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Ceará em Duas Rodas

Ceará em Duas Rodas

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Sim, sei que o relato é longo. Mas este particularmente mudou a minha maneira de encarar a vida e mais uma vez, as fotos tiradas do fundo do baú e do tempo do filme de rolo, servem para dar apenas uma idéia das paisagens neste ano de muitos tanques de gasolina, praias e vento pelo litoral do Ceará.

Bariloche, norte da Patagônia, um dos lugares mais incríveis e bonitos que já conheci. Da janela de casa, às margens do lago Nahuel Huapi, via do outro lado do lago a Cordilheira dos Andes, o limite natural entre Argentina e Chile.

Foram anos de trabalho pesado no rafting e apesar dos amigos e de todo este visual buscava-se um novo destino e nada melhor do que o calor de uma viagem em moto pelo nordeste brasileiro. O objetivo era percorrer todo o litoral do Ceará em busca de novos ares e horizontes.

Refeitos alguns contatos o ponto de partida seria a Praia de Iracema em Fortaleza. Um lugar famoso pela diversidade da vida noturna misturando a aldeia de pescadores com um clima de metrópole e estruturas de 1° mundo. O "pouso" foi na casa da amiga de uma amiga, a duas quadras da "Ponte dos Ingleses". Diga-se de passagem fomos muito bem recebidos por amigos que levamos até hoje em nossos pensamentos e orações.

Com toda experiência em viagens e aventuras, uma coisa era certa: tudo deveria caber dentro das mochilas cargueiras. Porém, apesar desta precariedade obrigatória, uma ferramenta fundamental nesta nova empreitada seria uma TÉNÉRÉ 600 cilindradas. Sim uma motocicleta grande, confiável e própria para este tipo de aventura.

A máquina foi por transportadora direto a Fortaleza, a esperei por 10 dias e depois de 9 meses já tínhamos rodado com ela mais da metade do litoral do Ceará. De Majorlândia a Lagoinha passando por todas as praias possíveis e impossíveis, pois algumas tinham acesso apenas pela areia. Mas faltava um último desafio e talvez o mais marcante: Jericoacoara, reconhecida internacionalmente como uma das 10 mais belas praias do mundo.

Pelas longas distâncias e isolamento, este seria o desafio mais difícil desta temporada. Mais uma vez, "mãos à obra". Mapas, cálculos, roteiros paralelos e o planejamento básico para qualquer tipo de viagem. Tudo pronto, lembro até hoje o dia em saímos pelo portão da garagem de casa para esta que seria uma das maiores aventuras de nossas vidas.

Deixamos Fortaleza pela BR 222 e mesmo sendo pouco mais de 6h da manhã o calor já preocupava. Até sairmos da região metropolitana o trânsito era intenso e com muitos caminhões. Cheios de adrenalina, a velocidade cruzeiro ia entre 100 e 110km/h

Em Caucaia a 30km de Fortaleza entro na CE 085. Uma estrada nova, pouco trânsito, perfeito. As cidadezinhas e povoados iam ficando para trás numa sucessão de cruzamentos e estradas diferentes. Ao longo de 3 horas de viagem, a estrada e tudo ao redor mudava de aparência de uma forma preocupante. Da BR 222, super movimentada e precária, para as novas e muito desertas CE 085, CE 168, CE 354 e CE 178. Aqui, a caatinga e o calor eram nossos únicos companheiros.

Apesar das boas condições da pista, quanto mais avançávamos maior era a desertificação. A adrenalina aumentava proporcionalmente a cada quilômetro percorrido, tanto pela precariedade dos lugares por onde passávamos como pelo isolamento e calor insuportável. Dava a impressão que não havia mais ninguém no mundo, somente estas estradas na imensidão da caatinga.

Ao deixarmos Cruz​, a aproximadamente 200 km de Fortaleza, me senti dentro de um filme. Simplesmente qualquer descrição não chega a 10% da realidade. A estrada, agora de terra, mais conhecida naquelas bandas por "piçarra" alternava trechos com muitas pedras soltas do tamanho de até um punho fechado e manchões de areia (buracos de 15 a 25 metros de comprimento preenchidos com areia fofa, sinônimos de giro alto e velocidade baixa).

Parar nem pensar. O calor era tanto que dava até calafrios e raciocinar se fazia uma tarefa difícil. A sensação era uma mescla de sonho, pesadelo, propaganda de cerveja e delírio. Ao chegarmos em Preá, uma aldeia de pescadores à beira-mar, foi como chegar num oásis. A aldeia, um conjunto de 2 ou 3 quadras, parecia abandonada. Tudo estava fechado, eram aproximadamente 13h e com a aquele sol nem os vira-latas se aventuravam.

Já na areia da praia um pequeno armazém de pescadores foi nosso porto seguro, sombra e algo gelado para beber. Fomos recebidos com espanto por um senhor que nos deu a esperada notícia de que estávamos a pouco mais de uma hora de Jeri.

Depois de 35 minutos de descanso, cruzamos uma faixa de 150 metros de areia escaldante e seguimos viagem bem próximo ao mar tendo as ondas como companhia. Com areia dura e fresca este "caminho" passava certo conforto e a segurança de um terreno liso numa reta de quase 10km. Em 4ª marcha, aproximadamente meia hora depois entrávamos nas dunas contornando um morro de areia cristalizada conhecido como "Serrote".

Estávamos bem próximos e já imaginando que nada poderia nos impedir de chegar. Foi quando tivemos o grande desafio do dia: a moto começou a afundar e querer atolar na areia fofa. A nossa volta dunas, apenas areia como um deserto e o mar ao longe. Acima de nós um céu sem nenhuma nuvem e o sol escaldante passando das 14h que "fritava" qualquer coisa.

Apesar da TÉNÉRÉ ser uma moto conhecida pela robustez e pelo seu destaque excepcional no raly Paris-Dakar, aqui tínhamos os pneus mistos, o que comprometia e muito o rendimento neste tipo de terreno. A solução foi reduzir a velocidade e na seqüência continuar andando ao lado da moto por alguns trechos de areia mais fofa onde até caminhar era difícil.

Uma 600 cilindradas, em velocidade cruzeiro, consome razoável combustível. Numa situação destas, entre o giro alto, o calor e a adrenalina de não atolar no meio do "deserto", me vinha à cabeça uma grande preocupação com o combustível necessário para a volta já que em Jeri não há postos de gasolina. Sem outra opção, a certeza era uma só: a solução era seguir em frente.

Passamos por trás do "Serrote" e ainda rodeados de dunas chegamos ao que parecia ser um caminho com marcas de pneus de moto. Com o terreno um pouco mais firme, apesar da dificuldade seguíamos agora "montados" em nossa única esperança. Depois de alguns minutos cruzamos com um "amigo" em uma moto pequena que ia para o mesmo destino.

Tudo parecia uma miragem e o que mais queríamos era chegar a qualquer preço. Em 10 minutos entrávamos na aldeia que tinha todas as ruas de areia, sem calçadas, com jegues, cavalos e bois soltos como vira-latas. Realmente, um lugar esquecido no tempo.

Atravessamos a aldeia e quando chegamos ao nosso destino não podia acreditar em tudo o que passamos. Moto guardada, na sombra, em seu merecido descanso e me pego, por alguns segundos, admirando aquela máquina que não tinha negado fogo em nenhum momento. Satisfeito por tê-la como "aliada", a sensação era de missão cumprida. De certa forma respiro aliviado da responsabilidade de chegarmos sãos e salvos.

Os 15 dias em Jeri foram inesquecíveis, justificaram todas as expectativas e comprovaram várias histórias mágicas que tínhamos escutado por anos. Um lugar paradisíaco. Recheado de lendas, rodeado por dunas enormes e açoitado por fortes ventos. Só o visual já valia apena.

Sempre tive o interesse de conhecer a raiz dos lugares por onde passo com as pessoas típicas da terra. Com certos cuidados, a experiência é sempre mais rica nos botecos, ouvindo os casos e sentindo na pele a alma do lugar do que tirar fotos a esmo em roteiros padrão.

Conhecemos pessoas incríveis e histórias curiosas como a do César, um Carioca que tem uma pequena loja onde produz e vende artesanato de redes e toalhas de mesa. Até aí tudo bem, afinal uma rede não é um artigo tão raro ou diferente, mas o que chama a atenção é que ele comprava o algodão, fazia o fio e tecia as peças em um tear manual maior que um piano de cauda. Sim, um tear feito de caibros de madeira rústica, normalmente utilizados como vigas na construção de casas de madeira.

O Tear deveria pesar no mínimo uns 700 kilos e bem maior que um piano de cauda. Qualquer pessoa mais curiosa se pergunta: como aquele "monstro" chegou até ali? Claro que desmontado mas mesmo assim, uma tarefa difícil. Como se fosse pouco, César fazia o seu preço, que não era barato por ser um processo totalmente artesanal, do algodão à peça.

E mesmo com algumas pessoas o taxando como louco, pois poderiam comprar uma rede 5 vezes mais barata na cidade. Ele, que não media palavras, dizia entre outras coisa que da industrialização ao artesanato era um longo caminho e simplesmente dava as costas na certeza de que a grande maioria das peças serem vendidas mesmo antes de estarem prontas.

Uma outra peça rara é "Cezinha". Este gaúcho que organizava desfiles de carnaval com uma charrete que levava alguns músicos encima embalando os foliões pelo centro de Jeri, é dono de uma casa onde funciona o seu atelier/bar. Sim, um atelier de quadros pintados com areia colorida coletada pelo litoral do Ceará e que diariamente durante o pôr do sol e em raras noites por ano abre o espaço como bar para alguns poucos amigos. Cenário de festas inenarráveis...

No dia planejado para o retorno, ainda tive que esperar que a maré baixasse para poder retornar pelo mesmo caminho, atravessando algumas dunas e seguindo até Preá. Depois de quase duas horas no bar do César reiniciamos a empreitada pouco depois das 9h.

Numa rápida subida ao morro do "Serrote", o mais alto e que de onde podíamos ver toda a aldeia, analisamos o caminho de volta por entre as dunas e traçei nossa estratégia. Demos uma última olhada de 360° e descemos confiantes. No começo, a mesma situação, areia fofa e giro alto por 30 minutos. Ao chegarmos na beira-mar propriamente dita foi um alívio, ao fundo víamos o "Serrote" e a "Pedra Furada" ficando para trás. A velocidade era baixa, 4ª marcha, pouco vento, apenas uma brisa para refrescar.

Em Preá não paramos, preocupados com o horário, seguimos pela piçarra caatinga a dentro. O calor era infernal, quase inacreditável, entre um manchão de areia e outro a concentração era total por causa das muitas pedras soltas. Já dentro dos manchões, para manter o traçado, a moto pedia um pouco mais de giro. Ao sairmos de um destes manchões a moto deu um pequeno salto e logo após perdeu força e o ruído de falta de combustível foi inconfundível.

Eram pouco mais que 13h30 e não se via uma sombra. Tentando entender o que passava balanço a moto e vejo que havia combustível, tento dar a partida e nada. A única alternativa foi uma checagem de 1° escalão ali mesmo embaixo "daquela lua" e no meio da caatinga. Começo a checar item a item: torneira, mangueiras, bomba, vela... Nada. Tento refazer na memória o caminho e lembro de algumas casinhas a quase 2 quilômetros atrás e não tendo outra alternativa, monto tudo e começo a empurrar a moto até aquele único sinal de civilização.

Depois de 50 minutos empurrando naquele chão de terra e num calor insuportável, a moto parecia 10 vezes maior e ao chegar, em uma busca mais detalhada vejo uma camionete. Após uma conversa com o dono chegamos a um acordo e depois de colocar a moto encima e amarra-la seguimos para a cidade de Cruz a uns 15 quilômetros dali.

Claro que este "socorro" não foi de graça e na verdade o valor não me importava, estava mais preocupado em encontrar um mecânico para resolver um problema que eu, mesmo com a minha experiência em motos, não conseguia entender.

A TÉNÉRÉ é uma moto relativamente simples, bruta e de fácil manutenção, mas aquela situação me deixava intrigado. Em Cruz, ao chegarmos na oficina, depois de um relato sobre a pane o mecânico teve exatamente os mesmos procedimentos que eu e na dúvida me convenceu a comprar uma vela nova. Desmontou o carburador, reviu as mangueiras e ao final a fez funcionar. Ótimo, lhe pago o conserto ainda sem entender o que realmente tinha acontecido o importante é que tínhamos o motor "roncando" outra vez.

Retornamos à estrada por volta das 17h, cruzamos a pequena cidade e já conscientes de que íamos encarar uma viagem dura e arriscada, atravessando a noite até onde fosse possível. Era o que pensávamos. Logo depois de 30 minutos, em um pôr do sol de dar inveja, ao passarmos por uma leve ondulação na pista tivemos a mesma pane. Sim, aparente falta de combustível.

Inacreditável, mas era verdade. De novo, parados, balanço a moto e pelo barulho tenho a certeza de havia combustível. Tento refazer tudo outra vez, item por item mas já estava ficando escuro e agora realmente a preocupação era grande... Como não haviam muitas alternativas ou melhor, nenhuma outra, decido voltar empurrando até a cidade. Na certeza de que, apesar do asfalto facilitar, os quilômetros eram muitos e mais uma vez estávamos no meio do nada.

Após 10 minutos empurrando, já era noite quando pára ao nosso lado um senhor numa moto 125 cilindradas bem surrada e pergunta qual o problema. Imediatamente lhe dou um pequeno resumo das nossas últimas 5 horas. Muito calmo ele disse que morava perto dali, na beira da estrada, que poderia deixar a moto em sua casa e que me levaria até a cidade para tentar cobrar a "garantia" do serviço. Ok, mesmo temeroso, deixo a moto e sigo com ele de volta à cidade. Ao chegarmos na oficina já eram por volta das 18h45 e a oficina estava fechada.

Claro, era uma 6ª feira e os bailes prometiam forró a noite toda. Como a cidade era minúscula fomos na casa do mecânico e ele não estava, seguimos a uma outra oficina de uma amigo e ele também não estava, fomos ao bar, ao "clube", etc. e não o encontramos... Já eram quase 20h e o Sr. decidiu que seria melhor dormirmos na sua casa e no dia seguinte pela manhã quando viesse para a "cidade" trabalhar ele me deixaria na oficina. Sem outra alternativa tive que concordar ainda não acreditando no que estava acontecendo.

A casa simples, de pau-a-pique, tinha um pequeno hall, uma sala de jantar e cozinha conjugados, um quarto e o banheiro do lado de fora, nos fundos de um quintal onde criavam porcos e galinhas. Na casa viviam ele, sua mulher e filha de 10 anos de idade. Por uma questão de segurança me obrigaram a colocar a moto dentro da "sala". E muito acanhados, nos receberam muitíssimo bem, nos ofereceram uma janta (arroz, aipim, e galinha) que estranhamente não comeram.

Este detalhe me chamou a atenção pois pareciam ter vergonha de sentar-se à mesa conosco e além disso simplesmente não comeram porque a comida não daria para todos. Indignados mas sem querer forçar a barra, aceitamos a proposta.

Depois do jantar, tivemos 30 minutos de conversa onde a criança nos disse que tinha começado na escola a pouco tempo mostrando seus desenhos e algumas folhas de papel onde dava os primeiros passos na escrita. Na seqüência nos emprestaram duas redes novas e o Sr. nos levou a uma casinha vazia, feita de tijolinhos que o irmão estava construindo a 5 minutos dali.

Chegando lá , disse que nela estaríamos bem e que no dia seguinte às 6h nos acordaria para tomar o café pois tinha que estar às 7h no trabalho. Fico ali, deitado na rede recapitulando os acontecimentos, as visões e emoções daquele dia intenso. O cansaço era tão grande quanto a preocupação, mas não tinha muito o que fazer, se não aproveitar as horas de sono.

Logo nos primeiros sinais de luminosidade já estáva fazendo os cálculos de como poderíamos seguir viagem. Em poucos minutos o Sr. chegou e de pronto respondi o chamado. Levantamos o acampamento e fomos ao café: leite, café e pão doce. Mais uma vez não se sentaram, apenas conversaram medindo as palavras.

Aquele pão doce estava tão fresco que certamente o Sr. foi compra-lo momentos antes não sei aonde pois estávamos no meio do nada e nos presenteou com aquele café da manhã recheado de energia positiva. Uma verdadeira injeção de ânimo pra enfrentar o dia que começava. A todo minuto agradecia a Deus por ter colocado aquela família em nosso caminho...

Retornamos à oficina e fico esperando impaciente até pouco depois das 8h30 da manhã quando apareceram os mecânicos. Depois de uma breve conversa o dono da oficina disse que não poderia fazer nada, que estava ocupado com outros serviços. Não acreditando no que estava acontecendo e sem poder argumentar como queria, olho em uma rede e encontro um deles ainda meio alcoolizado da noite de forró. Não emito nenhuma palavra e ele prontamente puxa conversa e se oferece para ir ver o que acontecia. Ótimo, subo na moto dele, passamos num posto e compro alguns litros de combustível para aproveitar a viagem.

Chegando lá, o mesmo procedimento: desmontagem de primeiro escalão, tanque, torneira, mangueira, carburador, vela... e por incrível que pareça, depois de checarmos e montarmos tudo, a moto funciona. Eu não acreditei, e mesmo intrigado por não saber ao certo qual era o problema, queria era seguir viagem a qualquer custo. Meti a mão no bolso e tirei uns trocados que a princípio foram recusados pelo ajudante de mecânico, mas lhe disse que pela boa vontade pelo menos um maço de cigarros ele poderia comprar.

Já eram pouco mais das 10h00 quando depois de nos despedirmos ganhamos a CE-016 outra vez, a liberdade estava de volta. Com ela uma emoção indescritível de ter a certeza de que Deus existe mesmo. Os quilômetros iam ficando pra trás e com eles as lágrimas brotavam sem controle por mais de 30 minutos. E mesmo depois de horas e concentrado na pilotagem, cada vez que me vinha à cabeça todo o acontecido, elas traduziam o sentimento.

As cidadezinhas iam passando... Nascente, Amontada e Itapipoca, onde paramos. Tomamos algo, respiramos um pouco e ainda emocionados, refletindo toda a história, trocamos poucas palavras. Para fugir dos caminhões seguimos viagem pela CE-085, que apesar do fortíssimo vento contra, era cercada por uma vegetação mais verde, sem trânsito nenhum, nova e em perfeitas condições. Apesar do vento, parecia o paraíso.

Por volta das 14h00, pouco antes de São Gonçalo do Amarante a 60 km de Fortaleza, novamente a mesma pane. Agora, realmente, era inacreditável. E o pior, não tínhamos mais recursos e desta vez o ruído do combustível dentro do tanque era muito menor mas ainda soava. Não tinha outra explicação, ficou evidente que as panes eram por falta de combustível. Ou melhor, pelo pouco combustível.

A explicação? Quando passávamos por alguma lombada o pouco combustível dentro do tanque enorme balançava e a bomba puxava ar. Apenas uma mínima quantidade de ar já era suficiente para interromper o abastecimento. A única solução era desmontar e tirar o ar.

Se soubesse disto na hora, seria fácil tirar o ar. Depois de retirar o tanque e incliná-lo para um lado reunindo a pouca gasolina que restava em apenas um lado do tanque (que é dividido no meio para que se encaixe no "quadro" da moto) e depois, com a boca, puxar o ar da bomba pela mangueira de abastecimento. Mas só cheguei a esta conclusão alguns dias depois quebrando a cabeça.

No momento, o único raciocínio possível era sair do sol. Decido empurrar, mais uma vez, até a sombra de uma árvore localizada num declive ao lado da pista uns 100 metros atrás. Nesta hora, tudo o que havíamos vivido neste "aprendizado" foi colocado à prova e como num reforço, me faz lembrar de todo o ocorrido.

Logo que faço a volta e começo a empurrar a moto, pára ao meu lado um carro do tipo "Station Wagon" importado, zero km. O motorista que aparentava uns 40 e poucos anos, desfrutando do ar condicionado, abaixa o vidro elétrico do carona, me pergunta o que tinha acontecido. Em poucas palavras faço uma síntese do ocorrido nos últimos dias, o que não durou nem um minuto, mas ao dizer que não tínhamos mais dinheiro ele simplesmente sem mover um músculo da face levantou o vidro, engatou a primeira marcha e se foi.

Não pude acreditar no acontecido. Pasmo, ao me refazer do susto me veio à cabeça a lembrança de uma família que prontamente nos acolheu com um sorriso, um teto, redes novas, não jantou para dar-nos o pouco que tinham de comer somente pelo sentimento de solidariedade e agora aquela pessoa num carro importado de mais de cem mil reais não teve nem a educação de dizer "tchau e boa sorte". Inacreditável.

É mas a provação estava apenas começando. Chegando à sombra, atônitos nos aparece numa bicicleta, um cidadão muito simpático e prestativo, vestindo apenas uma bermuda e que depois de escutar a história diz ter "uma gasolina" em casa e se oferece para ir pegar. Sem ter muito o que falar, resignado, concordo e agradeço a boa vontade.

Fiquei ali por alguns minutos, a 50 metros da rodovia, com a adrenalina jorrando pelos poros, andando em círculos, sem acreditar no ocorrido e pensando no que fazer quando vejo no horizonte uma pick-up Hilux prateada idêntica à de Gigi, uma amiga proprietária de um restaurante em Jericoacoara que nos tinha sido apresentada em Fortaleza poucos dias antes de iniciarmos esta viagem. Na ocasião me chamou a atenção o detalhe dos faróis de milha por cima do teto, um tanto diferentes do normal.

Coincidência? Não sei, mas mesmo achando impossível ser ela, segui em direção ao acostamento da estrada e conforme ia me aproximando a achava cada vez mais parecida. Faltando pouco menos de 50 metros para que ela nos deixasse para trás, já tinha certeza e num ato de desespero, comecei a correr em direção ao carro.

Era ela mesmo, porém não tive tempo de subir até a estrada e ela passou tão rápido que não me viu. Em um segundo tive a sensação de que tudo aquilo era uma provação: naquele lugar, longe de tudo, naquele momento a solução esteve tão próxima, a poucos metros e mesmo assim se foi em pouco mais de um segundo.

Totalmente desconsolado, retorno à sombra e em poucos minutos chega o cidadão da bicicleta com um litro e meio de gasolina, mesmo sabendo que não ia dar nem para o "cheiro" aceito de bom grado. Tento dar a partida e nada. O cidadão vendo a nossa situação nos diz que paralela a estrada passa uma BR antiga e que logo depois havia um posto, seriam pouco mais de 4 quilômetros. Depois de tudo, empurrar a moto já era o menor de nossos problemas.

Eram por volta de 3 da tarde e entre as duas estradas havia este povoado por onde íamos chamando a atenção de todos. As crianças vinham nos acompanhar olhando-nos como a dois extraterrestres. Víamos que elas corriam na frente e chamavam mais crianças que saíam de outras casas para ver o espetáculo das duas figuras paramentadas, mochila, capacetes e empurrando uma moto "gigante" se comparada às 125 tão comuns na região.

Chegando na BR o posto já estava à vista e como um oásis, era a nossa única e última salvação. No posto pergunto ao frentista pelo gerente na intenção de conseguir algum combustível em consignação deixando nossos pertences como garantia. O frentista diz ser impossível. Insisto e ele chama a secretária do gerente que nos encaminha à sua sala e nos anuncia.

Na sala ampla o ar condicionado era forte e escondido atrás de uma mesa enorme o gerente de uns 50 e poucos anos com seus 120 quilos nos dirige a palavra depois de alguns segundos. Mais uma vez faço um resumo, de toda nossa história e como se fosse nada ele nos diz que não poderia ajudar. Neste momento fui um "pouco" mais incisivo e agressivo ao dizer que não tínhamos outra saída e que ele "teria que nos ajudar de qualquer maneira", pois já não tínhamos outra saída.

Coagido e temeroso, ele voltou atrás e me perguntou quanto precisávamos. Lhe disse que precisávamos apenas do combustível para chegar a fortaleza, mais nada. Que deixaríamos nossos pertences e que no dia seguinte voltaria para pagá-lo nada mais. Com medo, tirou do bolso a carteira e nos deu o dinheiro para abastecer. Também pediu que não comentássemos com o frentista pois ele tinha ordens para não ceder a qualquer tipo de conversa daquele tipo.

Abastecemos e percorremos os últimos quilômetros chegando em casa ao fim da tarde. Era sábado e como morávamos com uma amiga que cozinhava muito bem, era dia de festa com feijoada e casa cheia, de certa maneira nada mais nos incomodava.

No dia seguinte retornamos ao posto e pagamos o valor diretamente à secretária. Quando revelamos as fotos paramos em uma papelaria e compramos uns cadernos, lápis coloridos, estojo, giz de cera e uns livrinhos para crianças. Tudo muito colorido, embrulhado para presente e enviado pelo Correio junto com uma carta de agradecimento e a foto que tiramos. E é claro que, com toda a educação, esta carta foi respondida prontamente.

Esta foi uma aventura muito especial, colocados a prova fomos réus, vítimas e testemunhas de situações inusitadas, quase inacreditáveis e certamente a visão de algum milagre ou santo não se fez necessária para provar muitas coisas e mudar minha maneira de ver o mundo.

Fica a certeza de que grandes diferenças estão sempre nos pequenos detalhes.

Quando não tínhamos nada, esta família nos acolheu com muito pouco. E nos deu muito mais do que uma ajuda ao demonstrar valores que o dinheiro não compra. Nos ensinou que para tornar-se um ser humano melhor não dependemos de condição social, cor ou credo. E que isto, simplesmente não custa nada, basta um gesto, uma atitude, um sorriso.

Os teremos em nossas orações para o resto de nossas vidas.

Claudio Werneck
Claudio Werneck

Published on 03/02/2017 21:36

Performed on 09/24/2016

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