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André Clemente Correia 21/09/2021 02:50
    Biketrekking pela Chapada Diamantina

    Biketrekking pela Chapada Diamantina

    Bikepacking Insano de 4 dias pela Chapada Diamantina, com direito a sangue, suor e muito perrengue.

    Bikepacking Trekking Bushcraft

    Nossa aventura começa a se tornar realidade em agosto, quando começo a articular com Samuel um roteiro circular pela chapada para executarmos no feriadão da independência. A pandemia adiou muito nossos planos, mas agora era hora. Com rota e data definidas, fomos atrás dos insanos, digo, intrépidos aventureiros que iriam formar nosso time. Entre idas e vindas de vibradores e curiosos, fechamos um grupo de 6 ciclistas com características próprias entre si, que agregavam valor ao time: Orlandinho nosso guia (mais para mateiro), Samuel o mais vibrador, Eldi o atleta e mecânico de plantão, Primo o compenetrado, Diego o cinegrafista e isca de mutuca, e eu o cara das tralhas (câmeras, drone, radio, trena, corda, ...).

    Saímos na sexta, cada um de seu canto: Conquista, Feira de Santana e Salvador. Já me perdi no caminho de Conquista para Lençóis, seguindo cegamente a rota indicada pelo WAZE, que me colocou em quase 100km de "BRs" de barro e até em travessia de balsa puxada por corda no braço em Itaetê.

    Cheguei cedo em Lençóis para deixar a bike montada, um calórico jantar com Orlandinho e ter aquele descanso revigorante numa pousada. Porém, perto de meia noite chegam Samuel e Eldi, sem reserva, invadindo meu quarto. Daí, começa o fuzuê que só para 2hs depois. Primo preferiu dormir no carro.

    No dia seguinte, com a chegada do buzu do Diego, nos encontramos todos na praça do coreto para os ajustes finais das bikes, checklist, descarte de alguns excedentes, como uma das correntes cadeado de Orlandinho, pois a outra ele tinha perdido a chave e teve de ir conosco.

    TRECHO 1: Lençóis-Andaraí-Igatú

    Partimos em direção ao acesso para a estrada do garimpo, um dos melhores trechos pedaláveis de nossa jornada. Apesar de alguns trechos de areia fofa, travessia dos riachos e algumas descidas técnicas (numa das quais eu capotei e quebrei a proteção da Gopro) é uma estrada com boa largura para pedal em grupo, bastante sombreada pelas árvores que embelezam todo o percurso. Os pontos de maior dificuldade seriam facilmente transponíveis para todos se não houvesse o excesso de carga, que causava peso e desequilíbrio.


    Aos poucos também fomos quebrando o tabu sobre molhar as sapatilhas e a transmissão da bike, pois o peso era grande e as travessias eram muitas.

    Já na chegada na Cachoeira do Roncador, isso já era um ponto superado. Lá aproveitamos para nos refrescar por inteiro e fazer nossa primeira refeição num cenário mais que agradável.

    De buchos cheios, seguimos rumo a Andaraí, pois as horas estavam passando rapidamente.

    Após a travessia do Rio Garapa, pegamos erradamente para a esquerda e batemos nesse areal fofo impedalável, de onde voltamos até a margem do rio e seguimos pela direita, visualizando o acesso dos veículos dos banhistas que ali estavam. Estes, principalmente as crianças, ficavam muito curiosos ao ver nosso grupo de roupas coloridas e com as bikes todas adaptadas.

    Com um pouco mais de estradão tranquilo, chegamos a Andaraí, já com mais de 40km de pedal. De lá foram mais 4km de asfalto pela BA-142 até o início da famigerada e temida Estrada de Pedra para Igatú. 7km de aclive contínuo de quase 500m positivos. Mesmo para a dupla de atletas de elite: Eldi e Samuel, a subida parecia interminável. Eldi ainda o que sofreu menos com as pancadas sem fim da passagem dos sobre cada pedra da estrada, por ser o único que possuía uma bike full suspension. Eu, na lanterna do time, sequei toda minha reserva de água e, antes da metade da subida já estava literalmente pedindo arrego, gritando áaaaaguaaa para os carros que passavam. Foi o que me salvou, pois dois destes pararam e me entregaram suas reservas de água mineral. Alguns goles que fizeram a diferença, me permitindo alcançar nosso acampamento no 6° km da estrada.

    A noite, depois de tomar banho e com tudo montado, demos uma esticadinha em Igatú para tomar umas merecidas cervejas na bodega "Quase tudo", que quase não tinha nada para se comer, no que dependesse da memória do proprietário. E toda hora que vinha com outra cerveja, confundia Eldi com outra pessoa que ele parecia conhecer.

    2° DIA: Igatú-Mucugê-Gerais do Rio Preto

    Acordamos cedo mais revigorados. A ideia inicial era deixar para tomar café em Mucugê, mas o estômago falou mais alto e por sorte adiantamos uma prévia rápida para forrar a barriga, pois não tínhamos ideia do quanto ainda teríamos de subida até lá. Para começar, achávamos que ia rolar uma bela descida em estradão até a BA-142, só que...

    Pois é...

    Chegando em Mucugê, a voracidade fez todo mundo tomar um segundo café reforçado, o que realmente se fez bastante necessário devido ao que ainda estava por vir. Saindo de Mucugê fomos em direção a porteira que dava acesso a trilha da Toca do Caboclo, de onde seguimos pedalando por trás dela até achar o Rio Paraguaçu. Seu leito tinha pouca água, o que tornou sua travessia um pula pedra carregando as bikes.

    A medida que evoluíamos subindo para os Gerais do Rio Preto a trilha ia ficando cada vez mais estreita e os arbustos mais densos, impedindo por diversas vezes a possibilidade de pedalar. Logo o bikepacking foi se tornando um “vara mato” com o acréscimo de uma bike carregada para empurrar. As horas foram se passando e logo vimos que não iríamos conseguir atingir nosso objetivo de pernoitar na Toca do Gavião.

    Orlandinho então nos conduziu para as margens de uma queda d'água que ele mesmo tinha nomeada de Cachoeira da Bancadas, por conta dos degraus formados a jusante desta. Foi a decisão mais acertada. Montamos acampamento ali com os últimos raios do Sol, tomamos banho e preparamos refeições reforçadas por conta do extremo gasto calórico que tivemos. Gasto esse que superou o que eu tinha de reservas, me fazendo sentir muito frio, apesar da temperatura amena.


    3° DIA: Gerais do Rio Preto-Mirante do Pati-Gerais do Vieira-Vale do Capão

    O dia amanheceu com uma chuva fraca, mas contínua, que terminou atrasando um pouco nosso desarme e café da manhã. Procuramos sair bem alimentados, por conta do que sabíamos que havia ainda a ser vencido.

    Se havia algo que não era problema nesse dia, era água. Ao longo dos gerais passamos por vários pontos onde foi possível se hidratar, refrescar e recarregar os reservatórios. Também aproveitamos para registrar como primeiro marco a foto de toda trupe e suas montarias no Mirante do Pati. Esse foi o último momento de breve descanso e descontração deste dia, pois ainda havia muitos desafios a serem vencidos para chegarmos ao Capão com as bikes.

    Saindo do mirante, eu sabia muito bem o terreno que nos aguardava pela frente, com muitos atoleiros de lama preta (que até hoje carrego dentro das unhas do pé), veios de rochas afiadas a 45° e a perigosa descida do quebra-bunda. Fora todos esses problemas, nos breves momentos em que se parava para tomar um ar diante de algum destes obstáculos, as mutucas atacavam com muita intensidade e era impossível evitar suas dolorosas picadas.

    Após duas quedas nesse trecho do quebra-bunda, finalmente chego nos Gerais do Vieira, que em sua maior parte se assemelha a uma savana, por suas planícies de vegetação rasteira. De lá, eu e Diego já conseguimos visualizar o Capão, que já nos parecia um objetivo palpável devido a velocidade que conseguíamos imprimir pedalando. O restante do grupo já ia bem a nossa frente, ainda acreditando que conseguiriam adiantar a tempo de pernoitar em Águas Claras.

    Ao final da tarde, eu e o Diego conseguimos adentrar ao Bomba e nos presentear com o esperado pastel de palmito de jaca, ganhando forças para completar as ladeiras que nos levariam ao encontro do resto do grupo no centro do Capão.

    Lá, eu e o Diego, decidimos por nos separar definitivamente do grupo de elite, pois estávamos bem mais desgastados do que eles e, por tanto, pretendíamos retornar de forma mais tranquila, apreciando o percurso até Águas Claras, passando pela floresta e finalizando o circuito pela BR-242 até o acesso de volta a Lençóis.

    4° DIA: Capão-Águas Claras-Lençóis

    Apesar da vila estar praticamente lotada, conseguimos pernoitar num hostel, com direito a

    Apesar da vila estar praticamente lotada, conseguimos pernoitar num hostel, com direito a chuveiro quente e uma dormida mais confortável. Então procuramos despertar logo as 6hs para iniciar nosso trecho final sem pressa. Ainda tínhamos reservas de comida suficiente para preparar um pequeno café da manhã, que reforçamos mais a diante na saída do Capão. Apesar de algumas subidas e trechos técnicos, a trilha até Águas Claras é quase toda pedalável, o que fez com que chegássemos rápido e sem grande desgaste, ainda apreciando a passagem pelo Morrão. Dessa forma, foi possível aproveitar um bom tempo naquelas águas cristalinas e revigorantes. A essa altura do campeonato, da mesma forma que as sapatilhas, não nos importávamos mais em molhar toda a roupa. Até achamos melhor assim, pois abrandava o calor do Sol forte que ardia na região.

    O trecho entre Águas Claras e a BR-242, foi ainda mais gostoso de pedalar, apesar de ser um single track bem estreito, não apresenta grandes irregularidades e é quase todo em declive (já não era sem tempo!). Na parte que é chamada de floresta, a sombra das árvores amenizava o calor e emolduravam belos cenários que mereciam pausas para fotos e contemplação.

    Só para não faltar mais um pouco de emoção, finalizamos essa etapa até pista passando por uma precária ponte de madeira antes do acesso a BR-242. Balançava um pouco, mas as peças de madeira pareciam bem íntegras.

    Daí, percorremos aproximadamente mais 20km de asfalto até Lençóis, onde foi grande a emoção da chegada, que estava até desacreditada na tarde do dia anterior. Ao chegar, demos de cara com Orlandinho tomando uma gelada na maior alegria. Perguntamos por Samuel, Primo e Eldi. Ele nos informou que estes fizeram o mesmo percurso que nós, por estarem com pressa de voltar para Feira de Santana, enquanto ele preferiu passar pela Cachoeira de Mandassaia para relaxar nesse trecho final, pois não tinha a menor pressa, visto que tinha a intensão de passar ainda mais alguns dias em Lençóis.

    Ao final, percorremos aproximadamente 167km nestes 4 dias de aventura, onde praticamente metade do tempo gasto foi empurrando ou carregando as bikes. Levamos quedas (entre os ciclistas: comprar terreno), voltamos cheios de picadas de mutucas, talhados pelos arbustos, mas orgulhosos de termos alcançado nosso objetivo. E é isso o que importa, mostrar que fomos capazes de superar mais esse desafio e outros que ainda vamos propor.

    Abraço aos meus parceiros de aventura e o pessoal do BUSHCRAFT, da qual todos nós fazemos parte.

    3 Comentários
    Diego Morais 21/09/2021 10:18

    Esse foi sem dúvidas, o rolê mais sinistro que já fiz em cima de uma bike

    1
    Duda Borges 22/09/2021 06:16

    Haja joelhos! Na minha próxima encarnação estarei colado! Nesta sou apenas fã de vocês!!! Meus parabéns! Curti muito o relato, mas tenho problemas nos joelhos e me poupo para as trilhas!!!

    André Clemente Correia 25/09/2021 21:58

    Vcs dois são guerreiros

    André Clemente Correia

    André Clemente Correia

    Rox
    28
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