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Meia Meia Volta de Floripa
Todo mundo só pensava em tirar a mochila das costas e para para descansar, infelizmente nosso projeto terminava ali.
Trekking Hiking AcampamentoSabe aqueles projetos que vc idealiza e guarda anotado em algum local ou mesmo na memória, e deixa lá como se estivesse esquecido. Então, no dia 13 de outubro de 2021 dei conta que o feriado de Finados seria na terça-feira. De última hora comecei a imaginar algo que pudesse ser planejado em uma semana.
Nós estamos longe do litoral e também das cadeias de montanhas das serras brasileiras. Por coincidência cruzei com um ônibus com o letreiro "Florianópolis"; pimba, ta aí o destino.
Corri conferir passagens e chamar os amigos. Na loucura aceitaram sem perguntar o que de fato eu estava tramando. Nem eu sabia direito. Durante a semana maturei o Projeto Meia Volta de Floripa. Esse é um roteiro que existe, inclusive é operado por alguns agentes na Ilha da Magia, mas geralmente ele é feito de bike ou trail-run, ou ainda com apoio em pousadas específicas.
Minha ideia era começar o trekking na ponta sul e seguir até a ponta norte, cerca de 85 km, percorrendo as praias e outros pontos de interesse.
Saímos de Campo Mourão às 19:00 do dia 29, passamos a noite na estrada chegando em Floripa às 07:45, com chuva. Um Uber nos deixou na Caieira da Barra Sul, no início da Trilha para Naufragados. As canaletas da trilha pareciam rios. Nossa parada no Forte Mal. Moura de Naufragados foi debaixo de água.
Descemos para a Praia onde paramos para pedir água na única residência que haviam pessoas. Nosso almoço foi debaixo dos arbustos no alto da Ponta do Frade, conseguimos esconder um pouco da chuva que castigava.
Continuamos pela crista do morro cerca de 3 km até a Ponta do Pasto. A trilha implacável, quando não estava alagada, se tornava um escorregador de lama. Quase impossível parar em pé. Ao sair na Ponta, a chuva cedeu para o vento forte que nos obrigou a retornar para a mata rapidamente. Até aqui as coisas iam na maior farra.
Quando começou a chover novamente, percebi que as brincadeiras com o perrengue passaram a ter um fundo de frustração. A caminhada não fluía, as horas iam passando e o tempo piorando. O caminhar lento aumenta a carga sobre as pernas e também diminui o metabolismo (que seria normal nessa situação) aumentando a sensação de frio. Uma junção de fatores que facilmente derruba o psicológico, ainda mais se as pessoas não esperavam por isso. Só não complicou porque seguidamente conseguíamos algumas janelas para avistar a Praia dos Açores lá na frente.
Quase por sorte chegamos, enfim, na Praia do Saquinho, ninguém quis parar. Fui na areia, logo tive de retomar a trilha, agora uma calçada bruta que sobe quase 130 m para depois descer do outro lado.
Nosso plano de chegar na Lagoinha do Leste ia por água a abaixo, os 8 km desde o Naufragados nos custaram 5h de trilha.
Procuramos e encontramos o Hostel Aloha que nos recebeu. Foi uma noite divertida, com muita roupa pendurada no quarto para secar.
Começamos o dia 31, às 09:20. Já nos primeiros quilômetros pela Praia do Pântano Sul, sob garoa, surgiram os primeiros sinais de desânimo. Sem muito esforço coloquei o grupo novamente no clima e começamos a subida do Pântano Sul.
No alto do morro pegamos a trilha alternativa que leva direto para o Morro da Coroa. Assim que começa a garoa e a trilha fica ruim a moral vai lá embaixo novamente. Insistimos até sair no Morro, lá o visual deu uma animada. Como quase todos queriam descer logo para comer alguma coisa na praia, ficamos parados ali somente o necessário. A descida foi outro teste, devido a inclinação.
Na Praia na havia ninguém, como era de esperar. No entanto, eles acreditavam que haveria alguma estrutura lá, e outra vez veio a frustração. Quando coloquei as opções na mesa, a decisão foi 4 x 2, minha opção de acampar por ali e no outro dia seguir foi descartada com veemência. Percebi que havia um sério problema com encarar a chuva e o tempo ruim. Escolhemos seguir 7 km até a Praia da Armação.
Contornamos a Ponta do Facão por uma das mais belas trilhas do litoral que conheço. E antes mesmo de entrar na mata a chuva caiu novamente com força. A moral do grupo foi só decaindo, da mesma forma as pessoas começaram a levar tombos. Situação sequencial, primeiro vc perde o tesão pela coisa, depois deixa de fazer as coisas direito e passa a lutar contra a natureza, reage com a emoção e não com a razão. Pisa errado, pisa com força e acaba perdendo o equilíbrio.
Aos poucos fui segurando no limite a moral de um e depois de outro, quando um baixava a cabeça eu aproximava e tentava recolocá-lo no jogo. Todos foram guerreiros. Ninguém imaginava que encararíamos um clima tão tinhoso. Também não esperavam que uma trilha a beira mar tivesse tanta subida e descida, que fosse possível passar frio em Florianópolis.
Saímos na Praia do Matadeiro já com a noite caindo. Fomos obrigados a caminhar mais 2,5 km até o camping. Quando chegamos foi um clima de alívio, até eu estava já começando a questionar a escolha que fizemos para esse rolê.
Depois de um banho quente, tudo se ajeita. Fomos ao centro da Praia da Armação e nos afogamos no chopp. Voltamos felizes da vida, parece que tudo tinha se arrumado. A manhã do terceiro dia prometia, o sol veio magnífico. Assistimos da areia e sentimos o calor encher o espírito e preparar o dia.
Enquanto preparamos o café, veio o prelúdio: começava novamente uma garoa fina. Com a mochila nas costas pisamos na areia e afundamos até a canela. A areia da Praia da Armação é mole; grossa e mole. A caminhada penosa como nunca. Imediatamente aquela boa vibração do sol foi embora, começava os problemas.
Nos separamos, eles (sabiamente) foram pela rua, eu e a Bruna cruzamos os 2 km pela areia. Quando nos reunimos novamente já haviam decidido encerrar a jornada. Conversamos sobre eles pararem e nós continuarmos, mas eu também já tinha perdido o pique; uma que o cronograma estava 20 km atrasado e outra que não queríamos nos separar.
Enquanto caminharam pelas ruas da Praia das Pedras e do Campeche, nós fomos pela areia parando a cada km para observar o mar, o sol, os banhistas.
Quando eram 11:50 recebemos a ligação derradeira, eles estavam num Hostel do Campeche. Coincidentemente a uns 300 m de nós, pensamos um minuto e cruzamos as dunas para se juntar a eles.
Nossa volta terminou no Campeche com cerca de 41 km. Aproveitamos a tarde para se divertir como turistas e no outro dia, antes de tomar o ônibus novamente, passamos a manhã na Ilha do Campeche.
Esse é mais um relato daqueles que as pessoas não gostam de contar, porque não se concretizou, parece ter saído errado. Mais uma coisa é certa, se vc nunca precisou desistir, se adaptar; ou você está mentindo, ou está fazendo a coisa do jeito errado.
Naveguemos!
