro havia duas camas também de tábuas e lugar para fogueira. Um luxo. 

Durante o jantar, discutimos as experiências do dia. Usei o exemplo dos quilômetros que caminhamos a mais, quando nos perdemos, para pedir maior envolvimento do grupo na navegação. Expliquei que o navegador — eu, naquele momento — erra na certeza, nunca na dúvida. Se todos os membros do grupo derem opiniões próprias, se todos forem participativos, outras certezas aparecerão e, com elas, as dúvidas. Navegar é escolher entre dúvidas. 

Resumo do segundo dia: 14,09 km percorridos, com 673 m acumulados de subidas e 722 m acumulados de descidas.

DIA 3 (PUESTO ENTRELAGOS – CASA MARGARITA BUSTOS) 

Percorremos metade da extensão do Lago Alegre num só dia. As trilhas estavam secas e pudemos caminhar rápido. Havia mais trechos de bosque e quando conseguíamos ver o lago, o cenário parecia ainda mais selvagem e intocado. Numa travessia de rio, onde usamos o tronco de uma grande árvore como ponte, improvisei um corrimão com nossa corda para dar mais segurança aos companheiros. Foi legal ver o equipamento em uso porque ele pesava na minha mochila. 

Mais ou menos na metade do caminho encontramos com um australiano que fazia a RUTA DE LOS PIONEROS sozinho no sentido norte-sul, o inverso ao nosso. Ele comentou que não teríamos problemas de navegação para a frente e que havia descido o Paso la Picota escorregando de bunda, de tão inclinado e desbarrancado.

Num ponto em que a trilha beirava a margem do lago, de águas cristalinas, vimos uma enorme truta nadando perto da superfície à procura de comida. Eu levava uma vara de pesca, uma vara de fly fishing, e Gustavo tinha uma linha com anzóis e iscas artificiais com ele. A vontade de parar e pescar teve de ser refreada para não atrasar o grupo. Uma pena! Aquele parecia um lugar ideal para a pesca, que além de divertido poderia oferecer uma boa alternativa para o jantar.

Seguir o traçado da trilha no aparelho de GPS era fácil, mas não posso chamar isso de “navegação”. Sei que conseguiria fazer o trajeto sem tecnologia, mas sei também que demoraria muito mais tempo. As referências geográficas que nos guiavam eram claras e óbvias, mas a trilha dentro da mata era sinuosa e errática, desviando de áreas alagadas, grandes pedras e mata mais fechada. Os aparelhos de celular calculavam a distância diária mas erravam às vezes em 30% o número final. 

Meus companheiros já estavam mais aclimatados à rotina diária de caminhada e acampamento e nossas mochilas já estavam mais leves. Logo no primeiro acampamento percebi que levávamos polenta demais e joguei fora mais de um quilo de comida pra aliviar o peso. Mas ao final desse dia, quando montamos acampamento no quintal de uma casa abandonada, a residência de Margarita Bustos, às margens da ponta norte do Lago Alegre, percebi que estávamos muito atrasados no cronograma.

Segundo nossa programação, já deveríamos ter completado 49 quilômetros mas, de fato, só havíamos feito 36 quilômetros. Teríamos que começar a recuperar a diferença no dia seguinte ou corríamos o risco de atrasar a travessia. Outra coisa que ficou clara para mim foi que a distância total do roteiro, estimada em 95 quilômetros, seria bem mais longa.

Durante o jantar, momento em que discutíamos e partilhávamos os acontecimentos do dia, expliquei nossa situação. As exigências do roteiro se sobrepunham às vontades individuais de mais tempo livre, de mais contemplação e lazer. O objetivo comum, a meta coletiva, era mais importante que as expectativas pessoais de cada um. Ótimo exemplo pra discutir nossas relações com os outros, com a sociedade e até conosco mesmo. Até onde estamos dispostos a ceder em benefício de algo comum? Quanto da nossa liberdade individual favorece ou atrapalha o desenvolvimento coletivo? Todos estavam de acordo. Experiências de aventura como essa, em formato de expedição exploratória, deixam claro as prioridades e tornam as tomadas de decisão mais simples. 

— Acabou a moleza! — eu disse pra mim mesmo na barraca, antes de dormir.

Resumo do terceiro dia: 11,62 km percorridos, com 474 m acumulados de subidas e 463 m acumulados de descidas.

DIA 4 (CASA MARGARITA BUSTOS – PUESTO LAS TABLAS)

Pouco depois da casa de Margarita Bustos cruzamos dois rios, ambos ótimos lugares para acampar. Lamentei não termos esticado o dia anterior um pouco mais e acampado num desses pontos. Explorar roteiros desconhecidos tem esses problemas. 

Nos bosques havia sempre muitas árvores tombadas, derrubadas pelo vento. Isso é bastante comum por toda a Patagônia e a Terra do Fogo. A espessura do solo é muito pequena em toda a região e as raízes ficam rasas, presas somente à superfície. Conforme as árvores crescem, em especial as lengas (Nothofagus pumilio), que podem chegar a mais de 30 m de altura, qualquer vento mais forte faz as gigantes caírem. Para nós, na trilha, isso significava esforço extra. Havia momentos em que a RUTA DE LOS PIONEROS mais parecia uma corrida de obstáculos ou um treinamento de cross fit.

O calor estava fora do normal. Suávamos como se fosse verão no Brasil. Temperaturas altas promovem a vida de insetos e os pernilongos estavam famintos. Os temidos tábanos, equivalentes às nossas mutucas, também estavam ativos e zuniam em nossos ouvidos o tempo todo. Diferente do Brasil, os insetos na Patagônia não parecem ser muito espertos, talvez desabituados aos seres humanos, fazem mais barulho do que realmente picam. Mesmo assim, são incômodos.

Ao final do Lago Alegre chegamos a uma intersecção importante no roteiro, um ponto em que a trilha se dobra para oeste e logo quase para o sul, antes de retomar seu rumo norte. Esse é o local da casa de Eraldo Rial Parada, falecido em 2018. Don Eraldo viveu sozinho nesse lugar por 70 anos e é protagonista do belíssimo filme THE LAST COLONIZER. Chegamos até as margens de um afluente do Rio Bravo e paramos para descansar, comer e deixar os pés de molho nas águas geladas. Até esse ponto já havíamos caminhado 15 km, mais do que em qualquer um dos dias anteriores, mas estávamos ainda longe do ponto de acampamento. 

O grupo se manteve resoluto e comprometido, embora o cansaço fosse aparente. Eu puxava a fila e não dava descanso ao retardatários. Caminhamos boa parte do dia dentro de bosques, saltando árvores caídas e driblando poças de lama. As lengas eram predominantes e em alguns pontos elas estavam cobertas de Barba-de-Velho (Tillandsia usneoides), um parasita que recobre os troncos de penugem esbranquiçada dando uma impressão fantasmagórica aos bosques.

Seguimos fortes até completarmos a maior quilometragem de toda a travessia. Mas mesmo assim, continuávamos cerca de 10 km atrasados em relação ao cronograma inicial. Na partilha do jantar, de alimentos e impressões, fiquei contente ao constatar o compromisso de todos com o esforço pelo objetivo comum. Na hora de tirar comida das mochilas, quando escolhíamos de quem viria o alimento, havia a preocupação de tirar peso de quem aparentava mais cansaço ou dor e não de aliviar o próprio peso. Pequenos gestos que fazem toda a diferença.

No dia seguinte tampouco teríamos muito descanso. 

Resumo do quarto dia: 26,83 km percorridos, com 827 m acumulados de subidas e 764 m acumulados de descidas.

DIA 5 (PUESTO LAS TABLAS – PUESTO LA PAMPA) 

O dia começou com a falsa promessa de menos calor e menos insetos. Mas bastou começarmos a caminhar e a temperatura voltou a subir. Nossa referência para o dia passou a ser o Rio Bravo, que fazia justiça a seu nome. As águas turvas de degelo e sedimentos deixavam o rio com aparência de leite. Seu volume ruidoso lembrava o quanto já havia chovido nesse verão, um dos mais molhados dos últimos anos na região. Nosso roteiro digitalizado, tanto no GPS quanto nos celulares, indicava três cruzamentos do rio, o que era obviamente impossível. Com sorte, conseguiríamos cruzar o Bravo somente perto de sua nascente, onde ele estaria menos violento.

Conseguimos encontrar caminhos alternativos aos cruzamentos do rio, cortando por bosques espremidos entre paredes rochosas, subindo e descendo pela margem. A escassez de sinalização, de totens de pedras ou marcas de facão nas árvores era um sinal de que a trilha ainda não havia se tornado popular entre turistas. Os gauchos não precisam de tanta sinalização. Quando um roteiro de trekking ganha notoriedade e passa a ser frequentado por aventureiros de origem urbana as marcações se proliferam como praga de insetos.

Ao longe conseguimos avistar uma larga pradaria, um pampa na confluência entre o vale do Rio Bravo e o vale do Lago Mogote. Ali estaria nosso próximo acampamento. Cerca de 500 m antes do Puesto La Pampa cruzamos um rio de águas esverdeadas de temperatura mais amena, frio mas não gelado. Cruzamos esse curso d’água e logo chegamos ao nosso local de pernoite. 

No Puesto La Pampa havia a previsão inicial de um dia de exploração, quando tentaríamos percorrer a margem sul do Lago Mogote, em território argentino, e talvez chegar até uma grande geleira que o GOOGLE EARTH exibia como algo espetacular. Planos desfeitos pela alta quilometragem do dia. Estávamos todos cansados demais. Montamos nossas barracas e logo depois apareceu uma família de chilenos à cavalo. Era a filha de Don Eraldo Rial Parada a caminho da propriedade do pai, que ela havia herdado há um ano. Pai, mãe e dois filhos adolescentes levando seis cavalos e três cachorros. Eles montaram acampamento perto de nós, num canto mais abrigado do vento, ergueram uma barraca para todos e fizeram um fogueira. Não demorou muito e o cheiro de churrasco de ovelha invadiu o acampamento. Aquilo que para nós era diversão e desafio — percorrer a RUTA DE LOS PIONEROS à pé — era para aqueles gauchos locais apenas mais um dia de labuta.

Acho que foi nesse dia que meus companheiros começaram a verbalizar certo cansaço, um pouco frustrados pelo ritmo da travessia. De alguma forma, alguns deles pareciam ter alimentado a expectativa de que a expedição teria mais tempo livre, mais momentos de contemplação ou até dias livres. Uma noção que o dia seguinte derrubaria de vez por terra, com alta quilometragem, grandes desafios e uma boa camada de neve por cima para matar de vez a ideia. 

Mas estávamos todos de acordo, cientes da imposição da realidade sobre qualquer fantasia. Embora cansados, havia um senso cada vez mais forte de união no grupo, um desejo crescente pelo bem-estar do outro, uma preocupação sempre presente com o outro, uma vontade de ajudar quem precisasse de ajuda. Um senso de coletivismo que considero natural ao ser humano que se desenvolve num ambiente saudável e que só precisa de um pouco de ajuda para vir à tona. 

Resumo do quinto dia: 19,43 km percorridos, com 899 m acumulados de subidas e 636 m acumulados de descidas.

DIA 6 (PUESTO LA PAMPA – TERRAZA LA PICOTA)

Todos os três grandes desafios técnicos da travessia estavam adiante de nós: a travessia do Rio Bravo, a passagem do Portezuelo de 1.300 m de altitude e o Paso la Picota. Se alguma coisa pudesse dar errado, seria num desses obstáculos naturais.

O clima mudou e o calor anormal deu lugar ao frio típico da Patagônia profunda. O céu permaneceu encoberto, tempestuoso, com nuvens pesadas cobrindo os picos das montanhas à nossa frente. Não demorou e chegamos à nascente do Rio Bravo, onde uma cascata monumental desaguava o degelo das montanhas para um lago de cor esverdeada. Fizemos uma pausa rápida para o almoço escondidos do vento numa cratera na terra. Parecia resultado da explosão de alguma bomba. Mas o vento gelado e forte não nos deu trégua mesmo dentro do buraco, tivemos que comer rápido e seguir caminho antes do frio consumir nossas forças.

Cruzar o Rio Bravo foi mais fácil do que o esperado. As águas congelantes chegaram apenas à altura dos nossos joelhos. A correnteza era forte, mas não o suficiente para nos derrubar. Cruzamos cada um no seu ritmo, alguns pelados da cintura para baixo, outros de bermuda ou com as pernas das calças arregaçadas. Uma vez na margem oposta, começamos a subir a montanha rumo ao segundo desafio do dia: o Portezuelo 1.300 m. 

Quanto mais subíamos, pior o clima ficava. O vento aumentava de volume e baixava de temperatura, o céu parecia cada vez mais pesado, os picos próximos ficavam cada vez mais encobertos até desaparecerem completamente da visão, envoltos por nuvens e névoa. Entramos brevemente em território argentino por um terreno pedregoso e árido onde quase não se via vegetação. De repente começou a nevar forte, com o vento açoitando a neve contra nossos corpos de todas as direções possíveis, inclusive soprando a neve de baixo para cima. Havia flocos grossos e molhados, pelotas duras de gelo e muito pouco da neve clássica, leve e flutuante. Não podíamos parar ou sentiríamos frio. O alto das montanhas não é o melhor lugar do mundo para estar em clima ruim.

Acho incrível como situações extremas despertam o melhor ou o pior em cada um de nós. Os traçados digitais em nossos aparelhos eletrônicos indicavam que deveríamos subir a montanha à nossa direita por uma trilha invisível. Não havia sinal de caminho e o tracklog nos enviava para o olho do furacão, o pior do vento, do frio e do terreno acidentado. Quase sem parar, confabulei com meus companheiros e expliquei a situação: seria melhor para nós se contornássemos a montanha em vez de cruzá-la pelo topo. Sairíamos da trilha, mas isso não significaria que nos perderíamos. Faríamos nosso próprio caminho seguindo por altitudes mais baixas, livres das nuvens.

Num determinado ponto nosso caminho foi cortado por um riacho enfurecido. Escolhemos não molhar as botas e não tirar os calçados porque isso nos exporia ao frio. Acabamos acompanhando o curso d’água rio acima até encontrar uma ponte natural de pedras. Em seguida fomos obrigados a escalar uma parede de vegetação de uns 8 metros de altura com 80Ëš de inclinação. Fui primeiro. Segurei meus bastões de caminhada como punhais, agarrando-os a 20 centímetros de suas pontas e enterrando-os no solo. Eu também me agarrava às raízes dos arbustos ressequidos e fortes. Meus companheiros seguiram meus passos compenetrados, corajosos, cada um vencendo seus demônios pessoais.

Uma vez vencido o Portezuelo 1.300 tivemos que encontrar um caminho para descer a montanha e reencontrar nossa trilha, que avistamos lá em baixo, distante e quase inacessível. Despencamos por campos de neve velha cavando degraus no terreno gelado. Um escorregão poderia ser dramático. Eu olhava para trás e via meus amigos compenetrados, focados e seguros a cada passo. Não havia espaço para brincadeiras, desatenções e frivolidades. Uma fagulha de orgulho pelo grupo esquentou meu coração.

De volta à trilha e descendo a passos certos a montanha, começamos a entrar numa zona de bosques e fomos recebidos por uma nevasca constante. Já não havia mais vento, nem uma brisa sequer. O silêncio era ensurdecedor. A neve pesada cobria tudo e logo nos vimos imersos num imenso cobertor branco. Chegamos a uma clareira onde havia a marca de uma fogueira e um banco para sentar improvisado de uma tábua. Aquela era a Terraza la Picota, nosso ponto de acampamento.

Ali nós deveríamos procurar a trilha pelas montanhas, indicada pelo alasquiano Erik que conhecemos em Villa O’Higgins, para evitar a passagem pelo Paso la Picota. Mas os eletrônicos indicavam a Terraza em outro local, 500 m adiante. Decidimos explorar nossas alternativas e começamos a descer a montanha por uma trilha sinuosa, caminhando sobre pedras. Foi uma descida longa e dura que terminou por nos levar ao Paso la Picota. Fiquei aterrorizado.

Nova ente, obstruindo nossa passagem, havia mais um rio caudaloso e violento de degelo — o Rio de los Saltos — que cortava feito faca um cânion na rocha negra. Rio assassino. Do outro lado das águas havia uma erosão completamente instável de talvez 30 metros de altura numa inclinação de cerca de 70Ëš. Estávamos exaustos, com os pés moídos, as pernas bambas e a coordenação motora comprometida pelos mais de 20 quilômetros já caminhados, quase sem descanso. Aquele era um desafio, na minha interpretação, impossível para aquele momento. Decidimos subir novamente a trilha íngreme e acampar na Terraza

A neve não deu trégua e cobriu nossas pegadas em minutos. Decidimos montar apenas duas barracas e dividir alojamentos. Cozinhei um jantar volumoso dentro da minha barraca, que dividi essa noite com o Roberto, com bastante chá quente pra aquecer a alma. Comemos e dormimos sem sequer escovar os dentes. A neve não parou de cair e acumulava nas barracas deformando suas estruturas, de tempos em tempos tínhamos que bater no nylon para livrar nossos abrigos do excesso de peso. Ninguém dormiu bem, fosse por excesso de cansaço, apreensão ou frio. 

Resumo do sexto dia: 25,36 km percorridos, com 1.405 m acumulados de subidas e 1.102 m acumulados de descidas.

DIA 7 (TERRAZA LA PICOTA – PUESTO CAYUQUEO)

O dia seguinte amanheceu sem precipitação de neve. Choveu um pouco, mas a temperatura estava inegavelmente mais alta. Tomamos nosso tradicional café da manhã de mingau quente de granola e leite em pó, com café e chá à vontade, e discutimos a situação.

— Precisamos sair dessa montanha, — expus a todos. — Vamos procurar a trilha pelo bosque que o Erik indicou, mas sei que não vai ser fácil. Está tudo coberto de neve.

Expliquei também rapidamente quais seriam nossas alternativas. Caso não encontrássemos a trilha pelos bosques poderíamos tentar caminhar entre as árvores e a parede rochosa da montanha, no limite entre os dois ambientes. Não seria fácil, demoraria muitas horas para contornar o obstáculo do Paso la Picota, mas era nossa única chance.

— Se der tudo errado, talvez a gente tenha que voltar por onde viemos, racionar comida e refazer os seis dias de caminhada de volta a Villa O’Higgins — fiz uma pausa e completei o raciocínio pontuando que perderíamos nossos voos de volta ao Brasil por conta desse atraso. — Essa é a diferença entre turismo de aventura e expedição, — concluí. — Numa expedição exploratória sucesso e fracasso têm muito pouco a ver com completar o percurso. O mais importante é terminar todo mundo vivo e inteiro.

Como previsto, não conseguimos encontrar a trilha pelo bosque. A neve cobriu qualquer vestígio de caminho e fazia nosso progresso quase impossível. Os galhos carregados despencavam quilos de neve ao menor toque, pedras e córregos d’água enterrados pelo manto branco serviam de armadilhas aos nossos passos. Rodamos por mais de uma hora e desistimos da empreitada.

— Antes de tentar um caminho novo pela montanha, eu gostaria de ver se o Paso la Picota continua inviável, — sugeri ao grupo. A ideia de passar horas abrindo uma trilha inexistente não era muito animadora.

Descemos novamente a encosta pedregosa da montanha, navegando por memória já que a neve cobria tudo. Ao chegarmos ao rio de degelo e investigar nossas possibilidades, concluímos que se passássemos todos juntos por dentro d’água, um apoiando o outro, a travessia seria possível. A escalada da erosão do outro lado seria árdua, teríamos que nos arrastar morro acima, mas tampouco parecia impossível.

Aconteceu tudo bem rápido. Em fila indiana, um agarrado à mochila do companheiro à frente, eu puxando a linha, cruzamos o rio sem tirar as botas. À essa altura, diante da possibilidade de caminharmos de volta até Villa O’Higgins, molhar os pés era o menor dos nossos desconfortos. A escalada da erosão em seguida também não foi tão difícil, o maior problema foi as pedras que se soltaram, rolaram e bateram contra os companheiros que vinham atrás. Em minutos estávamos todos no topo, ofegantes pelo esforço, olhos esbugalhados pela excitação, comemorando a passagem do maior obstáculo da trilha. Uma experiência que nos fez a todos irmãos. 

Ninguém conseguiu fazer fotos da façanha. 

O resto do dia transcorreu sem problemas. Caminhamos morro abaixo até um bosque úmido, que nos levou até a margem de um rio e um acampamento ensolarado, seco, de grama pontilhada de flores. Era quase impossível acreditar que havíamos passado a noite anterior soterrados em neve. Encontramos um grupo de quase 20 pessoas acampadas nas instalações de um grande posto abandonado. Era um grupo de alunos da NOLS (National Outdoor Leadership School), estudantes universitários norte-americanos em treinamento de aventura. Junto com a proximidade da civilização vinha a superlotação da trilha.

Resumo do sétimo dia: 16,78 km percorridos, com 338 m acumulados de subidas e 735 m acumulados de descidas.

DIA 8 (PUESTO CAYUQUEO – ESTRADA CALLUQUEO)

Nosso último dia de trekking foi rápido e fácil, praticamente um passeio no parque. Acordamos mais tarde, tomamos café da manhã sem pressa e começamos a caminhar depois das 10h da manhã. Normalmente o dia começava antes das 9h para nós.

A trilha virou uma estrada rústica, dinamitada anos atrás como uma alternativa à Carretera Austral e abandonada e nos levou até uma estrada funcional, turística, com vista para a Geleira Calluqueo.

Nosso amigo Wilfredo já estava nos esperando com a van logo depois de uma placa que indicava “fin del camino”. Ele nos acompanhara todo o tempo pelo SPOT GEN-3 e foi monitorando nosso progresso. Paramos para almoçar empanadas em Cochrane e chegamos à noite em Coyhaique, prontos para uma pizza de comemoração e o primeiro banho quente em mais de uma semana.

Resumo do oitavo dia: 9,09 km percorridos, com 44 m acumulados de subidas e 159 m acumulados de descidas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A RUTA DE LOS PIONEROS foi uma das melhores trilhas que já fiz na Patagônia, principalmente pelos desafios físicos e técnicos, pela ausência de outros turistas e pelo aspecto histórico. Não se trata de um caminho turístico num parque, é um pedaço da história do desbravamento, da conquista do ambiente selvagem e do primeiro povoamento de uma vasta região da Patagônia — um evento que aconteceu há apenas 70 ou 80 anos atrás. Nós pisamos nas pegadas da história.

Não tenho dúvidas de que a RUTA DE LOS PIONEROS será em breve um roteiro clássico, um trajeto procurado por milhares de aventureiros todos os anos. Isso trará mudanças radicais à região, com mais empregos, mais prosperidade material, mais opções profissionais aos moradores locais. Empreendedores abrirão refúgios ao longo do caminho e a rota será mais acessível para todos. Mais gente poderá apreciar as paisagens e viver a comunhão com a natureza que nós pudemos desfrutar.Por outro lado, a trilha logo deixará de ser tão selvagem e isolada quanto é hoje. Fico feliz por ter feito esse roteiro enquanto ele ainda não foi descaracterizado por um volume maior de visitação. 

Se fosse repetir o roteiro — o que eu provavelmente farei em breve — faria em mais dias, talvez 10 dias no total ou até 12 dias, pra poder descansar mais, contemplar mais, prosear com Don Rubén e pescar uma daquelas trutas gordas que vi no Lago Alegre. 

De um ponto de vista mais pessoal, mais emocional, sinto que a cada expedição didática que organizo, a cada vez que levo um grupo para se aventurar comigo, dou mais um passo numa certa direção que escolhi. Não desenvolvo esse tipo de trabalho por razões puramente financeiras. Tampouco tenho intenções de turismo ou lazer com esses projetos. Acredito profundamente que experiências de imersão e de profundidade em contato com a natureza o mais preservada possível, num ambiente de trabalho coletivo e com objetivos comuns, promovem o autoconhecimento e têm potencial transformador. Somos seres sociais presos a uma sociedade individualista, consumista, sectária e superficial. Quando nos livramos das amarras impostas por preconceitos de classe, expectativas materiais, cobranças socioeconômicas e o sempre crescente senso geral de desconexão que o excesso de conectividade digital impõe, em substituição ao contato humano, temos a possibilidade de acessar nossa natureza interior. Natureza interior e natureza externa são fios entrelaçados de uma mesma trama. Expedições, como essa, podem nos fazer entender de um modo silencioso e profundo que fazemos parte de algo muito maior do que nós mesmos, nossas crenças, as cidades e os países a que pertencemos. A sensação de pertencimento ao complexo universo da vida pode ser libertadora. Com certeza existem diversos outros caminhos na direção do autoconhecimento e na tentativa de integração com o Todo. O caminho que descobri pra mim foi o da aventura — o descobrir a mim mesmo enquanto exploro a natureza selvagem. 

Aos interessados em participar de aventuras como essa, visitem nossa AGENDA para saber as datas de nossos próximos cursos, treinamentos e expedições. 

Aos interessados em narrativas de grandes travessias em trekking, sugiro a leitura do meu último livro HIGHLANDS: POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS, que conta sobre minha experiência nos 450 km da Cape Wrath Trail, a trilha mais difícil da Grã-Bretanha, que corta as Highlands da Escócia de sul a norte. Como venho fazendo desde TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS e pretendo fazer com o livro sobre a Mongólia, em produção, esse livro também traz extensa pesquisa histórica e cultura, com inúmeras citações de bons livros. Literatura de aventura com muita pesquisa e um pouco de autobiografia. AVENTURA TAMBÉM É CULTURA. 

Resumo da travessia: 133,44 km percorridos, em 8 dias, com 5.310 m acumulados de subidas e 5.202 m acumulados de descidas.

Pra completar, quem quiser ouvir o PODCAST RUTA DE LOS PIONEROS, gravado em 30 de janeiro de 2020 com o editor-chefe do Portal Extremos, Elias Luis, basta clicar no link.

Guilherme Cavallari
Guilherme Cavallari

Published on 01/31/2020 13:31

Performed from 01/09/2020 to 01/16/2020

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Thiago Ferreira
Thiago Ferreira 01/31/2020 17:48

Guilherme, fascinante como sempre, parabéns. Espero um dia poder dividir uma aventura com você que é uma pessoa que admiro muito. Vou agora ouvir o podcast.

Guilherme Cavallari

Guilherme Cavallari

Gonçalves - MG

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Fundou e dirige a KALAPALO EDITORA desde 2001, produz e distribui conteúdo sobre aventura, com ênfase em mountain bike e trekking. Vive em Gonçalves (MG), no REFÚGIO KALAPALO.

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