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Relato: Conquista do Pico Ciririca – O K2 Paranense

Por todos seus desafios, o Pico Ciririca, torna-se uma montanha espetacular, que faz valer a pena cada momento e faz jus ao seu codinome.

Nossa aventura rumo a conquista da montanha mais difícil do Paraná começou no dia 25 de agosto de 2018. Estava Eu (Giuliano), o Dihl e a Rhasmyne. Saímos de Curitiba em direção a Fazenda da Bolinha, porém um pouco tarde, pois o clima estava meio instável, nos deixando com dúvida se iríamos ou não, fomos. Mesmo já passando um pouco o horário para quem está com intenção de realizar essa trilha, pois, é um trekking longo, portanto, é importante que se comece bem cedo. Porém, como tínhamos a intenção de acampar no cume acreditávamos que ainda dava para ir.

Sendo assim, começamos a trilha por volta das 10 horas da manhã, e no início já teve o primeiro probleminha, eu estava com uma bota relativamente nova e começou a “pegar” no calcanhar. Embora eu já tivesse feito algumas trilhas com ela, parecia que ainda não estava totalmente “amaciada”, então, veio um pensamento que talvez não fosse uma boa ideia seguir em frente. Decidimos caminhar até o cruzo do Camapuã/Ciririca e ver como estaria a situação, para então, decidir nosso rumo.

Após pouco mais de uma hora, chegamos ao cruzamento, e por sorte a bota parou de “pegar”. Sendo assim, decidimos manter nosso roteiro inicial, conquistar o “K2 Paranaense”.

A trilha estava bem encharcada devida as chuvas do dia anterior, o que deixou ainda mais difícil, pois, após o cruzamento Camapuã/Ciririca a trilha começou a ficar mais fechada e escorregadiça. O terreno seguiu dessa forma pela maior parte da trilha entre descidas e subidas pelos vales.

Ainda no final do primeiro vale chegamos a um córrego, atravessamos e seguimos em direção a uma trilha que tinha no outro lado. Andamos por volta de 5 minutos e percebemos que aquela trilha estava começando a ficar meio estranha, estava se fechando e parecendo cada vez menos com uma trilha, com um terreno solto e com muitas folhas por entre as árvores cada vez mais fechadas. Considerando estarmos perdidos, resolvemos dar uma conferida em nosso GPS e percebemos que já estávamos bem fora da trilha. Visto isso, a melhor opção era voltar até o córrego que tínhamos passado. Chegando lá, olhamos novamente o GPS e descobrimos que a verdadeira trilha seguia por dentro do córrego, assim seguimos, finalmente em direção à trilha correta.

Após mais 3 horas de caminhada entre descidas e subidas, muitos obstáculos e com o cansaço começando a bater, chegamos ao primeiro ponto em que é possível enxergar o, lindo e ainda distante, Pico Ciririca, aproveitamos para dar uma descansada.

Depois desse ponto, continuamos a caminhada descendo o segundo vale, passando por uma corda, um ponto perigoso e de referência, mas que hoje tem um desvio pelo lado, facilitando a passagem.

Após mais uma hora e meia de descida chegamos à Cachoeira do Professor. Uma belíssima cachoeira praticamente na metade do percurso, ponto ideal para recarregar as energias e se preparar, pois, a partir daí vai ficando mais difícil.

Continuamos a trilha, ainda bastante úmida, com muitas raízes, sobidas e descidas, e a cada parada para olhar o GPS, e conferir o quanto tinhamos caminhado, parecia que não saiamos do lugar, e que o cume ainda estava muito distante, o que deixava nosso psicológico ainda mais afetado, pois, há essas horas o cansaço já era nítido, e o único pensamento era chegar logo, levantar acampamento e descansar.

Mais duas horas de trilha, finalmente, chegamos numa clareira, conhecida como “Última Chance”, que tem este nome, pois, ali é o último local com água e também a última chance para desistir. Já eram 6 horas da tarde, o sol já estava prestes a se pôr. Aproveitamos para sentar um pouco, descansar e apreciar um dos momentos mais bonitos da trilha. Aproveitamos para ligar às lanternas, pois teríamos que terminar a trilha sem a luz do dia.

Deste ponto em diante fomos tomando bastante cuidado quanto a orientação da trilha, que variava entre uma vegetação rasteira e alguns pontos com árvores mais altas. Certo tempo depois chegamos ao ponto mais perigoso da trilha, a rampa do Ciririca, um ponto de rocha bem íngreme, que contava apenas com uma corda envelhecida e úmida que servia de apoio. Mal tinha lugar para pisar e se equilibrar com a mochila, que naquela hora parecia estar pesando uns 50kg, além da escuridão a qual não era possível avistar o real perigo que passávamos. Fomos subindo com muito cuidado, praticamente, se rastejando na rocha, e confiando nossas vidas a velha corda. Após passarmos por essa parte, descobrimos que a corda estava apenas amarrada em dois pequenos galhos, tínhamos razão e não confiar totalmente nela.

Finalmente superamos pelo ponto mais perigoso do percurso, sabíamos que agora o objetivo estava cada vez mais próximo. Sentamos um pouco para recuperar o fôlego e pensar pelo que tínhamos acabado de passar. Aproveitamos para comer alguma coisa, pois a fome estava grande e já era por volta das 19h30. Levantamos e continuamos.

Após mais meia hora de subida entre uma neblina que deixava o campo de visão bem curto, finalmente, estávamos pisando no Cume do Pico Ciririca, e damos aquele grito de alívio e felicidade, com uma lua que surgia em meio a neblina, expondo apenas os cumes das outras montanhas distantes. Após 9 horas e 42 minutos de caminhada, conquistávamos o Pico Ciririca, o “K2 paranaense”.

Comemoramos e seguimos pela trilha que dava acesso à área de camping, para nossa surpresa, descobrimos que não tinha mais ninguém no cume, além de nós. Aliás, não tínhamos encontrado ninguém durante toda a trilha, éramos apenas nós na montanha. A sensação foi estranha, pensar que estávamos sozinhos em uma montanha tão distante. Víamos aquelas placas gigantescas e com vários tambores de ferro abandonados, deixando a paisagem um tanto quanto assombrosa.

Montamos nossas barracas e preparamos o jantar, com direito a macarronada e pizza. Após o jantar fomos dormir. Estávamos bem cansados e tínhamos completado apenas a metade da aventura, afinal no dia seguinte, tínhamos todo o retorno pela frente.

Acordamos bem cedinho para contemplar o nascer do sol, o tempo estava ótimo, com apenas algumas nuvens no horizonte, o que não impediu um belo amanhecer. Tomamos um reforçado café e ficamos mais algumas horas apreciando a paisagem.

Por volta das 9h30 da manhã demos início ao nosso retorno. Na volta levamos aproximandamente 7 horas de caminhada pela longa e cansativa trilha. Ao chegar novamente na fazenda, veio aquela sensação de felicidade e de dever cumprido.

O Pico Ciririca, de fato, não é para qualquer um! É necessário um bom preparo físico, conhecimento técnico e, principalmente, um bom psicológico. Nos momentos de casaço e que parecerá que não está saindo do lugar, o psicológico terá que fazer a diferença para continuar em frente.

Por todos seus desafios, o Pico Ciririca, torna-se uma montanha espetacular, que faz valer a pena cada momento e faz jus ao seu codinome, o “K2 Paranaense”.