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TRAVESSIA DO VALE DO PATI.

Um dos trekkings mais incríveis de nosso pais.

Silvio Serrano
Silvio Serrano 07/02/2021 15:51

Localizada a 400 km de Salvador – Bahia e abrangendo os municípios de Lençóis, Andaraí, Palmeiras, Ibicoara e Mucugê, a Chapada Diamantina é, com certeza, umas das mais deslumbrantes paisagens brasileiras.

Imensos platôs, centenas de cachoeiras, grutas profundas, rios subterrâneos, lagoas cristalinas, pedras polidas pela ação das águas, um acervo arquitetônico que remonta a época do ciclo do café e dos diamantes, fauna e flora riquíssima - a Chapada Diamantina é única!

Instituído como Parque Nacional em 1985, sua área se entende por 1.520 km quadrados, possuindo picos em seu interior que chegam a mil e setecentos metros.

Sua história geológica remonta um bilhão e seiscentos milhões de anos, passando por diversas transformações, que a natureza caprichosamente esculpiu.

O que foi um dia um mar, hoje é o paraíso dos ecoturistas e aventureiros não só do Brasil, mas de todo o mundo.

Mas um lugar em especial na chapada, pode tranqüilamente receber o adjetivo de paraíso.

O Vale do Pati, uma imensa porção de terra que reúne algumas das maiores atrações do parque.

Entretanto, para conhecer essa bela região, antes de tudo é preciso preparo físico, aliás, essencial. São cinco dias exaustivos; um trekking pesado, só aconselhável realmente para quem estiver em forma. Mas vale a pena, e muito!!!

E foi essa travessia que decidimos encarar!

Encontramos nosso guia no inicio de uma manhã luminosa, com céu azul e o sol já bem quente. Edinho esperava por nós no inicio da trilha. Ele seria a nossa companhia durante os próximos cinco dias. Com jeito simples, sorriso fácil e o corpo acostumado a muito esforço físico, iniciamos nosso trekking, seguindo seus passos.

As nossas mochilas seguiriam no lombo de uma mula até o primeiro ponto de pouso.

Conosco somente o essencial ...Cantil com água, lanche e equipamento fotográfico.

A trilha inicia-se no bairro de bomba, uma das localidades próximas ao vale do capão.

Uma subida íngreme já adiantava o que estava por vir.

A bela floresta que recobria toda a encosta e nos dava uma sombra providencial cede lugar para os campos de altitude.

Entramos no gerais do Vieira, um planalto recoberto por relva baixa, onde a caminhada seguia mais tranqüila. Por onde se olha à paisagem é maravilhosa, o morro do ancorado, castelo, morro branco, serra do sobradinho, flores por todos os cantos, uma imensidão de terra que se descortina até a onde vista alcança. A caminhada é puxada, nesse dia teremos que vencer 27 km. Quando entramos nos gerais do Rio preto lá pelo inicio da tarde temos a primeira visão do vale do Pati, e que visão!

Do topo da montanha, um grande vale cercado por montanhas, recoberto de vegetação exuberante...É de impressionar.

- É por aquela trilha que vamos seguir....

Edinho aponta lá para baixo e vemos o caminho que seguiríamos. Era desanimador, pois a subida era enorme.

Mas para isso precisaríamos descer a encosta. Depois de uma pausa admirando toda aquela beleza, seguimos em frente, ou melhor, para baixo. A trilha íngreme e estreita exigiu o máximo de cuidado. Só respiramos tranqüilos, quando chegamos na base da montanha.

Dali seguimos por uma trilha tosca, resquício do que foi até o inicio dos anos 80 a Ruínha, onde aconteciam as festas da comunidade que habitava o vale. Naqueles tempos havia uma igreja, comércio e um pequeno cemitério. Hoje, só existem ruínas recobertas pelo mato.

Essa região teve o seu auge no ciclo do café, entre as décadas de 40 e 60.

Com o fim da produção cafeeira, a vila aos poucos foi caindo no esquecimento e sua população diminuindo até se restringir a algumas poucas famílias, que hoje recebem os mochileiros que se aventuram por essas paragens.

Ao final da tarde, quando o sol já tingia de amarelo os grandes maciços, chegamos à casa do Sr Wilson. A casinha simples, acolhedora, emoldurada pela bela paisagem era o prêmio pelo dia exaustivo que tivemos.

Após um banho gelado, restaurador (no vale não tem energia elétrica), sentamos a mesa iluminada pelos lampiões e jantamos uma das melhores comidas que já provamos, tudo feito em fogão de lenha, com aquele gostinho de roça, tão saboroso. Um pouco de conversa iluminada pelas estrelas e o cansaço cobra de nossos corpos. O dia seguinte prometia mais aventuras.

Levantamos cedo, restaurados. A nossa espera um café da manhã maravilhoso, repleto de delícias, preparadas pela família do Sr Wilson, tudo muito simples, mas no maior capricho.

Estômago cheio nos despedimos de todos e pusemos o pé na estrada.

À parte da manhã seria dedicada a conhecer duas belas cachoeiras do vale.

Seguimos por uma mata primária repleta de vida. Bandos de micos assobiavam, ao passar pelo seu território, as arapongas com seu canto peculiar, podiam ser ouvidas a kilômetros de distância.

Encontramos o leito do rio de pedras e seguimos por ele. A água limpíssima era um convite ao banho. Lá pelo meio da manhã chegamos à cachoeira do Rodão, uma queda d’água muito bonita que formava uma piscina natural. Depois de uma pausa, seguimos em frente, pulando pedras, seguindo pela mata, para finalmente chegar à cachoeira do funil, um lugar fantástico, que valeu todo o esforço. A água despencava de uns 50 metros até chegar numa bela piscina. A floresta emoldurando o cenário completava o quadro belíssimo.

Ficamos a manhã toda desfrutando desse lugar incrível. Mas infelizmente precisávamos seguir em frente, tínhamos muito chão a percorrer ainda.

Pusemos o pé na estrada seguindo a trilha que cortava o vale. O visual amenizava todo o cansaço. De qualquer ângulo que se olhava a vista era linda.

No inicio da tarde chegamos à casa de dona Leia, outra moradora do vale, que já nos esperava com o almoço pronto. Mais uma vez nos fartamos de comer. Provamos o godó, um ensopado feito a base de banana verde muito saboroso, uma comida tradicional da região. As nossas mochilas já estavam na casa trazidas no lombo da mula, por Gilmar, irmão de Dona Leia, que nos acompanhava desde o inicio, seguindo por caminhos alternativos acessíveis para o animal.

Edinho nos aconselhou a dar uma boa descansada, pois no final da tarde seguiríamos para o morro do castelo, onde passaríamos a noite na caverna que ficava no seu topo e a subida seria pauleira!

Aproveitamos para tomar um bom banho ( gelado...!!!) e descansar.

Lá pelo meio da tarde iniciamos a subida do morro do castelo. E como Edinho tinha adiantado, o trajeto foi realmente uma pauleira. Duas horas de praticamente uma escalaminhada para subir os 1480 metros.

Mas ao chegar lá, somos brindados com a mais bela vista do vale. A caverna de quartzito é enorme, e atravessa toda o morro do castelo.

Depois de recuperar o fôlego, deixamos nossas mochilas na entrada dela e seguimos Edinho pelo seu interior. Com lanternas ligadas atravessamos um trecho não muito longo até a abertura oposta da montanha e depois de subir pela pedras alcançamos a saída.

Se a vista da entrada da caverna já era linda...desse lado era deslumbrante. Dali podíamos avistar o vale do Calistro que faz parte também do pati. Realmente um dos mais belos cenários do Brasil.

Depois de fotografar toda aquela beleza, retornamos a boca da caverna e montamos acampamento. Com um por do sol incrível, jantamos um delicioso macarrão feito em um fogão improvisado por Edinho.

Não preciso dizer que a noite foi péssima, o chão pedregoso era muito descômodo, apesar dos isolantes e saco de dormir. Mesmo assim valeu a experiência.

Assim que amanheceu, tomamos o café e iniciamos a descida.

Chegamos na casa de dona Leia já com o sol alto e aproveitamos o resto da manhã pra descansar da noite mal dormida.

Logo após o almoço iniciamos novamente nosso trekking, seguiríamos direto para a casa do sr Mansur no final do vale. A trilha como não podia deixar de ser, exaustiva e muito bonita feita no meio da floresta, cortando riachos, subindo, descendo...

O dia estava no final quando chegamos. O cansaço tomava conta de todos nós.

O lugar era lindo ...a casa e logo atrás dela, uma imensa montanha rochosa banhando pela luz do fim de tarde, puro deleite.

Jantamos a saborosa comida do vale, e conversamos um bom tempo à luz do lampião, ouvindo as ótimas histórias de Edinho e rindo a valer.

O quarto dia de trilha amanheceu com um céu azul muito bonito e após o café da manhã nos despedimos de dona Leu e o Jóia (filho de seu Mansur, que toma conta do lugar agora) e seguimos nosso caminho em direção ao vale do cachoeirão.

Se o vale do pati é lindo ...O canyon do cachoeirão é o ponto alto do trekking.

A floresta fechada é cortada por um rio com enormes blocos de pedra, dezenas de cachoeiras, tudo coberto com musgos, um lugar incrível. Caminhar nesse lugar só no tempo seco. Com chuva fica extremamente perigoso. O percurso é todo pelas pedras e requer muito cuidado, pois o lugar é muito isolado. Mas ao chegar no fim do canyon somos brindados com um cenário de cinema.

Em um paredão com mais de 200m de altura, coberto de vegetação, despenca a mais linda cachoeira do vale, abastecendo uma piscina natural refrescante. Mas Edinho estava reservando uma surpresa para o final. Subindo uma encosta próxima a base da cachoeira, seguimos por uma trilha na mata fechada.

E lá de cima, escondido pela vegetação fechada, um outro vale e dentro dele o poço do cachoeirão.

A visão é mágica...Um lago de águas cor de coca cola rodeado pelos paredões e uma outra cachoeira, essa com menos água, apenas respinga no lago, como se fosse uma chuva permanente.

Passamos um bom tempo nesse lugar incrível, desfrutando de toda aquela beleza, onde poucas pessoas puseram os pés.

No inicio da tarde retornamos pelo mesmo caminho, chegando na casa do sr Bezo, nossa ultima parada no vale, no final da tarde.

Mais uma vez desfrutamos da hospitalidade, do povo do vale com um farto e saboroso jantar.

Por recomendação de Edinho fomos dormir cedo, pois no ultimo dia teríamos que acordar as quatro da madrugada.

Tomamos nosso café da manhã com noite escura ainda e saímos para a trilha com a ajuda de lanternas.

Estávamos deixando o vale subindo a rampa do pati, o caminho que todos usam para sair da região.

Depois de trilhas pesadas, essa foi bem mais leve, mesmo assim chegamos ao topo da encosta molhados de suor apesar da névoa fria que ainda pairava.

Lá de cima a ultima visão daquele lugar mágico. Na memória e na câmera o registro desse trekking incrível. O Pati realmente é especial, pelas suas belezas, pelos seus habitantes, pela sua história e merece continuar assim, oferecendo a quem se dispõe a conhecê-lo momentos inesquecíveis.

Chegamos a Andaraí por volta das dez horas da manhã. Depois de cinco dias isolados, ver um centro urbano era engraçado, muito barulho, carros, gente demais ... Já estava com saudade.

Como dizia nosso guia –“não vejo a hora de voltar pro meu pati”, assim mesmo ...dele. É assim que se refere ao vale. Isso é muito bom, porque sabemos que enquanto tiverem pessoas como Edinho e muitos outros, apaixonados por esse lugar, ele vai ser preservado em toda a sua essência.

Como chegar:

Durante a temporada de férias há vôos fretados a partir de São Paulo, descendo direto em Lençóis, cidade que é a porta de entrada da chapada.

Existe a opção de vôos até Salvador e de lá pegar um ônibus e enfeitar 400km de viagem até a cidade.

Quando ir:

O período que chove menos é de Março a Setembro o que permite acesso a alguns lugares só possível com tempo seco. Se vc não curte muito agito evite os meses de férias, quando a chapada fica mais cheia de gente.

O que ver:

As atrações do Parque são muitas, vale citar algumas imperdíveis, como o Poço Encantado, um lago localizado dentro de uma caverna por onde entra um raio de luz tingindo de azul turquesa suas águas transparentes....É surreal!

O poço azul, também em uma caverna, é outra atração incrível. Tão belo quanto o poço encantado, mas com a diferença que nesse, você pode nadar em suas águas, vale muito a pena.

A cachoeira da Fumaça é obrigatória. Ver a água despencar de um paredão de 380 metros é uma visão única. A trilha é pesada e leva o dia todo, mas vale cada gota de suor.

O que levar.

Mochilas para o uso diário 20 a 30 litros.

Bota de trilha amaciada, você vai precisar muito delas.

Uma papete para descansar os pés no final do dia.

Roupas de trilha, nos tecidos sintéticos (supplex ou tac-tel) que secam rápido.

Anorak ou capa de chuva impermeável.

Maiô/sunga, essencial para os banhos de cachoeiras.

Lanterna, cantil, canivete.

Protetor solar, óculos de sol.

Dicas finais:

Não deixe de levar sua câmera para registrar esse lugar único.

Aproveite o tempo que estiver lá e converse com seus moradores, são gente simples, sábia e que tem histórias incríveis para contar.

No vale não tem energia elétrica, portanto sem os prazeres da vida urbana.

Acredite, não faz falta nenhuma...