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Travessia Campos do Quiriri - PR/SC

Travessia Campos do Quiriri - PR/SC

Travessia pelos campos de altitude na divisa do Paraná com Santa Catarina.

Mountaineering Trekking

Travessia na Serra do Quiriri

Eu já havia me conformado em ter que ficar em casa e passar o feriado do dia das crianças diante da televisão e assim aumentar cada vez mais a minha burrice, vendo e ouvindo os maravilhosos programas e suas músicas estúpidas que tomam conta das TVs do Brasil, quando abri o meu e-mail e lá estava o recado do Jorge Soto : “ Véio a trip vai rolar “ . Peguei minha mochila, que já estava pronta, e “piquei a mula” pra rodoviária de Campinas e de lá embarquei para Joinvile-SC .

A verdade era uma só : Eu não conhecia nada sobre esta travessia, na verdade, nunca havia nem ouvido falar nessa tal Serra do Quiriri. E outra coisa, as pessoas com quem eu iria caminhar pela primeira vez, eu nunca tinha visto antes, conhecia apenas o Jorge, com quem trocava informações em um grupo de discussão sobre trekking e travessias, do qual fazemos parte.É de praxe, quando vamos fazer alguma trilha, nos cercamos de todas informações possíveis e não é raro passarmos até um mês nos debruçando sobre mapas e lendo vários relatos antes de partirmos para a aventura em si. Mas desta vez eu estava saindo praticamente pelado, quase zero de informação . Mesmo assim fui confiante no que poderia encontrar pela frente .

Depois de quase onze horas de viagem, o ônibus desceu a serra que divide os estados do Paraná e de Santa Catarina e mesmo antes de cruzar a fronteira, parou e me deixou enfrente ao posto de Gasolina Divisa . Era 6 horas da manhã e sem muita demora cruzei a pé pela placa e entrei de vez no estado catarinense e depois de mais uns 100 metros de caminhada eu já estava no local combinado, esperando os meus novos amigos da capital paulista chegarem, de carro .

Fiquei parado em um pequeno comércio, que fabrica e vende queijos e outras delícias comestíveis . A espera durou quase 4 horas até que eles aparecessem .Nos cumprimentamos, arrumamos as mochilas e seguimos montanha acima, Eu, o Jorge,o Ângelo,o Carlos(mamute) e a Milena, que era única garota da turma . O tempo estava meio nublado e as montanhas ainda estavam encobertas pela densa neblina

O caminho segui por mais ou menos um quilometro por uma estradinha de terra, cruza o Rio Trovoadinha e ai entra na mata fechada .O caminhar dentro da floresta é lento, a trilha as vezes some, desaparece, e se não fosse o GPS operado brilhantemente pelo Mamute, acho que não teríamos chegado em lugar algum, E mesmo com este brilhante equipamento não foram raras as vezes em que nos vimos perdidos , buscando o rabo da trilha, que por vezes insistia em dar em lugar nenhum , nos fazendo andar em circulo . As subidas eram de matar mula, árvores , raízes,troncos e tudo mais que desse,era usado como apoio para subir a trilha .Teve uma parte da trilha que era tão íngreme que pensamos que se tratava de uma cachoeira, um verdadeiro paredão de quase noventa graus . O “diabo” da subida não arrefece em tempo algum, haja perna!!!!!..Cruzamos capões de bambuzinhos,cipós,bromélias espinhudas e todo tipo de vegetação grudenta, que vai minando a energia da gente, e deixando marcas doloridas nas partes expostas . Finalmente depois de tanto sofrimento,saímos em uma área exposta, com alguns matacões, de onde conseguíamos avistar coisa alguma, pois o tempo estava ainda muito fechado e não se via um palmo a frente do nariz..Estávamos todos molhados.Não chovia muito, mas o mato encharcado se encarregava de fazer o trabalho que a chuva não havia dado conta de fazer .Pouco depois das 4 horas da tarde tropeçamos em uma gigantesca pedra, que formava uma gruta totalmente abrigada do vento e da chuva, a Toca do Mocó. O nosso cronograma previa um acampamento pouco antes da Pedra da Tartaruga, em um selado . Mas diante deste tempo extremamente ruim, decidimos encerrar nosso primeiro dia de travessia aqui mesmo. A decisão não foi unânime, o Jorge e principalmente o Mamute, queriam seguir para o selado, mas foram voto vencido e depois eles mesmo concordaram que a decisão de acampar ali, uma hora e meia antes foi a mais acertada .E eu diria mais, este local é de longe o melhor local para acampamento de toda esta travessia .Montamos nossas barracas e fomos prepara o jantar. Como estava com muita fome, me contentei com um simples macarrão instantâneo e um suco de graviola e depois complementei a refeição com um delicioso doce de perna de vaca .Todos foram dormir cedo, somente eu e o Ângelo ficamos jogando conversa fora até às 8 da noite.Choveu durante quase toda a noite, uma chuvinha fraca, mais constante.Eu dormia profundamente até ser acordado pelo barulho da galera, que alegaram ter ouvido algum animal rondando nossas barracas.Não sei o que nos visitou durante a noite, mas o bicho desta vez teve que ir dormir na casa dos parentes .

Conforme o combinado, ás 04:30 da manhã, já estávamos de pé.Desmontamos nossas barracas, tomamos café e seguimos . A trilha volta a entrar na mata e logo chega a uma grande pedra e desaparece ali .Procuramos por todos os lados mais nada encontramos . Enfiamos a cara no mato e seguimos o rumo dado pelo GPS. E tome mais cipó, bromélia , bambus,e outras tantas vegetações grudentas e espinhosas .

Durante mais este perrengue desta travessia, enquanto tentávamos nos livrar de mais este trecho tortuoso e penoso, praticamente não nos falávamos,apenas agíamos.E enquanto eu ia afastando os incômodos vegetais da frente do meu rosto, ficava imaginando o que realmente leva pessoas a largarem suas casas e se enfiarem numa quiçaça dessa, debaixo de uma chuva fria, com os pés já doloridos e a pele cortada pelos espinhos .Seríamos nós realmente uns masoquistas, com pré disposição para o sofrimento . Enquanto todos os outros mortais vão ao shopping ou ficam em casa embaixo de cobertores quentinhos, tomando chocolate quente e comendo bolinhos de chuva , vendo televisão, nós estamos aqui num mato sem cachorro, numa friaca desgraçada.E essa tal de Milena,o que esta menina faz aqui? Por que não está no cabeleireiro ou na manicure fazendo as unhas, como todas as meninas da idade dela ? Ao sairmos ,finalmente,da mata fechada e emergirmos no selado, minhas perguntas são respondidas .Estamos aqui para celebrar a vida, para sentirmos o vento no rosto,para nos livrarmos do besteirol que esta sociedade hipócrita quer nos enfiar goela abaixo,para contemplar as flores do campo,para ver os pássaros,subir as montanhas e ver um mundo sem maldade,porque ainda acreditamos que viver vale a pena,ainda acreditamos que o ser humano pode viver em paz com a natureza, porque ser humano e natureza são uma coisa só e fazem parte deste fantástico planeta, que chamamos de Terra.

Comemoramos muito depois que saímos da mata. O tempo ainda estava fechado, mas a Pedra da Divisa já começava a se mostrar, mesmo que timidamente.Seguimos por campo aberto até trombarmos com a PEDRA DA TARTARUGA-1376 m . Largamos as mochilas e escalamos até o topo. Lá encontramos um livro de cume, mas infelizmente estava todo molhado e não pudemos deixar recado algum .Tiramos algumas fotos do topo, infelizmente encoberto pela neblina.Descemos e continuamos nossa caminhada , agora por campo aberto.De vez enquanto lindas flores coloridas davam o ar de sua graça,formando lindos jardins. O tempo abre e a serra mostra todo o esplendor de sua beleza .Vales gigantescos surgem, picos aparecem, que lindo lugar!!! A euforia toma conta de todos nós, como é bom estar aqui e ter o prazer de caminhar por estas montanhas floridas e campos de altitudes a perder de vista.Cruzamos o selado entre o vale e a montanha e esse corredor nos levou direto para um campo aberto, onde tivemos a primeira visão do Pico do Quiriri, com uma gigantesca antena trambolhuda instalada em seu topo .Descemos para o imenso vale, com uma vista incrível. Cruzamos este vale muito florido por dentro de um charco, que aqui no interior de São Paulo chamamos de brejo mesmo .E aí tome subida até alcançar a próxima montanha. Chegando lá, cruzamos o selado de conexão , passamos por uma cerca de arame e iniciamos a grande e derradeira subidona até o topo do QUIRIRI 1527 m . Subimos a passos de tartaruga paraplégica, parando de minuto em minuto para tomar fôlego.

No topo desta incrível montanha, largamos nossas mochilas e desabamos de cansados. Fizemos uma pausa para o almoço e para apreciar as montanhas ao nosso redor. Descemos desta montanha utilizando uma antiga estradinha que provavelmente era usada para dar manutenção nas antenas instaladas no topo. Seguimos da direção dos lindos lagos que víamos junto a uma fazenda encravada a centenas de metros a baixo de nós, mas logo tivemos que abandonar a estrada e seguir mesmo sem trilha para outras bandas, pois havia informação da proibição de passagem pela tal fazenda .Descemos, descemos muito, até sairmos junto a uma outra trilha bem larga, quase uma estradinha, já bem perto de uma pequena cachoeira, que na verdade era o vertedouro de um lago espetacularmente lindo e um tanto sinistro, envolto em uma bruma que o deixava igual aos lagos de filmes de terror . As margens deste lago, ouvia-se os cantos dos sapos e também em suas margens, lindas flores de todas as cores, faziam a alegria dos apaixonados por fotografia . A única que teve a coragem de tomar banho em suas águas gélidas foi a Milena. Nós machos, achamos que ainda era muito cedo para tomar banho,

Abandonamos este lago selvagem a sua própria sorte e voltamos para a trilha. Cruzamos mais brejo(opss,charco) e vários pequenos rios de águas cristalinas e começamos a subida em direção ao acampamento bem no sopé do Pico do Garuva . Ao chegarmos em mais este selado logo constatamos : Que merda de lugar para acampar !!!

Fazia frio, ventava muito,tudo estava encoberto pela neblina,o piso era irregular .Alguns queriam seguir enfrente, mas a maioria resolveu ficar por ali mesmo. Tivemos que lutar bravamente contra o vento para armarmos nossas barracas . Estávamos todos exaustos, precisávamos mesmo era de comida e de uma boa noite de sono . Havíamos tido um dia longo e descansar era palavra de ordem .Ascendi o fogareiro e cozinhei arroz ,feijão semi pronto, que incrementei com calabresas e salames .Estendi meu isolante térmico,abri meu saco de dormi,entrei dentro e MORRI .

Acordamos depois das 4:30 da manha e não demorou muito para desabar uma tempestade sobre nossas cabeças .Raios explodiam nas montanhas vizinhas.Minha querida barraca não agüentou o tranco, entrou água por todos os lados e por baixo também.Minha velha companheira de dezenas de montanhas e travessias, já implora por aposentadoria. Logo ela, que enfrentou uma semana no Deserto do Atacama sem deixar passar uma gota de água sequer . Mais a vida é assim, tudo tem seu fim . Foram 50 reais bem aproveitados(rsrsrsr) .

Começa agora a subida final até o pico Garuva .O tempo não sabe se fecha ou se abre .Passamos por rios bem maiores que os anteriores . No horizonte vão surgindo outros picos espetaculares, como por exemplo,o Monte Crista como que nos acenando com um convite para outras travessias futuras .Ao chegarmos no topo do PICO GARUVA-1288 m, o tempo abre um pouquinho e nos deixa avistar os encantos da baia da Babitonga . Fiquei surpreso ao chegar ao topo do Garuva . Esperava encontrar um local cheio de lixo e restos de fogueira, um típico lugar onde as farofas fazem as festas nos fins de semana .Mas o local é limpo e bem preservado. Também pudera, 1100 metros de desnível pra subir da cidade até aqui não é pra qualquer um não.

De volta a trilha , não descemos mais que alguns metros e entramos novamente na mata, agora temos de volta a companhia da nossa amiga chuva .Meu, foi cada piramba pra descer, que me arrependi de não ter trazido meu equipamento de rapel .Tombos, foram dezenas . Escorregões, se contavam em centenas. De vez enquanto apareciam várias grutas sob enormes matacões e por vezes nossa trilha atravessava por baixo destas enormes pedras. E assim seguíamos, caindo aqui,caindo ali, até que saímos da mata, por um instante apenas, quando passamos pelo monte Jurema, de onde tivemos mais lindas vistas do Garuva(pico) e da própria cidade de Garuva .Alias, o Jurema é um outro bom ponto para se acampar.E a descida continua como começou,íngreme e escorregadia. Até que por um momento de bobeira, passamos reto pela trilha e fomos sair em uma cachoeira do Rio da Onça.O Mamute atravessou o rio a nado para investigar se a trilha seguia do outro lado, já a Milena resolveu tomar outro banho(ooo menina suja!!!.rsrsr) .Investigação feita, o Mamute viu logo que a trilha não era por ali e então voltamos uns 200 metros ou menos para localizá-la logo atrás de uma árvore caída. A trilha finalmente arrefeceu e em pouco tempo encontramos o que já foi provavelmente uma estradinha .Logo interceptamos novamente o Rio da Onça e ai sim fizemos uma longa parada para um belo banho. Trocamos as roupas molhadas por secas e antes das 14:00 horas encerramos a travessia .Cruzamos o Rio da Onça e já demos de cara com algumas casas de madeira, denunciando ser ali a periferia da cidade de Garuva,se é que uma cidade tão minúscula pode ter periferia .Seguindo, saímos na BR 376, onde vi o Mamute, destruidor de trilhas, se cagar de medo na hora de atravessar. Situação estranha para quem mora junto a uma das maiores cidades do mundo. Ele queria cruzar a rodovia por baixo, seguindo o caminho do rio, mas o Jorge pegou na mão dele e a travessia foi tranqüila (rsrsrsr) . Adentramos na “grande metrópole” de Garuva e fomos logo procurar um lugar para comer.Encontramos um pequeno restaurante com comida de boa qualidade com um preço de 10 reais por pessoa, comida a vontade . Aqui eu faço uma pausa para um conselho : Se algum dia vocês tiverem a oportunidade de sair a caminhar com o JORGE, o CARLOS (mamute) e o ANGELO, nunca, nunca mesmo, de jeito nenhum, jamais, convide-os para almoçar em suas casas depois da trilha, ou vocês correm o risco de ter o mesmo fim que teve o dono deste pequeno restaurante. Muito provavelmente o cara está falido e uma hora dessa já deve ter se mudado para uma casa de madeira sobre palafitas,” la pras banda do Rio da Onça.

Despeço-me desta galera ,que me acolheu muito bem nestes três intensos dias de travessia e aventura. Volto para casa imensamente feliz de ter-los conhecido .Na certeza de ter conhecido mais um lugar especial e espetacularmente belo e na esperança de ter agradado e principalmente de ter conseguido fazer mais quatro amigos .

DIVANEI / OUTUBRO DE 2009 .

Divanei Goes de Paula

Divanei Goes de Paula

Sumaré - SP

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1654

Vinte e Cinco anos me dedicando às grandes trilhas e travessias pelo Brasil e por alguns países da América do Sul .

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