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Meteorologia e Montanhas

Parte 1: O que preciso conhecer para entender o comportamento climático no ambiente da montanha?

A Meteorologia é o estudo científico da atmosfera, seu comportamento e fenômenos. Através desta ciência o homem se tornou capaz de interpretar sinais a respeito do comportamento atmosférico fazendo monitoramentos e análise de resultados e, desta forma, identificando as tendências climáticas.

Para a prática do montanhismo, ter amplo conhecimento a respeito da natureza e seus fenômenos climáticos auxilia muito em diversos aspectos do esporte, mas principalmente em termos de segurança. A montanha pode ser um ambiente inóspito e, neste âmbito, saber interpretar sinais de mudança de tempo, como a chegada de tempestades, por exemplo, pode trazer não apenas conforto ao praticante, mas a noção precisa para tomada de decisões em que acidentes sejam evitados ou tenham seus riscos diminuídos. 

Desta maneira, aqui começa uma série a respeito da Meteorologia no ambiente da Montanha, que foi dividida em três partes que trazem definições e informações básicas, porém importantes, para o entendimento de fenômenos climáticos durante a prática outdoor. 

 

O que saber para entender a meteorologia no ambiente da Montanha?

Primeiro de tudo, vamos falar sobre a Atmosfera. Esta é a camada de ar que envolve a Terra graças à ação da gravidade, sendo composta de oxigênio (21%), nitrogênio (78%) e outros gases (1%), cuja principal função é filtrar a radiação solar, ou seja, proteger a Terra de raios solares nocivos.

Esta camada está dividida em Troposfera, Tropopausa, Estratosfera, Ionosfera e Exosfera, e cada subcamada tem uma função específica. A subcamada que nos interessa é a Troposfera, onde ocorre a maioria dos fenômenos meteorológicos devido à quantidade de água presente nela.

Na composição atmosférica, o vapor d'água está presente na porção de 0 a 4%.

Chamamos de:

  • Ar seco se há 0% de vapor d'água
  • Ar úmido se há entre 0 e 4% de vapor d'água
  • Ar saturado se há 4% de vapor d'água

Além disso, a Troposfera está presente até 17/19km de altitude sobre a Linha do Equador e até 7/9km sobre os pólos. Isso ocorre pelo fato do nosso planeta ser elipsoidal, ou seja, ter seu formato arredondado como em uma esfera, porém sendo mais achatado nos pólos. Uma de suas características mais importantes é que a cada 100 m a temperatura cai 0,65ºC.

 

A pressão atmosférica é força que o ar exerce numa porção de um metro quadrado da área da superfície terrestre. Densidade do ar é a razão (divisão) da massa do ar pela unidade volume da atmosfera.

Em altitude, o ar é menos concentrado, ou seja, menos denso, fazendo com que a pressão atmosférica caia. Desta forma, quanto maior a altitude, menor a pressão atmosférica; o que chamamos de ar rarefeito, que  leva à uma série de complicações de saúde; e que recebem o nome de 'Mal das Montanhas' ou 'Mal do Ar'.

Basicamente o Mal das Montanhas é um estado patológico relacionados aos efeitos que a deficiência ou a falta de oxigênio (por conta do ar rarefeito) gera no organismo humano em grandes altitudes devido à baixa pressão atmosférica, e que é suficiente para levar ao impedimento do pleno funcionamento dos nossos corpos. Se trata de uma doença silenciosa, o que a torna mais ameaçadora. Os sintomas podem variar desde a perda da visão noturna, cansaço, fraqueza e irritabilidade até dores de cabeça intensas, vômitos, insônia, perda de consciência e, nos casos mais graves, pode levar à morte. A prevenção é feita com a devida aclimatação em altitude, de forma gradual e, em alguns casos, com o uso combinado de garrafas de oxigênio. Já o tratamento é feito com o uso de oxigênio terapêutico, bem como tratamento dos sintomas.

No Monte Everest, por exemplo, é frequente o uso de garrafas de oxigênio, devido à condição do ar rarefeito pela altitude do lugar. Como o ar é menos concentrado, toda a sua composição é menos concentrada, diminuindo a quantidade de oxigênio nele. Como sugestão para entender alguns dos efeitos que a falta de oxigênio gera no organismo, deixo como sugestão o livro "Deixado para morrer", de Beck Weathers, ou o filme "Everest", que contam a história do desastre de 1996 onde 19 pessoas morreram ao tentar alcançar o cume. Há uma série de fatores climáticos que levam à tragédia, mas em muitas partes são descritos de forma precisa inúmeros efeitos do Mal das Montanhas. Vale lembrar que o Mal das Montanhas não acontece apenas em altitudes extremas, ele começa a se manifestar em zonas a partir de 2400m em alguns indivíduos que vivem ao nível do mar. 

 

Ainda sobre a pressão atmosférica, como ela não tem um valor constante, temos zonas de baixa e alta pressão e associadas a cada uma destas zonas, temos comportamentos climáticos específicos:

  • Zona de baixa pressão: cria um movimento de ar que age de fora para dentro, acumulando umidade e calor no centro desta região, ou seja, favorece o surgimento de nuvens, chuvas moderadas e tempestades.
  • Zona de alta pressão: age de dentro pra fora, retirando o acúmulo de umidade e calor do centro da região, deixa o ar mais seco e dificultando a formação de nuvens de chuva.

O barômetro é um instrumento simples e indispensável que serve para medir a pressão atmosférica. A atmosfera padrão internacional tem como referência o valor 1013,25Pa (pascal) como o ideal para a pressão. No âmbito do montanhismo, acompanhar a variação da pressão atmosférica é importantíssimo para não ser supreendido pelo surgimento de fenômenos climáticos. Observar a queda da pressão, por exemplo, é um indicativo de retenção de umidade, surgimento de nuvens e chuva, por exemplo. 

 

A respeito de Calor e Temperatura:

Temperatura é o estado de aquecimento de um corpo, enquanto o calor é a energia transmitida devido à diferença de temperatura entre corpos. Em ambiente de montanha, por mais agradavél que esteja a temperatura no nível do mar, é extremamente necessário levar consigo equipamentos suficientes para garantir o aquecimento, visto que, em altitude, a temperatura é sempre mais baixa por conta da característica da Troposfera de cair 0,65º a cada 100m de altitude.

Porém, existe a inversão térmica gerada por fenômenos como processos orográficos (relacionados a ventos ou formação de nuvens que ficam retidas em uma região devido ao relevo montanhoso), fazendo com que zonas de maior altitude apresentem temperaturas mais elevadas que lugares mais baixos, geralmente ocorre em locais próximos a vales, por exemplo.

 

Também é preciso entender que vento é o resultado do deslocamento de uma massa de ar de um ponto a outro na superfície da Terra, ou, de modo mais simples, um fluxo horizontal de ar. Flui da alta para a baixa pressão. 

Vamos falar de dois termos:

  • Barlavento: o lado onde sopra o vento
  • Sotavento: o lado oposto onde sopra o vento

Em termos de montanha, imaginando-a como um obstáculo, quando o vento está indo em direção a ela, vamos dizer que está a barlavento, sendo levado a 'subir' e condensar, causando chuva. Um bom exemplo para entender o barlavento é um fenômeno frequente na Serra da Mantiqueira, que é a retenção de nuvens e nevoeiro (umidade) em vales. Geralmente tal fenômeno precede chuva. 

 

Passando o obstáculo, e logo após perder sua umidade, o ar desce e aquece a sotavento.


Além disso, também é interessante saber a respeito da Força de Coriolis, que é o movimento do ar decorrente da rotação da Terra. Essa força é nula na linha do Equador, e faz com que os ventos que sopram dos pólos se desloquem para a esquerda no hemisfério Sul e para a direita no hemisfério Norte.

 

Conhecer e compreender cada um dos elementos climáticos comentados, além de sua combinação a fatores geográficos é que leva ao entendimento da tendência dos fenômenos meteorológicos como frentes quentes e frias, formação de nuvens, nevoeiro, formação de gelo, entre outros. Tais fenômenos serão descritos nas partes 2 e 3, como continuação desta matéria.

 

Todo o conhecimento apresentado aqui foi amplamente estudado durante os cursos teóricos e práticos de Meteorologia e Sobrevivência na Selva, ministrados para turma 634 de Comissários de Bordo da Escola de Aviação Civil Fly Training Center.

A foto de capa é do Samuel Oscar, e o vídeo foi gravação minha mesmo, ambos feitos no Pico dos Marins, cujo relato pode ser acessado clicando aqui.

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Renan Cavichi
Renan Cavichi 10/26/2020 10:06

Excelente Danielle! Habilidade fundamental para todo praticante de atividade outdoor, obrigado por compartilhar... acompanhando aqui a sequência de matérias.

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 10/26/2020 16:27

Matéria extremamente relevante para o planejamento e a tomada de decisões em atividades outdoor.

Danielle Guimarães Hepner
Danielle Guimarães Hepner 10/26/2020 20:46

Obrigada meninos! Feliz por poder contribuir de alguma forma! Essa semana ainda libero a parte 2! (:

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Danielle Guimarães Hepner

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típica nerd! professora de matemática apaixonada por montanhas, viagens e ukulele.

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