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O Desenvolvimento Sustentável dos Ameríndios Equatorianos

O Desenvolvimento Sustentável dos Ameríndios Equatorianos

Narrativa sobre algumas formas de exploração comercial praticada por indígenas equatorianos observados numa viagem em julho de 1999.

Desenvolvimento sustentado não é só teoria para os Ameríndios

País de modestas dimensões (pouco maior que o Estado de São Paulo), o Equador guarda em seu território três compartimentos paisagísticos bem distintos, a estreita costa pacífica, a Cordilheira dos Andes que criva o país de norte a sul e a floresta amazônica a oeste.

Tipicamente representante do Terceiro Mundo, tem na sua pauta de exportações principalmente o petróleo, a banana, o camarão, o cacau e o café. Vem sofrendo mais intensamente os impactos da crise mundial devido à acentuada baixa dos preços dos seus produtos no mercado mundial [lembro que o texto é de 1999].

Com pouco mais de 12 milhões de habitantes (1998), etnicamente composto por 55% de mestiços, 25% de indígenas, 10% de negros e 10% de brancos, sendo principalmente governado por esta última minoria que forma a elite equatoriana, vivencia uma série de manifestações de grupos indígenas que organizam, entre outras coisas, bloqueios de estradas que ocasionam a interrupção do sistema de transporte terrestre e exigem que seus interesses e valores sejam considerados pelas políticas governamentais, como o direito ao acesso à terra ou então pelo não aumento dos combustíveis (ato conjunto aos taxistas em julho de 1999) que consequentemente elevaria os preços dos produtos agrícolas por eles cultivados, reduzindo assim as chances de concorrência e consumo no mercado.

Cada grupo indígena do Equador tem uma identidade étnica distinta e culturas e estilos de vida bem variados devido à um complexo de influências históricas e geográficas, identificando-se mais fortemente à estas etnias do que ao Estado equatoriano. Apesar dessas diferenças, criaram associações dentre as quais destaca-se a CONAIE – Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador.

Entre os princípios da CONAIE estão: a demarcação e o retorno às antigas terras comunitárias, o reconhecimento do quíchua como língua oficial e a compensação por perdas ambientais causadas por companhias petrolíferas. Essa última solicitação mais acentuada nos últimos anos devido à descoberta e prospecção do petróleo no chamado Oriente equatoriano, dominado pelo ecossistema da floresta amazônica, e indo ao encontro das recentes teorias de desenvolvimento sustentável que visam superar os desafios sociais considerando a variável ambiental (ainda mais num país pobre e exportador de gêneros diretamente ligados à exploração do solo, como neste caso), buscando então técnicas regenerativas de exploração da floresta, mantendo assim a sua sustentabilidade.

Como alternativa à essa exploração da floresta amazônica, algumas tribos indígenas vêm realizando o chamado “turismo étnico-ecológico” no qual o turista tem a oportunidade de se hospedar por alguns dias numa típica aldeia no meio da floresta e vivenciar o dia-a-dia desta aldeia e sua relação com a natureza. Sabendo do risco de terem seus hábitos profundamente alterados por essa atividade, os integrantes da aldeia sempre praticam o dialeto quíchua entre eles, reforçam suas tradições ensinado-as às crianças diariamente na escola mantida pela comunidade e praticam constantemente suas atividades culturais como danças, rituais e cerimônias, muitas vezes regionalmente, integrando as demais aldeias vizinhas pertencentes à mesma etnia num só evento.

O maior grupo indígena (mais de 2 milhões) é o Quíchua das Montanhas, que vive nas vertentes e altiplanos da Cordilheira dos Andes, sendo os otavalenhos (habitantes da cidade de Otavalo) os mais conhecidos do grupo. Destacam-se por seu artesanato mundialmente famoso e sua elevada organização política que os levaram a ser reconhecidos como uma das mais prósperas e respeitadas comunidades indígenas da América Latina. As cerâmicas, tapetes e roupas otavalenhas são vendidas internacionalmente e a cidade recebe muitos turistas todos os dias, principalmente aos sábados, quando acontece uma grande feira numa praça pública.

É comum em Otavalo muitos indígenas serem líderes comunitários, advogados, médicos e políticos, ou então vê-los conduzindo modernas camionetas importadas carregadas com seus artesanatos, porém vestindo suas tradicionais roupas e mantendo suas tradições seculares que remontam ao Império Inca, conscientes que a prosperidade do seu povo está muito associada à preservação de seus modos de vida e do meio ambiente que lhes fornece grande parte da matéria-prima.

Muitas críticas à essa adaptação ao capitalismo pela qual as comunidades tradicionais vêm sofrendo nas últimas décadas são feitas por aqueles que defendem o resgate e solidificação das tradições primeiras dessas comunidades garantindo-lhes assim condições de vida muito semelhantes àquelas mantidas antes da chegada do colonizador branco, talvez por receio que percam sua cultura ou até mesmo devido ao imaginário ocidental que associa o indígena à natureza e o vê como o “bom selvagem” que poderá ser maculado pela sociedade dos brancos. Esquecem que esses mesmos indígenas foram muito mais intensamente explorados pelo capital na época colonial e pós-independência do que hoje e nem por isso abandonaram suas principais tradições.

A sustentabilidade econômica, a participação da comunidade e a consideração ao meio ambiente são, entre outros, fundamentais para o êxito de qualquer projeto de desenvolvimento sustentado, pondo fim ao reducionismo do ecologismo intransigente e do economicismo de visão estreita que transformam o meio ambiente num santuário intocável ou então num mero fornecedor de recursos naturais.

Eduardo Campos
Eduardo Campos

Published on 10/25/2016 02:36

Performed from 07/01/1999 to 07/30/1999

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