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Jornada de formatura: 4 dias na Serra do Cipó

Jornada de formatura: 4 dias na Serra do Cipó

Para comemorar o tão sonhado fim da faculdade, embarquei em um mochilão trilheiro e tirei um tempo para ficar a sós comigo mesmo.

Assim que defendi o meu Trabalho de Conclusão de Curso em Engenharia de Produção, o caminho para pegar o diploma estava desimpedido. Entretanto, a formatura a meu ver é mais um momento de reflexão do que de comemoração. É uma transição marcante, geralmente acompanhada de frustrações e dificuldades. Troquei o baile de gala com buffet farto e parentes alcoolizados por algo que sempre quis fazer: uma viagem de mochilão, sozinho, sem um companheiro de viagem para me limitar. Seria refém apenas da minha vontade e das condições físicas. Um tempo a sós comigo mesmo.

Meu destino escolhido, após alguma pesquisa, foi o Parque Nacional da Serra do Cipó, a 100 km de Belo Horizonte. Eu sou apaixonado pelas trilhas de uma outra reserva, o Parque Estadual de Ibitipoca, então decidi conhecer um local parecido. Pesou na decisão a infraestrutura: o Parque é próximo da vila onde se concentram as pousadas, e as trilhas são bem sinalizadas (facilidades ausentes na Serra da Canastra, minha primeira opção). Itinerário definido, montei um pequeno cronograma de quatro dias, de quarta a sábado, e o orçamento, com previsão de gastar R$ 730.

O Parque está próximo do distrito de Cardeal Mota (que, entretanto, em todos os mapas aparece como Serra do Cipó). Para chegar lá peguei um ônibus saindo de Juiz de Fora 1h da manhã e desci em Belo Horizonte por volta de 5h. Esperei até 6h30 para pegar outro ônibus, este sim com destino à vila, e lá cheguei 9h. Aqui dou uma dica para quem, assim como eu, tem dificuldade em dormir na estrada: usei protetores auriculares, que custam R$ 2 nas lojas de EPI, que abafaram perfeitamente até o barulho do motor.

Fiquei hospedado na Pousada e Hostel Vila Flores, um local agradável e bem localizado, perto do centro. O café da manhã é simples, porém gostoso (com um suco de laranja viciante), e os donos são bastante simpáticos e atenciosos, sempre dispostos a darem informações ou bater um papo. Eu me senti hospedado na casa de amigos e não em um estabelecimento comercial.

A primeira atração que visitei foi a Cachoeira Grande, situada em uma área de conservação privada na chegada da vila, que cobra entrada de R$ 30,00. Caro? A princípio achei, mas lá dentro percebi como estava bem conservado, sinalizado e com uma infraestrutura adequada, inclusive com banheiros acessíveis. É, portanto, necessária a taxa de visitação para manter o local atrativo. Há várias pequenas cachoeiras, mas a principal é espetacular. Na parte de baixo, há um poço raso com água cor de caramelo, onde é possível nadar com peixes nada ariscos. Já em cima, a vegetação densa das margens emoldura o volumoso Rio Cipó, este represado pela cachoeira. Não resisti e fiz o passeio de caiaque (R$ 50), remando cerca de 1,8 km até uma pequena praia e depois voltando.

Do outro lado da vila há outra cachoeira em área particular, a Véu de Noiva. Fui andando até lá em exaustivos 5 km, mas optei por não entrar já que era fim de tarde. Mas há um caminho íngreme de 1,2 km, com calçamento arcaico do século XVIII, que leva até o alto da cachoeira, a Trilha dos Escravos. Até hoje não sei de onde tirei forças para chegar até lá em cima, mas valeu a pena pois assisti ao pôr-do-Sol de camarote.

No dia seguinte acordei cedo e aluguei uma boa bicicleta na pousada (R$ 30) para ir ao Parque. O trecho mais puxado foi só até a portaria, pois depois dela a trilha é plana em quase sua totalidade. Ocasionalmente a estrada fica muito fofa, dificultando as pedaladas. Passei por uns três riachos com águas cristalinas que me permitiram encher o cantil, mas por via das dúvidas sempre colocava uma pastilha de Clorine, que purifica 1 litro em meia hora.

Algo que a princípio pode parecer supérfluo mas me foi muito útil na trilha: um pequeno álcool em gel para higienizar as mãos antes de comer ou depois de tirar uma água do joelho. Fica a dica para os trilheiros.

Depois de pedalar por 11 km, cheguei a um riacho largo e raso, com várias pedras escorregadias ao fundo. Então tive de deixar a bicicleta presa à uma árvore e segui a pé por mais 1 km. Uma decisão sábia, pois a trilha ficou mais fechada e irregular. O destino foi o incrível Cânion das Bandeirinhas, metade água gelada e metade pedras enormes que devem ser saltadas.

Na volta, peguei um pequeno desvio de cerca de 2,5 km para a Cachoeira da Farofa. Também tive de deixar a bicicleta encostada, pois há uma pinguela difícil de ser atravessada em duas rodas. À distância já se nota a imponência da monumental queda de 100 metros que rasga a montanha, e a sensação é mantida ao chegar no poço. Eu não nadei porque o Sol das 16h não é muito eficiente em te aquecer após entrar em águas geladas. Aliás, fiquei pouco tempo ali e retomei logo o caminho.

No terceiro dia fui explorar uma parte do Parque cuja entrada é feita por outra portaria. Lá na pousada me recomendaram a não ir de bicicleta, e de fato é um conselho válido: em quase toda a extensão a trilha é fechada, irregular e em terreno mais acidentado. Logo no início do percurso há um mirante com uma bela vista, e mais à frente uma pequena praia que costuma ser o ponto preferencial das famílias que visitam o Parque.

O caminho desta trilha é certamente o mais bonito, percorrendo um vale mais fechado e margeando um calmo riacho. Me sentia na Terra Média, em Westeros ou em Nárnia. A primeira cachoeira que visitei foi a das Andorinhas, e tive que saltar várias pedras e poças para conseguir me aproximar dela. É uma bela queda, mas o esforço não compensou tanto assim.

Já a parada seguinte, a Cachoeira dos Gaviões, é espetacular: uma água cristalina e esverdeada, que refletia lindamente os raios solares. Demorei um longo tempo ali, apreciando tal preciosidade. Havia a opção de continuar a trilha por mais alguns quilômetros, até a Cachoeira do Tombador, mas depois de dias de caminhada o cansaço estava chegando mais rapidamente, então encerrei por ali mesmo e voltei para a pousada.

Havia outras atrações na Serra do Cipó para conhecer, como a Cachoeira Serra Morena, mas distantes da vila, o que dificultava para quem estava sem carro como eu. Então encerrei no sábado de manhã minha visita ao distrito e peguei um ônibus para Belo Horizonte, chegando na capital às 13h. Deixei minha pesada mochila em um guarda-volumes da rodoviária (R$ 12) e saí andando até a Praça da Liberdade.

Eu nunca havia ficado tanto tempo em BH assim, então pude conhecer mais sua parte central e tive uma primeira impressão mediana. Como é uma cidade planejada seguindo a urbanização europeia dos anos 1890, há belos prédios em estilo eclético e largas avenidas arborizadas. Mas também achei a cidade suja e caótica em alguns pontos. Este é, creio eu, um dos problemas das cidades planejadas: elas quase nunca seguem o que seus idealizadores quiseram.

A Praça da Liberdade é um exemplo: pensada para ser o centro administrativo do Estado e ponto de encontro da alta sociedade mineira, lembra um parque parisiense. Entretanto quando eu lá cheguei estava acontecendo um “encontrão LGBT” (como me explicou um rapaz que queria me pegar), e que certamente deixaria os idealizadores da praça chocados. Polêmicas à parte, o jardim e seu entorno possuem uma arquitetura deslumbrante, e tive a sorte de visitá-la na época em que os ipês-roxos estavam em seu esplendor.

Primeiro visitei o Museu de Mineração Gerdau, com três andares de exposições interativas. A galeria de pedras, minerais, gemas, cristais e até meteoritos é fascinante, sendo onde eu mais me demorei. Porém o resto do museu foi um pouco frustante, com hologramas e projeções que não me impressionaram.

Já o Memorial Minas Gerais Vale agrupa vários elementos culturais e geográficos mineiros. Entrei sem muitas expectativas, mas valeu a pena; as atrações eram mais interessantes e dinâmicas, contando a história de Belo Horizonte, encenando a Inconfidência Mineira, uma ‘caverna’ repleta de pinturas rupestres, entre outras. Ainda consegui visitar o Centro Cultural Banco do Brasil, cujo único atrativo para mim foi a incrível arquitetura interna (aliás, ponto comum com os outros dois museus), pois a exposição de um artista plástico alemão que estava rolando não me cativou.

Voltei a pé novamente para a rodoviária, fazendo uma parada estratégica em um McDonald’s (para experimentar a culinária local é preciso mais tempo), e peguei o ônibus de 19h para Juiz de Fora, encerrando assim minha viagem. Fiz umas contas rápidas e vi que gastei R$ 730,75 com o passeio, o que momentaneamente inflou meu ego de gestor financeiro.

“E aí”, vocês se perguntam, “valeu a pena”? Sim, e muito. Me senti muito bem realizando esta viagem, ainda mais com tudo dando certo e nenhum contratempo. Foi um bom modo de refletir sobre minha vida até aqui e certamente me ajudará a tomar as decisões que estão chegando, agora que o diploma está na mão. Espero que este seja o primeiro de muitos mochilões!

Eduardo de Paula
Eduardo de Paula

Published on 08/25/2017 21:23

Performed from 07/26/2017 to 07/29/2017

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Renan Cavichi
Renan Cavichi 08/28/2017 09:54

Lugar lindo! Ainda preciso conhecer!