AventureBoxExplore
Create your account
Travessia da Serra Fina | 2 dias

Travessia da Serra Fina | 2 dias

Morri, mas passo bem.

Trekking Mountaineering Camping

Sexta, dia 05 de julho, embarcamos no Rio de Janeiro rumo a Passa Quatro / MG, para essa aventura. Já havia mais de 1 mês Serra Fina em 2 dias estava programada em nossas agendas e estávamos, em tese, nos preparando para esse trekking bastante cansativo. A previsão do tempo já anunciava que esses seriam os dias mais frios do ano, e não foi diferente.

Chegamos a Passa Quatro por volta de 3h da manhã, na casa da Natália, mineirinha muito simpática responsável pelo transfer que nos levaria até o início da trilha, na Toca do Lobo. Lá tomamos café, vestimos nossos fleeces, anoraks, lanternas de cabeça, e fizemos os últimos ajustes e fotos. Entramos em um caminhãozinho muito doido e seguimos viagem. Nos dias anteriores a trilha havia chovido em Passa Quatro, o que até nos fez repensar sobre ir, mas na sexta o tempo melhorou bastante, ainda assim a estrada estaria molhada. A estrada para a Toca do Lobo tem muita lama, praticamente só lama, e se não fosse esse caminhãozinho ou um carro 4x4, dificilmente chegaríamos ao inicio da trilha. Uma van que tentava subir atolou na nossa frente, e logo após nós atolamos no mesmo trecho. Ajudamos uns aos outros a desatolar e ambos seguimos viagem.

Enfim, chegamos ao início da trilha e passado um pouco de 4h30 começamos a subir. Ainda era noite e o clima estava bem gelado. O início da trilha para a Serra Fina é tranquilo, ela não se mostra inicialmente tão desafiadora. Começam então algumas subidas, muitos pedregulhos, sinal que chegamos ao Quartizito, e logo ao Passo dos Anjos, aquele primeiro caminho na crista das montanhas, geralmente o cartão postal da Serra Fina. Nesse momento o dia amanhecia acinzentado e não havia muito desse cartão postal a vista.

Dali até o Capim Amarelo apenas 2,8km era o que dizia o GPS, mas esse “apenas” na verdade já começara a se mostrar uma subida bastante íngreme. O Capim Amarelo está entre as 30 maiores montanhas do Brasil e sua altitude é 2.392m. O tempo começara a abrir, céu azul e já era possível ter a vista espetacular do mar de nuvens e montanhas, além de sermos surpreendidos por estalactites de gelo que surgiram no caminho. As “tites”, como carinhosamente apelidamos, vieram a aparecer muitas outras vezes, bem como placas de gelo, do inicio ao fim da travessia.

Para o primeiro dia, nosso destino era a Pedra da Mina, até lá seriam mais 7km de muitas subidas e descidas, dando um total de quase 13km neste dia. Éramos 9 pessoas, todos cientes do desafio que estávamos enfrentamos e com algumas experiências em trekking em nossas bagagens.

Quando estávamos na montanha seguinte e víamos o Capim Amarelo já a certa distância, vimos um helicóptero se aproximar de lá. Eram os bombeiros que foram chamados para um resgate. Não são incomuns os resgates na Serra Fina. É uma trilha difícil, gelada, e sem equipamento de navegação, fácil de se perder. Viemos a saber, depois, pelos jornais, que uma senhora de 52 anos teve um AVC no meio da trilha. O helicóptero conseguiu pousar no Alto do Capim com dificuldade, pois ventava bastante, e a resgatou. (link)

Seguimos caminho. Para trás ficava o Capim Amarelo, bem mais alto do que estávamos agora, e a vista perfeita de todo o caminho que havíamos percorrido. A nossa frente, a algumas montanhas de distância, a gigantesca Pedra da Mina. Paramos algumas bastante vezes para recuperar o fôlego, para comer, e a cada parada, o frio levava embora todo aquecimento que a caminhada trazia. Era um coloca casaco e tira casaco em muitos momentos.

Era inicio de tarde quando chegamos ao Maracanã, um camping grande com espaço para muitas barracas. Lá almoçamos e ficamos por um bom tempo. Caminhávamos desde a madrugada e aproveitamos a parada mais longa para um rápido cochilo. Ainda faltava pelo menos uns 5km para chegar a Mina e o cansaço já começava a aparecer. E lá fomos nós novamente. Sobe montanha, desce montanha, coloca casaco, tira casaco. Nossa preocupação era chegar na Mina antes de anoitecer. Vimos pelo caminho, além das “tites”, muitas placas de gelo e sabíamos que a previsão previa -6º por aquela região. Passamos por muitos campings pelo caminho, muitos mesmo. Mas nós tínhamos apenas 2 dias para completar todo o percurso da travessia, e deixar o máximo de caminho para trás era a nossa ideia. No máximo, em último caso, se ficasse tarde, acamparíamos na base da Mina, mas a ideia principal era transpor a gigante montanha ainda no primeiro dia e acampar em seu cume. Foi o que aconteceu. Já era perto de 17h quando chegamos à base da Mina e seguimos caminhada para o cume. Nesse momento o grupo já estava com ritmos diferentes e nos separamos um pouco, sem nos perder de vista. A temperatura já começava a cair e precisávamos montar as barracas o quanto antes. Fiquei para trás com uma amiga que também estava bem cansada. Subimos aos poucos e preocupadas com a temperatura e a escuridão. A Mina tem um falso cume que é uma tristeza. Quando você pensa que chegou, a montanha faz uma curva e mostra mais um belo pedaço de subida. Engolimos o desgosto e seguimos, chegando no cume quase 18h e com um lindo e gélido por do sol.

O vento batia forte. Muitas barracas no cume da montanha, fomos catar um local onde colocar a nossa. Os locais mais abrigados todos ocupados, sem muita escolha, montamos a barraca onde era possível. Segura aqui, cuidado aí, tá pisando na barraca, coloca o espeque, e assim ela ficou em pé. Entramos e de lá não queríamos mais sair. O cansaço era tanto que cogitamos nem jantar e ir direto dormir, mas sabíamos que a noite esfriaria mais e comer é uma etapa importante para manter o aquecimento do corpo. Com muito cuidado, ligamos o fogareiro e fizemos nossa janta dentro da barraca. Minha barraca é uma Mykra ½ e dividi-a com um amigo. Até agora não sei como conseguimos fazer a janta, ajeitar 2 cargueiras e nossas coisas lá dentro. Rsrs! O frio nos fez dar um jeito. Alimentados, nem esperamos pelo frio para abrir os cobertores de emergência, já o colocamos dentro do saco de dormir e ficamos abrigados e confortáveis. A verdade é que agora contando, tudo se torna meio simplista, mas depois de montarmos a barraca, meu amigo e eu entramos em cansaço mental mode on e começamos a duvidar se era de fato pra estarmos ali e não nas nossas casas quentinhas, vendo TV e comendo brigadeiro. Ventava muito quando montamos a barraca, não foi fácil nem simples.

Amanhecer na Pedra da Mina, 4ª maior montanha do Brasil

No domingo, o combinado era sairmos às 7h. Acordamos às 6h, mas a maior parte do grupo ainda estava dormindo. O vento já não era tão forte, mas ainda bastante frio. Tomamos café, desmontamos acampamento e tiramos muitas fotos. A previsão de saída mudou para 8h, mas depois de tanta conversa e fotos, acabamos por sair as 9h e pouquinho.

Poça congelada no topo da Pedra da Mina



Descida da Mina, rumo ao Ruah

Vale do Ruah

Seguimos descendo a Pedra da Mina e chegamos ao Vale do Ruah, onde no início já havia muito gelo no chão, indicando o quão frio fez ali durante a noite. Mais para frente havia até alguns lagos congelados. Ao fim do Vale paramos para nos abastecer de água. Aliás, durante a travessia há muitos pontos de água, na Toca do Lobo, no Quartzito, na subida da Mina e no Vale do Ruah. Depois do Vale, apenas próximo ao fim da travessia, quase chegando ao Sítio do Pierre.

Começamos mais uma saga de sobes e desces. Passado o Ruah, subimos uma montanha que não sei identificar, após ela, o Cupim do Boi, e então começou a cansativa subida do 3 Estados, 10ª maior montanha do Brasil, divisa entre os estados de MG, SP e RJ, por isso o nome. Ao contrário do que pensei, não me recuperei muito do cansaço do dia anterior, e cada nova subida das montanhas que vinham pela frente era um sofrimento pra mim. Chegamos ao Pico dos 3 Estados já um pouco tarde, não lembro exatamente a hora, mas creio que era perto de 14h. Lá paramos durante quase 1h, comemos, mais fotos, conversa, alguns ratinhos. Tem uns ratinhos bonitinhos no camping do 3 Estados, então não é uma boa opção para pernoitar, caso você não simpatize com eles.

Também encontramos outro grupo por lá. Na verdade durante a travessia fizemos algumas amizades com um grupo de Minas e com dois meninos que acabaram se unindo a gente para fazer a travessia em 2 dias. Lá no pico tiramos fotos todos juntos. Mais uma vez seguimos a caminhada, dessa vez com a esperança, na verdade falsa, de que a próxima montanha seria a última subida, o Alto dos Ivos.

Grupo que encontramos no topo do 3 Estados, Trilhando Trekking, mais os meninos que nos acompanharam durante parte da travessia, e a gente, Clube Outdoor + Vaca Tekking.

A última foto tirada durante a travessia

Antes de decidir fazer a travessia, não me achava capaz de fazê-la. Meus amigos insistiram que eu conseguiria, porque sabem que eu ando relativamente bem. A verdade é que me senti muito cansada durante a caminhada, era, sem sombra de dúvidas, a pessoa mais cansada no grupo. Não bastasse o cansaço, ainda fiquei naqueles maravilhosos dias femininos durante a travessia. Não sei se isso teve alguma colaboração para a minha falta de disposição. Mas sei que o resultado final de todas as dificuldades mais meu desgaste, era uma pessoa bastante estressada. Durante a descida antes de chegar ao Alto dos Ivos, em um momento em que se via bem a montanha a ser transposta, eu desabei. Nesse momento estava atrás, só eu e um amigo que me ajudava com meus passos mais lentos. Eu comecei a chorar durante alguns segundos. Acho que foi a maneira que encontrei de extravasar tudo que estava sentindo. Naquele momento a única certeza que tinha é que não havia outra forma de sair dali senão terminar de andar aqueles quilômetros restantes.

Me recompus e segui, cantando uma música mental e condicionando minha mente a andar o que ainda faltava. A verdade é que o Alto dos Ivos ainda não era a última montanha a ser subida. Era sim a última grande, depois apenas subidas menores, mas que vistas sob a perspectiva do meu cansaço se tornaram bem grandes. Seguimos, seguimos, seguimos, até que enfim deixamos de subir e só havia descida em nosso caminho. Já não víamos a hora de chegar ao Sítio do Pierre, antes ainda haveria o último ponto de água. Nesse momento já passava de 19h e nossa água estava no fim. Enfim chegamos lá, descansamos por alguns poucos minutos, abastecemos água, tomei um isotônico que meu amigo preparou e seguimos novamente. Em poucos minutos chegamos a um caminho amplo, era uma estradinha que indicava os quilômetros finais da trilha. Nesse momento usei o que ainda existia de disposição no fundo bem escondido de alguma parte do meu corpo, sai do fim do grupo e fui embora. Muito rápido chegamos ao Sítio do Pierre, onde a trilha se torna uma estrada em pedra. Seguimos até sair por um portão e entrar em outra estrada, e seguimos a descida até chegar a van.

Nosso motorista da van é o melhor do mundo, e lá ele nos esperava com chocolate quente, lanche e cerveja gelada para quem bebe. Eu estava enjoada, sabia que por demasiado cansaço. Comi e bebi mesmo sem vontade, porque seria o melhor para o meu corpo. Entrei na van, paramos em um posto e depois disso só lembro da van parando para deixar um amigo que ficaria no meio do caminho, já no Rio. Já era quase 1h da manhã quando cheguei em casa, e as 8h começava a minha próxima jornada, de acordar e ir para o trabalho. Incrivelmente, nem segunda nem durante a semana tive dores muscular. Só a cabeça doía. Sai da Serra Fina dizendo que não voltaria mais lá. Foi realmente sofrido pra mim. Mas a verdade é que hoje já penso em voltar. Não em 2 dias. Nem em 4, porque acho demais. Mas em 3 seria o suficiente para curtir cada paisagem, porque aquele lugar é realmente deslumbrante.


Josye Villela
Josye Villela

Published on 07/15/2019 00:44

Performed from 07/06/2019 to 07/07/2019

Views

2637

2
André Leopoldino (Dino)
André Leopoldino (Dino) 07/15/2019 07:20

Cacete de agulha! Que relato!! Não sabia que tinha sido desta forma pra vc Josye... assim como os demais, achei que tu faria com os pés nas costas! Essa travessia é sobretudo psicológica. Mas que ótimo que estava cercado de amigos e conseguiu guerreiramente completar! Tu é sinistra! =) Dino

Josye Villela
Josye Villela 07/15/2019 09:37

Obrigadaa Dino! <3 Foi phoda pra mim. Não sei ainda o que aconteceu, só que não eram meus melhores dias. Mas ao contrário do que saí de lá dizendo, certamente voltarei. Rsrs! E realmente, sem os amigos teria sido muito mais difícil. Henrique então, teve papel importantíssimo.