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SUBIDA AO PICO DO MARUMBÍ - PR

SUBIDA AO PICO DO MARUMBÍ - PR

Até onde vai o sofrimento humano nas montanhas? Até onde vale a pena enfrentar tempo ruim atrás de uma conquista?

Mountaineering Hiking

Fico totalmente surpreso com o que encontrei. Na minha imaginação o Marumbi seria um lugar cheio de casas, com pequenos bares e área de camping. Mas não, o lugar é totalmente simples, pacato, bucólico. O único camping pertence ao parque e, pasmem, gratuito, com chuveiro de água quente e tudo. Um ótimo gramado, tudo bem organizado, nem parece Parque Estadual.

Monto a minha barraca e enquanto minha janta cozinha, vou tomar um banho quentinho. O local está vazio,existe somente mais duas barraquinhas montadas por aqui e só na boca da noite uma galera, vindo de São Paulo, veio se juntar a nós . O Marumbi está totalmente encoberto pelas nuvens e ficamos torcendo para que o tempo melhore no outro dia para podermos escala-lo. Janto muito bem e as sete da noite me recolho para dentro do meu saco de dormir, afinal de contas foi um dia cansativo.

O dia amanhece encoberto, mas aos poucos as nuvens começam a se dissipar, empurradas pelo vento. O Marumbi aparece. Meu deus, como é gigante!!! Conheço uma centena de montanhas no Brasil e com certeza o Marumbi foi o que mais me impressionou. A visão da Torre dos Sinos por entre as nuvens é de assombrar. Eu sempre achei a visão do Dedo de Deus, na Serra dos Orgão-RJ, a mais incrível do Brasil, mas o Marumbí é espetacular. Olhando de baixo parece ser impossível chegar ao topo apenas caminhando. Não há foto que descreva a monstruosidade desta montanha hipnotizante.

Aproveito a companhia da galera gente boa de Sampa e sigo até a sede do parque para fazer o cadastro da subida. A nossa intenção é subir pela trilha Frontal (fitas brancas) e descer pela Noroeste (fitas vermelhas). A trilha Frontal nos levará direto para o topo do Marumbí, conhecido como Olimpo. Saindo ao lado da sede ,fomos seguindo as fitas brancas. No começo a trilha tem pouca subidas e vai se enfiando mata a dentro até chegar à Cachoeira dos Marumbinistas , onde paramos para um gole de água fresca. Atravessamos o riacho e começamos a subir sem dó.

O nosso grupo é formado além de mim, por mais 8 pessoas, sendo dois meninos de pouco mais de dez anos, dois nativos parentes dos outros quatro paulistanos.

Narrar a subida até o topo do Monte Olimpo é ser repetitivo o tempo todo. Praticamente não há trilha, é só escalada. É um tal de segura em árvore, segura em raiz, trepa em pedra, agarra em barranco, até que umas duas horas depois, finalmente chegamos a uma grande parede vertical, onde descendo a esquerda se pode conseguir um pouco de água. Os garotos iam a frente firmes e fortes, sempre seguidos de perto por mim e pelos nativos, que sempre lhe davam segurança. Os meninos fizeram bonito, escalavam feito gente grande e se divertiam muito, mas esta montanha não é brincadeira de criança não, muito provavelmente seja a montanha de maior inclinação de todo o Brasil. Em nenhum outro lugar encontraremos tantas proteções artificiais colocada em uma só montanha. São grampos , cordas , correntes, pinos, etc... O pessoal fez um trabalho realmente fantástico por aqui e sem o trabalho destes bravos montanhistas ninguém chegaria ao topo sem o uso equipamentos de escalada.

Chegando, portanto a parede vertical, começa a subida das correntes e grampos. Quem tem medo de altura terá que voltar. O bicho pega de vez e todo cuidado é pouco, um descuido pode ser fatal. A garotada dispara na frente, doidas para atingir o Olimpo. Mas o tempo está fechado e eu não me animo muito e vou subindo aos poucos. Minhas pernas já estão em frangalhos devido à caminhada do dia anterior.

Pouco tempo depois ouço o grito frenético da garotada, finalmente chegaram ao topo!! A chuva começa a cair quando chego na bifurcação e ao encontro da trilha frontal com a trilha noroeste. Pego para a direita , passo por uma grande fenda e ao meio dia e meia, atinjo o topo dos 1.539 m do Monte Olimpo.

Faz um frio desgraçado, chove pra valer e infelizmente não consegui enxergar um palmo à frente do nariz. Eu poderia estar super decepcionado, mas quase duas décadas de montanhismo fez com que eu me acostumasse com isso. É um estímulo para voltar outra vez. No topo há um livro de cume e para não fazer concorrência a inúmeras mensagens religiosas, escrevo um palavrão blasfemando contra a montanha que não me deixou ver coisa alguma. Tiro algumas fotos do nada e começo a descida. Volto à bifurcação e envez de voltar pela frontal, prefiro descer pela noroeste, seguindo agora as fitas vermelhas. Aperto o passo e encontro novamente a galera e os garotos. Seguimos em nível por um tempo, mas logo começa desgraçadamente a descer. A garotada murchou com a chuva e o frio, parecem agora criançinhas de colo, precisam de ajuda para tudo. Na verdade nós todos estamos fragilizados com o mau tempo que nos açoita sem dó nem piedade. Há lugares tão íngremes pra descer que às vezes somos obrigados a abrir mão da corda que levamos. Tudo parece liso e perigoso com a chuvarada. Os músculos não respondem como antes. Vamos cruzando por penhascos e paredões arrepiantes, até chegarmos a uma espécie de caverna, um monte de blocos empilhados parecendo formar uma grande passagem para outro mundo.

Segurando nas perigosas correntes, atravessamos o grande portal para descobrir que o mundo do outro lado era o mesmo mundo frio, gelado, molhado e perigoso de antes. Pelo que ouvi falar, havíamos chegado ao tal Desfiladeiro das Lágrimas. A minha vontade era mesmo de chorar. Fiquei parado no meio de umas correntes gigantescas, com um abismo liso embaixo dos meus pés. Naquele momento achei que já estava velho pra aquilo. Eu estava realmente sofrendo com tanto frio, mas quando olho pra trás e vejo os outros companheiros, alguns com a metade da minha idade, com um sofrimento ainda maior que o meu, sigo enfrente decidido a não me entregar, pensando somente no banho quente e na comida, idem.

Vou pulando de pedra em pedra, de galho em galho,de corrente em corrente, de grampo em grampo, escorregando montanha abaixo, caindo, levantando, tropeçando, xingando, amaldiçoando, até que às cinco da tarde chego cambaleando no acampamento. Jogo a mochila no chão, tiro a minha roupa e me jogo pra debaixo do chuveiro de águas super quentes.

Meia hora depois começa a chegar o resto do pessoal. São uns fiapos de gente, como eu, também foram trucidados pelo mau tempo da montanha. Arrastaram-se até o acampamento e chegaram em segurança, inclusive os garotinhos.

Banho tomado, fui preparar a janta. Grão de bico, macarrão instantâneo com pedaços de queijo defumado e suco de graviola e de sobremesa, geléia de mocotó. Comi até não agüentar mais andar. Estendi o saco de dormir, entrei dentro e apaguei.

Lá pelas duas da madrugada acordo com o barulho ensurdecedor do trem de carga que vem descendo a serra. O estrondo é tão forte e tão alto que parece que o mundo está acabando. Só percebo que o apocalipse não chegou porque sinto um frio de doer e que eu saiba o inferno é bem quentinho. Lá fora a chuva não dá trégua e dentro da minha barraca tem um palmo de água. Estou molhado dos pés a cabeça. Surpreendentemente desta vez a culpa não é da barraca, mas toda minha. Montei minha casa em um buraco e agora eu estava pagando pela minha burrice. Mesmo assim não me animei em enfrentar o temporal para mudá-la de lugar , logo o sol nasceria e com ele viria um novo dia, um dia quentinho para alegrar a alma, porque as coisas ruins não durão pra sempre.

Enfim o dia amanhece não tão quente, mas não chove mais. Ponho tudo pra secar e enquanto a água do café ferve, vou desmontando a barraca. A intenção é pegar o trem das 10h30min para Morretes . Eu estava afim de ir conhecer umas das maiores atrações da região. Eu poderia caminhar umas duas horas até a vila de Porto de Cima e de lá pegar o ônibus, mas meus pés estão em carne viva. A descida do dia anterior me deixou no bagaço e a melhor solução seria mesmo o trem histórico. Seria também a oportunidade de conhecer um pedaço de um dos símbolos da engenharia ferroviária mundial, a Ferrovia Curitiba-Paranaguá, construída ainda no tempo do império.

Divanei Goes de Paula

Divanei Goes de Paula

Sumaré - SP

Rox
1746

Vinte e Cinco anos me dedicando às grandes trilhas e travessias pelo Brasil e por alguns países da América do Sul .

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