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Vale do Pati - Chapada Diamantina / BA

Vale do Pati - Chapada Diamantina / BA

As maravilhas do Vale do Pati em 4 dias

Waterfall Trekking Mountaineering

Introdução


Estive no Vale do Pati, sem guia (ou quase) numa permanência de 3 pernoites. Sim, minha idéia desse lugar era bem diferente do que vivi lá. Eu pensava que o Vale era um local muito menos habitado e que só era possível pernoitar em acampamentos, mas encontrei um espaço plenamente habitado com pessoas fundamentais para a viagem. Nunca imaginei esta trilha suportada por uma comunidade que nos acolheria tão bem.

São diversos conjunto de moradias distribuídos entre Pati de Cima e Pati de Baixo. Esses locais são interligados por caminhadas que variam de cinco minutos a uma hora e meia. Todo o transporte de mantimentos para os habitantes do vale são por meio de mulas, que também servem para levar o lixo do vale para os aterros sanitários de Guiné, deixando o local mais sustentável.

As trilhas durante a estadia no vale são de nível fácil a moderado, sobretudo pelo fato de estarmos sem pesadas mochilas para transportar. Mas alguns trechos podem ser considerados difícil e perigoso. Como sempre, devemos respeitar a natureza e estarmos cientes de nossos limites.

Há 3 rotas, basicamente, para se chegar ao mítico Vale do Pati. Via a comunidade do Capão, via a cidade de Andaraí e pela vila de Guiné. São três pontos que pode ser início ou final. Minha estada no Vale não se constituiu numa travessia, entrei e saí pela vila de Guiné.


Dia 1

Fomos à Chapada Dimantina, eu, Bárbara (minha companheira na época) e meu filho João. O objetivo da viagem era a trilha do Vale do Pati. E eu passei alguns meses planejando e segurando as expectativas para chegar àquele lugar. Saímos de Recife de carro, atravessamos meia Bahia e enfim chegamos na região. Antes do Pati vivenciamos Lençois e seus atrativos, subimos o Morro do Pai Inácio dentre outros passeios.

O dia de chegar ao Pati era o mais esperado por mim. E a emoção foi intensa ao me aproximar da vila de Guiné e ver os paredões rochosos característicos do lugar. Aqueles chapadões guardavam o meu, o nosso destino.

Ao chegar na pequena vila avistamos o pé da montanha onde deixaríamos o carro "abandonado" e destrancado (por descuido) durante nossa estadia no Vale do Pati.

Chegou a hora de botar a carga nas costas e dar início à caminhada. É nesse momento que a gente precisa avaliar muito bem o que deseja levar na mochila. Eu era "marinheiro" de primeira viagem e senti que isso estava se refletindo no peso nas minhas costas. Os 15 minutos iniciais já me trazia arrependimento. E eu ainda estava no meio da subida inicial, a ladeira que nos leva à ampla planície do topo. A dificuldade inicial logo se dissiparia, pois nosso corpo parece aceitar o desafio - não tem outro jeito mesmo. E lá vamos nós rumando pela linda planície nas Gerais do Rio Preto.

Uma característica interessante são as montanhas que circundam o Vale do Pati, e é o que dá nome àquela região, a forma de chapada - topo plano. Fiquei bem surpreso ao encontrar um rio correndo ali no alto. Tínhamos uma bela planície, com uma brisa fresquinha. Maior clima de calmaria, após a pirambeira inicial que nós enfrentamos para estar ali.

Considero as Gerais do Rio Preto no top 3, dentre os mais belos locais durante a viagem ao Vale do Pati. Esta planície com rios, riachos, matinhas, pontilhão de madeira, cerca de pedra, capinzal esvoaçante serve para acalmar nossa alma e pouco a pouco nos colocar num torpor. O encanto da paisagem seria quebrado logo em seguida com surpresa e força ao chegarmos no Mirante da Rampa do Pati. A borda de precipício nos escancarava de súbito toda a beleza do vale e seu conjunto de montanhas. Eram cinco da tarde nesse momento.

Valeu a pena nos livrarmos, momentaneamente, da mochila, fazer um lanchinho e apreciar a vista, já pensando na decisão que precisaríamos tomar a seguir.

Chegou a hora de descer do alto da chapada para a base do vale. A partir desse mirante há duas maneiras de descer. A mais rápida, dura cerca de 25 minutos e é uma perigosa escalaminhada - descida de bunda ou barriga no chão. A outra é dar a volta seguindo pelo alto, descendo gradualmente e adicionando mais de uma hora ao percurso. A opção escolhida pelo nosso trio foi a perigosa descida. Qualquer vacilo poderia resultar numa queda fatal. O declive é curto mas bastante íngreme, são cerca de 200m de altura em menos de 1km. Saímos da altitude de 1305 para 1090m.

Ao descer a pirambeira o app Maps.me indicava para seguir adiante, em direção a uma ladeira nada generosa àquela momento da viagem, depois de algumas horas carregando pesadas mochilas.

A escuridão da noite chegou e nos pegou ainda a caminho. Havíamos saído do Beco do Guiné 14:15h, cruzamos o alto das Gerais do Vieira durante duas horas e chegamos enfim à Casa de Dona Raquel beirando 19h. Percorremos os dez quilômetros em 5 horas. Agora era tomar banho e descansar. O corpo pedia. Fomos acomodados confortavelmente após um revigorante jantar. Da janela do meu quarto dava para apreciar a lua cheia iluminando o vale e destacando uma marcante silhueta rochosa, o Morro do Castelo.

Legenda: Mirante do Vale do Pati

Dia 2

A hospedagem no Vale do Pari pode ser acampamento selvagem ou hospedagem nas casas dos moradores, devidamente preparadas como hostels. A estadia na Dona Raquel nos ensinou a melhor forma de se alimentar por ali. Desfrutar do abundante café da manhã, almoçar um mini-sanduíche (preparado previamente) e jantar com toda a fome acomulada durante o dia. As refeições da Casa de Dona Raquel são sensacionais. Nesse segundo dia, a Bárbara, fez contato com um guia local, o Edi, e juntos fomos ao Morro do Castelo.

Sabe, eu havia pensado não contratar serviço de guias, mas não teve nada melhor que o auxílio de um desses profissionais naquele passeio. O Morro do Castelo pede um auxílio desse tipo para ser devidamente explorado, pelo simples fato de haver uma bifurcação na escuridão da gruta principal que possibilita sair por dois diferentes pontos no outro extremo. Túneis ocultos, que são conhecidos apenas pelos guias.

A visita ao monumental Morro do Castelo está no topo de minhas preferência no Vale do Pati. O trecho de circundar a montanha depois que atravessamos a gruta é fenomenal. O cheiro das plantas, variedade de árvores, tipos diversos de vegetação, arbustos, liquens, pequenos animais, insetos, toda a vida à minha volta trazia uma indescritível vibração. Adoro contemplar mirantes, vales, cadeias de montanhas e o céu ao longe, mas meu deleite se completa com o que está próximo, com o que está junto a mim. Não deixo escapar detalhes.

O roteiro seguinte foi visitar cachoeiras que ficam no caminho de volta à vila. Subimos rio acima, saltando sobre pedras e cruzando o rio pra lá e prá cá, em direção à cachoeira da Bananeira (sim, há bananeiras por lá) e por fim chegamos à linda e gelada cachoeira do Funil. A água fria não foi barreira para que eu e Bárbara déssemos um revigorante mergulho. João ficou a observar apenas. O guia continuava a nos acompanhar.

Nesse dia caminhamos cerca de 10 km.

Legenda: Uma das saídas do Morro do Castelo

Dia 3

O terceiro dia no vale foi bem light. Escolhemos este dia para fazer um curto passeio pois o dia seguinte seria o retorno ao "mundo real". Sem guia, fomos em direção ao Pati de Baixo, proximidades da Prefeitura. Nosso destino era o Poço da Árvore - uma área do rio bem tranquila, ótima para relaxar e colocar a cabeça em ordem. Fizemos um lanche ao meio dia e no começo da tarde retornamos. Minhas companhias de viagem resolveram ficar na casa dos nativos que nos hospedava mas eu resolvi circular mais pelo vale (vide track anexo).

Eu queria conhecer as outras casas dos nativos. Passei em Dona Léia, Seu Aguinaldo, Seu Wilson e subi até o Cruzeiro, que é ponto mais alto dentro do Vale. Desse mirante avistei a localidade denominada Igrejinha mas não quis ir lá. A distância dentro do vale sempre nos engana e as ladeiras roubam nossas forças bem depressa. Fiz umas fotos e retornei para a Casa de Dona Raquel. Aquela seria nossa última noite ali.

Último dia

Tomamos o café da manhã, reforçado, como sempre. Colocamos nossas pesadas mochilas nas costas e fomos embora. A rota de saída incluía a visita ao Cachoeirão por Cima. O neto de Dona Raquel, um guia super falador e engraçado, nos deu as dicas. Deveríamos deixar nossa bagagem oculta numa matinha, ir até o Cachoeirão e na volta resgatar as mochilas e assim partir para Guiné. Segundo ele era totalmente seguro deixar nossas coisas lá, "ninguém mexe". Confiantes, entramos no espírito do Vale do Pati.

A trilha para o Cachoeirão por Cima era uma planície super agradável com alguns trechos meio confusos, a exemplo do local conhecido como Toca do Gavião. Há alguns lajedões onde a trilha desaparece. Tivemos certa dificuldade para nos guiar, mesmo com o Maps.me. Ao chegamos ao sensacional mirante na parte alta da cachoeira, contemplamos a vasta região do Pati de Baixo. Nosso despedida do vale estava em processo.

Agora era o retorno real. Rumamos até o local onde deixamos nossas mochilas e as encontramos intactas. Como esperado! As Gerais do Rio Preto estava nos esperando com sua brisa que esvoaça o capinzal. Cruzamos toda a mágica planície, perfazendo um total de 25 km naquele dia. E assim partimos do Vale... já com saudade.

Ao longe avistamos nosso veículo estacionado. Meu filho avançou na descida final, e o vimos abrir a porta e entrar. Sim, o carro ficou com a porta destravada. O celular de João continuava no banco dianteiro do veículo e tudo mais estava intocado. O Vale do Pati é puro encantamento.

// Viagem em Julho de 2019
Veja mais fotos na Galeria e alguns Tracklogs

Damião Santana
Damião Santana

Published on 11/26/2020 23:01

Performed from 07/17/2019 to 07/20/2019

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Damião Santana

Damião Santana

Recife - PE

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Moro em Recife. Amo cicloviagens e caminhar pelas montanhas.

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