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Comida de Trilha com leveza

Comida de Trilha com leveza

Para quem quer leveza na trilha, a escolha da comida é fundamental

Desert

Comida de Trilha com Leveza

Ecoando o poeta Vinícius de Morais, os pesados que me desculpem, mas leveza é fundamental. Nas trilhas e nas montanhas qualquer peso extra pode significar cansaço, dor nos joelhos e nas costas. Cansaço e dor trazem lentidão e atraso. Atraso, dor e cansaço trazem o desânimo e a desistência. Felizmente, estes são perrengues que podemos evitar.

A trilha pode ser extenuante, mas não pode ser penitência. Trilha é prazer, alegria e revigoramento. Se não for, algo está errado. O excesso de peso é um dos possíveis culpados.

Lendas sobre a falta de água na Serra Fina e crenças sobre quanto de água o ser humano precisa por dia podem levar a excessos de peso desnecessários. Na Serra Fina, em nenhum trecho precisamos levar mais do que um litro de água. No máximo dois se formos ultra-prudentes e se pudermos ombrar um quilo a mais morro acima.

Apesar disto, significativo número de pessoas vai para as trilhas com excesso de bagagem. Isto torna a trilha mais parecida com um pagamento de promessa do que uma caminhada de lazer. Claro, não fazem isto por opção consciente. Ninguém delibera entrar numa trilha ou subir uma montanha carregando peso extra só pelo prazer de fazê-lo. Se o faz, é em decorrência de um ou mais dos seguintes obstáculos:

- Busca de conforto incompatível com a atividade

- Medo do desconhecido

- Crença em lendas e mitos

- Falta de planejamento

- Desconhecimento técnico

- Falta de dinheiro

Não vou destrinchar cada um destes culpados, mas cito um exemplo ou dois.

Começo pelo conforto. Na trilha a noção de conforto é diferente da noção de conforto em casa. Um mosquiteiro, por exemplo, pode ser um conforto essencial na trilha, mas um colchão d’água é algo esdrúxulo e incompatível com a atividade.

Planejamento é fundamental. Antes de pegar a trilha ou subir a montanha, você precisa saber onde encontrará água. Com uma carta topográfica, mesmo antiga, não há por que não planejar quanto de água levar e onde reabastecer. Usei esta carta para planejar minha travessia da Serra Fina em dois dias. No mapa se percebe que o maior trecho sem água tem cerca de 3 quilômetros (entre a subida do Morro do Quartzito e a descida do Capim Amarelo). A metade deste trecho é praticamente plana, no divisor de água.

Quem tem medo do desconhecido pensa que deve prever todas as possibilidades de algo dar errado. Com isto, acrescenta apetrechos que nunca usará, mas que acrescentarão peso e dificultarão a marcha. Nas trilhas há perigos conhecidos e desconhecidos. Quanto aos primeiros temos que nos preparar. Quanto aos segundos, temos que improvisar. Não adianta levar repelente de tubarão para a montanha nem adiante levar repelente de urso para trilhas no Brasil.

Crença em lendas e mitos levam a excessos. Por exemplo, acreditar na lenda de que você precisa de beber 5 litros de água por dia conduz a peso desnecessário. A menos que você esteja no deserto e só tenha água de 100 em 100 quilômetros. Aí é outra coisa.

Mesmo para vencer 240 km no Deserto do Saara, carregando mochila e correndo sob o sol você não precisa carregar 10 litros de água. No trecho, 1,5 l de água, 1,5 l de chá verde e 1,5 l de comida já hidratada (não para ser comida, mas bebida, durante a corrida).

Planejamento abrange todos os aspectos da aventura. Vai desde calcular o conforto mínimo que nos deixará abrigados, alimentados e descansados a cada etapa, até reconhecer as rotas de fuga e o modo de obter resgate caso alguma coisa saia de controle. Planejar envolve estudar a topografia, o clima, a presença humana, a flora e a fauna do lugar para onde vamos. Planejar envolve analisar o equipamento e avaliar e descartar opções. Tudo isto, porém, exige conhecimentos técnicos.

É o conhecimento técnico que nos permite escolher a barraca adequada para o trecho e a melhor relação custo/benefício para o calçado escolhido, a mochila usada, a quantidade de roupa e abrigo e carregar.

É também o conhecimento técnico que nos permite analisar uma carta topográfica a fim de calcularmos o dispêndio de energia, a disponibilidade de água, as rotas de fuga, os tempos necessários para vencermos cada pernada, os melhores locais para montarmos acampamento.

Para chegar ao Polo Norte a logística é complicada, os gastos são muitos e o planejamento tem que ser minucioso. Nada pode ficar ao acaso. Mesmo assim, ainda aparecem falhas. A 40 ou mais abaixo de zero a comida está sempre congelada, os aparelhos eletrônicos não funcionam e a água tem que vir do gelo derretido. As barracas pesam uma enormidade. Uma viagem excepcional que exige planejamento excepcional.

O dinheiro também pode ser fator limitante. Seria ótimo ter um mochila de 500 g, mas não vamos deixar de fazer uma trilha porque a nossa pesa 1000 g e não temos dinheiro para comprar a outra mais leve. Seria ótimo ter um par de cajado de 200 g, mas não vamos deixar de fazer uma trilha porque só conseguimos comprar um par que pesa 480 g.

Assim, é certo que a falta de dinheiro nos impede de ter tudo que os nossos conhecimentos, nossa experiência e nosso planejamento nos apontam como ideal. Neste caso, paciência! Temos que aceitar nossos limites. Se não forem tão graves que coloquem nossa vida em risco, vamos em frente.

Mas, se podemos abrir mão da melhor da mochila, da barraca mais leve, da bota mais moderna, certamente não podemos abrir mão de água e comida de qualidade e em quantidades suficientes. No entanto, com conhecimento, experiência e planejamento, podemos melhorar muito a relação peso/benefício de modo a podermos nos nutrir e nos hidratar adequadamente sem excesso de peso.

Água

A regra do 3-3-3 é um mnemônico que nos dá a perspectiva de nossos limites. Ela diz que podemos ficar, no máximo, 3 minutos sem respirar, 3 dias sem tomar água e 3 meses sem comer.

A menos que estejamos escalando o Everest, na trilha não precisamos nos preocupar com a falta de ar. Então, comecemos com a água.

Mesmo frio e chuva não nos dispensam de levar água. Com moderação, sempre. Duas caramanholas quase sempre dão e sobram para o dia. Mas, se o planejamento indicar diferente, ninguém deve se acanhar de levar mais. Água não deve sobrar, mas também não pode faltar.

Tirando objetos de metal, a água é o item mais denso que carregamos na trilha. Portanto, quanto menos carregarmos, melhor. Para chegarmos ao mínimo satisfatório, precisamos de duas informações fundamentais: a) quanto de água precisamos por dia; e b) na trilha, quanto tempo gastamos de um ponto de água até o próximo.

Para beber, a regra é que precisamos de 2 litros por dia. Isto inclui a água dos alimentos, das frutas, dos sucos, do chá, do café. A estes 2 litros adicionamos o que for necessário para enfrentar o aumento de consumo proveniente do esforço físico, da temperatura ambiente, dos ventos, do sexo (refiro-me ao gênero, não à atividade), da idade, do tipo de alimento consumido, da insolação. Desta forma, podemos chegar a 3 litros por dia. Quando tudo é desfavorável, talvez a 4 ou até 5. Mais do que isto só em situações excepcionalíssimas.

Em seguida analisamos quais as fontes de água temos na trilha. Ou seja, de quantas em quantas horas teremos um local para nos abastecer. Se as fontes forem próximas umas das outras, levamos pouca água; se forem muito longe, levamos mais água. Além disto, aproveitamos cada fonte para fazermos a higiene, cozinhar e lavar o que for necessário. Desta forma só precisaremos carregar água para beber.

Quando queremos velocidade e precisamos percorrer mais terreno sem gastar excesso de energia temos que ter mochila leve. Nesta aí, por fora, um saco de dormir (em cima) e uma esteira (embaixo). Dentro, comida desidratada para 6 dias e abrigo para aguentar os ventos cortantes e as noites gélidas do deserto, protegido apenas por uma tenda de beduíno (feita com saco de linhagem, aberta na frente e atrás.)

Munidos de tais conhecimentos e práticas, na maioria das vezes podemos nos contentar com o peso de meio litro de água e até menos. A prudência, o conhecimento e a experiênica são guias importantes neste ponto.

Nas trilhas vemos que a maioria das pessoas não planeja e tem medo pânico de ficar desidratada. O medo leva a uma desnecessária sobrecarga com o peso da água extra.

Nos relatos de travessia da Serra Fina vemos pessoas recomendando que se deve levar quatro, cinco, seis litros de água. Assustados com esta recomendação, alguns ainda dobram a quantidade. Quando acampei na Pedra da Mina, vi numa barraca vizinha que duas pessoas haviam subido com meia dúzia de garrafas PET de 2 litros cada. Peso enorme (12 quilos) e incômodo descomunal para carregar em qualquer lugar, mas especialmente morro acima, como acontece na Pedra da Mina.

Eu passei a noite com uma caramanhola (¾ de litro) e ainda tive água para escovar os dentes e lavar o rosto de manhã (que frio!). Por quê levei só ¾ de litro?

Porque temos água abundante em volta do pico. Em qualquer direção que subirmos ou descermos o morro, vamos encontrar água nas proximidades. Então, basta abastecer um pouco na subida e reabastecer na descida.

No entanto, as lendas levam as pessoas a subirem com enorme excesso de água. Não há necessidade de subir aquela encosta íngreme com tanto peso. Ainda mais que o bom senso nos manda subirmos hidratados, banhados e abastecidos (tirando proveito da água do sopé).

A lição é simples: água é essencial, mas não precisamos acumulá-la de forma irracional. Se o fizermos, ela se transformará em peso morto.

Ter água suficiente, mas sem excesso é leveza na trilha.

Na trilha uma câmara pequena e leve não é luxo, é instrumento essencial para registrar momentos de enlevo e emoção. Como este por de sol maravilho que assisti do Alto dos Ivos, na Serra Fina. Porque me atrasei por um descuido na orientação, vi o sol se por e desci na escuridação desde ali até Itamonte. Perdi o resgate e tive que fazer mais uma dezena de quilômetros trotando no asfalto. São coisas que acontecem.

Nutrição

Embora possamos viver meses sem comer, e ainda assim nos mantermos aptos para avançar na trilha, a fome não deve fazer parte de nenhuma aventura. A menos que a aventura seja uma experiência de asceticismo e transcendentalismo. Não sendo este o caso, precisamos de comida. E a comida de trilha deve ter alta densidade calórica e nutricional.

Não basta um ou outro. O açúcar, por exemplo, tem razoável densidade calórica (4 calorias por grama), mas não tem nenhum valor nutricional. Portanto, levar açúcar (sob qualquer de suas centenas de formas) para a trilha é uma péssima opção. Se mais não fosse, porque vai nos dar cárie, vai nos dar azia e vai nos dar energia explosiva seguida de desânimo. No final do dia, terá nos deixado esgotados e até deprimidos.

O ovo, por outro lado, é um alimento que tem alta densidade calórica e também nutricional. De fato, 100 gramas de ovo desidratado nos dão 50 gramas de proteína e 43 gramas de gordura, totalizando 587 calorias. Ou seja 5,87 calorias por grama. Junto com a gordura e com a proteína vêm também vitaminas e minerais em abundância.

Os carboidratos industrializados têm menos calorias do que o açúcar e densidade nutricional baixíssima. A única coisa que se aproveita dos alimentos industrializados é o sal. O resto – inclusive a gordura – é de péssima qualidade.

Em resumo, carboidrato é o pior alimento que alguém pode levar para a trilha. Não importa se é açúcar, melado, rapadura, farinha, fruta ou grão, no final dá na mesma: muito peso, poucas calorias e baixo valor nutricional. Portanto, uma opção horrível para uma vida saudável e para uma trilha com leveza. No entanto, se fizermos uma pesquisa abrindo uma mochila típica de trilha constataremos que 80% das calorias nela guardadas são de carboidrato. Um desastre em peso e em capacidade nutricional e calórica. E nas exigências de água para compensar seu consumo. Como isto é possível?

Bom, a principal causa é a desinformação. Melhor ainda, é a má informação disseminada à exaustação pela indústria de alimentos. Quem fabrica chips de batata ou de banana, cereais desidratados, frutas secas, castanhas empacotadas, doces e outros artigos semelhantes quer nos convencer (e consegue!) de que estes são alimentos saudáveis e propícios para uso no acampamento e nas trilhas.

Ledo engano.

Os carboidratos não são alimentos, são venenosos perigosos. Neste sentido, convém notar, em primeiro lugar, que ninguém precisa de carboidrato. Podemos viver bem, nutridos e saudáveis, sem ingerir um único grama de carboidrato. A exceção a esta regra são as crianças de peito. Elas recebem certos carboidratos veiculados pelo leite da mãe. Estes carboidratos, nesta fase da tenra idade, são importantes porque alimentam não o bebê, mas as bactérias benéficas que estão criando colônias no intestino da criaturinha. Depois desta fase, os carboidratos são desnecessários e perigosos.

Claro, há a lenda de que os carboidratos são a nossa principal fonte de energia. Isto é desinformação. Nossa principal (e melhor!) fonte de energia são as gorduras. Em especial, as gorduras saturadas. As poli-insaturadas (óleos de supermercado) são perigosas, pois inflamatórias.

Como esta informação é útil nas trilhas?

Bom, em primeiro lugar, se carboidrato não é macronutriente essencial, isto significa que não devemos levá-lo para a trilha. Na trilha só queremos o que é essencial. Os únicos macronutrientes essenciais são as proteínas e as gorduras. Os micronutrientes, como vitaminas e minerais são essenciais, mas os carboidratos não são suas melhores fontes. Suas melhores fontes são produtos animais que não contêm carboidrato (ou contêm quantidades desprezíveis). Exemplos: ovos, queijos curados, toicinho, carnes em geral.

Chocante e inacreditável? Sim! Desde a virada do século XIX para o século XX que a indústria de alimentos vem nos convencendo de que os carboidratos são o macronutriente mais importante para nossa saúde. Na verdade, é o oposto. Não precisamos de carboidrato para viver. Mais do que isto, os carboidratos são perigosos por vários motivos. Uns mais, outros menos, mas todos elevam a insulina. A insulina é um hormônio absolutamente necessário. Sem ela, definhamos e morremos. No entanto, sua quantidade deve ser estritamente regulada. Os carboidratos, porém, desregulam sua produção e alteram seus efeitos. Quem come carboidrato tem a insulina elevada e desenvolve doenças. A mais conhecida delas, diabetes tipo 2.

Quem come carboidrato já ouviu a recomendação de que deve comer a cada três horas. Isto aí é como jogar gasolina no fogo. Comer em intervalos curtos mantém a glicose alta e força o aumento da insulina. O aumento da insulina leva à fome, pois retira glucose do sangue. Isto cria um círculo vicioso que conduz à resistência à insulina e, logo em seguida, ao diabetes tipo 2. Daí para frente nossa saúde segue ladeira abaixo. Vai para o buraco.

Mas isto é outra estória. Aqui estamos falando de comida para a trilha. Portanto, alimentos que sejam leves para carregar mas que tenham alta densidade calórica e alto valor nutricional. Ou seja, proteínas e gorduras de boas fontes.

Não consumimos proteína para nos dar energia. Este papel cabe à gordura. A proteína é nossa matéria-prima para construir e reparar músculos, criar enzimas, participar da formação de hormônios e muitas outras funções essenciais à vida. De qualquer forma, uma parte da proteína é reciclada e usada como fonte de energia. Neste caso ela nos dá 4 calorias por grama.

Barraca mais leve é aquela que alguém leva e monta para você. Depois desmonta. Como aconteceu neste caso, Mas, no deserto, com tanto vento, tanta areia e tanto frio de madrugada, sempre me pergunto se não valeria a pena botar mais 1500 g na mochila para levar uma barraca que nos desse boa proteção. Mas regras são regras... Neste caso, temos que bivacar nas barracas berberes.

Já a gordura – a fonte ideal da nossa energia – nos fornece 9 calorias por grama. Além disto, é o único alimento que não carece de desidratação para eliminar peso desnecessário. Gordura não tem água, só tem energia concentrada. Além disto, a gordura entra na formação de hormônios, absorção de vitaminas (as lipossolúveis) e até na sua fabricação, como é o caso da vitamina D. Há muitos ácidos graxos (gorduras) essenciais. Ou seja, não podemos prescindir deles.

Já os carboidratos são consumidos apenas como fonte de energia. Eles não participam de nenhuma função essencial do organismo. Eles podem sempre ser substituídos, com proveito, por gordura e proteína.

Além disto, a energia do carboidrato é fraca e porca. É fraca porque, na maior parte das formas como é usado, gera apenas em torno de 2 calorias por grama de alimento carregado na mochila (embora o carboidrato puro gere 4 calorias por grama). É porca porque sua queima exige a prévia transformação em glicose, um longo e laborioso processo. Laborioso e perigoso, porque a glicose estimula a produção de insulina e a produção elevada de insulina dispara uma série de efeitos indesejáveis, como a criação e armazenamento de gordura nos tecidos adiposos, no fígado, nas vísceras. Sem falar que a glicose "glica" as células e a hemoglobina em particular.

Por sua baixa densidade nutricional e calórica os carboidratos são inconvenientes na machila. Por todos os danos que causam à saúde, são condenáveis sempre. Por isto devemos substituí-lo por gorduras.

As gorduras nos dão 9 calorias por grama. Se forem de boas fontes (manteiga, toicinho, ghee, queijo curado) ainda nos darão vitaminas e minerais. Combinadas com a quantidade adequada de proteína de boas fontes, temos um alimento completo, nutritivo, saboroso e leve (quando comparado com o carboidrato).

Façamos um comparativo.

Digamos que o mochileiro percorra 30 quilômetros num dia. Digamos que isto signifique dispêndio de 3.500 calorias. Para suprir este dispêndio com carboidratos, o trilheiro terá que comer 1,3 quilo de pão. Mesmo assim, ficará desnutrido, pois faltarão vitaminas, minerais, proteínas e gorduras.

Agora, para suprir a mesma demanda usando ovo desidratado e gordura, ele precisará comer (e levar) apenas 470 gramas. Portanto, uma economia de 830 gramas por dia de viagem. Para uma travessia de dois dias isto significaria uma economia de mais de um quilo e meio de peso!

Mas não é só isto. O ovo é um alimento completo em termos de aminoácidos, vitaminas, minerais e ácidos graxos essenciais. Com um pouco mais de gordura para completar as calorias gastas, temos um alimento perfeito para a trilha e para a saúde.

Também a carne é uma fonte de proteínas de alto valor biológico. Como o ovo, ela traz uma boa quantidade de gordura de boa qualidade. Se estiver bem desidratada conseguiremos eliminar até uns 80% da água. Talvez mais. Portanto, atingiremos uma densidade calórica próxima de 4 calorias por grama transportada. Colocando um pouco mais de gordura extra, chegamos ao mesmo efeito obtido com o ovo.

A mesma coisa se pode dizer do queijo, da proteína do soro do leite (whey protein), entre outros.

Caminhos novos

Quem faz trilha gosta de descobrir novos caminhos. Para muitos, comer de forma saudável carregando menos peso é um caminho novo. Mas, para que isto se torne realidade, é preciso abandonar alguns mitos. O principal deles é o de que carboidrato é essencial. Pior ainda, que é a melhor fonte de energia rápida. Não é. Não é essencial e não é a melhor fonte de energia rápida. Aliás, de que grau de “rapidez” estamos falando quando estamos na trilha? Trilha não é corrida de 100 metros rasos. Não é nem mesmo uma corrida de 10 K. Portanto, não nem como falar em necessidade de “energia rápida” na trilha. Dependendo da trilha e da mochila, na média raramente avançamos a mais de 4 quilômetros por hora. Não é raro fazermos muito menos do que isto. Portanto, não precisamos de "energia rápida", precisamos de energia constante.

Caminhos novos, sim, mas sem burrice. Planejamento não dispensa prudência. No terreno, não percebi quando a trilha virava 90 graus à direita (de Nordeste para Sudeste) e passei de liso, seguindo o que parecia a trilha verdadeira. Notei o erro no ponto vermelho, mas achei que podia seguir em frente, pelo percurso marcado em azul. Não fui sensato e resolvi quebrar mato. No caso, quebrar taboquinha. Afinal, a bússola me dizia que era só seguir em frente e a carta me dizia que eram menos de 200 metros. Mas que 200 metros! Perdi umas duas horas neste pedacinho tentando me esgueirar entre as taboquinhas e o capim amarelo. A mochila agarrava de um lado, minha mão ficava presa do outro, a bota escorregava no capim seco do solo, a calça prendia num arbusto... Não consegui ir adiante e gastei tempo para voltar. Descobri da pior forma por que os pioneiros fizeram o desvio à direita (Sudeste). Gastei muita energia e vi a escuridão tomar conta de vez. Finalmente desisti de ser teimoso, voltei até encontrar a trilha escondida no capim. Foi um final de travessia mais emocionante do que o normal.

Vamos repetir: nossa necessidade de carboidrato é zero. Além disto, quem come carboidrato precisa comer com frequência. Possivelmente a cada três horas. Já quem só come proteína e gordura pode ficar o dia inteiro sem comer que não sentirá falta de energia. Pode até passar mais tempo do que isto, pois seu organismo saberá onde buscar mais energia: nas gorduras que todos nós temos nas vísceras (onde não deveriam estar) e no tecido subcutâneo (onde é uma reserva bem-vinda).

Gordura e proteína saciam; carboidratos dão fome.

Em atividades esportivas de curtíssima duração (segundos) e de longa duração (mais de duas horas), os alimentos ricos em carboidrato não só não ajudam, como são prejudiciais. Nas atividades de alta intensidade, com duração de vários minutos até uma hora ou duas, o consumo de pequenas doses de carboidrato pode até ajudar no desempenho, mas isto está fora do escopo deste texto.

Nas trilhas, nas atividades físicas de longa duração (mais de duas horas), o consumo de carboidrato geralmente traz prejuízos. Para a saúde e para o desempenho.

O que comer na trilha

Quando a pessoa se convence de que carboidrato é desnecessário e inconveniente nas trilhas, a etapa seguinte é saber o que comer. Se depender dos fornecedores típicos, será difícil. As lojas de esportes, montanha, trilhas e acampamentos não têm conhecimento técnico e não têm oferta de alimentos baseados apenas em proteína e gordura. Então, pode ser necessário que cada um crie seus próprios alimentos.

Para suprir esta omissão das lojas, aqui vão algumas dicas.

Ovo – O ideal é usar ovo desidratado, mas para uma trilha de um dia, podemos levar ovo cozido. Do ponto de vista da proteína, 200 g de ovo desidratado fornecem 100 g de proteína de alto valor biológico. Esta quantidade é mais do que satisfatória para a maioria de nós, mesmo em dia de muito esforço. Estas 200 g de ovo fornecem 1.200 calorias. Para completar o dispêndio enérgico do dia, podemos usar, em ordem de preferência: toicinho, ghee, manteiga, óleo de coco, azeite de dendê, azeite de oliva. Basta lembrar que cada 100 g de gordura dá 900 calorias. Portanto, 200 g de ovo desidratado mais 100 g de toicinho darão 2.100 calorias. Isto pode vir tudo numa única refeição que pesa apenas 300 gramas.

Charque estilo americano (jerky) – Feito em casa, podemos controlar a densidade de proteína removendo a água. Desta forma, 100 gramas pode nos dar 70 g de proteína e talvez uns 15 gramas de gordura.

A grande vantagem do charque é que se trata de um alimento ótimo para ser mastigado enquanto caminhamos. Não precisamos parar para comer. 100 ou 200 gramas por dia supre café da manhã, almoço e jantar no que concerne à quantidade de proteína. Depois devemos comer gordura suficiente para completar a necessidade de calorias.

Proteína de soro leite (Whey protein) – 100 g de proteína de soro de leite nos fornece toda proteína que precisamos para um dia inteiro de trilha. Também neste caso é só completarmos com gordura em quantidade suficiente para repor as calorias queimadas. Podemos acrescentar manteiga ao soro e temos um prato gostoso, completo e leve.

Ao dizer leve, estou me referindo ao peso para carregar na mochila. No entanto, é oportuno acrescentar que proteínas e gorduras não são alimentos “pesados” para a digestão. Ao contrário, são leves nisto também. O que pesa após o almoço são os carboidratos, não as proteínas e gorduras.

Biltong – é um tipo de carne desidratada usada na África do Sul. Por aqui não é fácil de achar, mas é fácil de fabricar em casa. Da mesma forma que fazemos com o charque, é só comer e completar com alguma fonte de gordura.

Jerky – Nos Estados Unidos pode ser comprado até em farmácias. Por aqui é difícil de encontrar. Por aqui, temos que fazer em casa. Felizmente é uma das coisas mais fáceis de fazer. Bem feito e bem armazenado, dura muitos meses e até anos.

Pemmican – Este é um alimento desenvolvido pelos índios Crees do Canadá, mas que foi usado em toda a América do Norte desde tempos imemoriais. Na época da conquista do território americano, foi adotado como alimento típico (e muitas vezes único) pelos aventureiros e exploradores europeus. Em sua versão básica e tradicional, é feito com 50% (por volume) de carne seca pulverizada e 50% (por volume) de gordura animal. Pode-se comer do bornal para a boca, ou pode-se cozinhar.

Conservas – não são meus alimentos preferidos, especialmente pelos inúmeros aditivos que a indústria coloca neles, inclusive açúcares e o maldito glutamato monossódico. Mesmo assim, podem ajudar na trilha e costumam ser mais saudáveis do que os carboidratos: salaminho, salame, bacon, queijo curado, creme de leite concentrado, atum e sardinha (em água, nunca no óleo de soja ou moho de tomate!), carne seca, jabá, bacalhau...

Frutas – Especialmente por causa da frutose, as frutas são venenos para o fígado em particular e para o corpo como um todo. No entanto, há três frutas que são toleráveis e podem ajudar na trilha: abacate, coco da Bahia (maduro e sem a água), azeitona na salmoura. Sem exagero, pois embora tenham gorduras boas, também contêm carboidratos, oxalatos e outras coisas não tão boas.

Peso e praticidade

Estes alimentos são leves (comparados com carboidratos) e são muito práticos. Todos podem ser degustados sem precisar de fogo ou de água. No entanto, no caso do ovo e da proteína de soro em pó, é recomendável dissolver em água. Para isto se presta muito bem a caramanhola ou uma garrafinha de água mineral. Com este preparado já almoçamos e bebemos água ao mesmo tempo.

Comida de conforto é aquela que dá prazer e traz tranquilidade. As comidas acima são práticas e podem ser consumidas durante a caminhada. Mas podem ser transformadas em comida de conforto após montarmos o acampamento. Aí podemos fritar as carnes e gorduras e dissolver o ovo e a proteína do leite em água quente. O cheiro estimula o paladar e lembra a cozinha de nossa casa.

Mas, se você quiser realmente viajar leve, deixe para trás o fogareiro, o gás e as panelas. Coma diretamente do bornal. Economiza-se peso, ganha-se tempo, dispensa-se uso de água para lavar utensílios. O lixo que sobra é no máximo um saquinho que guardamos no bolso até o retorno.

De Baependi, a caminho de Aiuruoca. Em dois dias, nunca sequei as duas caramanholas. Uma teria bastado. Água abundante no percurso.

Como curiosidade, convém lembrar que a palavra impedimento vem do latim impedimentum e seu coletivo impedimenta. Este coletivo se referia aos apetrechos e equipamentos que os legionários levavam nas guerras. Como eles pesavam e embaraçavam o deslocamento a palavra entrou na língua comum com o significado de “obstáculo, óbice, aquilo que dificulta, que impede”.

Neste sentido, comida pesada significa mochila pesada. Mochila pesada é impedimento.

Para os curiosos, este tipo de dieta é conhecida como “cetogênica”. Isto porque ela provoca o que se chama de “cetose nutricional”. Este é um estado fisiológico em que seus músculos e todas as células em geram passam a consumir gordura como fonte exclusiva de energia. Algumas células precisam de um pouco de carboidrato. É o caso do cérebro, que precisa de uma pitada de glucose para funcionar bem. Cerca de 30% da energia. Os outros 70% ele tira dos “corpos cetônicos”, derivados das gorduras. Mas esta glicose não precisa vir e não deve vir dos alimentos. Ela é gerada pelo fígado a partir de aminoácidos e da gordura. Desta forma, numa haverá falta nem excesso.

Em resumo: comida de trilha deve ser densa, muito nutritiva e hipercalórica. Para que seja assim, temos que nos livrar dos carboidratos. Por exemplo, em cada 100 g de pemmican tradicional temos 26 gramas de proteína, 52 gramas de gordura e menos de 1 grama de carboidrato. Isto nos dá um total de 575 Kcal (5,75 por grama!) num alimento completo e pronto para ser comido. Melhor ainda: na proporção ideal de macronutrientes: 19% das calorias advêm da proteína e 81% advêm das gorduras. Portanto, perfeito para a leveza necessária na trilha.

A experiência alheia é mais barata do que a nossa própria. No meu planejamento, sempre que possível, leio os relatos e analiso os registros de GPS de quem já fez a trilha antes. Isto poupa tempo, elimina erros e diminui os riscos. No caso acima, trabalhei com um arquivo GPX para retraçar a trilha. Infelizmente não mantive o nome do autor do GPX após transpor as coordenadas para a carta topográfica.

Depois de mais de 50 anos engrupidos pela indústria alimentícia, é sabidamente difícil regurgitar as lendas que envolvem os carboidratos e engolir a ciência envolvida no uso das proteínas e das gorduras saudáveis. Mas é necessário para quem ter melhorar a saúde e viajar mais leve pelas belíssimas trilhas e montanhas do nosso Brasil e do mundo inteiro.

Fernando Cabral
Fernando Cabral

Published on 09/16/2020 12:16

Performed on 09/16/2020

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3 Comments
Jone Rodrigues 09/22/2020 10:57

Excelente matéria Fernando. obrigado por compartilhar.

Fernando Cabral 09/22/2020 13:20

Obrigado, Jone. Espero não ter assustado nem aborrecido os apreciadores de carboidratos.

Sabrina Marques 10/14/2020 12:02

Muito boa a matéria! Obrigada!