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Trekking de 02 dias no Vale Cochamó, Chile

Trekking de 02 dias no Vale Cochamó, Chile

A selva valdiviana é incrível e mais incrível ainda é a chegada no camping La junta, rodeado por paredões de granito

Trekking Camping

No dia 21 de maio de 2018, eu estava em Puerto Varas, no Chile, hospedada no Hostel Margouya. Havia acordado perto das 7h da manhã, mesmo com um frio que eu estimava próximo a zero fui tomar banho, pois não o tomaria nas próximas 48 horas. Segui para o banheiro tentando não fazer ruídos, o que era impossível num casarão todo de madeira no qual qualquer passo parecia um terremoto. Enquanto eu tomava meu café verifiquei que fazia 3 graus. Fiquei aguardando Marcelo, guia de montanha que eu havia contratado para me acompanhar em algumas trilhas. O Marcelo parou na frente do meu hostel com uma mini van branca aproximadamente às 8h40, joguei meu mochilão e minha mala de rodinhas dentro, descemos a rua de ladeira do hostel até o lago e seguimos pegando a via à direita, passando na frente dos hotéis de luxo, contornando o Lago Llanquihue com o Osorno nos observando de longe, com destino ao Vale Cochamó, no vilarejo de Llanquihue.

Qualquer raio de sol que entrava no carro era um alívio para o frio que ultrapassava a jaqueta de plumas e o flleece. Foram aproximadamente 80 km entre Puerto Varas até Cochamó, passando por Ensenada e Rálun. A paisagem é sublime, os trechos de florestas que margeiam a estrada são lindos, e quase sempre é possível ver ou ser observado por algum vulcão.

Na ida, às 9h20 paramos na beira do Lago para organizar a mochila, e logo eu descobriria que mesmo tendo tirado um monte de coisa desnecessária, ainda levava muitas coisas desnecessárias, ou seja, peso. Acredito que com a experiência, após realizar mais trilhas, aprenderei a organizar dignamente uma mochila, sem carregar coisas demais, exercendo um desapego confortável para longas e íngremes caminhadas.

Seguimos na estrada e paramos ainda na Iglesia de Cochamó (Paroquia Maria Imaculada), localizada na Av. Catedral com a Av. Arturo Prat, de frente ao estuário de Relocanví.


A igreja é linda, a vista para o estuário é incrível, coisa de filme, águas calmas, pedrinhas na pequena faixa de areia da margem, barcos parados e um farol me fizeram recordar filmes e concretizar a imagem de alguns livros. Aproveitando o calorzinho proporcionado por alguns raios de sol havia um urubu de asas abertas imóvel como uma escultura no teto da igreja tomando ‘banho’.

Às 11h chegamos no local de início da trilha ao Vale Cochamó. Estacionamos a mini van na casa do Sr. Cláudio, com quem trocamos uns 10 min de conversa. Antes de iniciarmos a caminhada, o Marcelo sugeriu a troca dos tênis impermeáveis por galochas de borrachas, decisão acertadíssima para o cenário que encontraríamos mais a frente.

Iniciamos nossa caminhada pela Selva Valdiviana, um trecho de aproximadamente 14km que duraria 5 horas até nosso destino no camping La Junta. Por mais que tente encontrar as melhores palavras para descrever essa trilha, pode ter certeza que não estarei usando as palavras dignas da descrição mais fiel.

A trilha é linda, com algumas marcações com fita de cor laranja em algumas árvores, não há muita dificuldade além dos trechos de charcos e lama, que em alguns momentos exigem mais esforço físico, especialmente quando a lama atinge metade da perna. Por um erro de escolha, já próximo ao camping consegui enfiar o pé em uma parte mais funda de um charco e a lama ultrapassou os limites da bota, pouco abaixo do joelho, mas isso não diminuiu em nada a beleza da trilha, pelo contrário, me fez sorrir.

As flora da selva valdiviana é rica, densa, deslumbrante, e a trilha em sua maior parte margeia o rio, sendo possível observá-lo bem de perto em alguns trechos ou ouvi-lo quando oculto atrás das árvores. Não sei se em razão da época que fui, início do inverno e por fazer muito frio, quase não se ouvia pássaros ou qualquer outro ruído além das águas. Um silêncio divino. Não identifiquei muitos odores, somente às vezes quando passava por algumas árvores era possível sentir o cheiro do protetor solar ‘coppertone’. Passamos uma ponte suspensa que cruza um trecho do rio, e por outras pontes menores que facilitam cruzar alguns trechos onde riachos passam por pedras.

Paramos umas três vezes para comer alguma coisa, beber água, e abastecer as garrafas com água do rio. Nessa trilha, pela primeira vez na vida eu bebi água diretamente da natureza, ao pé da letra não teve preço, abastecemos nossas garrafas numa fonte que caía perto da trilha.

Mesmo que durante a trilha você fique encharcado de suor, considerando que faz muito frio, você tem que se manter agasalhado, parar um pouco para beber água era um tormento congelante. Em todo o percurso cruzamos com pouquíssimos aventureiros, acho que no máximo quatro pessoas, que também andavam em duplas.

Às 15h vimos as primeiras placas indicativas do camping ‘La Junta’. No final do dia, às 16h30 chegamos no camping.

Como ainda havia luz, deu para ver os lindos paredões cinza de granito ao redor do descampado, paraíso para os amantes de trekking e escalada, sendo comparado ao Yosemite. O camping que costuma ficar lotado no verão estava vazio, e ao menos para mim isso era um fator de grande apreço. Enquanto Marcelo esquentava água para um chá de rosa mosqueta, aproveitei para lavar os pés na água congelante, trocar de meia e de bota, quase perca total da meia após enfiar o pé na lama, sendo impossível esfregar as meias na água congelante para retirar a lama. Resultado: mãos e meias pretas, a primeira pelo frio e a segunda pela lama.

Fim de tarde, fomos visitar o Mono (Cristián Gallardo), Jupiter e Liwen. Por sinal, no vimeo tem um documentário sobre ele, chamado “El Mono de Cochamó”, película esta ganhadora no Festival de Cine de Montaña de Santiago em 2016. Cruzamos o rio em uma espécie de carrinho em tirolesa e andamos um pouco até o Refugio Cochamo, onde o Mono vive. Chegando lá, tive uma das experiências mais incríveis da minha vida. O amor por viajar esconde a curiosidade e gosto por histórias, ouvir, sentir, conhecer, conversar com as pessoas locais. Fomos convidados pelo Mono e Jupi a tomar café, e logo passei a conhecer mais da rotina de uma vida tão alheia a minha, mas que eu tanto admiro, respeito e até anseio. Enquanto deliciava a conversa e o café quente, ele nos convidou a pernoitar dentro do refugio, ao invés de passar frio no camping (pode acreditar que estava imensamente frio), e eu estava praticamente entrando no fogão a lenha do Mono. Aceitamos de imediato, e logo eu e Marcelo cruzamos novamente o rio para recolher nossas coisas no camping. Já estava escuro, e pela primeira vez usei a headlamp para andar no escuro à noite. O coração acelerado, quase saindo pela boca. Nem consigo descrever direito a sensação de cruzar o rio a noite, em uma tirolesa, sem enxergar nada além do que a pouca luz da headlamp apontava. Foi incrível, e eu só pensava que se minha irmã tivesse ali, teria um ataque de nervos. Rezei para que nenhum bicho, que até então eu não havia avistado, resolvesse dar as caras. Pegamos nossas mochilas, e voltamos para cruzar o rio novamente, prendendo a mochila no carrinho, para não cair na água.

Em parte eu estava meio decepcionada comigo mesma, por ter trocado a minha primeira noite sob céu estrelado em camping aberto, por uma noite em refugio, mas o frio que eu sentia logo me fez abandonar o arrependimento. Voltando para o refugio, o Mono e a Jupiter sugeriram fazer pizza, e eu mal poderia acreditar que nem nos meus melhores sonhos poderia viver aquele momento.

Ali, isolados de tudo, na beira de um fogão a lenha, na presença de pessoas tão integradas à natureza, com histórias tão lindas, força imensurável, jantei a pizza mais artesanal da minha vida, com direito a vinho e muita conversa. Minha cabeça transbordava de perguntas sobre a rotina e vida deles, mas não ousei perguntar muita coisa. Eu era toda ouvidos. Não me recordo de que horas fui dormir, acredito que em torno das 23h, tomada pelo cansaço, dormi em um quarto com um janelão cuja vista me surpreenderia na manhã do dia seguinte.

Acordei às 7h20 do dia 22, e pela pouca luz que entrava pela janela conseguia ver os contornos dos paredões de granito, às 8h30 o sol iluminava tudo ao redor, sendo possível ver melhor toda a floresta. Eu não conseguia definir tudo que sentia naquele momento, eu era só contemplação. Brinquei um pouco com o Liwen (foto abaixo).

Tomamos café da manhã, comi pão, café, doce de leite. Peguei minhas botas que estavam próximas ao fogão a lenha, e ao calçá-as foi como um abraço quentinho. Tirei foto com nossos anfitriões na escadaria do refugio e partimos para recolher as galochas que ficaram no camping e seguir a trilha.

Cruzamos novamente o rio na tirolesa, e chegamos no camping às 10h40, onde foi possível apreciar o calor dos raios de sol que penetravam o vale frio, quase como invasores cruzando os paredões cinza de granito, coisa linda de se ver, os cristais de gelo reluzindo sobre a grama do camping. Logo esses cristais derreteriam com o pouco calor que fazia. Fiquei pensando no quanto a noite teria sido fria ali no camping, mas não tive essa experiência.

Às 11h começávamos o caminho de volta, que durou menos que a ida e às 15h já estávamos no carro. Criei uma nota mental de abrir mão de futilidades ao montar a mochila na próxima trilha, e comprar uma mochila decente, cuja barrigadeira seja eficiente e amenize o peso sobre os ombros.

Descobri que eu não tenho memoria visual tão boa quanto achei que tivesse, reconheci pouquíssimos trechos da volta, e certamente me perderia não fosse pelas fitas laranjas encontradas esporadicamente. Exausta, sentei no carro ansiosa por um banho quente.

Em menos de 20min estávamos na companhia de uma ilustre cantora participante do ‘la reina dos chivos’ alguma coisa, a quem demos carona em Ralún. Mais uma experiência indescritível, pessoa simpática, humilde, com energia e alto astral para dar e vender, mas ela certamente não comercializaria isso, pois não me parece ser da natureza daquela mulher a quem cantar era sua maior moeda, tendo pago a carona com duas músicas do festival que participa anualmente. Encerrava ali meu trekking, com a reflexão do Guilherme Cavallari, em seu livro Transpatagonia, quando diz: “Permanecer atento aos perigos do conforto excessivo e das privações sem sentido soava sensato e frutífero. Na dinâmica da vida as questões mudam e mudam também as respostas. Nada é estático ou definitivo. O questionamento mantinha meus sentidos alertas”. Fiquemos alertas.

Fabiana Pessoa
Fabiana Pessoa

Published on 07/24/2018 11:13

Performed from 05/21/2018 to 05/22/2018

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Márcio
Márcio 08/10/2018 08:38

Viagem irada demais Fabi! Quero me planejar para ir para essa lindeza de lugar.

Carlos Araújo
Carlos Araújo 08/16/2018 00:00

Eita friaca kkkkkkk.... Mas quero visitar o Chile. Fabiana, obrigado pela inspiração :)

Patrícia
Patrícia 08/21/2018 09:27

Adoreei seu relato! Fiquei imaginando cada detalhe que descreveu... Se eu já tinha vontade antes, agora quero ainda mais planejar uma viagem assim! Parabéns!!

Josias Meira Gomes
Josias Meira Gomes 08/28/2018 09:29

Uma aventura fascinador! Parabéns e sucesso!!

Lindiane
Lindiane 08/29/2018 09:49

Fabi, que experiência maravilhosa, fiquei encantada com a riqueza dos detalhes (nossa delirei, alguns momentos, parecia estar lá... :)). Parabéns!!

Dinelza Martins
Dinelza Martins 08/29/2018 16:03

ÓTIMO FABI, A NARRATIVA NOS LEVA JUNTO CONTIGO, MUITO BOM !!!

Patricia
Patricia 01/04/2020 07:54

Olá Fabiana Gostaria de saber como faço para encontrar um guia para esse trekking. Desde já muito obrigada

Marcelo Santiago
Marcelo Santiago 03/03/2020 13:37

Fantástico!

Fabiana Pessoa

Fabiana Pessoa

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Advogada por profissão, trilheira por amor. Sempre procurando uma oportunidade de colocar a mochila nas costas em busca de uma montanha, trekking, hiking... Insta @fabianapessoa

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