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6 dias e 5 noites de Canionismo

6 dias e 5 noites de Canionismo

Em um período de rigorosas chuvas de verão, enfrentamos o desafio de vislumbrar a maior cachoeira do Brasil com todo seu potencial de água.

Trekking Canyon Camping

O verão da Chapada Diamantina é conhecido pela suas intensas chuvas, que fazem transbordar os rios e potencializam o fluxo d'água nas cachoeiras, especialmente as de maior altitude. Dito isto, eu e três companheiros buscamos, já sabendo dos riscos e da dificuldade, a oportunidade - muitas vezes única - de louvar a maior cachoeira da Chapada Diamantina (e do Brasil) por baixo em sua plenitude de vazão hídrica; trata-se da cachoeira da Fumaça.

Saímos às 8h00 do dia 6 de fevereiro do camping e pousada Alto da Montanha, localizada na ladeira dos campos, próximo a portaria da Fumaça em Caéte-açu (Vale do Capão), e já por volta das 8h30 nos encontrávamos subindo o grande desnível característico da trilha da Fumaça. Apesar de ser um trecho já batido para os experientes, o peso das mochilas atrasou um pouco nossa chegada no mirante da Fumaça, onde pousamos por volta das 10h00.

A decisão de ir até a Fumaça por cima, dispensável para quem vai descer a serra do macaco ou a fenda da fumaça, veio pela mais pura curiosidade de observar os 400 metros de desnível que nos separavam, naquele momento, do poço da cachoeira. Certamente, a visão da fumaça cheia acalentava nossos corações, ansiosos pelos desafios impostos pela descida da serra do macaco.

A bifurcação da trilha em direção ao macaco, na verdade, começa a cerca de 100 metros do mirante principal da Cachoeira da Fumaça. A trilha, caracterizada por um trecho de brejo e por ser consideravelmente mais fechada que o trilho da fumaça por cima, desemboca sem maiores dificuldades até o primeiro encontro com o rio Capivara, no lugar conhecido como Santuário, onde fizemos nossa primeira parada por volta das 11h00.

Santuário - Rio Capivara.

Após o santuário, há a possibilidade de continuar descendo pela serra do macaco, ou, através de uma guinada a direita, acessar a fenda da Cachoeira da Fumaça. Ambos os caminhos tem dificuldades técnicas semelhantes; trechos de escalaminhada, exposição a altura e até mesmo escalada, onde é preciso tirar a mochila para passar. Diante dessa escolha, optamos pela rota mais "clássica", de ancorar na toca do macaco para no outro dia atacar a fumaça sem os pesos das mochilas cargueiras.

Entretanto, a descida era longa e sinuosa. A chuva dos dias anteriores dificultava, de maneira decisiva, a continuidade da trilha. Foram vários os escorregões e os pequenos acidentes, que de outras formas poderiam ser fatais. Em alguns momentos, descemos de pedras cujo desnível facilmente superavam os três ou quatro metros de altura! Como se não fosse o bastante, na parte final da descida, próximo a toca da pingueira (uma toca onde há uma goteira perene, cujo pode reabastecer as gárrafas d'água), uma chuva torrencial nos alcançou, com direito a raios, trovões e o inundamento da trilha.

Após quase uma hora e meia abrigados debaixo de rochas, decidimos por continuar a descida, que provou-se muito mais difícil naqueles termos do que em condições normais. Diante do atraso, o escuro da noite abateu-se sobre nós ainda na descida da serra, o que ocasionou uma verdadeira epopeia grega até atingir, finalmente, a toca do macaco.

Por volta das 15h30, na serra do macaco, um temporal se abateu sobre nós.

Ao chegarmos à toca, já perto das 19h00, gritos de felicidade ecoaram em todo o vale, mas sabíamos que deveríamos erguer acampamento o mais rápido possível - e dentro da toca - por várias razões. A mais urgente delas, sem dúvidas, era o iminente temporal que se aproximava, e que prometia durar a noite toda. Com um rápido banho no poço do macaco e com um "almojanta" rápido de arroz e feijão fradinho, o prometido temporal iniciou-se por volta das 20h00, só dando trégua na manhã do dia seguinte, por volta das 9h00.

Eu e Hebert bivacamos na própria toca, em um espaço coberto por uma lapa, onde era possível se proteger de qualquer vento e umidade, enquanto Magno e Nauseli preferiram montar a barraca debaixo da toca. A noite, eu e Hebert escutávamos os mocós correndo de um lado pro outro na toca, curiosos com nossa presença e atentos para qualqer rastro de comida que poderíamos ter deixado "de bobeira".

Na manhã do dia 07, nenhuma suspresa. Estávamos ilhados na Toca do Macaco. Isso porquê tanto o rio capivara em direção ao Palmital, quanto o próprio rio Fumaça, estavam em estado crítico, praticamente trombados. O volume abissal de água nos fez permanecer o dia inteiro no macaco, andando de um lado para o outro e verificando os níveis de água. A partir dali, choveriam todos os dias - com exceção do último - mas com bem menos intensidade do que se choveu no dia 06.

Na foto, é possível perceber o nível de água na cascata formada pelo rio Fumaça na Toca do Macaco.

Dessa maneira, no dia 08 acordamos por volta das 07h00 para nos preparamos para a trilha da fumaça por baixo, que apesar de estar com os níveis de água um pouco mais baixos, ainda estavam alarmantes. Logo no inicio da trilha, cujo tem uma travessia da margem direita para a esquerda, foi preciso entrar com todo o corpo na água, que cobriu boa parte de nós. Em Hebert, que tinha a menor estatura dentre nós, a água bateu em seu peito.

Continuando majoritariamente pela margem esquerda, a trilha é um verdadeiro show a parte. O verde de várias tonalidades que cobre o vale da fumaça por baixo, bem como suas pedras de diversos formatos e tamanhos, sua flora exuberante e as infinitas cachoeiras intermitentes vividas por causa das recentes chuvas tornavam aquela travessia muito especial para todos nós, que tinhámos certeza ser um espetáculo visto por poucos.

Após duas horas de caminhada, finalmente chegamos a uma subida íngrime, formada por pedras, que, sem exagero algum, tinham tamanho de um caminhão ou um objeto maior. Ao fim da subida, e ao ver a Cachoeira, nos deparamos com um verdadeiro mar de água, que cobria desde os lagedos até a vegetação. O vento, a água e o frio eram impiedosos, e apesar de não chover naquele momento, somente a força do vento somado ao fluxo de água da fumaça fazia parecer que uma chuva de proporções médias caía de forma perene em todo o poço e suas proximidades.

A fumaça por baixo, majestosa.

O retorno para o acampamento foi igualmente difícil, com muitas trechos de necessidade de cruzar o rio com o forte fluxo de águas. Ao chegar na Toca do Macaco novamente, optamos por passar a noite novamente ali, pelo terceiro dia, pelo cansaço proporcionado pela trilha e também pelo alto nível do rio capivara, que impedia o acesso rápido à Cachoeira do Palmital.

Na manhã do dia 09, portanto, partimos rumo ao rio Capivara, onde acessaríamos a Cachoeira do Capivara, e, por fim, a Cachoeira do Palmital. Para ser sincero, de primeira tinhámos planejado ir até a Cachoeira do Mixila, na serra do bode; entretanto, as fortes chuvas e as condições climáticas nos fizeram arrefecer essa ideia inicial.

Transpôr o rio Capivara foi, de fato, tão difícil quanto o avanço pela trilha da Fumaça, pelos seus trechos inundados e de difícil acesso pela mata a esquerda do fluxo do rio. Já perto do poço da Cachoeira, atravessámos para a margem direita, onde nos deparamos com o franco aclive das águas em direção ao poço, onde, em condições normais, deveria haver uma passagem sem maiores problemas para o acesso da Toca do Capivara e da descida que leva para o poço da cachoeira e também para o Palmital.

Diante disso, tivemos que passar as mochilas para o outro lado através de um verdadeiro trabalho em grupo. Enquanto eu e Magno atravessamos o rio, Hebert e Nauseli se encarregavam de passar as mochilas para nós. Em um processo que durou quase 15 minutos, finalmente pudemos transpôr o capivara, e por fim, findar de uma vez por todas com as dificuldades encontradas em relação ao alto nível dos rios naquele Cânion.

Após uma rápida parada para vislumbrar a Cachoeira do Capivara, nos dirigimos à extensa e íngrime súbida do Palmital, que vencemos em cerca de uma hora. Ao chegarmos no camping do Palmital no dia 09, finalmente pudemos descansar de maneira digna, tanto pelas características agradáveis da geologia do camping do palmital, quanto pela trégua das extensas chuvas que assolaram nosso trajeto. De fato, nunca estivemos tão secos quanto naquele dia!

A bela cachoeira do Palmital

Na manhã do dia 10, decidimos por ficar ali por um dia inteiro, deslumbrando a beleza eminente da Cachoeira do Palmital, com seus belos musgos e fluxo d'água divídido entre duas partes. A ideia era, no dia 11, rumar até Lençóis pela serra do Veneno, antigo reduto de garimpeiros da região, onde minerou-se quantia exorbitante de diamantes nos séculos XIX e XX.

Assim foi feito. Na manhã do dia 11, aproximadamente às 09h00, partimos do Palmital em direção ao aclive de sua serra, que encontraria mais a frente a Toca da Onça e o Córrego Muriçoca, delimitadores naturais dos limites entre a serra do Palmital e a Serra do Veneno. Nesse trecho, que daria no Ribeirão do Meio, não houveram maiores dificuldades, apenas algumas escalaminhadas logo no primeiro trecho, mas nada perto dos desafios impostos pela serra do Macaco.

A linda vista de Lençóis proporcionada do alto do Veneno.

Por fim, todos chegamos em Lençóis exaustos, mas com a plena certeza de que foi uma aventura e tanto, proporcionada pelos longos períodos de chuvas do verão chapadeiro do centro-sul baiano!

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Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 02/14/2021 15:01

Impressionante!!