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Férias na Mantiqueira. Terceira parte - Itatiaia.
Final de semana em Itatiaia. Circuito Cinco Lagos, Ovos da Galinha, Pedra do Sino, Couto-Prateleiras.
Montanhismo Trekking HikingFérias na Mantiqueira. Terceira parte - Itatiaia.
Setembro de 2019.
Sentado sobre a mochila, à beira da Rod. Sebastião Alves do Nascimento (BR-354), aguardava minha carona para voltar à civilização. Tinha acabado de completar a Travessia da Serra Fina e voltaria à pousada em Passa Quatro para tomar um banho e descansar. Só voltaria para São Paulo no dia seguinte e ainda teria tempo para visitar o Museu de Miniaturas de Passa Quatro e talvez tirar umas fotos da Locomotiva.
Ali, de costas para a última descida da Serra Fina, desde o Pico dos Três Estados, tinha deixado muita coisa para trás, muito peso, da mochila e emocional. E sentia que faltava coroar as férias com um bom descanso.
Lembrei que dali há poucos quilômetros, na mesma rodovia, estava a Garganta do Registro, entrada para a parte alta do Parque Nacional de Itatiaia. Lugar que frequento desde 2006, mas que já faziam três anos que não ia. (Leia o relato dessa última visita.)
Antes de minha carona chegar já tinha traçado o plano, a logística e até a mochila de ataque já estava montada na minha cabeça.
No carro, voltando pra Passa Quatro, exausto, chequei a previsão do tempo do próximo final de semana. Sem chuva.
Passei a noite na cidade, e voltei no dia seguinte pra São Paulo. Teria três dias em casa para recuperar os joelhos e preparar as coisas. Aluguei um carro, reservei pernoites no Hostel Picus, arrumei a mochila, e comprei guloseimas. Essa parte das férias eu faria com conforto.
Sábado - Primeiro dia. Trilha dos cinco Lagos, Pedra do Sino.
Depois de uma ótima noite de sono sozinho num quarto pra 8?, 12? pessoas, e de um excelente café da manhã, saí antes das 6h do Picus. Na entrada do parque ainda não tinha muita certeza que trilha faria. Mas vi dois grupos dizendo que iam pro Agulhas Negras e outro ia fazer a travessia Couto-Prateleiras. Não ouvi ninguém falar que ia para a Pedra do Sino, então era pra lá que eu ia.
Nunca tinha feito essa trilha. Agulhas e Prateleiras já tinha ido uma dezena de vezes cada.
Paguei o ingresso e registrei que iria para a Pedra do Sino, via Trilha dos Cinco Lagos.
O início da trilha já era ali logo após a portaria, à esquerda. Seguindo mais ou menos à Pedra do Altar, mas contornando à esquerda dela e seguindo pelos tais “lagos”.
A trilha dos Cinco Lagos, apesar do nome, não me pareceu ter Cinco Lagos. Contei talvez dois lagos, e mais duas grandes poças d’água, ou charcos. Não vi um quinto.
A primeira metade da trilha é em grande parte sobre terreno rochoso, fácil de perder a referência com neblina, mas estava bem marcada com ripas de madeira com a ponta pintada de vermelho. Divertido de andar, mas provavelmente tenso se chovesse. É o mesmo trecho usado para se fazer a Travessia Serra Negra - Visconde de Mauá.
Próximo à Cachoeira do Aiuruoca, há uma bifurcação que, para a esquerda, continua a travessia, e para a direita, segue a segunda metade da trilha, para o Sino. Uma “reta” longa pelo vale até os Ovos da Galinha. Um amontoado rochoso que de longe parecem ovos num ninho.
Dos ovos, pode-se seguir para Travessia do Rancho Caído, Vale das Cruzes, e além dessas trilhas, há um fuzuê de caminhos que pode confundir. Demorei um tempo pra achar qual o trecho certo, apesar da Pedra do Sino estar ali na minha cara, não tinha certeza qual face subir.
No fim, ali do lado dos ovos, tinha uma pequena descida, por um mato alto, e uma passagem para a base da Pedra. Dali foi só seguir pra cima, e chegando há uns 100 metros do cume, circundar para a direita.
A súbita é forte, e te alerta sobre o impacto nos joelhos na volta. Também não recomendo ir com chuva.
Porém o tempo estava muito bom. Achei o livro de cume debaixo de uma pedra, e deixei ali meu agradecimento por poder ter férias e desfrutar daquilo.
Sentei pra comer e fiquei assistindo do outro lado do vale, as formiguinhas de capacete subindo para o Agulhas Negras. Algumas já no topo. Dava pra ouvir algumas risadas, alguém gritando “uhuuu!” manifestando toda sua empolgação e necessidade de atenção para quem quisesse e não quisesse ouvir. Já tinha me irritado com coisas piores nesses anos de montanhismo, aquilo não me abalaria. Fiquei ali por cerca de uma hora. Acho que cheguei a cochilar, ou ir pra outro plano.
A descida foi bem mais fácil de visualizar, já que os Ovos da Galinha lá embaixo estavam sempre à vista. E o retorno foi tão tranquilo que achei que merecia parar na cachoeira do Aiuruoca. Tranquilo até uma cobra entrar na trilha à minha frente e ficar olhando pra minha cara. Meu impulso foi voltar correndo e subir o Pico de volta, e se possível subir numa cadeira. Mas não havia cadeira, nem minhas pernas seguiram o impulso.
Tirei a câmera da mochila devagar e tentei tirar uma foto… um olho na câmera, todos os outros na cobra.
Logo ela se desinteressou em posar para meu ensaio fotográfico e se foi. Eu ainda fiquei de pernas bambas uma meia hora… Não gosto. Igual Indiana Jones.
Na cachoeira, umas dez pessoas lanchavam. Mas tranquilas. Sem “uhuuu”.
Desci até a queda e molhei a cabeça. Gelada.
A cobra levou minha coragem de entrar na água. Sei lá…
Voltando para a trilha, resolvi não ir diretamente para a portaria. Estava a fim de andar mais. Peguei o desvio e fui para a Pedra do Altar. O começo da subida estava bem deteriorado e com lama. Por ser uma trilha mais curta e mais próxima da portaria, é bem mais frequentada, e a degradação é maior.
Já começava a ficar tarde e muita gente já estava descendo. Encontrei um colega do Clube Alpino Paulista, trocamos algumas frases e segui o caminho.
No cume “só” haviam mais três pessoas. Um casal e mais um.
Sentei um pouco acima deles e fui ver o que ainda havia na mochila pra comer…
De repente um zumbido horroroso, como de um enxame de marimbondos, só que piscante e controlado por controle remoto. Um deles soltava um drone barulhento bem ali.
Segundo o ICMBio: É proibido o uso de drone por questões de segurança dos visitantes e para evitar acidentes com a fauna do parque nacional, especialmente espécies que nidificam em paredões rochosos. O uso do equipamento pode ser autorizado pelo parque nacional, após análise e autorização formal do pedido dos interessados.
Aposto que não tinham autorização e nem sabiam disso. É de praxe a ignorância das regras ser justificativa para que se faça algo sem pensar nas consequências. O barulho espantou os pássaros, e certamente não veria mais nenhum animal ali, além daqueles três.
Esperei para ver para que serviria aquela total falta de empatia para com quem vai ao parque em busca de sossego. Tampouco se importaram com os escaladores que estavam logo abaixo tentando se ouvirem. Obviamente não tinha nenhum objetivo científico, de pesquisa, ou registro da fauna, ou geográfico, ou tampouco histórico fotográfico. Era só pela tentativa demasiada demorada de uma selfie de gosto duvidoso.
Desci com ódio da humanidade, mas o que se pode fazer? Cansei de tentar discutir ética e respeito na montanha com pessoas egocêntricas.
Desci até o Abrigo Rebouças e voltei pela estrada. Alguém me ofereceu carona. Agradeci mas segui andando. Não queria mais interações com humanos.
Comuniquei na portaria o ocorrido, mas não anotaram nada, nem perguntaram nada. Parecia haver pouco interesse no assunto.
Segundo dia. Couto- Prateleiras.
Na última vez que estive no parque tinha subido até o Couto com alguns amigos. Tinhamos chegado tarde na entrada do parque e a travessia de lá até Prateleiras não foi recomendada. Desta vez cheguei cedo e fui.
Até o Couto não tem erro. Também é uma trilha próxima, por uma rua até a antena que fica atrás da portaria do parque.
Subi sem ver ninguém e achei que talvez pudesse ser o primeiro do dia a subir. Ledo engano.
Logo depois da antena, comecei a subir a escalaminhada final da Pedra do Couto, quando uma maçã mordida é jogada lá de cima. Gritei. Sem resposta.
Voltei para trás e respirei fundo. Não queria ter que explicar que não tem pé de maçã em Itatiaia, que os animais ali não estão acostumados a comer maçã, e que mesmo que fosse “orgânico”, que ele deveria enfiar o resto de maçã na mochila e levar pra casa. Sem contar que poderia ter me acertado. Logo depois desceram uma meia dúzia de pessoas e voltaram pela estrada. Nenhum deles pediu desculpas ou mencionou o ocorrido.
Para quem queria paz e sossego, não estava fácil.
Subi para o cume e abri o mapa. Dali pra frente eu não conhecia o caminho, mas sabia que ficando na crista da montanha, paralelo à estrada não teria muito erro.
O caminho foi bem tranquilo, com a vista do Agulhas Negras à esquerda, e do Abrigo Rebouças lá embaixo. Passei pela Toca do Índio, uma passagem por debaixo de pedras escoradas umas nas outras, e fui até o Mirante do Agulhas. Ali avistei um grupo descendo para estrada na bifurcação da trilha e sentei pra esperar. Não queria mais desaforos.
Quando sumiram lá embaixo, retomei a trilha, mas tinha perdido o foco e acabei seguindo um totem que deu no meio de um mato alto que não parecia muito amigável de varar. Voltei pelas pedras até reencontrar a trilha.
Dali já avistava o Prateleiras. Para mim a formação mais interessante de Itatiaia. Tão cativante que não há espaço para se irritar com nada. E ali no pé daquelas rochas passei uma hora assistindo o povo que tentava achar o caminho para subir, e os que desciam de rapel. Voltei pela estrada, parando na Cachoeira das Flores para lavar o rosto.
Agora era voltar à cidade, ao trabalho, revigorado, e sem “uhuuu”.
