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Chega de fazer merda na montanha!

Já passou da hora da gente discutir e trabalhar para manter as nossas montanhas e trilhas limpas, cuidando da sujeira que nós produzimos.

Merda, cocô, caca, tolete, bosta, dejetos e em alguns casos, estrume mesmo. A verdade é que muitas palavras a descrevem e o assunto continua sendo fedorento e desagradável: a relação que temos com os nossos dejetos. O que nós fazemos com eles.

Esse é um problema relacionado à humanidade e que não se aplica apenas à montanha. Mas, como minha capacidade de discorrer sobre o assunto é limitada, vou me ater ao fato de encontrar desejos humanos na trilha ou, como recentemente, no cume de uma montanha.

É o fim da picada, sinceramente, varar-mato, rastrear trilha, subir serra e morro durante 9 horas, subir montanha e ao se preparar para dormir, descobrir que o limitado espaço do cume está cheio de merda. Não sei vocês, mas para mim é broxante.

Papel Higiênico em local de acampamento, no cume do Pico do Itobira.

Problema Geral

Recentemente, durante uma expedição que fizemos eu, Sandra Cardoso e o Peter Tofte pelas Serras Altas da Bahia, foi exatamente isso o que aconteceu. Ao procurar uma palha seca, para ajudar a isolar o frio, descobri que ela tinha sido retirada do abrigo para cobrir dejetos humanos e papel higiênico. E para terminar de cagar tudo (perdoem os trocadilhos, mas é mais forte do que eu.) o (ou a) artista soltou o barroso na área mais abrigada do vento e o melhor local para se posicionar uma barraca.

Em nossas expedições, geralmente não temos esse problema. Em via de regra, procuramos lugares menos frequentados e fora de rota. No entanto, a coisa nas trilhas e rotas mais famosas e movimentadas tem ficado feia. O que ouvi de reclamação de montanhistas e guias sérios sobre papel higiênico e seu recheio voando na Serra Fina, inclusive contaminando as poucas fontes de água, sujeira no Marumbi, não é brincadeira. Na Chapada Diamantina, minha área de maior frequência, queria “desver” muita coisa que já vi.

Mais papel Higiênico em local de acampamento, no cume do Pico do Itobira. Esse nem esconderam.

Bom senso

E ainda assim a conversa do uso do shit tube, abandonando todo o bom-senso, ainda é tabu. Isso aconteça, voltando ao início, pela nossa dificuldade de lidar com nossos desejos. Talvez resquício de uma mentalidade preguiçosa e burguesa, que sustenta historicamente a presença de alguém para limpar a nossa sujeira. Pois, bem, não dá para continuar – sempre – jogando a sujeira para baixo do tapete - ou enterrando. Até porque, nem sempre há terra para cavar e uma hora ou outra, não tem mais tapete.

Isso se aplica ao lixo, mesmo o orgânico. Em locais onde há baixa frequência humana, não há nada demais em se jogar uma ou outra casca de banana por aí. Os animais darão conta. Contudo, num lugar frequentado, com grande visitação, se todos fizerem isso, logo vai se parecer com um lixão. Então, é uma questão de bom-senso, certo?

Mais papel higiênico à vista, no local onde deveria estar uma tenda.

Sim. E não.

Bom-senso tem sido mais raro de achar do que ouro. E em minha opinião, vale mais também. A melhor opção seria uma maior difusão de cultura de montanha. Todavia, esse é um trabalho de formiguinha. Em paralelo é necessário que se conduza a discussão, com gente capacitada e engajada no assunto, que conheça ecologia, que entenda como cada ecossistema funciona e que tipo de procedimento é indicado individualmente. Não é “tudo igual” nem podem ser as soluções. Eu realmente não confio no bom-senso dos humanos e nem acho algo inteligente de se fazer, cá para nós.

Existem lugares onde não há decomposição, porque é muito frio. Já em outros, não há terra suficiente para cavar um buraco de 20 centímetros em local distante ao menos 100 ou mais metros de fontes de água. Existem as situações crônicas, em lugares de grande visitação, onde já há um verdadeiro “rebosteio” e ainda, existe o perigo de animais desenterrarem as fezes, comerem ou chafurdarem nelas e haver proliferação de doenças, entre outros problemas.

O seja, querendo ou não, a gente precisa discutir o que fazer e começar a fazer “ontem”. Ou corremos o risco de transformar a nossas montanhas, trilhas e serras em espaços insalubres e continuarmos a passar pela desagradável situação que passamos há algumas semanas, no cume do Pico do Itobira, na Chapada Diamantina.

Shit Tube (ou tubo de cocô) pode não resolver sempre, mas é uma grande ajuda em muitas situações! E pode ser leve, sim!

Shit-Tube

Então o shit-tube é a solução? Particularmente eu creio que, na maioria das situações ele seja, sim. Não é agradável, nem pelo peso e nem pela natureza da carga. Todavia, na falta de bom-senso e de uma cultura de montanha minimamente disseminada, é preciso radicalizar. Do contrário, vamos ter que nos acostumar com cocô e papel higiênico usado nas trilhas, lixo, e tudo o mais que vem com esse imundo pacote.

Afinal, se eu posso cagar em qualquer lugar, o vai me impedir de fazer o pacote completo de porcarias? As miseráveis caixinhas de som portáteis, gente soltando fogos, fazendo churrasco em cima das pedras da montanha (é vi isso recentemente. Não o churrasco, mas o carvão e a grelha, lá em cima, no cume.). Quando a gente deixa uma pessoa entrar em casa com as botas enlameadas é questão de tempo até que ela as ponha em cima da mesa.

A gente gosta é de casa limpa!

Limpar a sujeira

Existem muitas maneiras de fazer um shit tube leve, seguro e funcional. Vamos botar as cartas na mesa: já passou da hora de quem usa a natureza para se divertir, desopilar, relaxar, se desafiar e para trabalhar (ou tudo isso junto) se responsabilizar pela sujeira que faz. O discurso precisa estar adequado à prática. A opção é encarar a hipocrisia, de dizer uma coisa e fazer outra, e de ter que apreciar “obras de arte” malcheirosas expostas e (ou) serpentinas de papel higiênico decorando os arbustos.

A escolha é pessoal, já as consequências nos atingem a todos.
Qual é a sua?

Um texto interessante para nortear nossas ações na montanha é a Declaração do Tyrol, que trata das melhores práticas para o montanhismo. Não encontrei traduzida, infelizmente.

http://publications.americanalpineclub.org/articles/12200318200/The-Tyrol-Declaration-on-Best-Practices-in-Mountain-Sports


Ps.
Este texto não tem – e nem poderia ter – a pretensão de ditar regras ou “a verdade absoluta”, mas de levantar uma discussão que já está atrasada e infelizmente ainda transtorna muita gente. O Autor é montanhista, mas não é especialista em ecologia e nem biólogo, apenas um amante da natureza que deseja vê-la tratada com mais respeito e responsabilidade.

Serra do Sincorá, na Chapada Diamantina, precede o Vale do Pati, local de grande visitação e exemplo clássico de onde o uso do shit tube pode ajudar.

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Peter Tofte
Peter Tofte 07/28/2021 14:50

Muito bom texto Rodrigo!

Rodrigo Oliveira
Rodrigo Oliveira 07/28/2021 17:42

Muito obrigado, mestre Peter! E por incentivar a escrevê-lo também.

Rodrigo Oliveira

Rodrigo Oliveira

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