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Índia, Onde o Improvável é Provável

Índia, Onde o Improvável é Provável

Curto relato de uma temporada de três meses na Índia em 1998 (fui pra lá criancinha, hehehe).

Índia, onde o improvável é provável*

Descrever a Índia não é tarefa fácil. Não existe uniformidade. Prevalecem as diferenças e os contrastes se destacam. A quantidade de pedintes na rua não ofusca a opulência dos antigos palácios dos marajás. Testes nucleares se realizam enquanto funcionários dos correios colam os selos com pasta de arroz caseira. Os picos gelados do Himalaia não estão tão distantes do calor e das areias do Deserto de Thar.

Viajei de cidade a cidade nos ônibus de fabricação indiana e em trens, alguns herdados do império britânico. Os ônibus, muito sujos e com poltronas desconfortáveis, são conduzidos velozmente pelas precárias estradas embalados por uma música indiana muito alta e que não havia jeito de fazer o motorista abaixá-la; afinal ele entretia-se com a buzina ensurdecedora. Equipamento de muita importância na desordem do tráfego, pois quando se faz uma ultrapassagem, as luzes indicadoras de direção (pisca-pisca) não são utilizadas e sim buzina-se efusivamente. No lugar do “Mantenha distância”, visto nas traseiras dos caminhões e ônibus brasileiros, lia-se: “Buzine por favor”. A buzina é acionada em média 10 a 20 vezes por quilômetro! Ainda assim, há vantagens dos ônibus em relação aos trens. Eles não ficam muito lotados e tanto partem como chegam nos horários previstos, coisa que raramente acontece com os trens, principalmente nos trajetos mais longos.

As estações ferroviárias mais parecem um lugar de penitência coletiva onde os indianos, na tentativa de melhorar seus karmas, se encontram. É preciso muita paciência para comprar um bilhete, descobrir a plataforma de embarque e esperar o trem (certa vez fiquei “plantado” na estação por mais de 15 horas!). Já acostumados, os indianos sempre trazem consigo um pedaço de pano que é estendido no meio da multidão e tentam dormir. A maneira que o governo encontrou para amenizar o problema é, no mínimo, inusitada: praticamente todas as estações mais importantes têm um hotel no andar superior.

Procurava conhecer as cidades sempre a pé, mas raramente o fazia sozinho. Sempre tinha alguém à espreita que soltava um “Hello friend, how are you? Where do you come from?”, ou ainda “Give me rupi, please!” e me perseguia. Os mais insistentes, porém, são os condutores dos rickshaws (triciclos, motorizados ou a pedal, usados como táxi). Algumas vezes é preferível alugar um desses, logo pela manhã, para se assegurar de que ninguém mais virá lhe incomodar, pois o condutor os afastará. Por outro lado surgem outros inconvenientes: chegar ao destino desejado sem se deixar persuadir pelo condutor que sempre tenta, com o objetivo de ganhar uma comissão, convencê-lo de que determinado hotel ou restaurante está fechado e que ele poderia levá-lo noutro muito melhor; ou então as paradas, não programadas, nas típicas lojas de souvenirs indianos que vendem de tudo (seda, tapetes, anéis de prata, pedras semi-preciosas, incenso, esculturas em mármore, mandalas e etc.).

Sabendo que Portugal havia mantido três enclaves coloniais em território indiano (Goa, Diu e Daman), resolvi conhecer um deles. Escolhi Diu, uma pequena ilha situada no mar de Oman e que somente deixou o protetorado português em 1967. Hoje só os mais idosos ainda falam a língua de Camões, que por sinal morou em Goa.

É muito grande a semelhança entre Diu e algumas cidades litorâneas brasileiras. A parte continental da ilha abriga um mangue bastante degradado, na parte central há somente cana-de-açúcar e praias na face oceânica. O pequeno vilarejo, situado próximo a um grande forte, apresenta o mesmo padrão arquitetônico do período colonial brasileiro, inclusive o crucifixo no alto da igreja abençoando a cidade, coisa rara por lá.

Viajei durante os meses de maio, junho e julho, período pré-monções ao norte do subcontinente indiano. O calor nesta época do ano é muito forte e revela outros costumes: à noite, em Bombaim, milhares de pessoas dormem ao relento; os taxistas transformam seus velhos táxis em moradias; os camelôs fazem do seu ganha pão também suas camas; outros, simplesmente se deitam nas calçadas inacabadas. É claro que as altas temperaturas não são suficientes para justificar a transformação das ruas da maior cidade indiana em dormitórios, mas graças à elas a exigência de infra-estruturas dispendiosas como àquelas dos países frios não são necessárias.

Já em Varanasi, famílias inteiras fogem do calor abafado dos quartos estendendo panos sobre as lajes das casas. Ali passam a noite, sendo obrigados a acordar com a aurora pois o calor torna-se insuportável. Buscam o frescor, num ritual matinal, nas sagradas porém poluídas águas do rio Ganges, o mesmo em que são lançados os corpos cremados dos hindus.

Nas ruas, os camelôs oferecem muito mais que legumes, frutas, roupas e bugigangas. Uma vasta rede de serviços está aos nossos pés, literalmente. São dentistas, sapateiros, mecânicos, limpadores de ouvidos e alfaiates, entre outros, sentados no chão e manipulando habilidosamente parcos e toscos instrumentos. A sombra de uma árvore se mostra um lugar ideal para se montar uma oficina, um escritório ou até mesmo um consultório.

Deixei a Índia em agosto e a vontade de voltar aumenta a cada lembrança de que lá, paradoxalmente, o que inebria os sentidos cativa os sentimentos.

* Artigo publicado no jornal “Mundo – Geografia e Política Internacional”

Eduardo Campos
Eduardo Campos

Published on 10/25/2016 01:50

Performed from 05/25/1998 to 08/05/1998

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