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PIÇARRÃO

    Um dos picos menos conhecidos e mais desafiadores da Serra do Caraça.

    Acesso ao Pico Piçarrão pela antiga Fazenda Capivari.

    O Pico Piçarrão (1.840m) figura entre as montanhas menos visitadas da Serra do Caraça. Está localizado na porção sudoeste da RPPN Santuário do Caraça, na área da antiga fazenda Capivari, doada à Província Brasileira da Congregação da Missão em 1870, pelo Coronel Manuel Pedro Cotta.

    O termo “piçarrão” ou “piçarra”, pode ser entendido como o material proveniente da desagregação de rochas (cascalho) ou um lugar que possui muitos penedos (rochas), o que seria o caso do Pico Piçarrão, formado por grandes blocos de rocha quartzítica fraturada e erodida.

    O maciço que compõe o pico é limitado ao Norte pelo córrego Capivari, denominação adotada no Plano de Manejo da RPPN Santuário do Caraça , mas que no mapa do IBGE (Carta de Acuruí, Folha SF-23-X-A-III-2) e na base oficial do Governo de Minas Gerais (IDE SISEMA) consta como córrego do Engenho, podendo ainda apresentar a denominação “córrego do Eugênio”, em documentos e mapas mais antigos. A Leste é limitado pelo córrego da Jaca e ao Sul, pelo córrego do Felipe, todos eles com boa parte das nascentes e drenagens distribuídas pela região conhecida como “Campo de Fora”.

    Localização do Pico Piçarrão (1.840m) na RPPN Santuário do Caraça.

    O Pico Piçarrão (1.840m), o Campo de Fora e demais picos do Caraça, observados a partir do Pico Casa Nova (1.914m).

    Por sua posição relativamente isolada, em uma região de difícil acesso, o Pico Piçarrão ainda guarda uma flora peculiar caracterizada por espécies adaptadas aos campos rupestres montanos, em especial algumas belas orquídeas, bromélias e açucenas, que colorem a paisagem em determinadas épocas do ano.

    O destaque fica por conta de uma pequena planta aparentada das samambaias, de coloração avermelhada, criticamente em perigo de extinção, que atualmente só ocorre na Serra do Caraça, sempre acima de 1.700m, cujo nome científico é Phlegmariurus ruber (anteriormente Huperzia rubra). Há registros antigos de ocorrência em alguns poucos picos do Quadrilátero Ferrífero, dentre eles o Itacolomi e nas serras da Piedade, Capanema e do Batatal, onde foram localmente extintas, provavelmente em decorrência de sucessivos incêndios. No Pico Piçarrão, já foram registados 71 exemplares.

    Outra espécie de planta que merece destaque é o cacto Cipocereus laniflorus, também endêmico da Serra do Caraça e classificado como em perigo de extinção. Alguns poucos exemplares podem ser encontrados nas partes mais elevadas do pico.

    Em alguns trechos nas encostas do pico, ocorrem agrupamentos de uma espécie de canela-de-ema (Vellozia echinata) que lembra mais um capim. Além de ser também uma espécie endêmica da Serra do Caraça, possui um aspecto curioso: suas folhas exalam um cheiro forte e característico que lembra tutti-frutti.

    Alguns dos 71 exemplares de Phlegmariurus ruber encontrados no Pico Piçarrão.

    O cacto Cipocereus laniflorus, também endêmico da Serra do Caraça e em perigo de extinção, com alguns exemplares encontrados no Pico Piçarrão.

    Espécie de canela-de-ema (Vellozia echinata) que exala um cheiro parecido com o de tutti-frutti.

    O acesso ao Pico Piçarrão a partir do Santuário do Caraça, via Campo de Fora, demanda tempo e boa disposição para percorrer uma distância de cerca de 12 km (24 ida e volta), incluindo segmentos sem trilha demarcada e terreno com relevo acidentado, especialmente ao longo da ascensão ao cume.

    Outra opção é iniciar a trilha na fazenda Capivari, pertencente à Província Brasileira da Congregação da Missão, localizada próxima às ruínas da antiga fazenda da baronesa de Capivari. Existem trilhas marcadas na base do maciço, muitas delas abertas por motoqueiros que transitam clandestinamente pela região. A subida ao cume ocorre pela face Norte do Piçarrão, sem um trajeto fixo estabelecido.

    Uma terceira alternativa parte da região do Capanema, iniciando-se na base da Serra de Casa Nova. O trajeto segue por uma antiga trilha de acesso ao Santuário do Caraça, que anteriormente possuía trechos com calçamento de pedra, atualmente deteriorados devido à circulação de motocicletas. Após atravessar uma área de mata e passar por um colo entre dois morros, o percurso chega ao Campo de Fora.

    A trilha cruza o córrego do Felipe, cujas margens são ocupadas por densas moitas de taquara nativa (Chusquea sp). A ascensão ao cume é feita pela face Sul, com a passagem dificultada por algumas fendas, que cortam a montanha do alto até a sua base. O relevo é bastante acidentado e exige boa disposição para superar os trechos mais íngremes.

    Por qualquer um dos caminhos, a beleza dos campos rupestres e a vista que se tem dos picos e serras do entorno é sempre um espetáculo! Porém, cabe lembrar que para o acesso aos picos é necessária autorização prévia da coordenação ambiental da RPPN, sendo recomendado o acompanhamento de um guia cadastrado no Santuário do Caraça. Maiores informações: https://santuariodocaraca.com.br/

    No cume há um pequeno cruzeiro feito de varetas, instalado em 2016. Uma pequena caixa de alumínio com um livro de registros, deixada pelo Centro Excursionista Mineiro (CEM) em 25/09/2022, está depositada sob as rochas, junto ao cruzeiro. Os registros anteriores, datados de 1979 até 06/09/2020, dentre eles uma flâmula do Centro Excursionista Brasileiro (CEB), foram recolhidos e estão sob a guarda do CEM. Boa parte deste material foi deteriorada pelo tempo e pela umidade e o que sobrou, foi digitalizado.

    Flâmula comemorativa dos 60 anos do Centro Excursionista Brasileiro (CEB), deixada no cume do Piçarrão no início da década de 1980.

    Cume do Pico Piçarrão (1.840m).

    Maciço do Caraça observado a partir do cume do Piçarrão.

    Por se tratar de uma região de beleza única, além de uma área de preservação prevista no plano de manejo da RPPN, é desejável que se mantenha isolada e com acesso dificultado, especialmente em tempos de muita selfie e pouca contemplação. Um lugar para poucos, rica em endemismos e que deve permaner assim. Em setembro e outubro de 2024 foi assolada por incêndios criminosos, cujas consequências ainda são evidentes na paisagem, mesmo após um ano do ocorrido.

    Além de autorização de acesso, exige tempo, um bom planejamento e logística. Para chegar até lá, preferencialmente em veículo 4x4. Nada de van, felizmente.

    O projeto de pesquisa intitulado “Mapeamento da Distribuição e Avaliação do Status de Conservação de Phlegmariurus ruber (Cham. & Schlecht.) B.Øllg. na serra do Caraça”, aprovado em 10 de junho de 2023 pela RPPN Santuário do Caraça, tem como objetivo geral mapear os indivíduos e populações desta espécie em sua área de potencial ocorrência, de maneira a determinar os limites de sua atual distribuição geográfica. Como biólogo e coordenador do projeto, o autor deste texto possui permissão de acesso.

    Trecho final da descida do Pico Piçarrão, com o Campo de Fora e o Pico Casa Nova ao fundo.

    André Deberdt

    André Deberdt

    Belo Horizonte - MG

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    842

    Biólogo e montanhista filiado ao Centro Excursionista Mineiro.

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