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Serra da Canastra | MG

Viagem em família até a região do Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais.

Hiking 4 x 4

Serra da Canastra

Tipo de Aventura: Viagem com trilhas entre os dias 05/02/2020 e 09/02/2020.

Ponto base: São Roque de Minas/MG.

DICAS:

  • A viagem é longa. Se você resolver ir direto de carro do Rio de Janeiro, alterne a direção com algum amigo ou faça uma parada.
  • Não existem muitas opções de restaurantes em São Roque de Minas, vale a pena ir ou até mesmo se hospedagem em Vargem Bonita, que a aproximadamente fica 21km de distância.
  • Recomendo que os roteiros e passeios sejam feitos de veículo 4x4, já que as estradas podem estar muito ruins.
  • Contrate um guia local. Sugestão de guia muito legal e atencioso: Adair - (37) 98852-7554.
  • Beba a cachaça da região e compre o tradicional Queijo Canastra.


RELATO

A viagem para a Serra da Canastra foi, sem dúvidas, uma das que mais me impactou nesses últimos anos. Não pela a aventura ou somente pelos belos visuais da região, mas principalmente por toda a emoção envolvida. Em 2015 meu pai passou por sérios problemas de saúde, daqueles que te deixam entre a vida e a morte. Foram meses difíceis e de muita tensão, ansiedade e sofrimento. Lembro bem do tanto que senti medo e das vezes que me pegava chorando escondido em baixo da coberta para não deixar que minha mãe me visse. Alguém tinha que, ao menos, parecer forte. Depois de muita luta e experiências pelos hospitais do Rio de Janeiro, enfim ele superou. Mas não só isso, incrivelmente toda essa dificuldade vivida o transformou em uma pessoa mais forte, mais confiante e sem medo de, depois de trabalhar tanto na vida, ter certeza e decisão sobre como gostaria de aproveitar o restante da vida que viria pela frente: viajando.

Não que o meu pai tenha largado tudo e virado um blogueiro internacional. Não, ele continuou trabalhando duro, algo que está dentro de sua identidade. Mas de agora em diante, em todas as sagradas férias de fevereiro que ele tira, ele aproveita pra fazer 2 ou três viagens a sua escolha. Eu sempre me prontifico a ir em uma delas. Ele escolhe e nós vamos. Esse ano ele escolheu a Serra da Canastra já que diz que, desde muito jovem, sonha em conhecer a nascente do Velho Chico. E lá fomos nós. Tirei uns dias no trabalho e saímos do Rio de Janeiro na quarta feira, dia 5 de fevereiro. Éramos eu, meu pai (José), minha mãe (Rosa) e um primo que é quase irmão (João Vitor). Como seria uma longa viagem de carro, saímos ainda cedo rumo à São João Del Rei, onde vive meu irmão. A cidade fica estrategicamente posicionada bem no meio do caminho. Ou seja, era uma bela oportunidade de parar, descansar e ainda visitar a família. Não se tratava somente de uma parada, mas de um momento chave de toda a programação da viagem.

Lá, ainda curtimos o resto do dia antes de descansar para encarar a estrada do dia seguinte. Acordamos bem cedo já no dia 6 de fevereiro e rumamos para o nosso destino principal. Depois de encararmos horas de estrada e muita, mas muita chuva, chegamos em São Roque de Minas lá pelo meio da tarde. Fomos nos hospedar em um simpático chalé na pousada V.L e, depois, procurar um bom guia para os dias que viriam. Descansamos um pouco e então, na parte da noite, saímos para comer algo pela cidade. Já no fim da noite e já com o roteiro do dia seguinte acertado, retornamos e descansamos.

 

Dia 07/02/2020.

Acordamos e tomamos o farto café da manhã da pousada, repleto e com diversos estilos de pães de queijo. Fizemos um lanche para a viagem e, depois de prontos, esperamos o nosso guia chegar. Contratamos o muito gentil guia Adair, que nos buscou com seu veículo 4x4 por volta das 9:00 rumo à parte baixa da Serra da Canastra. Os dois dias anteriores tinham sido de muita chuva. Na manhã do dia 7, apesar de mais serena, a chuva continuava, o que gerou um pouco de tensão sobre o que seria do nosso fim de semana. Mas já que estávamos lá, resolvemos arriscar. Foram viagens de carro muito agradáveis e de muita prosa com o Adair, nos ensinando tudo que sabe sobre os desafios e as belezas da região. A região da Serra da Canastra vive intensos conflitos de uso e ocupação do solo. Fazendeiros, pequenas propriedades rurais e mineradores fazem constantes pressões sobre a conservação do Parque.

Percorrendo a Canastra.

Com a chuva, a estrava estava um pouco perigosa e esburacada, o que garantiu fortes emoções durante todo o dia. Devidos as trombas d'água recentes, pontes  foram danificadas e, nas estradas de chão, somente veículos com tração dupla trafegavam. Rolou até uma emocionante descida de ladeira com quase nenhum freio. Mas tudo sobre o controle do nosso guia. Nosso primeiro destino foi a Cachoeira da Chinela. Por conta do tempo ruim e da pouca visitação de turistas, a porteira estava fechada, mas isso não nos desanimou. Descemos do veículo, pulamos a mesma e caminhamos cerca de 500 metros para a cachoeira. Chegando lá, já começava a sentir no ar uma felicidade vinda dos meus pais. Não tinham como não estar, olha o que estava a nossa frente.

Cachoeira da Chinela.

Adiante, paramos em um dos mirantes altos, onde está construída a capela Serro Azul e um representativo cruzeiro, com um belo visual da Serra da Canastra que, mesmo encoberta, dava o ar de sua força e imensidão.

Visual do Cerro Azul.

Família reunida.

Contornando a Serra no sentido horário e rumando pra oeste, por volta de 12:00 paramos em São José do Barreiro para almoçar a mais tradicional comida mineira feita no fogão a lenha. Particularmente, esse foi um dos pontos altos da viagem, já que o tempo dava pequenos sinais de melhora e, da varanda do restaurante, tivemos o privilégio de comer com o paredão da Serra da Canastra bem na nossa frente. Foi incrível.

Como dizem na terra dos meus pais: “de bucho cheio”, partimos então para o ponto mais aguardado do dia: A Cachoeira Casca D’anta. Depois de mais alguns quilômetros de estradas esburacadas e deslizantes, chegamos lá. Já do caminho é possível ver a sua imponência se destacando na paisagem, ainda mais naqueles dias, onde a chuva encheu as suas nascentes, promovendo um espetáculo de força da natureza.

Avistando a Cachoeira Casca D'anta.

Desembarcados, fizemos a pequena trilha de 1 km até seu ponto de queda. A força bruta era tanta que, já do primeiro mirante, há aproximadamente 300 ainda do lago, o spray de água nos deixava encharcados. Chegando próximos dela eu já estava ensopado, sem nenhuma necessidade de mergulhar no seu lago (não recomendado para aquele dia). Era como se toda aquela força estivesse me preenchendo de energia por dentro. Parece uma filosofia de fundo de quintal, mas é verdade. Quem gosta do que a gente gosta, quem têm o amor pela natureza que a gente tem, entende perfeitamente o que eu falo. Nada como as águas de uma bela e enorme cachoeira para renovar todas as suas energias.

Os coroas e a gigante.

 De frente para sua força bruta.

Depois de muitas fotos e sorrisos, retornamos para o carro e, enfim, para São Roque de Minas. Temos plena certeza de que o roteiro foi simplificado por conta do estado das estradas e dos atrativos naturais durante aqueles dias de chuva. Mas dentro de nossas expectativas de, vamos arriscar e tentar, ao menos, ver algo impressionante que marcasse a viagem, nós tínhamos cumprido o nosso objetivo. De volta à São Roque, acertamos o roteiro do dia seguinte, descansamos e jantamos à noite. Novamente dormimos cedo, já que o horário marcado para sábado era novamente de 9:00.

 

Dia 08/02/2020.

Chegando na portaria do Parque, fomos alertados que muitas pontes da parte alta tinham sido arrastadas pela força da água da chuva, o que impossibilitaria a visita completa. Perguntamos então se, ao menos a nascente do Velho Chico estaria aberta, já que esse era o nosso objetivo principal. Felizmente estava, mas somente através de uma caminhada de 1km, já que não havia possibilidades para o carro. Perguntei para o meu pai e, sem pestanejar, ele falou: “vamos”.

Portaria do Parque Nacional da Serra da Canastra próxima à São Roque de Minas.

Guardo esse dia com muito carinho em meu coração. Meu pai, com 71 anos, sempre teve muito orgulho de mim e do estilo de vida que escolhi. Posso dizer que ele sempre foi um dos meus maiores incentivadores. Ele sempre dizia: “meu filho, vai atrás dos seus sonhos, sejam eles quais forem”. Bom, não é que agora eu estava tendo a oportunidade de realizar um dos sonhos dele. Foi uma caminhada de 1km em um ritmo moderado e com direito a passagem por uma ponte de madeira (bem fininha), improvisada já que a chuva tinha levado a estrada. A caminhada foi cheia de grandes momentos e risadas. Lembro do meu pai brincando com a minha mãe de que ele estava dando um show de preparo físico. Quando ela passava, a brincadeira voltava. Posso dizer, sem sombra de dúvidas que, mesmo já tendo enfrentado a Mantiqueira, a Serra dos Órgãos e tudo mais, esses foram os mais emocionantes 1km da minha vida. Meu pai sempre foi um grande batalhador e trabalhador e agora, depois de seus 71 anos, estava fazendo a sua primeira trilha em minha companhia.

Tmj Coroa.

Depois de cerca de 40 minutos, nós chegamos. Avistamos a placa, o sorriso passou a ser de orelha a orelha. Teve oração dos coroas na estátua de São Francisco construída próxima e, claro, aquele gole d’água direto da fonte. Lembro do meu pai falando que pronto, agora tudo já tinha valido a pena. Me sinto muito feliz e completo com isso. Sei de tudo que meus coroas viveram na vida e de todas as dificuldades. Mas sei também da enorme força vital que eles têm e que, com certeza, foram os principais responsáveis por construir isto dentro de mim. Missão, cumprida, coroa, TMJ.

Se liga no sorrisão.

Estátua em homenagem à São Francisco.

A vida no Velho Chico.

Caminhamos de volta para a entrada do Parque. O tempo melhorou, adentramos no carro novamente e decidimos fazer uma última parada no complexo de cachoeiras do Capão Forro. São trilhas fáceis e que valem muito a pena. Afinal, a gente merecia um daqueles banhos de cachoeiras. Fizemos as trilhas de 300 ou 500 metros e conhecemos toas as cachoeiras possíveis, com destaque total para a do Lobo.

 Cachoeira do Lobo.

Bom, nosso roteiro possível frente à condição do tempo daquele dia estava cumprido. Voltamos para São Roque de Minas, compramos umas cachaças e uns queijos tradicionais da região para levar como lembranças, descansamos mais um pouco e, já de noite, cansados das poucas opções de onde comer em São Roque, resolvemos ir até Vargem Bonita, que fica a aproximadamente 21km de distância. Eu tinha recebido recomendações de amigos sobre e resolvi arriscar. Deu certo. Lá encontramos uma modesta, mas muito legal, pizzaria chamada Casa Da Pizza. Comemos bem e ficamos satisfeitos. Sair a noite foi legal também para complementar ainda mais a viagem. Já de volta à pousada, decidimos então retornar para casa no domingo, já que infelizmente muitos pontos do entorno estavam sem acesso por conta dos problemas nas estradas. Sem problemas, o que vale é o bom espírito positivo do que havíamos vívidos.

Nos dias seguintes, fizemos a longa viagem de volta, também com a mesma parada na casa do meu irmão para descansar. Só no dia 09/02/2020 (segunda-feira) chegamos em casa. Confesso que passei o meu tempo de escrita deste relato aproveitando para relembrar e revisitar as memórias daqueles dias. De vez em quando ainda nos vemos lá. “E aí, coroa, lembra da gente andando naquela trilha?”. Essa é uma reflexão que não faltou pelo resto do ano. Coroa, obrigado mais uma vez por tudo. O que eu fiz e pude fazer não significa nada do que te devo na vida. O amor que tenho por você é incrível e espero que você fique muito feliz quando eu levar esse relato impresso pra você ler (meu pai não usa nem celular). Como dizemos todos os dias: “Aí, Velho, tiramos onda lá no São Francisco”.

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros

Published on 06/14/2020 22:26

Performed from 02/05/2020 to 02/09/2020

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Estela Mizukawa
Estela Mizukawa 06/14/2020 22:32

Passei o natal de 2018 e ano novo pra 2019 lá em Vargem Bonita num airbnb rural e ficamos duas semanas desbravando toda a região. Realmente a Canastra é impressionante e inesquecível! Bonito o relato!

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 06/14/2020 22:35

Estela, um local inesquecível, né? Que voltemos às viagens em breve!

Eduardo da Silva
Eduardo da Silva 06/25/2020 07:21

Fiz questão de me cadastrar no AventureBox só pra poder ler esses relatos sensacionais. Esse do seu pai é sem sombra de duvidas, muito emocionante.

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 06/26/2020 10:37

Fala, Eduardo. Que maneiro, meu irmão. Obrigado pelo apoio e carinho de sempre!!

Marselha Oliveira
Marselha Oliveira 08/25/2020 10:32

Bruno parabéns pelo relato. Acho essas viagens em família muito importantes . Em janeiro de 2020 tive o prazer de passar rapidamente pela canastra, minha mãe é muito católica e ficou emocionada com a nascente do São Francisco . Não fomos mais longe que isso pois minha prima estava com o pé quebrado , carregar ela na pequena trilha até a nascente foi um desafio , mas conseguimos chegar e tivemos ótimos momentos. Parabéns novamente

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 08/25/2020 10:35

Obrigado, Marselha. São momentos que acabam marcando. Ouvi diversas vezes durante esse período de isolamento as boas lembranças desses dias. Um sorriso permanente no coração.

Bruno Negreiros

Bruno Negreiros

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Engenheiro ambiental e montanhista com o sonho de contribuir para a disseminação dos esportes ao ar livre e de aumentar a conscientização ambiental e social no mundo outdoor.

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