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Travessia do vale do pati

Travessia do vale do pati

4 dias de caminhada e encontro com seus limites -

Há vários caminhos que voce pode utilizar para adentrar no Pati, pelo Vale do Capão, pela subida do Beco e alguns outros que andarilhos e guias teimam em usar. Nós entramos pela subida dos Aleixos, partindo de Guiné, conforme Guto, guia local, nos informou. Guto é um tema a parte em nossa viagem, pela amizade que fizemos e, pelo amor que demonstrou pelo local, a cada trilha, nos informando cada passagem mais complicada, cada parada, nos brindando com uma história sobre o Pati. Importante e preciso, nos passou a tranquilidade necessária em cada palavra. Mais que um guia, virou um parceiro daqueles que a gente leva pra vida. Nos contou sobre sua história. Nós o conhecemos em Lençóis, acredito que a cidade com maior estrutura turística da região. Já chegou com seu berimbau e seu sorriso largo, contando-me que seus irmãos e tios foram guias e que, com 12 anos, já andava por aquelas imensidões. Metralhei-o com perguntas sobre o Vale e suas trilhas e o que pude perceber é que Guto tem um mapa do Pati em 3D no cérebro, conhecendo cada saída e entrada, trilha, cachoeiras e serras. Respondia uma a uma das perguntas, sempre citando um acontecimento vivido por ele ou passado por outros guias. Falou de sua esposa e filha com um manifesto sentimento de quem fica muito tempo longe de casa. Vi a importância que o Pati tem para eles, o orgulho que sentem da Chapada Diamantina como um todo e de tudo que ela pode proporcionar àquela comunidade. Sabendo dessa identificação com o lugar, fica difícil não retribuir algo. O preço que Guto nos fez foi mais que digno, e, ao final do passeio, fica claro que saiu barato. A comida, responsabilidade dele com o nosso acerto, é um caso a parte. A cada parada ele nos brindava com um cardápio delicioso. Um mergulho na regionalidade dali, do cuzcuz com ovo e banana à abóbora, batata doce local (a melhor que já comi na vida) e feijão de corda com calabresa, macarrão ao molho e carne frita, além do frango com um tempero fenomenal e purê de batata, tudo feito ali, por ele, no bom e velho fogão à lenha, no espaço destinado aos guias, com a mesma agilidade e destreza que pula de pedra em pedra durante a trilha. Assim, mesmo tendo relatos de gente que faz o Pati todo sem guia, optamos por contratar alguém. Ninguém melhor que ele, nativo defensor e amante daquele lugar. Mas o Vale do Pati não obriga a nada. Você pode entrar no vale e fazer todo o trekking sem guia, se hospedando nos pontos de apoio, mas, sinceramente, não recomendo. Além do experimento e troca social e financeira com a comunidade, o diferencial do guia é a segurança de estar em local desconhecido, mas com alguém experiente. Sem falar das paisagens, mirantes e cachoeiras paradisíacas, que ele nos mostrou. Sinceramente, não sei como alguém que nunca foi ao Vale, possa fazer o mesmo trajeto que eu, Hélio, e Socorro, minha esposa, fizemos junto com o Guto. Até encontramos alguns viajantes sem guia, mas que, pediam alguma informação sobre clima e possibilidades de ver este ou aquele pico. O que percebi é que, com Guto, sabíamos exatamente quando e onde sair, se baseando no tempo e perigo que cada trilha fornecia.

1º dia - Subida dos Aleixos, ida à Cachoeira do Funil e pernoite na Igrejinha

Realmente, o vale do Pati não é para sedentários. Isso pode parecer, para alguns, a valorização da caminhada que fiz. Mas não. Não vá caso você seja daqueles que só caminham no fim de semana ou jogam um futebol com os amigos. O negócio é um pouco além. Vale uma preparação prévia no que se refere à fôlego e resistência. Digo isso porque, caso isso não seja observado, a contemplação dará lugar ao cansaço, e logo à dor e exaustão. Na primeira etapa, após deixarmos o carro num estacionamento surreal, à beira da serra, caminhamos uma média de 19 km até o fim do dia, segundo nosso guia. O que acontece é que logo começamos com uma subida íngreme, a dos Aleixos, que Guto me explicou o nome derivado a uma família que vivia nas redondezas. Pois bem, na tal subida, já percebi que a trilha e os dias posteriores seriam barra pesada. Qualquer coisa que se resuma à peso extra, deve ser deixado para trás, você està num lugar, que só o que vale são suas canelas.

Vista da Rampa - 1º dia

Depois da subida dos Aleixos, continuamos até uma nascente do Rio Preto e continuamos até a Rampa. Na rampa, tivemos a visão de todo o Pati. Apesar do nervosismo que tenho na altura, consegui entender o que faríamos nos próximos três dias, bem orientado pelas palavras de Guto, que explicava detalhadamente na imensidão do vale onde iríamos e onde dormiríamos, a cada parada. Naquele momento, entender que atravessaríamos aquele vão era uma coisa ainda a ser trabalhada, realmente ainda um sonho, mesmo bem próximo. Algumas fotos e continuamos em frente, era preciso chegar à Igrejinha, nosso primeiro ponto de apoio e dormida. A descida da Igrejinha é usada, invariavelmente, pelas mulas que levam mantimentos ao Vale, nem por isso, se mostra mais fácil. Difiícil, demorada, e desafiadora, pela altura que reflete através do Vale.

A Igrejinha, nosso ponto de partida no Vale do Pati

Parte da vista do Bar do João, ponto de apoio na Igrejinha

Não escondo que quando avistei a Igrejinha, habitação mais proeminente em larga vista, fiquei feliz. Tive uma trombose, ou um trombo embulîmico em 2016, fiquei alguns meses sem andar da maneira que gostaria e, no Vale, estava eu a sentir as melhoras do último tratamento. Devo dizer que, após algumas passadas, minhas panturrilhas se contraem numa dor lascinante, mas que para mim, viram detalhe. Estar olhando aquela paisagem e sentindo capaz de vencer cada trilha, fazia da dor só mais um componente. Com dor ou sem ela, vamos em frente.

Guto nos fornece um lanche e informa que o pior, por hoje, passou. Só iremos na Cachoeira do Funil, 5 km à frente. É nessa hora que digo, sedentário, por favor, não venha. A cachoeira, depois de uma íngreme trilha, é linda e vale a pena. Encontramos com vários grupos com guias diferentes e nos permitimos perceber que já estamos no Vale, longe de tudo e todos... O que é maravilhoso!!

a

Cachoeira do Funil

A primeira noite no Pati me acompanhou com um cansaço, pela caminhada, e pela empolgação de viver um momento como aquele. Violão na fogueira, música e muito conhecimento com os guias, todos de um humor louvável e compartilhamento de experiências pela Chapada que daria um livro. Mesmo assim, a oportunidade única de viver com esses sertanejos, todos doutores no que se dispõem a fazer, em "ler" as montanhas, os chapadões e nos levar de modo seguro e divertido. Conhecemos Esmeraldo, que me disse ter sido o pai, junto aos primeiros guias da Chapada, quem demarcou as terras do Parque da Chapada Diamantina. Figura que me fez sentir calafrios aos vê-lo pulando de pedra em pedra na Cachoeira do Funil com a mesma agilidade dos lagartos que ali apareciam. Roque, guia antigo, nativo de Andaraí, conhecedor de boa parte do Brasil, mas que segundo o próprio, estava ali pra ficar, por não aguentar mais a vida fora do Vale. E tantos outros, solícitos e sorridentes, prontos a responder qualquer pergunta que fazíamos a cada diferene paisagem e encontro.

Ida para a Cachoeira do Funil

2º dia - Subida do Morro do Castelo

Segundo dia, logo cedo, após o café da manhã, muito bem servido, começamos a nos distanciar da Igrejinha. E na subida que se abre a imensidão do Vale, adentrávamos a cada passo. Se você disser à 40% das pessoas que conheço que eles subirão o Castelo eles dirão que nunca conseguirão. Não é vergonha. A bagaça é alta. Pra cacete!!! O nosso guia faz como algo normal a qualquer ser humano, mas não é, me sinto na obrigação de dizer... Caí várias vezes na subida na subida, na descida idem. Mas o Castelo é o morro mais bonito da Chapada. É lá que teremos os dois mirantes mais significativos (depois da Pedra do Cavalo, que veremos a seguir). Daí vejo a importância do nosso guia, sozinhos, não veríamos a metade. Subimos uma trilha muito íngreme, quase escalada, passamos por uma caverna, alguns momentos bem claustrofóbicos e encontramos mirantes e pedras que nos dão a visão e discernimento de como somos pequenos.

A Igrejinha vai ficando pra trás...


Mirante do Castelo de frente


Serra da Matinha


Espetáculo de paisagem



Mirante do Castelo, este de lado- ao fundo, toda a imensidão do Vale

Subir o Castelo te dá uma moral sobre humana, quase como "eu fiz, não faço o quê??", mas ainda tinha a descida que, enlameada, foi pra mim quase um tobogã. Depois da chegada, o pãozinho caseiro e o café da casa do Aguinaldo, o filho de dona Raquel. Sobre Dona Raquel, Guto nos disse que era chamada de "Mãe do Vale" , por ter dado a luz à nada menos que 14 filhos, todos ali, nas condições que o Vale do Pati oferece. Desses, alguns ainda moram no Pati, como Aguinaldo, dono do ponto de apoio que dormimos no segundo dia, Jaílson, outro que nos receberia na terceira noite e a própria Dona Raquel, na qual a casa se parece como um ponto de apoio principal do Pati. Não a conhecemos, resolvemos, junto com o Guto, que nosso caminho seria outro. O que não diminuiu a curiosidade de conhecer tão instigante figura e sua casa, já que, a cada conversa com outros caminhantes e guias do vale, todos me passavam que na casa de Dona Raquel o movimento é enorme e, todos bem recebidos, o clima é sempre de festa. Até forró rolou na noite anterior, quase como a "balada do Pati". Característica que Dona Raquel deve ter passado a todos pontos de apoio por que fomos muito bem recebidos a cada ponto de apoio, estrutura de pernoite e banheiros excelente. Logicamente dada as proporções de um local que não busca o luxo, mas acomodar caminhantes e viajantes que não se preocupam tanto com detalhes e só precisam de um lugar seco e aconchegante para dormir. A noite no Aguinaldo não pude interagir com os outros viajantes e guias, com o corpo todo dolorido, tomei um analgésico e dormi bem cedo. Segundo Guto, sairíamos às 09:00 hs.

3º dia - Descida para o Jailson e Poço das Árvores - dia de descanso (?)

Segundo Guto, que caminha com a naturalidade que respiramos, o terceiro dia seria o de descanso. Ideal para colocarmos o corpo para relaxar. Usar dos atributos terapêuticos que a água gelada pode fazer. Descansar...

Mas, logo na descida para o próximo ponto de apoio, no Jailson, descobri que não seria assim tão fácil. A dureza do dia anterior ainda se fazia presente nas dores nas costas e uma chata dor de cabeça, que levei durante os 6 primeiros km que nos separava de nosso próximo destino. Confessei à Socorro que quando cheguei no Jailson, a primeira vontade foi deitar e descansar, deixar de conhecer o Poço da Árvore. Mas, após guardarmos nossas mochilas nos quartos, iniciamos a trilha que nos levaria ao Poço. Não sem antes olhar com tristeza para a bem arrumada cama que me esperava.

Andando, começamos a perceber nitidamente o por que do nome "Castelo". Agora de frente, ele se descortinava imponente, colossal, lindo... Ter ido ao seu cume nos dava uma sensação maravilhosa. A sua silhueta é por si só, um cartão postal. As suas torres, esculpidas, segundo Guto em milhares de anos pelo vento era de uma beleza admirável. Era mesmo o Castelo e como tal, sua nobreza junto à outros locais do Pati era venerada. Todos no Vale tinham verdadeira adoração, não havia um viajante que não o admirasse, que não tivesse uma bela história subindo ou descendo sua trilha. A todo momento, olhava seu contorno como se pudesse cristalizar aquela imagem na minha retina.

A gente entendo o porque "Castelo"

A trilha para o Poço da Árvore foi relativamente fácil, 1,5 km de ida e 1,5 km de volta. Água geladíssima, coloquei meus músculos cansados para uma regeneração. Melhor que piscina de gelo! Fizemos um belo lanche com o Castelo ao fundo, algumas braçadas para animar e retornamos ao Jailson, sempre com a imponência do Castelo, agora, vendo quase de fundo.

Poço das Ávores

Terminamos o dia dizendo ao Jailson o quanto devia ser "chato" morar num local tão lindo. Ele disse já ter saído do Pati algumas vezes, do jeito que seu irmão havia me relatado na noite anterior. Mas, assim como o irmão, não aguentou a vida fora do Vale e retornou, após fazer algum dinheiro e levantar sua casa. Consigo entendê-lo. Para alguém acostumado com uma vida tão pacata, não deve ser fácil se render à rotina imposta em qualquer cidade. Ele também nos contou que não era só flores, que, no caso de uma emergência, uma doença, o acesso é difícil. Daí, me falou o que Guto já havia nos avisado, que era preciso muito cuidado no Pati, que, no caso de uma emergência, como uma fratura e a impossibilidade de caminhar, a única alternativa é o chamar o "Samula". Isso mesmo, a única saída, era o lombo do útil animal, espécie de "rei do vale", que após uma caminhada de 4 horas, chega até o povoado mais próximo, Guiné, onde havia deixado o carro. Pra quem já andou em mula, sabe o quanto pode ser desconfortável uma caminhada dessas. Mas fazer o quê?

"Samula" o método emergencial do Pati

A "sem graça" morada de Jailson (dá pra ver a Fenda que venceríamos no útlimo dia)


O dia de "folga"

"E eu caio na rede, não tem quem não caia..."

A noite chegando, veio dando aquela melancolia de deixar o Pati e toda aquela paisagem magnífica mas, ao mesmo tempo, a lembrança dos filhos queria fazer com que o quarto e último dia chegasse logo. Guto nos brindou com mais um magnífico jantar e pude vê-lo mais relaxado, com a satisfação genuína do dever cumprido, mesmo que o último e mais difícil dia, estivesse faltando. Tomamos uma cachaça de gengibre, vendida no barzinho do Jailson, conversamos e conversamos... Sobre outras atrações de Lençóis e a Chapada, a necessidade de voltarmos com mais tempo e nossos filhos um dia. Sobre a dificuldade que encontraríamos no começo de nossa caminhada: a tão relatada por Guto "subida da Fenda", que após vencida e tida como a mais difícil etapa de toda caminhada, ficaríamos de frente e na mesma altura que o Castelo. Falamos do céu a noite, que graças ao tempo nublado não pode nos proporcionar a vista que queríamos, mas como naquela última noite, ele parecia nos dar um desconto. Agradeci quase que com saudade já do nosso guia, da aventura que passamos juntos e disse da admiração que o trabalho dele nos proporcionava e fomos dormir, com a obrigação de acordarmos bem cedo para nosso destino.

À noite, ele parece mais imponente

4º dia - Subida pela Fenda, Cachoeirão por cima, caminhada pelo platô, descida dos Aleixos

Não dormi bem na última noite. Certamente a ansiedade da caminhada do último dia me afligiu. Às 04:30 estávamos de pé para comer uma bela refeição com ovos, batata doce e pão. Ás cinco e vinte saímos rumo à subida da Fenda, por trás da casa de Jailson, numa trilha íngre e cravada na montanha, daquelas que se te contarem, você duvida que vai subir um dia. Fazia aquele friozinho da madrugada, e sob neblina e com a ajuda das lanternas, íamos lentamente vencendo a montanha. O dia amanheceu com a gente na metade do caminho, mesmo que não pudéssemos ter a visão que gostaríamos por causa da neblina, a paisagem que se descortinava era de uma beleza incrível. Tudo passa pela cabeça numa hora daquela, a alegria de estar chegando ao fim se mistura à satisfação da vista. Bem devagar e muito suado, ia aos poucos acompanhando Guto, na perícia que já havia mostrado e Socorro, bem mais adaptada à subida que eu. Minhas pernas doíam muito a cada degrau feito de raízes, a cada escada colocada para facilitar o percurso. 2 horas após sairmos do acampamento e 800 metros acima, chegamos ao final da subida, completamente coberta de neblina, de modo que a visão do Castelo ficou encoberta, o que não diminuía a encanto do lugar.

Terrminada a Fenda, ficamos frente ao Castelo, mas a neblina não ajudou

Rápido descanso e continuamos por um platô formidável, que dava a impressão de um heliponto construído por mãos humanas. Daí, mais subida para chegar à Pedra do Cavalo. A Pedra do Cavalo é um dos pontos em que a gente mistura a alegria de estar num local daquele com o nervosismo da altura. Realmente, não consegui aproveitar muito o momento. O vento bate forte e o silêncio do vale é assustador. Guto sentava em sua ponta e balançava as pernas, me fazendo virar o rosto de aflição. Mas é certamente um dos lugares mais lindos que já vi, Guto mostrava o horizonte, nos explicando pra onde ficava cada cidade da Chapada e suas trilhas de acesso.

A imensidão do Vale é deslumbrante vista da Pedra do Cavalo

O medo deu lugar à oportunidade de uma foto dessas...

Demos a volta e vimos o Cachoeirão por cima, outra atração fenomenal do Parque. A água volta da cachoeira!! Devido à altura e as correntes de vento, a água vem de encontro à nós, no cume do morro. Muito bonito. Ficamos ali, cativados pela beleza do local, enquanto éramos molhados pela "chuva ao contrário".

A água retorna com as corrente de vento

Fomos ao Poço do Cachoeirão, onde uma raposa aparece invariavelmente para comer algo, decerto porque os turistas e guias a acostumaram a com tal prática. Guto nos fala do perigo da prática, já que a dieta do bicho é específica, e que o açúcar constante nas coisas que a maioria dá, bolo, biscoito e etc., faz muito mal à ela. O bichicnho pode ter cáries e por não conseguir mais comer, morrer de fome. Fico imaginando como o homem, mesmo sem intenção, não dá uma dentro no que se refere à natureza e planeta. Bem, ela não apareceu, nem ofereceríamos nada, e o máximo que Socorro, a mais animada a vê-la, pode ver da raposa, foram suas fezes.

Continuamos andando, cada vez mais deixando o Pati para trás e com a obrigação de cumprir o cronograma de nosso guia. Segundo Guto, deveríamos chegas às 15:00 no carro. Iniciamos a caminhada pelo platô, com os Campos Gerais ficando para trás a cada passo. Guto falou sobre o incêndico que ocorreu na Chapada Diamantina em 2016, e como danificou o Parque. Mas mostrou as mudas pequenas, médias e algumas já grandes em meio ao carvão das outras. É o renascimento que acontece ali, promovido pela água que está sempre a escorrer pelo Parque. Pela altura em que está localizado, é ali, nos Campos Gerais que existem a maioria das nascentes dos rios da Chapada. Dali saem para irrigar toda aquela imensidão de terra. Estar num local tão importante, um sistema tão delicado, traz como que uma obrigação a quem está ali. Não dá para sair do Vale sem uma espécie de um pacto surdo, de amor e proteção à tudo aquilo. Não só da Diamantina, mas de todas chapadas e ecossistemas do Brasil e do mundo. É de suma importância que acordemos, antes que não sobre nada, nem lugares como aquele. Em meio a esses pensamentos, chegamos às margens do Rio Preto, onde fizemos nosso lanche. Vi que o solo era de material argiloso e com algumas pedras e cristais à mostra. Imaginei aquele rio lotado de homens garimpando, orientado pela conversa do Guto. Olhei de novo para a trilha que usaríamos. Estávamos saindo!!

Lentamente, saímos do Vale...

O resultado de 4 dias de trilhas

Levantamos e o Guto garantiu que, dessa vez, estávamos perto. O meu cansaço se transformou em motivação e nos últimos kilômetros, 19 ao todo no último dia, eu estava melhor de quando havia entrado. Minhas pernas se contraíram e andar para mim já não era tanto esforço. Chegamos à descida dos Aleixos e vi que não seria tão mole. Guto já havia dito que, para o organismo, descer é mais prejudicial que subir. E, realmente, o corpo cansado não reagiu muito bem à gravidade. A descida foi lenta e a subida até o carro, desafiadora. Chegamos ao estacionamento com uma alegria genuína de quem realizava um sonho. 4 dias de caminhada, 61 kilômetros e muitas coisas deixadas para trás. E outras que levaríamos pra toda vida, como a vida simples, o fogão de lenha e as amizades que fizemos.

Amizade e boas lembranças é que levaremos da Chapada Diamantina, desde Guto Passos, o guia predestinado nominalmente, à todos que encontramos ou no Pati, ou em Lençóis, no Hostel Odara, local onde nos instalamos no dia posterior à travessia, para descansarmos. Ao final da tarde, ainda fizemos uma visita ao Morro do Pai Inácio e pudemos ver a beleza da vista e do por do sol num dos cartões da Chapada. A Diamantina é realmente um lugar pra se voltar....

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Rafael Gomes
Rafael Gomes 03/24/2019 09:25

Hélio, bom dia. Vc poderia me passar o contato do guto, o guia com quem vc fez a travessia?