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Hélio Fenrich 05/12/2020 10:46
    TRANSAMAZÔNICA DE BICICLETA

    TRANSAMAZÔNICA DE BICICLETA

    Percorrer os 2260km da Transamazônica entre Marabá - PA até Lábrea - AM de bicicleta.

    Bikepacking Bike Trip Mountain Bike

    Transamazônica (BR-230) é uma rodovia brasileira, criada durante o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici (1969 a 1974), e é uma das chamadas "obras faraônicas" devido às suas proporções enormes, realizadas pela ditadura militar. Foi inaugurada no dia trinta de agosto de 1972. Com 4260 quilômetros de comprimento, é a terceira maior rodovia do Brasil.

    Essa rodovia foi construída com o objetivo de interligar a região norte do Brasil com as demais regiões do país e ainda povoar aquela área desabitada. Ela liga a cidades: Cabedelo, na Paraíba e Lábrea, no Amazonas. Sua construção provocou diversos problemas, entre eles o desmatamento que ocorre até hoje nas áreas próximas. Como ela não é pavimentada, fica intransitável entre outubro e março, período que determina a época chuvosa na região.

    A primeira vez que ouvi falar e vi imagens da Transamazônica foi através do filme Bye Bye Brasil, que conta história de uma trupe de artistas ambulantes que viaja pelo interior do Brasil em um caminhão colorido cujo nome é “Caravana Rolidei”. O filme retrata as aventuras e desventuras da trupe ao percorrer o interior do país e parte da selvagem Transamazônica e os rios Xingu e Amazonas, até chegar em Belém.

    Em 2004, tive a ideia de percorrer a Transamazônica de bicicleta. Na ocasião, encontrei relatos de que a primeira pessoa a fazer toda a Transamazônica foi uma mulher da Nova Zelândia, uma enfermeira de 52 anos que em seus textos contava que ela conseguiu essa proeza devido à solidariedade das pessoas que encontrou pelo caminho. Desde aquela época, o que mais me chamava atenção nas pesquisas, era a questão de que pouquíssimas pessoas haviam tentado fazer esse trajeto.

    Na época, trabalhava numa empresa privada em Jaraguá do Sul. Pensei em colocá-lo em prática durante as minhas férias, ou seja, no final do ano. Pesquisei muito e montei o projeto para tentar viabilizá-lo e partir para a Amazônia. Cheguei a mapear toda a região e havia conseguido um apoio de transmissão com flashes ao vivo, com uma rádio FM. Mas por causa da não liberação da empresa onde trabalhava para mais alguns dias de férias e também pela falta de patrocinadores, a execução do mesmo teve que ser adiada.

    Depois de alguns anos, comecei a subir montanhas e esse projeto de percorrer a Transamazônica ficou de lado. Mas no início de 2019 comecei a pensar nele novamente: fazer esse trajeto de 2260 quilômetros, começando em Marabá, no Pará e terminando em Lábrea, no Amazonas.

    Escolher a melhor época do ano para fazer essa travessia, seria muito importante. Observei que a estação chuvosa nessa região inicia-se no mês de dezembro até abril. Contudo, não gostaria de ir na seca, pois não daria para ver muitas coisas e seria mais perigoso devido à poeira que se levanta com o fluxo de veículos. A melhor época seria no período de transição entre a estação chuvosa e a seca.

    Um dos itens mais importantes para fazer a travessia eu já tinha, a bicicleta. Para não ficar na mão no meio do caminho era preciso fazer uma escolha em relação a qualidade. Quando ela é muito simples, é possível fazer modificações e ainda conseguir peças com muito mais facilidade. Contudo, uma bicicleta mais sofisticada não apresentaria tantos problemas. A minha, estava dentro dos padrões para se fazer uma travessia segura.

    Na busca por equipamentos ideais para fazer a travessia em bicicleta, o que mais me deu trabalho foi encontrar os alforjes que levariam o material para acampar, a comida, o material fotográfico, a roupa e os objetos de uso pessoal. A dificuldade se deu ao fato da maioria das empresas brasileiras não trabalharem com material impermeável. Tive muita sorte, pois consegui as bolsas por indicação de um amigo que faz cicloviagens. A minha proposta era colocar os alforjes somente na traseira da bicicleta para levar só o necessário, evitando assim o excesso de peso. Optei também por uma bolsa top bag que iria em cima dos alforjes. E para as rodas comprei dois pneus novos de uma marca alemã que é considerada uma das melhores.

    No dia treze maio de 2019 embarquei para iniciar a Transamazônica.

    Uma das minhas preocupações era com o transporte da bicicleta. Era de extrema importância que ela chegasse inteira ao destino, pois representa o meu meio de transporte para a realização desse projeto. Antes de embarcá-la, eu a desmontei e embalei em plástico bolha de maneira que todas as peças ficassem presas e seguras.

    Cheguei em Marabá, no Pará, às duas horas e cinquenta minutos da madrugada do dia catorze de maio. O aeroporto é bem pequeno e não tem muitas opções de entretenimento, por isso o jeito foi tomar um café e esperar clarear o dia para montar a bike e começar a pedalar. Saí para dar uma volta e vi uma pequena pracinha com banco. Como eu estava cansado, fui até lá e deitei-me.

    O calor seria minha grande companheira naqueles dias, pois ainda nem havia amanhecido direito e eu já estava derretendo. Não queria perder muito tempo, por isso comecei a organizar as minhas coisas nos alforjes e montar a minha bicicleta numa pequena praça no aeroporto.

    Muitos curiosos aproximavam-se para saber o que estava acontecendo, inclusive o grupo responsável pela segurança do aeroporto. Ao explicar o meu projeto, muitos ficavam admirados e ainda percebi que outros tinham pouco conhecimento sobre a rodovia.

    Começar a pedalar a bicicleta foi uma sensação incrível. Em questão de minutos já estava pedalando na Transamazônica, pois ela passa ao lado do aeroporto. Depois de uns trinta minutos, encontrei um pequeno comércio e parei para comprar os produtos que ainda faltavam. Eu havia trazido comida só para almoçar e jantar durante dez dias (macarrão, salame, calabresa). Faltavam ainda providenciar os quitutes que formariam o cardápio do café da manhã e a água (5,5 litros), item principal dessa viagem.

    Planejei-me para iniciar essa travessia com pedaladas mais fortes e atingir a maior distância que conseguiria nos primeiros dias, visto que estaria descansado, cheio de energia e motivado para pedalar. Deixaria para imprimir um ritmo mais lento depois da metade do percurso.

    Marabá é uma das maiores cidades do Pará e é apontada como sendo a terceira cidade do país mais violenta (tráfico de drogas e crimes encomendados), por isso não quis ficar muito tempo nessa região e segui rumo a Novo Repartimento – PA.

    O momento mais tenso dessa viagem, aconteceu alguns quilômetros depois da Usina de Belo Monte, onde fui abordado por dois homens armados que estavam em uma camionete preta. Eles passaram por mim no sentido contrário e logo em seguida retornaram parando alguns metros à minha frente. Ao ver a placa tampada por um pano, senti imediatamente que seria assaltado. Ao saírem do veículo, uma das pessoas, a que se encontrava do lado do carona, pediu para eu levantar as mãos. Como eu estava com uma forte dor no ombro, naquele momento o braço não atendeu aos comandos do cérebro e levantei somente o braço esquerdo. No mesmo instante ele atirou para me assustar. Foi um momento muito tenso e difícil. Expliquei sobre a dor no braço enquanto se aproximavam e ao mesmo tempo observavam a rodovia. Pediram dinheiro e o celular que eu carregava comigo. Minha carteira estava enrolada num plástico em cima do guidão, era um lugar de fácil acesso em que gostava de levá-la. Também pediram para abrir a bolsa top bag que carregava em cima dos alforjes e foi ali que encontraram meu celular e a câmera fotográfica. Como fizeram tudo com muita pressa, não deu tempo para mexer nos alforjes. Percebi que estavam preocupados com a vinda de algum veículo. Lembro-me da pessoa que estava dirigindo, voltar-se para mim antes de saírem e dizer: “Lembre-se de que você está na estrada e ir à polícia não vai ajudá-lo em nada”.

    Depois daquela situação complicada só me restou pedalar e sair o mais rápido possível daquela região. Estava a algumas horas de Altamira e fui pedalando e pensando no que iria fazer de lá para frente. Eu havia empreendido todos os meus recursos financeiros nesse projeto. Ser assaltado no terceiro dia, não estava nos meus planos. Não sabia nem como iria dar a notícia para a minha família, pois não queria em hipótese alguma deixá-los preocupados. Sabia que iriam me pressionar e eu não queria largar o projeto pela metade.

    Ao chegar em Altamira, parei em um posto de combustível, conversei com as pessoas que trabalhavam no local e perguntei se poderia passar a noite. Expliquei-lhes o que havia acontecido e eles foram muito solidários. Inclusive a moça que trabalhava no caixa emprestou-me seu celular para mandar notícias para casa.

    Fordlândia é um distrito de Aveiro, no estado do Pará, que fica às margens do Rio Tapajós. A cidade foi fundada no início do século XX pelo visionário Henry Ford que construía carros nos Estados Unidos. Como a demanda estava crescendo a todo vapor e ele não queria depender somente dos asiáticos para a aquisição da borracha para a produção de pneus, resolveu construir uma cidade tipicamente norte-americana no meio da Amazônia brasileira. O seu objetivo era produzir borracha para a sua própria empresa e para isso, ele contou com o auxílio do governo do estado do Pará. Adquiriu um terreno de quase 15000 quilômetros quadrados às margens do Rio Tapajós e, em pouco tempo, Fordlândia estava pronta. Bairros, escolas, eletricidade, saneamento, clube social/recreativo e um hospital bem equipado foram construídos. O empreendimento tinha tudo para dar certo, mas acabou dando errado. Algum tempo depois, as pragas tomaram conta das seringueiras de forma irreversível e Fordlândia foi abandonada em poucos anos. O que era sinônimo de progresso passou a ser conhecida como “cidade-fantasma”.

    Logo após o término do asfalto, na saída de Itaituba, passei por um trecho longo, movimentado, estreito, sem estrutura nenhuma e perigoso no Parque Nacional da Amazônia. Eu queria, na verdade, conseguir atravessar todo o trajeto do parque naquele dia, mas devido às dificuldades, tive que acampar na região.

    Já havia pedalado em torno de 10 quilômetros pelo Parque Nacional da Amazônia quando fui abordado por uma barreira da Polícia Federal e Ibama. Fui revistado como todos os que passavam pelo caminho. Perguntei o motivo da fiscalização e disseram-me que era para controlar a caça irregular e o tráfico de drogas. Ainda teria que percorrer 100 quilômetros para atravessar toda a floresta. Estava literalmente abandonado, pois naquele trecho não havia nenhum sinal de civilização.

    Assim que sai do parque, o meio ambiente mudou drasticamente, pois mergulhei em uma região desmatada. O primeiro espaço que encontrei com restaurante e pousada foi o Ponto Apoio Amigo Garimpeiro, depois o Ponto de Apoio Sol Nascente e por último no quilômetro 270 o Ponto Apoio Rabelo. Toda essa região é de garimpo, mas muito segura. Segundo o dono do Ponto Amigo Garimpeiro “Aqui você não vai encontrar gente que te assalta. Esse tipo de gente não se cria aqui“.

    Até a chegada a Jacareacanga, passei por momentos muito difíceis, porque tive picos de febre durante dois dias. Sabia que precisava superar e seguir pedalando, uma vez que as dificuldades fazem parte da jornada. O trajeto mais complicado foram os últimos 90 quilômetros que apresentavam muita irregularidade. Eram descidas tão íngremes que era necessário frear muito. Além disso, havia muito movimento de camionetes e caminhões a óleo fazendo o transporte até Itaituba. Em alguns momentos tive que simplesmente jogar a bicicleta para as margens para não ser atropelado.

    Depois de quase sete horas pedalando em terreno irregular com muitas depressões, foi muito gratificante encontrar 16 quilômetros de asfalto até Lábrea. Estava na reta final, quando me dei conta de que o dia não havia sido tão cansativo quanto eu esperava. Naquele dia, não peguei chuva e além disso o terreno era muito mais plano. Assim que cheguei às margens do Rio Purus, fim da Transamazônica, fiz alguns registros fotográficos ao lado da placa: AQUI TERMINA A TRANSAMAZÔNICA LÁBREA – AM.

    Enfim, pedalar pela Transamazônica é exercer a simplicidade, acostumar-se a comer terra e poeira. É exercer a humildade para pedir água ou mesmo um lugar para dormir e descansar. É praticar a empatia diante do sofrimento alheio. É conhecer a solidariedade ao perceber que existem pessoas dispostas a ajudar sem ao menos conhecer. É celebrar a vida sem nada ter. É ser convidado a sentar-se à mesa como se fosse um parente próximo. Enfim, é conhecer pessoas que que possuem pouco, mas que têm um coração enorme.

    Hélio Fenrich
    Hélio Fenrich

    Published on 05/12/2020 10:46

    Performed from 05/13/2019 to 06/01/2019

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    13 Comments
    Hélio Fenrich 05/26/2020 06:43

    Obrigado Alexandra!

    Vera Serra 05/30/2020 11:04

    Parabéns, uma aventura dessa é para poucos. Costumo pedalar pelo nosso interior, e muitas vezes só podemos contar com a solidariedade do povo mesmo.

    Hélio Fenrich 06/05/2020 11:31

    Oi Vera! Quanto mais afastado das cidades as pessoas são cativas e solidárias.

    Damião Santana 06/11/2020 16:20

    Bacana conhecer teu relato. Caí aqui, pois... quero fazer uma viagem por esta região também. Logo cai da cadeira quando você relatou o assalto. Que bom que isso não interferiu no seu objetivo! Bem, analisando o mapa (tenho feito muito isso, nos últimos tempos), eu não entendi porque você não voo para Manaus, Rio Branco ou Porto Velho (que fica bem perto - somente 400KM!! ahaha) de Lábrea. Por que escolheu Marabá? PS: quero trocar mais idéias com vc.)

    Hélio Fenrich 06/17/2020 10:59

    Olá Damião! Meu objetivo era a Transamazônica br 230, o trajeto dentro a Amazônia é de Marabá até Lábrea onde finaliza a Transamazônica.

    George Araujo 10/23/2020 22:05

    Mandou bem parceiro!!! Digno do Camel Trophy!! Parabéns!!

    David Sousa 01/05/2021 13:35

    Parabéns fiz uma pequena parte da TRANSAMAZÔNICA a pé top de bike e um sonho!

    Ana Retore 03/22/2021 14:40

    👏🏻👏🏻👏🏻

    Hélio Fenrich

    Hélio Fenrich

    Jaraguá do Sul - SC

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    Explorador, montanhista, corredor de montanhas e apaixonado por esportes outdoor.

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