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Pico do Frade - Via Bananal

Pico do Frade - Via Bananal

Trilha feita em 2 dias, via Bananal com o grupo de amigos Calo no pé!

Trekking Camping

Experiências ao subir o Pico da Neblina – Yaripo, a montanha mais alta do Brasil


Em dezembro fui convidada por meu querido amigo Magno da Roraima Adventure para
participar de uma expedição experimental para o Pico da Neblina. Apesar de estar
passando por um momento delicado – há seis meses não fazia trilhas longas, devido ao
falecimento de meu sócio –, agi no impulso e aceitei. A proposta era irrecusável: o pico,
há anos, fechado sem acesso à visitação, abria-se em oportunidade muito especial.


O Projeto se chama Yaripo “Montanha dos Ventos”, nome pelo qual a montanha é
conhecida pelos yanomamis, guardiões do local.


Saindo de São Paulo, o primeiro destino é Manaus, depois São Gabriel da Cachoeira;
até São Gabriel da Cachoeira existe a opção de voo da MAP (somente 2x por semana)
ou lancha rápida (Tanaka, Lady Luiza). Fui de avião e voltei com a lancha, nem tão
rápida assim, em suas longas 24 horas de viagem.


De São Gabriel da Cachoeira são 4 horas de jipe até o igarapé Ya-mirim; neste local
embarcarmos nas canoas chamadas de “voadeiras” em direção ao Rio Ya-Grande,
descendo até o rio Cauaburis, e então subimos o Cauaburis até a foz do Igarapé
Maturaca, entrando na Comunidade indígena de Maturaca. Este percurso deveria ser de
aproximadamente 7 horas, porém como o rio estava bem baixo levamos cerca de 14,
distribuídas em dois dias, entremeados por um acampamento na selva.


No belíssimo caminho, é possível ver vários pássaros: garças, mutuns, tucanos, araras,
jacutingas desfilam entre as margens do rio em toda a exuberância da Floreta
Amazônica. O verde só é interrompido, quando se passa por alguns vilarejos
ribeirinhos. Porém, a voadeira não é nada confortável e, diante de um período de seca, o
sol estava extremamente forte e nos castigou durante todo o percurso.


Na chegada fomos recebidos pelas autoridades yanomami, com sua pintura corporal,
ornamentos bélicos e votos de boas-vindas em sua própria língua.
Para mim, ter a oportunidade de convivência com o povo yanomami foi única. Subir o
pico da Neblina não se resumiu a mais uma trilha para constar no currículo, mas, ao
contrário, a estar próxima a um dos povos mais antigos do planeta e poder experimentar
sua cultura, escutar suas histórias. Ponto alto foi a chance de presenciar uma de suas
cerimônias espirituais, na qual se fez uso do “paricá”, parecido com a ayahuasca, mais
famoso no Sudeste. Foi como estar imersa em outro mundo por uma breve
temporalidade.


O parque foi reaberto com o intuito de trazer renda à comunidade, então nesta
expedição os indígenas são nossos guias e cozinheiros, assessorados pelas operadoras
credenciadas, de modo que não é possível fazer esta travessia de forma autônoma.

Fizemos o trekking em oito dias. A trilha é mais fácil do que imaginei, apesar de não ser
tão íngreme, o aclive se acentua progressivamente; próximo ao cume existem passagens
por cordas, correntes e via ferrata. Há ainda um difícil trecho de brejo no caminho do
aclive.
A caminhada lembra muito a Mata Atlântica, de maneira que se assemelha também às
montanhas do Paraná (Pico do Paraná, Marumbi e outros), mas um pouco mais úmida.
A diferença flagrante fica por conta das árvores altíssimas e imponentes; senti-me
caminhando em um cenário de conto de fábulas; posso garantir que todos os mundos
encantados dos contos realmente existem e se eu ainda não os conheci é porque ainda
não viajei o suficiente.


Devido à umidade excessiva e ao calor intenso do início, existe um desconforto
considerável. Fiquei molhada todos os dias do trekking, começamos com uma sensação
térmica de uns 36 graus, mas próximo ao cume a temperatura chega à casa dos 10 graus.
Afora as intempéries climáticas, há a companhia constante de enxames de mosquitos;
para piorar, havia surto de malária na aldeia. De resto, as dificuldades são as
costumeiras das travessias em território nacional, como a Transmantiqueira, exigindo o
mesmo cuidado e preparo com o condicionamento físico.


Acredito que nós mulheres, apesar de termos menos força física, temos facilidade de
nos adaptar à diversidade e ao desconforto, já estamos habituadas a isto, então não tive
grandes problemas. Entretanto, quase todos participantes, inclusive os indígenas,
sentiram algum tipo de problema nesta expedição, como por exemplo, disenteria ou
desidratação. Fui poupada e não senti absolutamente nada.


O nosso cronograma foi o este:

1º dia de trilha – Saímos de Maturacá e subimos o rio Cauaburis por aproximadamente
6 horas (este tempo foi maior que o previsto devido à baixa no nível das águas do rio).
Chegamos ao igarapé Irokae, onde se inicia a trilha a 150 m de altitude. Estava previsto
para dormimos no acampamento Irokae, mas acampamos no Inga, andamos somente 2
horas, a trilha é fácil, apesar de muito quente. Em todos os acampamentos dormimos em
rede. A estrutura é montada pelos indígenas, com agilidade hipnótica ao armarem as
tendas com cipós.


2º dia de trilha – Acampamento Ingá a Bebedouro Novo – São 8 horas de caminhada
aproximadamente, cerca de 17 km. Chegamos a 860 m de altitude. Este é dos dias mais
difíceis, devido ao calor extremo, cheguei desidratada, mesmo com a ingestão de 4 litros
de água. Nosso guia oficial Edivaldo ficou mal e teve de ser substituído por Renê, ao
menos até nosso retorno para Bebedouro Novo. Neste acampamento existe um
maravilhoso banho de cachoeira e o lindo visual do Rio Cuiabixi.


3º dia – Acampamento Bebedouro Novo ao Acampamento Laje – à 1619 m de altitude,
a temperatura é bem mais agradável. Foram 5,5 km de caminhada, neste trecho
encontramos com porcos do mato. Respeitosamente, o guia sugeriu que esperássemos
até que o bando se espalhasse, pois pode se tornar agressivo. Foram os únicos animais
que cruzaram nossos caminhos, além dos pássaros sempre presentes, e uma singela
cobra. Os animais se escondem diante da presença humana.


4º dia – Acampamento Laje até o Acampamento Areal – base do Cume – 2022 m de
altitude, 4,4 km, andamos por 5 horas, a trilha é bastante alagada o que dificulta sairmos
do lugar, mas junto à área de pântano existe uma infinidades de flores. Fiquei tão
maravilhada com aquele jardim pantanoso que acabei gostando da experiência de
afundar nas poças. A mata já fica bem mais baixa, acompanhando o movimento da
altitude.


5º dia (sexta-feira 14/02/2020) – Cume do Yaripo – Pico da Neblina – altitude 2.994m.
O dia mais esperado da expedição, inicia-se com uma área alagada, depois vias ferratas,
cordas, correntes e o último trecho é composto por uma escalaminhada. É claro, que
para nossa sorte, quando chegamos, o cume estava completamente nublado, justificando
seu nome em português. Mas acho que prefiro, Yaripo – montanha dos ventos. O cume
fez a felicidade de todos, inclusive de nossos guias yanomamis.


6º dia – Acampamento Areal até o Acampamento Bebedouro Novo – Fomos
recepcionados por nosso guia Edvaldo e a noite no jantar eles nos presentearam com
várias historias e fecharam com cantos yanomamis. Estar na selva, no meio da floresta,
dormindo em redes e embalados por um canto dos guardiões da floresta é uma
experiência rara. Sou muito grata por poder vivenciar este momento. São experiências
como essa que me motivam a viajar cada vez mais. Não quero acumular nada além de
lembranças que guardarei para sempre em minha memória.


7º dia – Acampamento Bebedouro Novo ao Acampamento Inga.


8º dia Acampamento Inga à Comunidade de Maturacá
Posso dizer foi que esta expedição muito especial, desde a minha chegada, de onde
visualizei um enorme tapete verde de tonalidades diferentes, à minha estadia em São
Gabriel e todas as pessoas maravilhosas que lá conheci. Ressalto com especial carinho
minha interação com os yanomamis, ter podido participar do Projeto Yaripo e chegar ao
cume da montanha mais alta do Brasil.

Desejo todo o sucesso ao povo Yanomami neste projeto de reabertura do parque e que
tenhamos algo para partilhar com eles, assim como partilharam tanto conosco. Em
tempos como esses, é o caso de reafirmar que sua cultura faz parte do Brasil, sendo uma
das nossas maiores riquezas; vale muito mais que qualquer pedra preciosa ou ouro que a
floresta possa nos dar.

por Claudia Bento @claudiabento • ElasOutdoorSP

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Published on 05/31/2020 00:50

Performed from 03/14/2020 to 03/15/2020

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Ana Retore
Ana Retore 05/31/2020 10:06

Muito legal! Parabéns pelo relato e pela aventura, já estou seguindo vocês 🤘🏻

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