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Travessia da Serra Fina em 2 Dias | MG, SP e RJ.

Travessia da Serra Fina em 2 Dias | MG, SP e RJ.

Trekking realizado na Serra da Mantiqueira, entre Passa Quatro/MG e Itamonte/MG, passando pela divisa dos estados do RJ, MG e SP.

Trekking Mountaineering

Travessia da Serra Fina em 2 dias

Tipo de Aventura: Trekking (Travessia) com camping selvagem.
Duração: 2 dias, entre os dias 06/07/2019 e 07/07/2019

Ponto de Início: Toca do Lobo, Passa Quatro, MG
https://goo.gl/maps/VaRt69Xhpwz2QxKm7

Ponto Final: Sítio do Pierre, Itamonte, MG
https://goo.gl/maps/q5oTXR4zYrziW3nS9

DICAS:

  • Transfer de Passa Quatro para Toca do Lobo: (35) 9882-8170 – Edinho/Natália;
  • Faça bem a gestão de sua água, além dela ser muito importante, não existem muitos pontos de recarga;
  • Tenha conhecimento dos possíveis locais de camping para otimizar a sua logística;
  • Conheça o ponto de escape pelo Paiolinho, isso pode te tirar de uma furada;
  • Tenha noção de que a Serra Fina é uma das travessias mais desafiadoras do Brasil, por isso conheça bem os participantes;
  • Traga todo o seu lixo de volta, inclusive as fezes, com o auxílio do shittub.

ROTEIRO:

Dia 1: Passa Quatro, Toca do Lobo – Pedra da Mina.

Dia 2: Pedra da Mina – Sítio do Pierre.

Tracklog utilizado: Rogrigo AGC

https://pt.wikiloc.com/trilhas-montanhismo/travessia-serra-fina-detalhada-25478843

RELATO

Dia 1 – 06/07/2019

Antes de começar o relato da travessia, tenho que confessar o frio na barriga e a grande responsabilidade que foi organizar o evento da Serra Fina em 2 dias. Eu já tinha estado nessa travessia antes e sabia o tamanho do desafio. A semana que precedeu o trekking foi tensa por conta da instabilidade do tempo na região. Passei a semana toda avaliando trajeto, acertando rotas de escape, acompanhando previsões, acertando os últimos detalhes financeiros e fabricando shit tubes. Só na semana antes do evento eu montei 4 novos shit tubes para a galera. Acredito plenamente que temos a responsabilidade moral de zelar por um comportamento consciente na prática do montanhismo. Além disso, é nosso dever cuidar de locais que tanto amamos, como a Mantiqueira.

Eu também gostaria de agradecer aos meus companheiros Henrique e Josye, que foram importantíssimos para que tudo desse certo. Vocês são os melhores parceiros/amigos do mundo e eu estou muito orgulhoso de vocês.

Bom, a previsão do tempo não era de chuva, apenas de muito frio. Nada que nos impedisse. A galera estava empolgada e lá fomos nós. A logística começou ainda no dia 5/7, sexta-feira. Encontramos o nosso transporte e saímos da região da Rodoviária Novo Rio por volta das 21:00, com tudo dentro do planejado. A viagem foi bem tranquila, com parada para lanche no Graal, como de costume. Chegamos em Passa Quadro por volta das 2:30 da madrugada.

Já em Passa Quatro, liguei para a Natália, com quem eu tinha passado os dias anteriores acertando os detalhes do transfer até a Toca do Lobo. Algo essencial, já que a estrada de acesso não é boa e havia chovido bastante na cidade durante a semana. Ela me atendeu de pronto, nos recebeu e nos orientou para já arrumarmos as nossas coisas para subir, já que era feriado em São Paulo naquele fim de semana e tinham muitos grupos fazendo a mesma logística de acesso que nós. Claro, vale comentar também as surpresas que recebemos. Nosso motorista, o Beto, apareceu com barrinhas de cereal e chocolate quente e a Natália com um bolo incrível. A galera ficou muito feliz com os pequenos gestos.

Mochilas prontas, todos agasalhados e embarcamos na Toyota do Edinho (pai da Natália), rumo à Toca do Lobo. A estrada de terra estava muito ruim por conta das chuvas recentes. No caminho, tivemos que esperar uma van que carregava um grupo de SP conseguir desatolar da nossa frente. O tempo de espera fez com que a nossa Toyota também atolasse. Com ajuda dos paulistas, conseguimos sair dessa e seguimos viagem.

Toyota do Edinho, rumo à Toca do Lobo.

Chegamos no ponto de desembarque às 4:15, reforçamos os casacos, arrumei o GPS e iniciamos a caminhada às 4:45. Confesso que ainda não tinha começado a sentir tanto frio. Isso me animou, porém, foi pura inocência, o fim do dia me mostraria isso. Após uns 20 minutos de caminhada, chegamos na Toca do Lobo, reabasteci de água e começamos a tocar para cima. Agora sim, para cima e avante, tinha começado a Serra Fina.

Placa da Toca do Lobo.

Sobe, sobe e sobe. Gosto de pensar que a sua aclividade é o principal motivo de toda a sua beleza e desafio físico/técnico. A caminhada noturna rendeu muito bem, o grupo estava compacto. A estratégia de começar de madrugada se mostrou acertada. Ganhamos importantes quilômetros ainda na escuridão, o que foi muito importante no fim do primeiro dia.

E assim fomos subindo, sempre esbarrando com outros grupos ou vendo lanternas se movimentando na nossa frente ou atrás. O sol nasceu bem próximo ao Quartzito. O tempo estava bem fechado, não conseguíamos ver muito na nossa frente. Também estava muito frio. A cada parada para tentativas de fotos, todos concluíam que não dava para demorar muito, já que perdíamos o aquecimento provocado pelo movimento e os ossos doíam com a baixa temperatura. Infelizmente, também passamos pelo Passo dos Anjos com o tempo muito fechado, sem a chance de tirar a mais famosa foto da Serra Fina. Bola para a frente. Sabíamos que, em dois dias, a diversão fica sacrificada em prol do desafio.

Depois do Passo dos Anjos veio uma difícil subida. A trilha parecia estar ficando mais íngreme a cada metro vencido. Mas nossas botas se moviam em um ritmo coordenado. Pisa com a direita, pisa com a esquerda, olha para cima, se assusta, abaixa a cabeça e continua andando. Esse era o nosso procedimento para vencer aquele delicioso pedaço da Mantiqueira.

Apesar da exigência física, não deixamos cair a energia. E foi assim que vencemos a sombra das nuvens. Sim, percebemos que, de agora em diante, estávamos mais alto que elas, com aquele clássico tapete branco como algodão abaixo de nós. Foi incrível a sensação de poder e felicidade de quando olhávamos para baixo, acompanhados do medo e preocupação de quando olhávamos para cima: “o Capim Amarelo é alto, hein”.

O mar de nuvens.

sobe, sobe e sobe.

Fazia frio.

Fazia frio 2.

O meu plano era atingir o cume antes das 10:00, por isso, comecei a puxar o ritmo do grupo para cumprir o objetivo. Sobe, passa os lances de cordas, sobre mais. Mais alguns morros depois e paramos no ombro do Capim amarelo, onde encontramos alguns outros grupos, conversamos e pegamos algumas dicas com os guias. Saindo dalí, encaramos a mais íngreme subida. Primeiro grande objetivo do dia cumprido: Atingimos o Cupim Amarelo às 9:30.

Cume do Capim Amarelo.

A Serra Fina em dois dias é perrengue, então não tínhamos muito tempo a perder. Após 30 minutos de descanso e fotos, partimos do Capim rumo à Pedra da Mina. Apesar do cansaço que já começava a castigar, conseguimos seguir empenhados e manter o bom ritmo da manhã.

Aproximadamente às 11:00, passamos por um momento triste. Já do alto de uma das montanhas seguintes, assistimos a um resgate de helicóptero que ocorreu no ombro do Capim Amarelo. Foi agoniante ver o helicóptero dando voltas para tentar pousar. Nós não tínhamos ideia do que estava acontecendo e já estávamos longe demais para ajudar. A única coisa que podíamos fazer era mandar boas energias e torcer para que ficasse tudo bem. Depois descobrimos que se tratava de uma senhora de 52 anos que teve um AVC. Confesso que passei o resto da travessia e os dias posteriores muito pensativo com isso. E se acontece com o meu grupo? Como seria? Uma dura lição e uma oportunidade de reflexão.

Uma coisa bem engraçada aconteceu. Conhecemos uma dupla muito gente boa. Alex e Faísca. Parece dupla sertaneja, mas não era. Eles estavam com o grupo de SP que atolou na nossa frente lá na estrada, mas abandoaram o grupo, que faria a travessia em quatro dias, para seguirem na frente, só os dois, e terminar tudo em dois dias. Eles eram muito engraçados e divertidos. Esbarramos com eles em várias ocasiões durante o dia, sempre com muita brincadeira e descontração.

Chegamos no camping do maracanã às 11:30. A modo de comparação, esse é o ponto onde, normalmente, os grupos acampam quando fazem a travessia em três dias. Isso mesmo, numa manhã nós fizemos todo o percurso de um dia inteiro. Estávamos relativamente bem no nosso planejamento. Isso fez até com que a gente relaxasse um pouco mais naquele ponto, comesse bem e até tirasse um cochilo coletivo de 20 minutos, já que ninguém tinha dormido na noite anterior.

Mas o tempo continuava curto e ainda faltava muito para a Mina. A trilha seguiu mantendo o padrão Serra Fina: subidas e descidas extremamente cansativas. Parecia que o pico nunca chegaria. Mas isso era só uma armadilha psicológica feita por nós mesmos. Após uma longa respiração, a cada parada, percebíamos que estávamos sim ganhando terreno e nos aproximando do fim do dia. Foi perto de sua base, às 16:00, que nos reunimos e tomamos uma importante decisão: O grupo, apesar de extremamente exausto, resolveu enfrentar mais aquele monstro de pedra que se erguia na nossa frente e ganhar terreno ainda no primeiro dia, deixando menos para o segundo. E, claro, assumimos o pacto de acampar no cume, tendo que chegar antes do sol se pôr, já que a temperatura despencaria.

Às 17:00 estávamos na base, extremamente cansados, colocando um pé na frente do outro, já no modo automático, tirando as últimas energias de sabe-se lá onde. A emoção estava a flor da pele. Foi durante os últimos raios de sol do dia que eu presenciei algumas cenas que mexeram comigo. Pessoas chorando com a contemplação da beleza cênica que se mostrava a nossa frente, que se misturava com os mais puros sentimentos internos. Sim, acredito que o sentido da vida era o pensamento que comandava a cabeça de todos nesse momento.

Depois do cume falso, chegamos no cume verdadeiro às 17:30, com muito, mas muito frio. O sol tinha abaixado e a temperatura caído bruscamente. Agora tínhamos que conseguir um local para montar acampamento. O pico estava cheio e não conseguimos ficar juntos, por isso, cada um saiu por aí procurando o melhor lugar para montar a sua barraca. Felizmente deu tudo certo. Alguns conseguiram um lugar bom, outros não, mas todos, antes do fim do último raio de sol, já estavam abrigados.

Pôr do Sol da Pedra da Mina.

Depois das 18:00 as barracas já estavam fechadas. Não se ouvia mais nenhum movimento do lado de fora. O vento era tão forte que sacudia as barracas, fazendo parecer que as mesmas sairiam por aí voando quilômetros e quilômetros como meras pipas levadas pelo vento. E o som? Assustador! Alguns espeques não resistiram e foram arrancados de seus buracos.

A gestão de frio e comida foi feita por cada um dentro da barraca. Uns cozinharam, outros só lancharam. Fazia muito frio mesmo, as temperaturas bateram -5ºC às 21:00 da noite e muitas pessoas estavam extremamente cansadas. A estimativa foi de -9ºC na madrugada. Eu, por exemplo, não cozinhei. Me contentei com um biscoito e com o gostoso aquecimento do meu conjunto saco de dormir + liner. E lá fiquei, imóvel, escutando o rugido do vento que soprava no acampamento a noite toda. Sim, apesar de tudo, tudo ocorreu bem. O primeiro dia estava vencido.

Dia 2 – 07/07/2019

O planejamento inicial para o segundo dia era acordar às 6:00 da manhã. O que foi impossível, devido à baixa temperatura, ventos fortes e cansaço do dia anterior. Por isso, resolvi deixar o grupo descansar bem, se alimentar, e sair com o sol mais forte e, consequentemente, menos frio. Feito isso, saímos da Pedra da Mina às 9:00, não sem antes tirar uma foto do grupo no pico.

Galera reunida na Pedra da Mina.

Foto solo na Mina.

Chegando no Vale do Ruah, pudemos perceber o quanto deve ter sido frio e úmido lá em baixo, já que tinha gelo por todos os lados. Além disso, percebemos o quanto a navegação se tornaria delicada pelo resto da travessia, já que agora teriam muitos pontos de dúvida e bifurcações. Lembra da dupla Alex e Faísca? Então, justamente por conta da difícil orientação, eles passaram grande parte do segundo dia com a gente.

Navegando no Vale do Ruah.

Fazia frio 3

Passado o Vale do Ruah, pegamos água fomos na direção do Cupim do Boi. O grupo dava sinais claros de desgaste. O desempenho já não era o mesmo do dia anterior. As paradas começaram a ser mais longas e os rostos já estavam tomados por feições abatidas. Mesmo assim, eu não percebia a vontade de desistir. Eles queriam estar ali e, apesar de tudo, eram movidos por uma energia mágica: o amor pela natureza. Todos deram o máximo de sí e, às 11:30, chegamos lá.

Um adendo: foi muito legal encontrar a galera do grupo Trilhando Trekking de BH. Pessoal extremamente gente boa. Eu, particularmente, já os acompanhava pelas redes sociais há algum tempo. Foi uma honra.

Mais um tempo em cima do Pico para recarregar as energias e seguimos rumo ao próximo cume. Uma longa subida que exigiu muito do grupo. Às 13:15, chegamos ao Pico dos Três Estados, ponto único de conexão entre MG, SP e RJ. Uma incrível sensação de felicidade tomou o meio peito. Estar lá e na Mina em apenas dois dias é uma grande realização.

Pico dos Três Estados.

Precisamos de um descanso ainda maior, comemos bem e tiramos algumas fotos. Uma inclusive de todos os grupos que lá estavam juntos. Os famosos ratinhos da Serra Fina apareceram por todos os lados. Um sinal claro de que se deve evitar aquele local para acampamento.

Clube Outdoor e Trilhando Trekking reunidos.

Apesar da comemoração, ainda tinha muito por vir. Na nossa frente, a última grande subida: o Alto dos Ivos. Ninguém se motivava mais com palavras fortes. Agora era cada um tirando de dentro de si o seu melhor. E assim foi, descemos e subimos, até alcançar o cume às 17:30, já com o ultimo raio de sol encostando em nossas peles. Estávamos muito atrasados. Levamos muito tempo dos Três Estados até alí, porém, felizes com a sensação de que o pior e mais difícil já havia passado.

Último raio de sol do alto dos Ivos.

Desse ponto em diante, todos se agasalharam de forma reforçada para descer. Agora era só manter uma boa termorregulação que tudo acabaria bem. E assim foi, descemos a noite até o Pierre. Ainda vieram algumas subidas menores pelo caminho, mas o pior já tinha passado. Quando encontramos a trilha boa, o rendimento melhorou e chegamos ao último ponto de água às 20:15, um pouco antes do Pierre. Mais uma caminhada sob o céu estrelado e atingimos a estrada. A felicidade estava estampada no rosto de todos, faltava pouco.

Bom, às 21:15, chegamos ao ponto final. Eu dei um abraço forte no Beto e comemoramos muito. Ele nos recepcionou com sanduíches e um pouco mais chocolate quente. Não consigo descrever em palavras a felicidade e o alívio que sentia. Deu tudo certo. Foi tudo incrível. Conseguimos vencer a Serra Fina em 2 dias, mesmo enfrentando temperaturas baixíssimas. Nesse momento eu senti muito orgulho de todos nós e do Clube Outdoor. Um grupo novo, mas que já começa a deixar a sua marca no montanhismo nacional. E de mim, claro. Eu estava muito feliz de tudo que estava acontecendo na minha vida, das últimas vitórias e de tudo que estaria por vir. Tem muita coisa irada por acontecer e eu estou preparado e motivado para tudo isso. Sabe aquele sentimento de plenitude e paz de espírito? Então, isso mesmo que rolou.

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros

Published on 07/19/2019 16:22

Performed from 07/06/2019 to 07/07/2019

4 Participants

Henrique Protázio Josye Villela Roberto Pinheiro Rodrigue Adhemar

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8
Fabio Fliess
Fabio Fliess 07/19/2019 20:14

Irado demais meu brother!! Parabéns pela aventura de vocês. Feliz que tudo deu certo!!!! Abraços.

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 07/20/2019 21:43

Fliess, eu também estou bem feliz! Hahahahahhahahahaha

Fabio Fliess
Fabio Fliess 07/21/2019 08:13

Hahahahahahahaha

Angelique J. Oliveira
Angelique J. Oliveira 07/22/2019 11:01

Show! Parabéns a todos!!

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 07/22/2019 16:49

Obrigado Angelique!

Arlan Madson
Arlan Madson 07/22/2019 19:37

Parabéns pelo feito 👍👊👏👏👏

Tripsdobiano
Tripsdobiano 07/23/2019 08:09

Que relato bacana!!!! Consegui sentir a dificuldade da Serra Fina através do seu relato Bruno. Obrigado por compartilhar!!!

Luciano Pereira
Luciano Pereira 08/15/2019 16:19

Parabéns a todos! Haverá outra travessia? Quero fazer essa travessia da Serra Fina

Bruno Negreiros

Bruno Negreiros

Rio de Janeiro

Rox
3003

Engenheiro ambiental e montanhista com o sonho de contribuir para a disseminação dos esportes ao ar livre e de aumentar a conscientização ambiental e social no mundo outdoor.

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