AventureBoxExplore
Create your account
ONÇA PRETA :  Um encontro inesperado na Serra da Canastra -

ONÇA PRETA : Um encontro inesperado na Serra da Canastra -

Numa travessia alucinante, pai e filha frente à frente com a PANTHERA ONÇA.

Trekking Waterfall Mountaineering

..........“Na vida, as coisas parecem acontecer no seu devido tempo. Tinha que ser ali, naquele lugar, justamente quando nada esperávamos, justamente quando a história já parecia ter sido encerada. O momento era para ser aquele, um fim glorioso para uma jornada perfeita e o destino escolheu que estivéssemos juntos, pai e filha numa viagem que beirou a perfeição, numa travessia selvagem que transcendeu qualquer expectativa. De cima daquela colina, com os olhos voltados para o vale mais abaixo, era difícil acreditar no que víamos, na verdade, procurávamos soluções para desacreditar nossos cérebros, como a tentar enganá-lo, como a lhe dizer que aquilo não estava acontecendo. Num primeiro momento a gente nega, nega para nós mesmos, porque é da nossa natureza desacreditar no INACREDITÁVEL, porque simplesmente a gente tende a duvidar de tamanha sorte, nem sei se merecíamos tanto”................

Apesar do dia já estar se aproximando do seu fim, às 17 horas, o sol ainda reinava soberano, sem nenhuma nuvem no céu. Por isso mesmo, por causa do calor intenso e o fato de estarmos expostos sem um palmo de sombra para nos aliviar o calor, eu e a Julia caminhávamos a passos lentos e modorrentos, com todo cuidado para não despencar da parede que tínhamos que descer para atingir mais um vale, o derradeiro antes de nos enfiarmos na última crista de volta para a civilização. Eu ia à frente, olhos grudados no chão, mãos firmes nas rochas laterais, enquanto eu ia tentando me livrar de mais uma canaleta de pedra. Levantei a cabeça e sem pretensão, fixei os olhos no grande gramado no fundo do vale, cerca de uns 100 metros de distância de onde estávamos, minha cabeça girou, me segurei sobre as pernas, a voz embargou.

Os olhos enxergaram, mas o cérebro se recusou a processar a informação, ficou bugado, procurando no arquivo, respostas convincentes para a imagem que se apresentou à minha frente: O objeto da minha alucinação se movia grandiosamente pelo vale e eu não conseguia acreditar e só fiz tentar procurar me iludir, achar explicações onde não havia. Não sei porque, associei a imagem há alguns animais da Canastra, seria um lobo guará? Um tamanduá bandeira? Uma raposa do campo? Mas......, minha Nossa Senhora, não era nada daquilo, quem eu estava tentando enganar, aquilo tinha nome, mesmo que eu não acreditasse no que estava vendo, era real, era mais do que real, era um sonho que levou 25 anos para se realizar. Mas tinha que compartilhar, mais alguém teria que me dizer que eu não estava vendo coisas e por sorte não havia ninguém do qual eu teria mais prazer em fazer isso.

-JULIA, minha filha, olha lá embaixo no vale.

Ela levantou a cabeça, os olhos se abriram, as pupilas se dilataram, a testa se enrugou, os dentes saltaram para fora, o rosto jovial parecia ter ganhado uma luz própria e se iluminou.

- Meu Deus do céu, pai, é um ONÇA. É uma ONÇA PRETA, pai!

Nós acompanhamos o caminhar do DEUS NEGRO, primeiro mansamente, depois, subitamente ela correu, rapidamente, velozmente, como um grande gato, desfilou diante de nós, que assistíamos a cena em silêncio, estupefatos, sem dizer uma palavra, apenas deslocando nossas cabeças, não havia nada a dizer. Pai e filha se deram conta do momento único que estavam vivento e muito provavelmente nunca mais em suas vidas terão a oportunidade de vivenciarem tal espetáculo, aquele acontecimento que se tem uma vez só em toda uma vida.

A ONÇA PRETA deixou a cena, deixou o palco e entrou na floresta de fundo de vale, desapareceu do mesmo jeito que surgiu. Eu e minha filha nos olhamos, um de frente para o outro, com olhos radiantes de felicidade, sem acreditar na sorte que se apresentou à nossa frente e ficamos ali, por um tempo, esperando a ficha cair.

Essa cena antológica não durou mais que meio minuto, uma eternidade para o tamanho do prazer que ela nos causou, mesmo assim, não foi suficiente para que pudéssemos tirar uma mísera foto, não houve tempo e nem vontade para olhar a vida por de trás de uma câmera, mas ficou a cena na memória, para a vida toda.

Passado a euforia, nos lembramos que tínhamos que apressar o passo para não chegarmos à noite no local de acampar, mas a julia deu uma recuada, queria saber se não teríamos problema em um possível cruzamento com a ONÇA no fundo do vale. Mesmo ressabiada, teve que confiar em mim, que garantiria sua integridade, mesmo eu não tendo essa certeza toda, coragem não me faltava. Fomos descendo a parede, nos deslocando para a direita, de olho na trilha que corria de oeste para leste.

( foto net)

OBS : Essa história e esse encontro , faz parte de uma travessia selvagem pela Canastra, mas como ainda é uma área não aberta à visitação, o Parque Nacional solicitou que eu retirasse o relato original, pelo menos até que as coisas se regularize, então por hora, resolvi excluir e deixar só o episódio desse encontro, sem citar o local.

Divanei Goes de Paula

Divanei Goes de Paula

Sumaré - SP

Rox
1652

Vinte e Cinco anos me dedicando às grandes trilhas e travessias pelo Brasil e por alguns países da América do Sul .

Adventures Map

2 Posts


396 Following