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Travessia Morro da Mensagem X Pedra de Itaipava

Travessia Morro da Mensagem X Pedra de Itaipava

Travessia ligando duas belas montanhas entre Araras e Itaipava.

Hiking Mountaineering

Travessia Morro da Mensagem X Pedra de Itaipava – 05.11.2020

A extensa e fotogênica crista ligando o Morro da Mensagem à Pedra de Itaipava sempre me chamou a atenção. Embora não apresente dificuldade técnica alguma, essa crista sempre teve uma fama ruim por conta da vegetação que castigava os montanhistas: um capim alto, emaranhado e muito afiado. Vários conhecidos tiveram que dar o braço a torcer e voltar sem concluir a travessia. As marcas nos braços ficavam um bom tempo lembrando do insucesso.
Já havia estado duas vezes no cume do Mensagem e várias vezes na Pedra de Itaivapa. Só faltava a ligação entre as duas montanhas.
Houve uma oportunidade de fazer essa travessia no final de 2014, pouco tempo depois de um grande incêndio que assolou a região serrana. Com certeza, o capim havia cedido ao fogo. Mas estava envolvido com a viagem ao Monte Roraima, e acabei não matando essa vontade.
Recentemente, alguns amigos estavam trabalhando na abertura de uma travessia bem bacana em Petrópolis e o traçado incluía esse trecho entre o Morro da Mensagem e a Pedra de Itaipava. Em meados de outubro vi uma publicação no Facebook da amiga Miriam Gerber, com fotos da travessia. De imediato enviei uma mensagem para ela perguntando se a travessia estava aberta. Um ou dois dias depois veio a confirmação. Tinha que aproveitar.
Como a Letícia estava assoberbada com o trabalho, acabei convidando um amigo de longa data, o Marcelo Lemos. Ficamos em contato de olho em uma janela de tempo bom, pois estava chovendo bastante. No dia 05 de novembro teríamos um período com tempo seco e não desperdiçamos a oportunidade. Combinamos o ponto de encontro as 07 da matina na padaria do centrinho de Araras.
Letícia me levou até lá e aproveitamos para tomar um café enquanto o Marcelo não chegava. Após sua chegada, conversamos um pouco, compramos alguma coisa para a trilha e seguimos até o final da Estrada das Perobas, onde começaríamos a andar. Às 7h30 nos despedimos da Letícia e começamos a pernada.
O sol ainda era tímido, mas a umidade estava alta. Nosso objetivo inicial era chegar até o colo das torres de alta tensão, que marcam o início da descida para a região de Secretário, numa travessia bem conhecida da região.
O início da trilha estava bem diferente, mais larga, e logo entendi porque: estão construindo uma casa em um ponto onde antes só havia mata. Alguns metros depois, o caminho volta a ter a aparência de uma trilha bem marcada. Seguimos conversando e em cerca de 25 minutos chegamos ao colo. Fizemos uma rápida parada por tempo suficiente para eu observar uma outra trilha discreta, mas marcada, saindo para a esquerda, que segundo pesquisei, leva a uma montanha conhecida como “Joãozinho”, uma montanha pouco visitada da região. Em outro momento, volto para explorar.
Nosso caminho agora deixa a trilha super marcada da travessia Araras X Secretário e segue para a direita. Vamos seguindo por uma crista e o visual das montanhas vai ficando cada vez mais bonito, especialmente o da onipresente Maria Comprida. A trilha vai ficando mais inclinada e mais estreita. Fizemos poucas paradas, mas aproveitávamos para tirar algumas fotos. Olhando em frente, já podíamos ver os dois cumes do Mensagem.

Em direção ao Morro da Mensagem (foto do Marcelo)

Esse trecho de crista nos leva até o ponto mais crítico da subida do Morro da Mensagem e que traz uma triste lembrança. Um pouco abaixo do primeiro cume, existe um trecho exposto, onde é preciso dominar uma rocha em um pequeno lance de escalada. Em seguida, existe um curto trecho bem inclinado e com terra bem escorregadia. O ponto crítico é que não existe muita margem para erro. De um lado temos um barranco bem alto e do outro, um abismo rochoso de uns 200 metros.
E segue um rápido corte para 2002...

"No dia 01 de outubro daquele ano, eu estava visitando um cliente fazendo a implantação de um sistema ERP. Não lembro ao certo a hora, mas alguém me chamou e pediu para atender o telefone. Achei que era alguém do escritório, mas para minha surpresa, era um colega que trabalhou comigo em outra empresa. Sem rodeios, ele foi direto ao assunto – “O seu amigo Oliver sofreu um acidente numa montanha e morreu”! Fiquei um tempo atordoado tentando processar a notícia.
Oliver Ochs era membro do CEP – Centro Excursionista Petropolitano, montanhista experiente e uma figuraça, no bom sentido da palavra. O jeitão desengonçado contrastava com o sorriso sempre aberto. Ele foi uma das pessoas que mais apoiou quando fomos para a África subir o Kilimanjaro (o Marcelo estava nessa). Embora não fôssemos próximos, gostava muito dele, especialmente pelo seu jeito autêntico.
Oliver tinha uma empresa para fazer guiamentos, a Oliturismo. Nesse fatídico dia, ele estava levando um cliente ao Morro da Mensagem. Quando chegaram nesse ponto, encontraram uma corda fixa. O Oliver recomendou fortemente ao cliente para não usar a corda e subisse com cuidado usando os apoios naturais. Foram ao cume, voltaram e o Oliver reforçou a recomendação de evitar a corda. Ele desceu na frente e aí ocorreu o acidente, que ninguém sabe ao certo como aconteceu. O fato é que o Oliver caiu no abismo, e seu corpo parou 200m abaixo. O cliente, em estado de choque, encontrou a corda partida."

Algum tempo depois, o CEP colocou uma placa em homenagem ao Oliver no local.
E volta para 2020...

Chegamos no ponto crítico. Eu tirei uma cordinha de 20m que eu levei na mochila e entreguei ao Marcelo, que tomou a frente, cuidando de toda a segurança para vencermos esse trecho.
Enquanto ele estava envolvido com corda, fitas e mosquetões, eu aproveitei para seguir pela lateral do barranco, pois em 2014, quando estive pela última vez no Mensagem com Letícia, Marcelo Garcia e Alexandre Werneck nós abrimos uma trilha para tentar fugir desse lance exposto, contornando o barranco e saindo no colo entre os dois cumes. Segui por uns 100m aproximadamente, e embora parecesse que a trilha ainda estava lá, resolvi voltar pois o Marcelo já deveria estava terminando os procedimentos.
O Marcelo fixou um mosquetão com uma solteira bem longa em um grampo que existe no topo dessa rocha que precisava ser vencida. Assim, ele evitaria uma queda grande. A rocha possui uma boa agarra e alguns pontos para colocar os pés. Rapidamente ele estava no topo da pedra e fez segurança de ombro para que eu pudesse subir. Cheguei e segui direto pelo trecho íngreme que estava bem escorregadio. Subi usando os degraus marcados pelo tempo, e as poucas e finas árvores que davam um apoio “moral”. Esse trecho sempre me estressou mais do que o lance na rocha.
Vencido esse trecho, esperei o Marcelo que chegou uns minutos depois. Seguimos por um pequeno lance de trepa-pedra, bem fácil. Logo estávamos no primeiro cume (ou contraforte) do Morro da Mensagem. O altímetro do GPS marcava 1380m e o relógio mostrava que faltava alguns minutos para as 9h.
Curiosamente, o livro de cume do Mensagem está no contraforte. Não entendemos bem o motivo, mas deixamos nossos registros e reembalamos o livro exatamente como o encontramos, debaixo da pilha de pedras. Voltando a caminhar, temos uma forte e curta descida até um colo (onde deveria sair a trilha aberta em 2014) e logo voltamos a subir. A trilha fica pouco definida, mas a direção é óbvia. Rapidamente chegamos no cume verdadeiro do Mensagem. Fizemos uma primeira pausa para hidratação e o Marcelo também aproveitou a parada para lanchar.

Cume do Morro da Mensagem

Conquistado o primeiro objetivo, começamos a descida em direção a “famosa” crista. Realmente a trilha estava aberta, mas o capim cortante estava lá, esperando uma vacilada. Havia bastante mato e capim depositado na “calha” da trilha, indicando que o corte da vegetação foi feito há pouco tempo. Isso também fazia com que tivéssemos que levantar bastante as pernas, o que cansava um pouco mais. Apesar disso, a gente progredia bem, pois em cerca de 20 minutos já havíamos percorrido metade (ou 1km) da crista.
Conforme a gente avançava, ia ficando mais nítido que havia alguma construção no final da crista. Faltando uns 200m para terminar esse trecho, estava claro que essa “construção” era uma cerca de madeira. A trilha começa a subir bem forte até chegarmos nessa cerca, que na verdade é um deque/mirante construído no meio do nada. Mas com um visual fantástico!! Como existe uma estrada ao lado, imagino que tenha sido construída por algum fazendeiro. Fizemos nova parada e dessa vez eu também lanchei.

Marcelo no mirante

Reanimados por termos conseguido vencer o segundo objetivo do dia, seguimos pela estrada por uns 300 metros e depois pegamos a direita, seguindo ao lado da cerca de arame farpado. Logo depois, numa porteira improvisada, voltamos para o outro lado da cerca e seguimos descendo forte até o fundo do vale, onde o altímetro marcou 1073m.
Fizemos uma breve pausa e logo voltamos a subir. Para mim, foi o trecho mais cansativo, pois o trecho era íngreme e com muito mato cortado, que deixava a trilha escorregadia. Para piorar, o sol começou a aparecer e o vento cessou.
Para nossa alegria, foi um trecho curto e logo a trilha voltou a ficar mais “limpa” e consolidada. Agora só faltava cerca de 1km com uns 180m verticais para chegarmos no terceiro objetivo do dia, o cume da Pedra da Itaipava. Com o calor aumentando, o papo diminuiu e seguimos concentrados na trilha. Às 11h25 chegamos no último cume, com o calor já escancarado!

Cume da Pedra de Itaipava

Fizemos uma terceira parada para hidratar e comer mais alguma coisa. Aproveitei para tirar as botas e tirar um pouco de sujeira das meias!! Ficamos cerca de 20 minutos descansando, curtindo o visual e contemplando a grande crista que tínhamos acabado de percorrer. Mas precisávamos voltar a caminhar, tendo agora só descida até o final da trilha. Vencemos os 2,4km de descida em cerca de 50 minutos, finalizando a trilha as 12h35.
Enquanto estava descendo, fiz contato com a Letícia para ver se ela poderia nos resgatar no final da trilha. Como ela tinha uma audiência em pouco tempo, não tinha como. Tivemos que esticar em mais 2km a caminhada até a BR-040, onde o Marcelo aguardou um ônibus e eu segui caminhando até em casa.
Agradeço ao meu amigo Marcelo por ter aceitado o convite. Valeu demais!

Fabio Fliess
Fabio Fliess

Published on 12/13/2020 12:51

Performed on 11/05/2020

1 Participant

Marcelo Lemos

Views

1279

9
Fabio Fliess
Fabio Fliess 12/13/2020 14:10

Fala José Antonio!!! Obrigado pelo feedback. O trecho em si não é nada demais, mas não pode vacilar. Abração.

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 12/13/2020 15:28

Rapaz, preciso ir desbravar essa região com você!

Bruno Negreiros
Bruno Negreiros 12/13/2020 15:28

Muitos destinos irados!!

Marcelo Lemos
Marcelo Lemos 12/13/2020 15:29

Fala amigaço... parabéns pelo relato!!! Sou eu quem agradece pela oportunidade e por me fazer aderir ao AB. Realmente, aquela passagem pela cota de 1073 metros foi meio castigante devido ao calor... abração.

Fabio Fliess
Fabio Fliess 12/14/2020 21:51

Valeu Bruno. 2021 tá chegando. Vamos tentar agitar alguma(s) trilha(s)!!!!! Abração.

Fabio Fliess
Fabio Fliess 12/19/2020 15:02

Fala amigaço. Valeu pela companhia em mais essa aventura. Bem-vindo ao AventureBox!!! Forte abraço.

Marcelo Lemos
Marcelo Lemos 12/19/2020 19:56

Obrigado.

Guilherme Geraldi Hammes
Guilherme Geraldi Hammes 07/08/2021 23:02

Opa, tudo bem? sabe me dizer se há algum lugar bom para acampar nessa travessia?

Fabio Fliess

Fabio Fliess

Petrópolis - RJ

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Montanhista desde que me conheço por gente!!! Sócio e condutor do CEP - Centro Excursionista Petropolitano. Take it easy e bora pras montanhas! Instagram: @fliess

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