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Abertura da via Face Sul da Pedra Comprida

Abertura da via Face Sul da Pedra Comprida

Aventura em grande estilo na Serra dos Órgãos.

Climb Mountaineering

O diedro da face sul visto do caminho para o Açu (trecho entre Queijo e Ajax).

Para os escaladores brasileiros acostumados ao ambiente tropical, as faces sul das montanhas brasileiras quase sempre não são nada atrativas em potencial para escaladas. Por mais de 30 anos frequento o local conhecido como Véu da Noiva. Por mais de 25 anos, eu e toda a comunidade da escalada (na verdade gerações), lamentamos muito aquele lindo diedro ainda não ter sido escalado. Todos se perguntavam se era possível escalar aquele sistema, mas o começo certamente seria desanimador. O caminho para a base é uma caminhada relativamente fácil e prazerosa. Certamente um dos locais mais belos do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. A entrada do diedro é uma parede vertical repleta de vegetação aérea, o que torna em teoria inviável uma via de escalada. Todos sempre pensaram assim. O diedro é bem evidente para quem percorre a trilha principal do parque sentido Véu ou travessia Petrópolis-Teresópolis. Durante a tarde, ele, o diedro, simplesmente ascende na escuridão da face sul da Pedra Comprida. Momento em que o granito claro no interior do diedro é iluminado por poucas horas, enquanto toda a face sul permanece na sombra. Um espetáculo a parte para aqueles que olham as montanhas de uma forma mais diferenciada.

Denise na quarta enfiada durante a repetição após a conquista. Eu estou na P3 mais a baixo.

Um dia sugeri para minha namorada e parceira de escalada Denise Oliveira, que fôssemos ao local investigar o intrigante diedro. Sabia que ele terminava em uma passagem que é um mirante incrível conhecido como Janela do Bonfim. O acesso se dá pela parte superior da cachoeira do Véu da Noiva. Neste dia especial, subimos até lá tranquilamente com um clima maravilhoso. A Janela é um visual privilegiado e que faz jus ao nome: pode-se ver todo o vale do Bonfim até Araras. É preciso ter cuidado neste local, pois a Janela é um abismo de quase 300m de altura. Deitamos de bruços e olhamos com certo temor o espetáculo que seria a última enfiada da suposta via. Descemos então em seguida bem empolgados, precisávamos investigar o acesso para a base. Tive um bom pressentimento. Aquilo não poderia ter sido feito por Deus apenas para o deleite de nossos olhos, pois Deus é escalador (e como ajuda pensar assim). Fizemos uma tentativa de aproximação da base, mas o "guardião do taquaral" nos impediu. Curtimos então o final da tarde em uma das inúmeras piscinas naturais ao redor, voltando para casa cheio de esperanças e ao som do rio e dos pássaros flautistas.

Segunda enfiada: o sonho de qualquer escalador tradicional.

A semana passou rápido, e como a Denise não poderia ir comigo investigar o acesso novamente, chamei o Felipe Lucena, um parceiro que começou a escalar comigo. Munidos de um pequeno podão de jardim, furamos o bloqueio do taquaral e finalmente chegamos na parede. Fomos costeando a pedra e chegamos naquela que seria a base da via. Diante de nós surgiu o interior do diedro, que somente pode ser visto dali. Não vimos muito devido a nossa posição, mas a fissura frontal que conseguimos visualizar nos fez descer a trilha cantando de felicidade, literalmente. Era uma fissura frontal perfeita e limpa. Para os escaladores tradicionais, as fendas e fissuras são tudo o que importa. Para alguns, a vibe de abrir novas vias consiste em se garantir em uma furadeira elétrica e generosa quantidade de ancoragens fixas. Para outros, a possibilidade de realizar a sua própria ancoragem de forma a não alterar a rocha é tudo o que importa. No Brasil, estes últimos precisam pesquisar com bastante persistência para descobrir linhas de escalada por fendas.

Segunda cordada na imagem acima. Há outra fissura a esquerda da fissura principal, possibilitando utilizar as duas simultaneamente.

Imediatamente entramos em contato com o setor do Uso Público do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, apresentamos nosso projeto, e tivemos a liberação para iniciar a abertura da linha. Evitaríamos ao máximo instalar ancoragens fixas. Quando se instala uma ancoragem permanente, é necessário uma boa desculpa neste tipo de situação. Levaríamos essa filosofia ao limite. Isso permite que um tipo diferente de escalada possa existir em nossas montanhas, e que neste caso atende aos escaladores que buscam aventura.

Primeira parada da via. Camalots grandes e um bico de pedra sólido nos abençoaram.

Após portear todo o equipamento e estabelecer o campo base, fomos nos revezando e desvendando os mistérios do "diedro sujo". Ele mostrou então todo o seu potencial em um sistema contínuo de fissuras frontais e em oposição. Tudo isso em um granito de altíssima qualidade e em geral limpo, sem vegetação aérea quaisquer.

P1. Pronto para iniciar o desbravamento.

Após o Felipe alcançar a primeira parada, a realidade se mostrou com força. Era realmente mais do que imaginávamos. Estávamos diante da mais espetacular das fissuras frontais que já tínhamos visto. Fiz as honras até onde pude, mas fui impedido pelo trecho final que estava com terra e musgo. Revezamos a limpeza do trecho, e o Felipe terminou os poucos metros que faltavam da enfiada em lances delicados (que por sinal não é aconselhável cair), estabecendo assim P2 em um local exótico. O visual começou a melhorar e saimos da floresta. Pode-se avistar deste ponto todo o percursso do Morro Açu e Morro do Alicate, além de todo o Vale do Bonfim e o oeste onde reina a Maria Comprida (Araras). Deixamos tudo fixo e voltamos para a civilização tratar de assuntos pessoais e buscar mais suprimentos. Desta vez voltamos com Vitor Christ, também um ex pupilo meu e parceiro de longa data. Foi a vez do Felipe se divertir na terceira enfiada, que foi feita meio em livre e artificial, e que demorou bastante devido a dificuldade. Certamente será a mais difícil enfiada da via quando for feita em livre.

Felipe na terceira enfiada e Vitor na segurança. O crux da via.

Esta enfiada foi desenvolvida até a sua metade, sendo a outra metade terminada na investida seguinte com a participação de Stefano Nunes. E assim foi se desenrolando a via, sem pressa alguma. Nosso foco era estabelecer uma rota limpa. A enfiada seguinte foi então desenvolvida por mim, um sistema cinematográfico de fissuras que formam ao final um arco em horizontal para a esquerda. Simplesmente inacreditável.

Abrindo a quarta enfiada. Entalamentos de punho perfeitos e rocha polida que dispensam luvas.

Felipe desequipando a quarta enfiada.

Após estabelecer P4, verificamos que não poderíamos sair mais em livre, e a progressão artificial se impôs novamente. Passadas em cliffhangers e 3 parabolts inox Fixe foram instalados com muito pesar e também sofrimento, pois a rocha no local é especialmente dura.

O artificial.

Nos revezamos no sofrimento, e depois de vencer o trecho liso, Felipe terminou a enfiada em livre, fazendo uma parada em uma árvore sólida e encerrando a quinta enfiada. Descemos já no escuro. Faltava segundo nossos cálculos apenas mais uma enfiada para o cume.

O impressionante sistema visto de P1.

Retornei com o Vitor para terminar a via, e ele tocou a última etapa e encerrou a via. A enfiada foi exigente como todas, inclusive com trechos em livre obrigatórios de offwidth mal protegidos. A última parada é uma árvore pequena e sólida.

Vitor na primeira metade da última enfiada.

Visual do final da via. Em primeiro plano o Pico do Glória. Ao fundo e a direita o Morro Açu.

Depois que chegamos no cume, que é um dos mirantes da Janela do Bonfim, restou somente a saudade dos dias em que vivemos naquele lugar sagrado. Descemos o caminho de volta para a base passando por inúmeras piscinas naturais ,e escutando como sempre o canto dos pássaros conhecidos como Guaxos. Aliás, estes seres nos proporcioanaram dias muito especiais, pois seu canto é curioso e até muitas vezes engraçado.

Denise fazendo uma prática num dos vários poços de água cristalina próximo do acesso.

Na sequencia voltei na linda face sul, pois a via ainda estava com vários equipamentos na base, e mesmo na via. Desta vez chamei a Denise e o Felipe. Subimos a via inteira colocando todas as cordas e o restante dos móveis pra cima (baita peso). Sentimos o gostinho do estilo alpino, pois esta é uma via que não foi desenvolvida com preocupação de rapel. É quase toda em móvel, é muito vertical, e tem diagonais e horizontais. O único caminho é pra cima. E foi o que fizemos. Chegamos no cume já tarde (haviamos começado relativamente tarde), no escuro total e na neblina. A iminência de levar uma chuva na cabeça e ficar preso na parede levou a adrenalina ao máximo, principalmente nos últimos movimentos estranhos, com a rocha úmida e só com a luz da headlamp.

Por do Sol da Pedra Comprida com visual da Serra das Araras.

A faixa de granito branco destacada na rocha escura da face sul. Ao fundo o Pico do Glória.

Rack: 2 jogos de camalots #.3 ao #6, 1 jogo de camalot C3 ou microfriends tipo Alien, 1 jogo de nuts, par de cliffs Talon Black Diamond, estribos, e corda de 60m. Aconselhável corda dupla em cordada de dois (mas não em cordada de três, devido ao trecho artificial e que precisa jumarear), que pode ser usada eventualmente em uma descida de emergência. O rapel só é possível mediante abandono de material móvel e escalada de horizontal (caso da P4).

Maiores informações com o autor.

Marcel Leoni
Marcel Leoni

Published on 08/17/2017 14:48

Performed from 08/03/2016 to 09/12/2016

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Fabio Fliess
Fabio Fliess 08/17/2017 16:39

Salve Marcel. Parabéns pela conquista e bem vindo ao AventureBox! Abraços.

Marcel Leoni
Marcel Leoni 08/17/2017 17:20

Valeu Fabio, aquele abraço e boas aventuras!

Letícia Fliess
Letícia Fliess 08/17/2017 21:38

Que linda essa via! Sempre fiquei olhando admirada para essa "mancha branca" na pedra no caminho para o Açu. Bela conquista e relato. Abraço.

Marcel Leoni
Marcel Leoni 08/18/2017 20:23

Obrigado Letícia, aquele abraço!

Marcel Leoni
Marcel Leoni 09/06/2017 09:44

Valeu! Abraço!