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Cordilheira Huayhuash - Peru

Cordilheira Huayhuash - Peru

Próximo da cidade de Huaraz no Peru, foi eleito um dos trekkings mais bonitos do mundo! Trekking realizado em agosto de 2009.

Camping High Mountaineering Trekking

Texto original publicado em www.naturezaadentro.blogspot.com

Dia 1

Dia 4 de agosto!! Finalmente havia chegado o dia!
Acordamos cedo, tomamos um café reforçado, terminamos de arrumar os equipamentos e na hora marcada estávamos todos "listos" para começar a tão sonhada aventura.
Para nossa sorte, praticamente em cima da hora, mais 2 casais foram agrupados em nossa expedição. Isso fez com que nós ganhássemos um "upgrade" no pacote acordado com a agência de trekking. Nós iríamos usar o transporte público, e por conta disso teríamos que madrugar para pegar o ônibus. Como o grupo aumentou, nosso transporte passou a ser privado, e teríamos também um guia auxiliar e um cavalo de emergência durante todo o trajeto. Outra grande vantagem que ganhamos foi evitar um longo trecho de caminhada pela estrada, bastante cansativo. A van nos deixaria no primeiro acampamento de Huayhuash.
Assim, não nos importamos muito quando o Scheler – o dono da agência – nos ligou dizendo que iria atrasar um pouco.


As 9hs, a van veio nos buscar no hotel. Em seguida, fomos apresentados aos casais Luis e Cristina, escritores de BH e Alberto e Maria, espanhóis de Madrid. Também conhecemos o nosso guia Diogenes, que iria nos acompanhar nos próximos 10 dias. Com todos embarcados, pegamos a estrada em direção a Huayhuash.
Após uma rápida pausa na estrada para esticar as pernas, chegamos na cidade de Chiquian em tempo para almoçar. Chiquian é uma cidade pequena, de ruas estreitas, e conhecida pelos locais como "espejito del cielo" (espelho do céu).
Depois do almoço, seguimos por uma estrada de terra bastante estreita, em direção ao povoado do Llamac. A partir dessa localidade, as comunidades campesinas cobram pequenos valores dos trekkers. São valores que oscilam entre 15 e 30 soles (algo em torno de 10 a 20 reais) por pessoa. Eles alegam que esse pagamento é usado para garantir a segurança dos caminhantes. Reza a lenda que Huayhuash foi, num passado não muito distante, um refúgio dos guerrilheiros do Sendero Luminoso.
Depois de um bom tempo sacolejando dentro da van, finalmente chegamos ao acampamento de Cuartelhuain. Lá já estavam outras expedições, devidamente acomodadas. Estávamos radiantes com a visão dos primeiros picos nevados, o Rondoy e o Ninashanca. Fizemos um reconhecimento das cercanias do acampamento e tiramos inúmeras fotos.


Antes de se despedir, o Scheler nos apresentou toda a equipe, que consistia do cozinheiro Cirilo, dos arrieiros Willy, Severo e Isaak, do guia auxiliar Michel, além do Diogenes. Também ficamos sabendo que a nossa expedição teria um total de 14 burros para carregar todos os equipamentos, provisões, etc. Depois de feitas todas as apresentações, o Scheler se despediu, deixando seus votos de boa sorte e bom proveito.
Tivemos bastante tempo para começar a acostumar com o clima do acampamento e entender seu funcionamento. Antes que começasse a escurecer, Diogenes nos chamou para um rápido lanche. Nos chamou a atenção a qualidade da comida, e o cuidado com que tudo era feito.
Esses momentos na barraca refeitório eram especiais porque serviam para integrar todos os participantes do trekking, e também propiciavam momentos de muito riso com a sessão de piadas. O Alberto já brincava com o Rafael dizendo que estava fazendo um curso "fast-food" de português.
Logo depois de escurecer, o frio chegou com muita força. Por volta das 19hs, fomos convidados para o jantar. O difícil era sair da barraca com o tanto de frio que fazia do lado de fora. Mas o jantar compensava o sacrifício. Além disso, aproveitamos para conversar com o Diogenes e, ávidos por saber mais da trilha, procuramos absorver o maior número de detalhes. Estávamos todos muito ansiosos para começar a caminhar de verdade! O Diogenes nos chamou a atenção para o primeiro dia, que seria uma grande pedreira.
Como é praxe nesse tipo de expedição, logo nos retiramos para as barracas, para descansar e preparar tudo para o dia seguinte. Diogenes passou as instruções, informando que as 6:30hs seríamos chamados para o chá "madrugador" e que até as 7hs já deveríamos estar prontos, com todo o equipamento fora da barraca.
Em pouco tempo, a ansiedade que todos compartilhavam cedeu espaço para o cansaço e o acampamento se cobriu de silêncio.
Finalmente estávamos em Huayhuash, o destino tão sonhado!!! Agora nos restava percorrer seus caminhos e desvendar seus segredos.

Dia 2

Dia 5 de agosto!! Hora de começar a caminhar...


As 6:30 pontualmente estavam nos chamando para tomar o "té madrugador". Antes do café, tínhamos que colocar os equipos que não seriam usados durante o dia na mochila cargueira, que seguiria com as mulas. Só ficaria na mochila menor o básico.
Enquanto eu arrumava minha mochila, o Rafael comentava que pouco tinha dormido por causa de um desarranjo intestinal que o obrigou a ir várias vezes à latrina enfrentando o frio da madrugada. Ele também havia vomitado bastante e disse que ainda não se sentia aclimatado. Era a primeira vez que ele estava nessa altitude (Cuartelhuain estava a 4100m), e o seu corpo estava reagindo e forçando a aclimatação.
Cada pessoa se aclimata em um tempo diferente. No meu caso, o caminhada à Laguna Churup, no primeiro dia, foi suficiente para colocar tudo nos eixos.
Outro complicador era o frio. Certamente, a sensação térmica no acampamento era de uns 5 graus. Lutando contra o frio e a ansiedade, as 7hs eu já estava com minhas mochilas arrumadas e fora da barraca. O restante da turma chegou logo depois.
Enquanto tomávamos café, os arrieros já pegavam nossas mochilas e começavam a preparar as mulas para a caminhada. Tão logo deixássemos o acampamento, eles desmontavam tudo e nos seguiam.
Segundo Diogenes, o ideal era que as 7:30 nós já estivéssemos caminhando, pois o dia seria muito duro, com dois “pasos” para atravessar. Enquanto todos se preparavam, sentia os dedos dos meus pés doendo de tanto frio.
Infelizmente, acabamos nos atrasando um pouco, e só deixamos o acampamento as 8hs, em direção ao passo de Cacananpunta (4700m de altitude). A subida era bem longa e durante cerca de 1 hora caminhamos na sombra, com o frio ainda nos castigando.
Por volta das 9:15, fizemos uma parada. Aproveitei para tirar um dos casacos, pois o sol já aparecia. A preocupação do Diogenes era com o Rafael, que vinha subindo lento, acompanhado apenas pelo Michel, o guia auxiliar. Enquanto esperávamos pelo nosso amigo, curtirmos um pouco o sol de Huayhuash. Do ponto onde estávamos, podíamos ver a movimentação dos arrieros no acampamento, quase prontos para começar a subir também.
Assim que o Rafael chegou, comentou que estava sem fôlego. Assim que ele se recuperou, voltamos a caminhar. Depois de mais um trecho, quando os arrieros e as mulas já haviam nos ultrapassado, Diogenes sugeriu que o Rafael usasse o cavalo, pois ainda havia uma forte subida e havia a preocupação com o horário de chegada no acampamento. Diante desse último argumento, o Rafael aceitou usar o cavalo.


Por volta das 10:50 finalmente chegamos ao primeiro passo. Fizemos uma rápida pausa para descansar e tirar algumas fotos, e logo começamos a descer. Eu estava me sentindo bem, embora minhas pernas doessem um bocado por conta das fortes câimbras que tive na laguna Churup.
Seguimos por um trecho mais ou menos plano, por cerca de 1 hora e meia. Próximo de um acampamento intermediário, fizemos uma pausa para o almoço.
Meia hora depois, voltamos a caminhar sabendo que logo começaria mais uma subida. A esperança era que não fosse tão dura como a primeira. O lado bom é que a paisagem à nossa volta compensava todo o esforço!!
Chegamos num ponto onde havia a necessidade de fazer o pagamento de mais um "pedágio". Logo depois desse ponto, a trilha voltava a subir, muito forte. Fui subindo devagar, me sentindo "pesado" e cansado, e para me motivar, ia mentalizando pequenos objetivos, tais como: "vou chegar naquela pedra", "agora até aquele trecho plano", etc.
Em determinado momento olhei para trás, e vi Gilmar e Alessandra começando a subir e o Rafael um pouco mais atrás, ainda bem lento. Continuei subindo, e logo me juntei ao Luis, Cristina, Maria e Alberto. Assim que parei para descansar, vomitei. Fiquei muito preocupado, mas tentei tirar os medos da cabeça e voltei a caminhar bem devagar.


Para minha surpresa, aos poucos fui me sentindo cada vez melhor, e passei a caminhar forte. Logo o Gilmar, e depois a Alessandra, se juntaram a mim, e às 16hs nós chegamos no passo de Punta Carhuac (4650m). Esperamos o restante da turma chegar e ficamos sabendo que o Rafael voltou a usar o cavalo na subida, pois estava se sentindo muito mal.
Após uma rápida pausa para descanso, começamos mais uma longa descida até o acampamento. Segundo o Diogenes, já estávamos muito atrasados. Durante todo o trajeto da descida, procurávamos incentivar o Rafael, que só pensava em descansar. Ele perdeu até a vontade de fotografar...
As 17:30 chegamos no mirante da laguna Carhuacocha. A tonalidade da água aos pés dos nevados realmente era uma visão fantástica e animadora. Não nos demoramos, pois começava a escurecer. Eu estava muito cansado e não via a hora de chegar ao acampamento. Para nossa decepção, ele era o mais distante da laguna e só cheguei lá as 18hs. O Rafael chegou uns 15 minutos depois e foi direto dormir.
Como já era tarde, logo nos chamaram para jantar, mas o Rafa disse que não estava sentindo fome. Foi a Alessandra que o forçou a tomar um pouco de sopa e comer algo. Durante o jantar eu conversei com o Diogenes sobre a situação do nosso amigo. Ele comentou que era totalmente viável fazer todo o trekking a cavalo e que também que existia uma “rota de fuga” do trekking, passando pelo povoado de Queropalca, e de lá retornar para Huaraz.
Assim que voltei para a barraca, comentei sobre essas possibilidades com o Rafael. Ele tentaria descansar e ver como acordaria na manhã seguinte. Sem dúvida, a decisão final teria que ser dele.
Diante dessa situação preocupante e inesperada, o grupo foi descansar. Com certeza foi um dia bastante duro. Caminhamos uns 20 quilômetros, atravessando dois passos bem complicados. Logo em nosso primeiro dia de caminhada, passamos por um difícil teste.
O dia seguinte seria um dos mais bonitos de toda a trilha, e essa era a nossa motivação quando fomos dormir.

Dia 3

Dia 6 de agosto!!
Embora estivesse muito cansado pelo esforço do dia anterior, foi uma noite difícil, com um sono "cortado". Já estava completamente desperto quando o Diogenes nos chamou para tomar o "madrugador".
Assim que começo a tomar o chá, o Rafael me diz que iria abandonar o trekking, pois sua noite também foi difícil e ele não estava se sentindo bem!! Eu achava que estava preparado para ouvir essa decisão, mas sempre é muito complicado ver um amigo forçado a abandonar algo que planejou com tanto afinco por quase 1 ano.
Terminamos de arrumar os equipamentos silenciosamente, deixamos tudo fora da barraca e seguimos para o café da manha. O Rafael conversou com o Diogenes sobre sua decisão, e este logo começou a preparar tudo. Mostrou para ele o trajeto a ser feito, conseguiu mais um cavalo e destacou o Severo para acompanhá-lo a cavalo até o povoado de Queropalca. De lá, o Rafael deveria pegar transporte coletivo até chegar a Huaraz. O Luis, tentava quebrar esse momento triste dando dicas sobre o que o Rafa poderia fazer por lá. Uma das dicas era fazer uma ascensão solo ao Huascaran... :)
Logo depois do café, nos despedimos do Rafael com muita tristeza e preocupação. Para ele, começava outra aventura.
Nesse dia, especialmente, não poderíamos contar com o cavalo de emergência, pois a trilha em alguns trechos era muito estreita e inclinada. O cavalo seguiria com as mulas e os arrieros por uma antiga trilha.
Ainda no acampamento, fizemos o pagamento do pedágio. As 8hs em ponto, começamos a caminhar. Logo após deixar o acampamento, cruzando uma ponte, já havia um outro ponto de pedágio.
As feias nuvens que cobriam toda a laguna Carhuacocha haviam sumido, deixando a mostra os colossos nevados do Yerupaja, Yerupaja Chico e Jirishanca. A trilha vai contornando toda a laguna, com um visual espetacular.


Logo a trilha começava a subir e abandonamos a laguna. Os maciços nevados nos acompanhavam o tempo todo. Cada um mais fantástico que o outro. Eu não parava de tirar fotos!!!
A trilha voltou a ficar plana, e nos aproximávamos das três lagunas. Por volta das 10:30, o Diogenes nos chamou para subir um pequeno elevado para vermos mais de perto uma das lagunas. Ela estava praticamente congelada. Ficamos praticamente meia hora observando as lagunas, as montanhas e as avalanches que vez ou outra insistiam em romper o silêncio.


Voltamos a caminhar. Agora começaríamos a subir o passo Siula (com 4850m). A subida é traiçoeira, com muitos trechos escorregadios e bem íngremes. A Cristina puxava a fila e todos seguíamos no seu ritmo, o que naquelas circunstâncias, não era nada ruim.Conforme subíamos, o visual das três lagunas ia ficando mais fantástico. As câmeras fotográficas trabalhavam sempre que fazíamos uma pausa. Depois de 1 hora e meia de subida, a trilha fazia uma longa curva para a esquerda e entrava num (enganador) trecho plano. Nós olhávamos para a frente e víamos uma verdadeira parede com encostas repletas de cascalho e areia. Com certeza não seria por ali que iríamos passar. Mas era!!!
Fomos subindo lentamente. Um passo em falso, e certamente sofreríamos um grande tombo. O ar faltava para todos. Numa das pausas, vi uma das cenas mais impressionantes do trekking. A Cristina, que já havia entregue sua mochila para o Michel carregar, estava totalmente sem fôlego e muito cansada. O Diogenes, que deve medir 1,60 no máximo, simplesmente colocou a Cristina em seus ombros e começou a subir aquele trecho inclinado. Sem dúvida, ele se mostrou um guia muito forte.
Finalmente, as 13:30 chegamos ao topo do passo Siula. Descansamos bastante e aproveitamos para almoçar. Tínhamos vencido um dos passos mais temidos da trilha e obviamente, todos estavam muito cansados. Segundo o Diogenes, até uns 5 ou 6 anos atrás, o passo Siula não era usado, mas sim a trilha que estava sendo usada pelas mulas e pelo cavalo.


Como ventava muito e começamos a sentir frio, não demoramos a descer a longa trilha até o acampamento Huayhuash, que ficava a 4300m de altitude. A descida é bastante forte, mas consegui andar bem rápido para acompanhar o Diogenes.
As 16hs, chegamos ao acampamento. Para minha tristeza, vejo que iria começar a sofrer com bolhas durante a caminhada. Uma ou outra já começavam a me incomodar.
Dei uma geral nos equipamentos, e descansei um bocado. Acho que acabei cochilando, pois levantei meio “sonado” com muito barulho vindo do lado de fora. Quando abri a barraca, vi os arrieros e guias batendo uma bolinha num campo improvisado. Fala sério! Jogar futebol a 4300m de altitude, realmente não é para qualquer um. Me recolhi à barraca novamente, antes que eles resolvessem me convocar para um amistoso Peru X Brasil.
Logo a noite caiu sobre o acampamento e fomos chamados para o jantar. Conversamos, comemos, conversamos, rimos, contamos piadas para ajudar a passar o tempo. Do lado de fora, um frio tenebroso. Antes de irmos dormir, Diogenes nos animou um pouco, dizendo “amanhã a trilha será mais tranquila".
A medida que todos retornavam às suas barracas, o silêncio voltava a reinar em Huayhuash...

Dia 4

Dia 7 de agosto!!
Religiosamente às 6h30 fomos acordados para o chá madrugador.
Depois de dois dias bem difíceis, confesso que acordei mais animado com a perspectiva de ter um dia mais tranquilo, conforme comentado pelo Diogenes. Outra coisa que nos animava era a expectativa de conhecer as águas termais de Atuscancha.
Tomamos um café da manhã reforçado e bastante descontraído, pois a presença do Luis sempre nos garantia boas risadas.
Aos poucos íamos nos acostumando com o ritmo da caminhada e também como as coisas aconteciam no acampamento. Nosso "relógio biológico" começava a se ambientar com o fuso horário, e o nosso corpo, cada vez mais aclimatado, sentia cada vez menos o desconforto da altitude e as dificuldades de uma trilha tão exigente.
No horário estabelecido, já estávamos caminhando novamente. Por cerca de duas horas, subimos tranquilamente pela trilha, ladeando bonitas lagunas. A subida era bastante longa, mas suave. E, praticamente sem perceber, chegamos às 10h30 ao topo do passo de Portachuelo (4750m de altitude).


Fizemos uma rápida pausa, onde aproveitei para tirar muitas fotos. Ao fundo do vale, já podíamos avistar a laguna Viconga, que era o nosso próximo objetivo. Para alcançá-lo, teríamos uma longa descida. A trilha era bem larga e não trazia nenhuma dificuldade. Com isso, podíamos andar todos juntos, conversando animadamente!
Às 12h em ponto, bem próximos da laguna, paramos para o nosso almoço. Perto dali, haviam algumas casas bem simples, e as crianças que lá moravam vieram correndo ao nosso encontro. Primeiro nos pedem "plata", o que negamos. Depois pedem doces e balas... Em nosso "box lunch" sempre tinham algumas balas, que agora eu desconfio que estavam ali justamente com esse propósito.
Depois de almoçar e descansar um pouco, recomeçamos a caminhada. Começamos a contornar a laguna Viconga, e descobrimos que ela era bem maior do que parecia. Um pouco distante, numa das margens da laguna, aparecia o Nevado Viconga.


Conforme voltamos a subir, começou a nevar bem fraquinho. Era a primeira vez que víamos neve na trilha. Logo chegamos ao topo do vale, onde havia mais um pedágio para pagar. Acertamos tudo com os moradores, e voltamos a descer um curto trecho. A neve começava a cair cada vez mais forte.
Nosso acampamento, ficava mais distante do que os outros. Para chegar até ele, tivemos que margear um longo canal de água. A mureta por onde seguíamos era bastante estreita e perigosa. Alguns trechos eram expostos, e o cavalo teve que passar por um desvio. Alguns acharam mais seguro seguir o cavalo!
As 13h30, debaixo de bastante neve, chegamos ao acampamento Viconga, instalado a 4400m de altitude. Rapidamente, fomos para as barracas descansar um pouco e esperar que a nevasca parasse.
Logo percebemos outra característica do lugar. O tempo mudava com extrema rapidez. O sol voltou a brilhar, e decidimos ir até as águas termais. Andamos mais ou menos uns 25 minutos até chegar nas piscinas. Os tickets que recebemos no último pedágio eram o "passe" para entrarmos sem pagar.
As fontes de Atuscancha eram formadas por duas piscinas, com a água aquecida a 50º. A menor delas, permitia o uso de sabão e shampoo. O tempo já estava bem mais frio, e depois da dificuldade de tirar a roupa, todos aproveitaram bastante a água quente. E, enquanto estávamos curtindo as piscinas, voltou a nevar, bem fraquinho. A situação era no mínimo, curiosa.
A tarde ia chegando ao fim, e precisávamos voltar ao acampamento. Encarar o frio depois da água quente, foi outra dificuldade. Secos e com roupas quentes, encaramos a trilha de volta. Para subir tudo, levamos meia hora.


Revigorado com um banho de verdade, voltei para a barraca e aproveitei para dar uma geral nos equipamentos. Nem percebi quando a noite caiu e nos chamaram para o jantar.
Depois do jantar, saindo da barraca refeitório, percebi rapidamente que teríamos uma noite muito fria. Me enfiei no saco de dormir, e ainda tive tempo de rememorar os acontecimentos dessa caminhada até então. As bolhas me incomodavam um pouco e ainda teríamos mais 3 dias de trilha antes da subida ao Diablo Mudo.
A dúvida se conseguiria ou não subir a montanha me incomodava bastante e não saía da minha cabeça. Mas vencido pelo cansaço, não demorei a dormir.

Dia 5

Dia 8 de agosto!
Acordei e agradeci pelo meu organismo já estar tão bem aclimatado. Não tinha nenhuma dificuldade para acordar mais cedo que o esperado. As 6hs da manhã já estava desperto, e arrumando o meu equipamento.
Pelo menos comigo, um sinal claro da aclimatação ocorre quando minhas idas ao banheiro funcionam como um relógio. E era o caso! Por volta das 6:15, encarei o frio e fui até a latrina. Na volta, me acabei de tanto rir, quando encontrei as roupas de banho do Gilmar e da Alessandra do lado de fora da barraca deles. Com o frio e a geada da madrugada, estavam brancos e parecendo uma pedra!!
Quando o Diogenes e Michel nos chamaram para o chá madrugador, eu já estava "listo" para começar o dia! O café da manhã como sempre, foi muito animado. Hoje seria o dia de superar o maior passo da trilha, com 5000m de altitude. Por isso, embora todos se sentissem bem, havia uma certa preocupação no ar!
Como sempre, por volta das 8hs começamos a caminhar. O fato do nosso acampamento ser mais afastado dos demais acabou se mostrando uma vantagem, pois economizamos um bom trecho de subida. A trilha mesclava trechos planos e subidas fortes, mas todo o grupo mantinha um bom ritmo. Durante uma das subidas, a Alê começou a reclamar de dores no ciático. Por precaução, sugerimos que ela fizesse esse trecho a cavalo.
Depois de uma curva acentuada, avistamos outros grupos no topo do passo. Mesmo sem perceber, isso trouxe para o grupo uma dose extra de ânimo. E por volta das 10:30hs, chegamos ao Paso Punta Cuyoc, tendo um visual incrível da Cordilheira Huayhuash. Fizemos uma parada mais longa, e tiramos muitas fotos.


Embora a vista fosse magnífica, tínhamos que voltar a caminhar. E como a máxima "tudo que sobe, tem que descer" é verdadeira, logo de cara encaramos uma descida muito forte, que exigiu bastante das pernas. Mesmo descendo rápido, era preciso pisar com cuidado, pois haviam muitas pedras soltas. Ao final dessa descida, aproveitamos para fazer nosso almoço, praticamente aos pés do Nevado Cuyoc.
O tempo começou a fechar, e nos apressamos para voltar a caminhar. A trilha ficava mais tranquila, pois agora só teríamos que atravessar um longo vale. Durante esse trecho, voltou a nevar, bem de leve. E depois de aproximadamente 2 horas de caminhada, avistamos nosso acampamento no final do vale. E precisamente às 14hs, chegamos a Guanacpatay, que ficava a 4300m de altitude. Como chegamos cedo, tivemos toda a tarde para descansar.


A noite, durante o jantar, ficamos sabendo através do Diogenes que no povoado de Huayllapa havia um telefone rural. Ficamos animados com a possibilidade de falar com nossos familiares, ainda mais porque no dia seguinte seria o Dia do Pais.
O Diogenes aproveitou para sugerir uma alteração no nosso roteiro. De acordo com a programação original, deveríamos pernoitar em Huayllapa. Mas Diogenes diz não gostar do local e prefere andar um pouco mais, subindo até o acampamento seguinte. Teríamos a grande vantagem de caminhar bem menos no dia que antecederia à subida ao Diablo Mudo. Diante de tão forte argumento, todos concordaram com a sugestão do nosso guia.
Assim que terminou o jantar, ainda fiquei um bom tempo apreciando a noite estrelada de Huayhuash. E fui descansar com uma confusão de sentimentos: dúvidas sobre minhas condições físicas para subir o Diablo Mudo, saudade dos familiares e amigos, mas acima de tudo, uma grande felicidade por estar em um lugar tão fascinante!

Dia 6

Dia 9 de agosto!!
Para variar, acordei mais cedo que todos, e quando me chamaram para tomar o chá madrugador, já estava com os equipos arrumados. Depois do café, iniciamos a nossa caminhada, já sabendo que seria bem puxada.
Foi fácil constatar, assim que começamos a andar, que havia nevado bastante à noite. As encostas das montanhas estavam repletas de neve, brilhando sob os raios do sol, e deixando tudo mais bonito. A primeira parte da trilha descia através do vale, e íamos caminhando sem pressa admirando o visual. Logo encontramos algumas cabanas de criadores de gado. Enquanto o povo brincava com os cães pastores, tirei o excesso de roupa e caprichei no protetor solar. O sol já não estava para brincadeira!!!


Continuamos a bonita descida até um mirante, onde podíamos ver o primeiro objetivo do dia: o povoado de Huayllapa. A partir daí, a trilha se transformava em um forte zigue-zague. Era preciso descer com cuidado, pois havia muita poeira e escorregava muito. Ao chegamos no fundo do vale, a trilha acompanhava um rio caudaloso.
Eu me sentia muito bem, e avançava com rapidez. Porém, comecei a ficar preocupado com a demora do Gilmar e da Alessandra. Parei para descansar ao lado de uma bonita cachoeira, disposto a esperar por eles. Alguns minutos se passaram e a Alê me alcançou dizendo que o Gilmar estava sentindo dores. Pouco depois, e ele apareceu no nosso campo de visão, mancando. Quando se aproximou, comentou que as dores eram no tendão. Essa era uma grande preocupação, pois há cerca de 1 ano e meio antes da viagem, ele já havia operado um dos tendões, rompido durante um jogo de vôlei.
Mas não podíamos parar e seguimos adiante. O Gilmar informou a todos sobre suas condições e nosso guia Diogenes ficou muito preocupado. Fomos avançando devagar, e pouco antes do meio dia chegamos na entrada de Huayllapa, que curiosamente, era o ponto de menor altitude de todo o trekking (3600m).
Após pagarmos mais um pedágio, ficou a dúvida: paramos em Huayllapa ou seguimos morro acima?? O nosso guia estava realmente inquieto, e logo ficamos sabendo que um dos arrieros havia perdido 3 burros no último acampamento e, mais impressionante, estava voltando para buscá-los.
O Gilmar não aceitava a idéia de fazer o restante do trecho a cavalo, mas ao saber que para abandonar o trekking seriam necessários mais dois dias a cavalo, resolveu terminar a trilha à qualquer custo. Depois de muita discussão, no bom sentido, decidimos seguir até o acampamento de Huatiac, que ficava a 4250m de altitude.


Os arrieros com os burros se adiantaram enquanto descíamos até o povoado, para tentar usar o telefone. Todos compraram “tarjetas”, mas o telefone se negou a funcionar. Depois de muito insistir, voltamos para a trilha, frustrados. A ida a Huayllapa acabou se mostrando uma perda de tempo e serviu apenas para nos cansar. O meu relógio marcava 13h quando começamos a subir até Huatiac. Teríamos um desnível de 650 metros para vencer. A subida era muito forte, e eu entendia claramente porque o Diogenes preferia antecipar o sofrimento.
Durante 2 horas eu subi num ritmo forte e constante. Mas faltando cerca de 1km para o acampamento, comecei a me sentir muito cansado. O meu ritmo diminuiu muito, e esse trecho parecia intransponível. Conseguimos chegar as 15h30 e eu fui direto para a barraca descansar. Digno de nota foi o esforço do Gilmar, que encarou toda a subida, mesmo sentindo dores e mancando.
Depois de descansar e fazer um belo lanche, já me sentia mais disposto, e aproveitei o resto de luz para tirar fotos. Fiquei impressionado em ver como algumas pessoas conseguem viver tão alto e tão longe de tudo.
Não demorou muito e a noite caiu sobre o acampamento. Jantamos felizes por termos vencido mais uma etapa. O esforço que fizemos seria compensado no dia seguinte, muito mais tranquilo.
Estávamos cada vez mais próximos de outro desafio, o Diablo Mudo.

Dia 7

Dia 10 de agosto!!
Mais um dia em Huayhuash. O dia de subir o Diablo Mudo se aproximava e as bolhas continuavam a me incomodar. Acordei preocupado e com pouca paciência. Às 6h30 já tinha terminado a enfadonha tarefa de arrumar os equipamentos. Segui para o café, e pouco tempo depois já estávamos novamente na trilha, com a promessa de um dia muito bonito pela frente.


Como o passo a ser vencido é relativamente tranquilo, vou caminhando mais devagar que de costume, e tiro muitas fotos. A subida é realmente suave, e o vale me rende ótimas fotos. O Gilmar, depois de caminhar um pouco, acabou aceitando usar o cavalo.
Com cerca de 2h e 20m, chegamos ao passo de Punta Tapush (4800m). O visual do passo é fantástico. Do nosso lado direito, já podíamos ver o cume do Diablo Mudo, totalmente nevado. Não conseguimos ficar muito tempo no alto do passo, porque ventava uma barbaridade.
Começamos a descer, contornando a bonita laguna Susococha. Um outro grupo, composto por espanhóis, nos acompanhava. O Luís, sempre brincalhão, ficava incitando os espanhóis a subirem "ahorita" a montanha. Com a óbvia recusa, chamava todos de "maricones".
Conforme "prometido" pelo Diogenes, às 11h15 já estávamos no acampamento. Enquanto aguardava o almoço, aproveitei o riacho próximo para um verdadeiro "banho de gato". Sete dias longe da civilização já cobravam seu preço!


Aproveitamos uma rara tarde livre para descansar. Como eu sabia que não conseguiria dormir, fiz caminhadas próximas ao acampamento, tirei fotos e aproveitei para contemplar nosso objetivo do dia seguinte.
Quando o Diogenes nos chamou para o lanche, comentei que não sabia se iria subir a montanha, pois minhas bolhas estavam incomodando bastante. Caminhar 10 horas com bolhas não era exatamente minha idéia de diversão. O Diogenes, para tentar levantar meu astral, comentou que eu estava forte e conseguiria caminhar todo o trecho numa boa. Apesar da óbvia desistência do Gilmar, a Alê disse que nos acompanharia na escalada. Seríamos nós dois e os espanhóis Alberto e Maria. Teríamos apenas que aguardar a chegada dos equipamentos que alugamos (piolets, crampons etc) e combinamos de serem entregues no acampamento. Às 18h, os equipos finalmente chegam e o Diogenes faz um rápida demonstração do uso de alguns nós mais importantes. Aproveitamos para experimentar os crampons e escolher os piolets. O Diogenes aproveitou para nos avisar que havia conseguido contato com o Scheler, e este lhe disse que o Rafael havia chegado em Huaraz, estava hospedado no hotel Los Portales e se recuperando bem.
Enquanto esperava pelo jantar, tirei um número enorme de fotos do Diablo Mudo. Com a ansiedade pela escalada aumentando, comecei a separar os equipamentos que usaria no dia seguinte.


Jantamos às 19h em meio a um evidente clima de apreensão. Logo voltamos para as barracas e rapidamente o acampamento ficava em silêncio. Como a intenção do nosso guia era sair no máximo às 1h30 da madrugada, todos tentaram dormir mais cedo. Eu ainda fiz um último check list dos equipamentos, separei as roupas da escalada, e tentei dormir um pouco.
Mas quem disse que eu conseguia dormir???

Dia 8

Dia 11 de agosto!!
Acordei "no susto" com o Diógenes nos chamando para um rápido café. Eram 1h15 da madrugada, e o céu estava absurdamente estrelado.
Fazia muito frio! Rapidamente terminei de me arrumar. Calcei as botas, coloquei o equipos (piolet e grampons) na mochila e segui para a barraca refeitório. Ao passar pela barraca do Gilmar e da Alê, ela me chamou para dizer que não iria subir a montanha pois estava sentindo muito frio e estava preocupada. Assim, sobraram eu e o casal de espanhóis para subir a montanha.
Tomamos café em silêncio, em parte por causa da apreensão natural pelo que estava por vir e em parte por alguns arrieros estarem dormindo na mesma barraca.
Às 1h45 colocamos as mochilas nas costas e partimos rumo ao Diablo Mudo, que para mim representava o ápice dessa viagem. Andamos silenciosamente por 1 hora até chegarmos aos pés da morena, que parecia ser bastante difícil de vencer. O terreno, muito inclinado e irregular, era coberto de pedras e areia. Isso nos fazia escorregar a todo instante. Por mais de uma vez ouvi o Alberto xingar impropérios. A ascensão, mesmo com toda a dificuldade, era bastante rápida. Mas o trecho era bastante longo. Chegamos ao topo da morena por volta das 4h30.
A partir daí precisávamos margear a crista da montanha por um trecho menos inclinado, mas ainda escorregadio. Ainda estava escuro quando chegamos no início do trecho com neve. Paramos para colocar os grampons e sacar os piolets de travessia. Começamos a subir encordados. Diógenes seguia na frente, com Maria e Alberto em seguida. Eu fechava a cordada.


A minha primeira experiência de andar com grampons foi divertida, embora cansativa. Tecnicamente, esse trecho nevado não traz grandes dificuldades, mas o ar faltava. A subida consistia em escalar 3 ou 4 arestas, tendo um rapel de aproximadamente 30 metros entre a primeira e a segunda aresta.
Ao terminarmos de subir o primeiro paredão, já não precisávamos das lanternas. Ao olharmos para trás avistamos o outro grupo de espanhóis chegando ao topo da morena. No rapel, fui na frente e aproveitei a pausa para sacar a máquina fotográfica e tirar algumas fotos.
Depois da expectativa frustrada por um cume falso, às 7h20 chegamos ao cume do Diablo Mudo. Diógenes nos felicitou. O visual, mesmo com o tempo não ajudando, é fantástico. Todos os gigantes de Huayhuash estavam à nossa volta: Yerupaja, Yerupaja Chico, Suila, Sarapo, Carnicero, Yantaruri, Jurau, Trapecio, Puscanturpa e outras que não descobri o nome.


Tirei uma "penca" de fotos antes do tempo fechar. Chegou a nevar um pouco. Por conta disso, abreviamos o tempo de permanência no cume e começamos a forte descida pelo outro lado da montanha. A inclinação é indecente, e todos fomos deslizando e carregando pedras e areia. Quando chegamos na laguna, estava imundo do joelho para baixo.
A partir desse ponto, desceríamos pela Quebrada Huacrish, até encontrar com nossos amigos que seguiram a trilha, transpondo o passo Yaucha (4850m). A descida é bastante longa, mas não tinha muita pressa. Como as bolhas voltaram a me incomodar, reduzi o ritmo e fui tirando muitas fotos para me "distrair".
Ás 10h30 paramos para descansar, bem próximos do encontro entre as trilhas. Não demorou muito, e avistamos Luis e Cristina no alto do passo. Em seguida, aparecem a Alê e o Gilmar.
Voltamos a caminhar. O Diógenes resolveu acelerar o ritmo e eu colei nele. Andamos muito forte por uns 40 minutos até chegarmos num mirante onde era possível ver a laguna Jahuacocha, onde ficava nosso acampamento. Mais 15 minutos e chegamos na laguna, sendo cumprimentados por todos. Mal paramos e já aparecem as primeiras cervejas para comemorar a escalada. Logo depois, chegou o restante do grupo. Comemoramos todos então, pois a caminhada estava no seu final, e tudo havia corrido bem.


A idéia inicial seria permanecermos na laguna Jahuacocha no dia seguinte, para descansar. O Luis propôs que seguíssemos o mais rápido possível para Llamac, pois considerava um desperdício ficar 1 dia parado. Todos concordaram, mas o Diógenes disse que precisava fazer contato com a van. No final, combinamos de sair para Llamac no dia seguinte bem cedo, pernoitando lá, e voltando para Huaraz na manhã do dia 13.
Aproveitei o resto da tarde livre para limpar algumas roupas e descansar. No final da tarde, acompanhei a Alê e a Cristina que tentaram em vão pescar trutas na laguna. O mesmo (triste) destino tiveram Severo, Michel e Diógenes. Mas Willy e Issak salvaram a honra e conseguiram pescar umas 50 trutas. Sim, teríamos peixe para o jantar.
Caminhei em volta da laguna, tirei muitas fotos, bati papo, descansei. A tarde passou rápido, e logo a noite chegou. Nosso jantar foi delicioso e divertido!! Tivemos a sorte de ter o Cirilo como nosso cozinheiro.
Quando voltei para a barraca, me dei conta que estavam acabando nossos dias em Huayhuash. Me sentia feliz, com o bom sentimento de dever cumprido!!

Dias 9 e 10

Dia 12 de agosto!!
Último dia de trilha. Acordei bem disposto, e com a velocidade costumeira, já deixava tudo arrumado. Sem muita pressa, fui tomar o café da manhã, que foi divertido como sempre!!!
A "pernada" desse dia seria um pouco mais tranquila, e com isso não nos preocupamos muito com a hora de sair do acampamento. O tempo, que estava feio desde as primeiras horas da manhã, foi melhorando rapidamente, o que me proporcionou muitas fotos.


Por volta das 8h30, começamos a caminhar. Nos despedimos do acampamento Jahuacocha e seguimos em direção ao povoado de Llamac. Em seu primeiro trecho, a trilha era muito tranquila, sem muitas subidas e descidas. Sempre olhava para trás, para observar os nevados de um ângulo diferente. Tirei um número enorme de fotos nesse dia.
Com aproximadamente 1 hora de caminhada, as mulas e os arrieros nos ultrapassaram. É impressionante como correm!! Quem vê pela primeira vez, acha até que é fácil...
Logo depois, surgiu uma placa indicando o caminho correto para Llamac. E a partir desse ponto, a trilha engrossou. Subidas longas e fortes, alternando trechos abertos com outros cobertos pela vegetação.
As 11h15, chegamos em um bonito mirante onde pudemos contemplar mais uma vez o Diablo Mudo. Nesse ponto, as subidas acabavam e eu pude voltar a andar mais forte. Com mais 30 minutos de caminhada, chegamos ao último passo da trilha, Pampa Llamac (4300m).
Fizemos nosso almoço, fomos presenteados pelo bonito vôo de um condor e lançamos nossos últimos olhares para os nevados de Huayhuash. Desse ponto em diante, teríamos uma forte descida até Llamac, que estava a 3500m de altitude.
A descida era forte e o sol resolveu aparecer de vez. Minhas bolhas voltaram a doer, pois tinha que pisar em pedras soltas. Por volta das 13h45, vimos pela primeira vez o povoado. Isso deu um ânimo grande para todos e com mais 45 minutos, entramos em Llamac.


A idéia era acampar em um campo de futebol, quase na saída da cidade. No caminho, procuramos um telefone "rural", que mais uma vez não funcionou. Bem próximo do camping, encontrei um telefone "normal", que funcionava com moedas, e consegui falar com os familiares no Brasil.
Com a saudade minimizada, tratamos de descansar um pouco no acampamento. Logo depois de chegarmos caiu uma bela chuva. Aproveitei para separar e limpar alguns equipos e roupas.
Quando a chuva diminuiu, eu e Gilmar fomos procurar um bar com cerveja. Achamos um pertinho do acampamento, onde experimentamos uma deliciosa Cusqueña preta. Logo depois se juntaram a nós o restante da trupe. Ficamos um bom tempo bebendo cerveja e contando "causos" e piadas.
Por volta das 17hs, voltamos ao acampamento para ver o ritual da Pacha Manca. Primeiro, cavaram um buraco onde fizeram uma "lareira" com pedras, rechearam com bastante lenha e atearam fogo. Assim que a lenha virou carvão e as pedras ficaram bem quentes, eles derrubaram toda a estrutura, criando uma base de pedras quentes. Sobre essa base, colocaram diversos tipos de batata e pedaços de carne de carneiro, preparados anteriormente com um molho de hortelã, e embrulhados em papel laminado. Assim que terminam de dispor a comida, eles colocam mais pedras quentes e cobriram tudo com papel e terra. A carne e as batatas ficaram assando por 45 minutos. Enquanto aguardávamos o banquete, fomos todos ao "centro" da cidade comprar bebidas, incluindo whisky, cerveja e refrigerantes.


Dessa vez, o jantar foi diferente. Era hora de comemorar a expedição bem sucedida!! Sem ter que caminhar no dia seguinte, todos puderam saborear o delicioso jantar preparado pelo Cirilo e beber à vontade. Lá pelas tantas, com todos se espremendo na barraca refeitório, começaram os discursos. Cirilo falou pelos locais e Luis pelos brasileiros e espanhóis. Agradecemos a todos e também, como de praxe, distribuímos uma pequena "propina" (gorjeta). A festa acabou por volta das 22hs, quando todos foram para suas barracas. Nem parecia, mas era nossa última noite em Huayhuash.

Dia 13 de agosto!
Última alvorada. O acampamento em clima de "final de festa". Estava tudo parado, em clima de despedida. Nosso último café da manhã foi bastante rápido, pois a van que viria nos buscar estava para chegar. Mas acabou chegando apenas às 9h.
Rapidamente os equipamentos foram colocados na van, que estava voltando cheia para Huaraz, pois Cirilo, Diogenes e Michel voltariam conosco. Nos despedimos dos arrieros, já que todos eram moradores de Llamac.
Começava então o lento retorno até a "cidade grande". Depois de praticamente 10 dias curtindo o silêncio, me estressei rapidamente com o som que vinha do CD player da van. Minha percepção é de que o CD inteiro tinha uma só música, tamanha a semelhança entre as faixas.
Fizemos uma rápida parada em Chiquián, onde compramos água e comemos alguma coisa. O motorista da van apareceu com outro CD. Para mim, nada mudou!!!!
De volta à estrada, fomos sacolejando morro acima até encontrar com a rodovia. A partir daí, a viagem foi bem mais tranquila. E logo depois do almoço, nos deixavam no hotel. Finalmente chegamos!!
Foram 10 dias isolados do mundo. Saí de Huayhuash com a certeza de que havia visto algumas das paisagens mais incríveis da minha vida. Estava feliz por ter cumprido todos os objetivos propostos e muito feliz por estar voltando para casa cheio de histórias para contar. Afinal, é isso que carregamos dessas aventuras: histórias para nunca mais esquecer!!!

Fabio Fliess
Fabio Fliess

Published on 08/17/2015 20:31

Performed from 08/01/2009 to 08/17/2009

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Renata Maciel da Rosa
Renata Maciel da Rosa 04/05/2016 12:11

Parabéns pela trip e pelo relato Fábio!! Muito legal!! Tbém quero muito ir pra lá esse ano! Só preciso ver qual dos circuitos fazer! Estou parada e tenho que correr atrás do preparo físico! rss.. Vc vai repetir esse roteiro ou pensa em fazer outro?! Recomenda a agência do Scheler?! Abs

Jeff Almeida
Jeff Almeida 04/28/2016 09:42

Fazendo a lição de casa. Estudar é preciso. :D

Fabio Fliess
Fabio Fliess 05/03/2016 13:39

Oi Renata! Boa tarde... Desculpe a demora! Eu pretendo repetir o roteiro em Huayhuash, que é o clássico. Cheguei a pensar em fazer a rota alpina, mas como só eu conhecia o circuito tradicional e deixaríamos de passar em alguns pontos lindos, abri mão disso. Em outro momento eu volto para fazer a alpina. Estive em Huaraz em 2009 e 2010 e nas duas ocasiões usei os serviços do Scheler. Não me desapontou em nada. Esse ano pretendemos repetir o trabalho com ele. Depois comento como ficou ok? Abraços.

Fabio Fliess
Fabio Fliess 05/03/2016 13:39

Hahaha! Muito bom mestre Jeff! :D

Natália Gomes Knob
Natália Gomes Knob 05/05/2016 07:21

Muito bacana teu relato Fábio. Estou indo para lá em julho fazer esse circuito com o scheler mas em 8 dias. É arriscado levar câmera fotográfica grande, gopro e etc para lá? Que trilhas ou circuito vais fazer esse ano? Abraços!!

Renata Maciel da Rosa
Renata Maciel da Rosa 05/11/2016 00:02

Oi Fábio! Boa noite! Não tem problema! Legal! Repetir esse circuito não deve ser nada chato! rss.. Bacana! Vou ver se entro em contato com ele para me informar, cotar, etc.. Blz! Não tenho nada certo ainda, então qualquer info ajuda! Obrigada! Abs!

Fabio Fliess
Fabio Fliess 05/11/2016 22:32

Oi Natália... Boa noite! Obrigado! Não tem problema algum levar câmera grande. Pelo contrário, é um pecado não levar! Vou repetir Huayhuash. E estou escolhendo umas 3 trilhas curtas para aclimatação! Sinceramente, espero que goste de Huaraz. Depois nos conte suas aventuras!A Abraços.

Fabio Fliess
Fabio Fliess 05/11/2016 22:36

Oi Renata... Boa noite! Quando precisar de mais informações, é só falar ok? Terei o maior prazer em ajudar! Abraços!

Fabio Fliess

Fabio Fliess

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Montanhista desde que me conheço por gente!!! Sócio e condutor do CEP - Centro Excursionista Petropolitano. Take it easy e bora pras montanhas! Instagram: @fliess

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