/abcdn.aventurebox.com/production/uf/5b76ff00d9c8c/adventure/640f8c81ccff7/640f8def30d1a-2.jpg)
Circuito das Araucárias
Cicloviagem pelo Circuito das Araucárias, interior de Santa Catarina, outubro de 2022
Cicloviagem Mountain Bike BikepackingAno de 2022 do calendário gregoriano. Entre o primeiro e segundo turno das eleições no Brasil. Não havia para onde eu pensasse em passar os dias de férias que não fosse caro demais, logisticamente complicado, ou já não tivesse ido.
Queria ter continuado a pedalar pela Ciclomantiqueira, mas não tinha tempo suficiente para concluir. Ainda não foi dessa vez.
Decidi ir para o Circuito das Araucárias, interior leste de Santa Catarina, ao sul de Curitiba, norte de Blumenau. Tenso, pensei.
Já havia feito o circuito do Vale Europeu a pé e de bicicleta, que fica mais ou menos na mesma região. E já tinha ido para lá outras vezes por motivos diversos, e conheci várias cidades. Fui super bem recebido por todos os lugares e pessoas por onde passei ali, mas nunca em época de eleições.
Não estava no clima para discussões, e comecei a preparar as coisas com um pé atrás.
Sai de casa pedalando a noite até a Rodoviária do Tietê, peguei a passagem para Joinville e desci para o local de embarque para desmontar a bike e prepará-la para as intempéries do bagageiro. Escolhi viajar de ônibus à noite na esperança de ir dormindo. Saindo as 23:15, chegando às 8:30. Três bancos à frente, um casal com uma criança, que já dormia. Do meu lado, ninguém. Parecia perfeito. Botei o fone de ouvido, escolhi uma música qualquer, e fui…
Por volta da uma da manhã começou. Um farmacêutico que claramente queria que todos no ônibus soubessem de seus conhecimentos químicos começou a palestrar com seu amigo do lado em alto e bom som. Falou das propriedades da penicilina, da diferença entre os tipos de alergênicos, das preocupações com os antibióticos, e não parou de declamar tudo que aprendeu na faculdade até às quatro da manhã, quando o ônibus fez uma parada.
Quando voltamos à estrada ele se rendeu ao sono e todos os outros 44 passageiros poderiam descansar com seus novos conhecimentos forçadamente adquiridos. Ledo engano. A criança acordou, e entre um cheetos e outro, exigia isso ou aquilo dos pais, aos gritos e lamentos mais profundos. Um cara, na minha diagonal à frente acendeu a tela no celular no full bright, que me queimava as retinas mesmo de olhos fechados. Ficou claro que não conseguiria dormir mais, e assim o foi.
Ainda teria que enrolar na rodoviária de Joinville até as 11hs para pegar o ônibus para São Bento do Sul. Então comi um dos piores pão de queijo da minha vida e tomei um café forte para não dormir sentado e perder a hora.
Quando finalmente fui embarcar, o motorista proferiu: Não pode levar a bicicleta fora da caixa.
Meu carisma já tinha ido embora, mas ainda tentei argumentar polidamente que o rapaz do guichê me viu com a bike desmontada, me viu com as bolsas no ombro, que não tive problemas com a viação anterior vindo de São Paulo, que o site da empresa não dizia nada, e continuei falando sem parar até vencê-lo pela insistência. Pelo que entendi, ele tinha medo que a bike danificasse alguma bagagem e ele tivesse que pagar o prejuízo. Mal sabia ele que sairia bem mais caro se alguma bagagem danificasse a bike.
Cheguei a São Bento do Sul às 12:30, montei a bike e cheguei ao hotel com o restaurante já no horário de fechar. Nem perdi tempo, guardei a bike e fui comer um fetuccine, já pensando em tirar um cochilo depois.
Ao sair do restaurante me deparei com uma casa de cucas bem ao lado e achei um desaforo. Entrei e pedi o pedaço mais bonito que eu vi, e um café… perdi o sono.
Acabou que peguei a câmera e saí na chuva para conhecer a cidade. Não sabia se teria tempo na volta do circuito e seria um desperdício ficar dormindo no hotel.
Primeiro fui até a praça principal fazer o reconhecimento de onde seria o marco zero do circuito que iniciaria no dia seguinte. São Bento do Sul não é uma cidade exatamente pequena para os padrões da região, mas como toda cidade pequena, quando você anda pela praça, todo mundo te percebe como alguém que não é dali. Depois dos Xokleng e dos Kain-gang, a região foi habitada por famílias do Paraná, e depois tiveram terras destinadas aos imigrantes alemães. Interessante notar que o governo judicializou terras e destinou-as aos imigrantes, e que a cidade começou em 1973 com 70 imigrantes trabalhando em esquema de mutirão para construir casas e plantações. Diferentemente dos brasileiros que já habitavam por ali, alguns mais abastados e proprietários de escravos.
Enfim, fui até a Igreja Matriz Puríssimo Coração de Maria, no alto de uma colina, com vista para todo o centro da cidade. Fiquei um tempo ali na garoa, tentando entender aquela cidade.
Depois fui até o Museu Histórico Municipal Dr. Felippe Maria Wolff. A casa foi cedida pelo médico para ser sede e quartel general quando São Bento do Sul foi capital temporária do estado durante a Revolução Federalista de 1893. Uma galera que defendia uma constituição mais liberal, a descentralização do poder, o parlamentarismo. Mas que tinha como um dos principais líderes, Gaspar Martins, um cara que foi ministro na monarquia, e que perdeu muita terra com os decretos da República. Queria saber mais. Provavelmente a história ali explicaria muito sobre as escolhas da população da região de hoje. Mas o museu estava fechado e fiquei só na curiosidade.
Ao lado, também fechado, fica a primeira tipografia de São Bento do Sul, que foi sede de jornais republicanos e hoje é o arquivo municipal. Tem uma simbologia arquitetônica que denota a maçonaria.
Passei num mercadinho e voltei ao hotel. Ainda tinha alguns preparativos a fazer e já estava no horário do jantar. Finalmente ia dormir.
São Bento do Sul - Rota das Cahoeiras - Corupá.
Tomei um café caprichado, com calma, e saí tarde. Quase 10 horas da manhã.
Não achei as placas iniciais muito claras de como sair do centro da cidade e perdi um tempo dando voltas no quarteirão. Mas em menos de 10 km seguindo o que parecia ser uma rodovia menor, estava fora da cidade. Os carros paravam cada vez que eu ameaçava atravessar a pista em alguma faixa de pedestres, as pessoas falavam bom dia, sorriam ao ver um ciclista viajante, puxavam assunto para entender como era aquilo. Mal tinha começado a pedalar e já estava meio desconcertado com a hospitalidade e gentileza das pessoas em total dicotomia com as inúmeras bandeiras verde-amarelas penduradas e slogan integralista em outdoors, símbolos que nos últimos tempos só me remetiam ao ódio e individualismo .
Depois de vinte e poucos quilômetros e uma bela subida de 970m, o caminho desce a serra por uma estrada um tanto quanto isolada e tranquila. Descobri que a Rota das Cachoeiras, uma trilha para se percorrer a pé que parecia bem interessante, e que seria ponto de parada do dia (fim do trecho 1), estava fechada também, então tive que esticar até Corupá. Um trecho que cruzava várias vezes a linha do trem que vai ao litoral, e com várias pontes sobre os riachos que descem a serra. Por vezes, atravessava os riachos literalmente, sem ponte, pois eles corriam por cima da estrada mesmo.
Em Corupá segui as placas até a praça central, onde terminava o final do trecho 2 do roteiro.
Imediatamente comecei a caçar um sorvete. Eram umas 16 horas e o calor tinha castigado um pouco nos últimos quilômetros.
Entrei numa vendinha e fui direto no freezer, que estava decepcionantemente vazio. A senhora atrás do balcão, meio assustada vendo um alienígena, demorou para entender minha expressão de frustração e desespero, mas quando entendeu, apontou outro freezer atrás de mim e relaxou.
Refrescado, tracei o rumo até a pousada e pedalei os 3km restantes até lá.
Foram 61km pedalados, 1081m de ascensão, em 5h54 minutos neste primeiro dia.
Me instalei na pousada, tomei banho e tirei uma soneca até a hora do jantar.
À noite encontrei o Carlão, também hospedado na pousada. Amigo que hoje mora em Joinville, e que teve a coragem de se juntar a mim para pedalar o trecho seguinte. Coragem porque ao vê-lo tirando a bike aro 26, 18 marchas, do carro, imaginei que pra ele seria uma experiência no mínimo um pouco mais dolorosa. Ainda mais considerando que o trecho seguinte seria justamente o trecho mais puxado de todo o circuito, voltando para o planalto num caminho praticamente todo de subida.
Jantamos muito bem, e combinamos de sair no outro dia às 9h.
Corupá - Parque das Aves - Campo Alegre
Acordei, acomodei as coisas na bike e já desci para o café. Mostrei mais ou menos o plano para o Carlão e saímos de volta para o centro da cidade.
Quando começamos um dia de pedal é comum nos primeiros quilômetros parar para ajustar alguma coisa na bike, prender melhor alguma bolsa que não estava devidamente acomodada, tirar alguma vestimenta que esteja esquentando demais. E como o Carlão nunca tinha feito um pedal tão longo, não foi diferente. De cara precisou amarrar uma blusa no guidão, e regular algumas coisas enquanto eu olhava o mapa.
Pegamos uma sequência de ruas de paralelepípedos, que exigia um pouco mais da coluna, e logo depois de cruzar a ferrovia pela primeira vez, pegamos um bom trecho de estrada de terra, por 13km, com subidas curtas até o Parque das Aves (fim do trecho 3).
Ali fizemos uma pausa, fizemos uma rápida visita ao parque, com direito a refrigerante gelado, para encher o tanque. Ali conversei com um senhor que parecia ser o dono do local, que me contou que o lucro com cicloturismo chega facilmente a um para quinze. Ou seja, de cada um real investido, ele lucra 15 reais. Que o circuito começou em 2012, que recebe muitos paulistas por lá, e que melhorou bastante a vida dele. Porém em determinado momento ele menciona que está brigando com a prefeitura para que asfaltem o trecho entre Corupá e o parque (que é o sítio dele), para que as pessoas possam ir até lá fazer pic-nic de carro. Acho que ele não entendeu muito bem a ideia do cicloturismo, e porque os paulistas vão pra lá. Além disso, já estava claro que ele queria entrar no assunto da política, e pela bandeira que tremulava no portão, achei melhor sair dali logo e continuar com a boa impressão do cuidado que ele tinha com as aves e árvores frutíferas que ele nos apresentou com tanto prazer.
Saindo do Parque das Aves, as coisas começaram a ficar realmente desgastantes. Além do Sol escaldante, era só subida, uma atrás da outra, íngremes, sem fim. O Carlão empurrava quase o tempo todo, e mesmo estando com uma bike mais adequada, as malas (no guidão e no selim, estilo bikepacking), faziam um peso extra que me colocava na mesma situação de empurrar morro acima, parando de tempos em tempos.
Com as costas para o Morro da Igreja, nos víamos aos poucos, nos colocando na mesma altura do cume dele, cada vez que parávamos para respirar. Em uma dessas paradas, em um ponto de ônibus, numa vila de uma rua só, uma única bandeira vermelha tremulava numa pequena vila, no meio de casas onde outras verde-amarelas dominavam a rua. “Toda unanimidade é burra.Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”, dizia Nelson Rodrigues. Mas ele era de Recife, não do Sul… De qualquer forma, aquela bandeira era corajosa, as outras concordando ou não, pensei.
Num mirante que parecia ser o fim da subida, compartilhei um pouco de castanhas, bananinhas e pringles com o Carlão. Ele não tinha levado nada, e não tinha previsto que a estrada não teria onde comprar nada. A água também estava acabando. Dei uma olhada no mapa, e vi que ainda faltava um bom caminho pela frente, e que precisaríamos acelerar para não chegar a noite.
Bom, o mirante provou-se ser apenas o meio de mais um monte de subidas. Foram praticamente trinta quilômetros só de subidas.
Quando chegamos ao que parecia ser um platô e não tinha mais pra onde subir, sentei na porteira de uma fazenda e esperei o Carlão. O tempo estava mudando, as nuvens crescendo e um vento frio começou a bater. Botei o anorak e vi que faltavam doze quilômetros.
Quando o Carlão me alcançou, uns 15 minutos depois, eu já estava com frio e com fome. Dividi o resto das bananinhas e seguimos.
Chegamos na cidade com chuva, cinza, frio. Fomos rapidamente até a praça onde marcava o final do trecho 4 para zerar o Strava (aplicativo gps de trackeamento de rotas), e pegamos o caminho para o hotel. Passei por um local escrito “café” e parei derrapando. Pedi um bolo e um café e a energia voltou na hora.
A cidade era pequena e não parecia ter muita coisa aberta no sábado a noite por ali pra jantar. E minha esperança se voltou para o hotel, que ficava já fora do centro da cidade e que me deu um certo trabalho para reservar, parecia ser o único disponível na cidade. Mas também foi frustrada. O hotel não servia jantar e tivemos que pedir um lanche por telefone.
Ainda estava traumatizado com o pão de queijo da rodoviária de Joinville, mas não contava com o que estaria por vir… Pedi um Cheese-coração, lanche que deveria ser típico e especialidade do local, mas o que veio foi uma aglomeração de ingredientes amórfica que explodia por todos os lados a cada tentativa de manter aquilo consistente o suficiente para uma mordida. Tudo ali desmoronava, inclusive o pão, e cogitei pedir uma colher para hotel, antes de desistir e comer com a mão mesmo. Não havia uma mesa no quarto, então estávamos comendo no chão, sujos de terra e molhados da chuva. Também não haviam enviado guardanapos, o que fazia tudo virar um caos lambuzado.
Depois disso, fui direto pro banho e apaguei.
Campo Alegre - Pousada Casa Antiga - Pousada Ponte de Pedra.
No dia seguinte, tomamos café e o Carlão arrumou um resgate pra levá-lo de volta à Corupá.
Eu tinha decidido emendar os trechos 5 e 6 e ir direto para a Pousada Ponte de Pedra. O dia ainda estava nublado, úmido, e achei que, apesar do cansaço, sem o calor, seria mais tranquilo.
O trajeto todo foi de muitas subidas, mas bem menores que as do dia anterior, e com o “incentivo” de alguns cachorros pelo caminho. Até passei por uma gangue organizada deles que parecia ser um certo rancor com ciclistas. Sorte que esse trecho específico era descida, e não conseguiram me emboscar por muito tempo. Só o suficiente pra dar uma tremedeira nas perdas… tenso.
Depois que deixei Campo Alegre, quem pareceu se alegrar foi o tempo. E depois de um par de horas, o Sol voltou com tudo.
Cheguei à Cachoeira do Engenho com o Sol do meio-dia. Parei na beira do rio, num gramado com sombra e comecei a comer alguma coisa. Logo senti um cheiro forte de algo queimando, levantei e fui ver a cachoeira que ficava logo atrás do engenho, numa curva da estrada. Ali, uma meia-dúzia de pessoas, de branco, envoltas em flores e velas, estavam deitadas sobre as rochas na beira da cachoeira. Algum ritual, pensei. E saí de perto para não incomodar.
Provavelmente uma rara exceção numa região por onde passei por algumas igrejas católicas, e um monte de outras evangélicas de várias marcas diferentes.
Terminei minha pausa e segui meu caminho. Passei por uma plantação de pinheiros e, apesar de ser plano, fui mais devagar pra aproveitar a sombra. Cruzei uma rodovia, e entrei na famosa estrada Dona Francisca.
Dona Francisca era a Princesa, irmã de Don Pedro II.Recebeu aquelas terras de dote, quando casou com o Príncipe de Joinville. Construíram ali a segunda estrada corroçável do Brasil, importante rota comercial, e quando conseguiram terminar a parte mais íngreme, dizem que exclamaram: “Froeliches feld!” (Campo Alegre). Dali pra frente, esse seria meu caminho.
Passei por algumas casas que ainda pareciam conservar o aspecto daquela época, e alguns trechos da estrada pareciam ter ainda as mesmas pedras.
Cheguei na Pousada Ponte de Pedra seguindo essa estrada, logo após o almoço. Inclusive a ponte de pedra que dá nome à pousada, é uma construção dessa época, como parte da estrada original.
Passei pelo portão e logo um cachorro de médio porte com cara de poucos amigos se postou à minha frente. Decidi recuar e estender a mão.
Ele veio, cheirou e voltou pras suas ocupações. Entrei e o lugar parecia vazio. Encostei a bike e esperei. Talvez tivesse chegado cedo demais para ser recebido, mas não tinha outro lugar pra ir.
Finalmente quando notaram minha presença, fui acomodado e muito bem recebido. Depois que apresentaram meu quarto, de frente para o riacho que passa por debaixo da tal ponte, me presentearam com pães, geléias, embutidos caseiros, queijos, um bom café e me deixaram na cozinha à vontade. A proprietária iria até a cidade e voltaria só a noite para o jantar.
Não pensei duas vezes, de banho tomado e barriga cheia, dormi o resto da tarde.
Acordei quando ouvi o carro voltar. Deixei as coisas prontas para o dia seguinte e fui jantar.
Numa mesa eu, na outra a família. Não lembro o que comi, mas lembro que era tudo muito bom, e numa quantidade sem limites. Ficamos papeando por um tempo. Eles me contaram sobre a história da pousada, da região, da estrada, até que o sono voltou a bater e me retirei satisfeito.
Pousada Ponte de Pedra - Rio Negrinho
Acordei ao som incomum de ovelhas balindo. Quando saí da pousada, meus anfitriões não estavam presentes. Tomei café, com o gato e o cachorro, me despedi da moça que cuidava da cozinha e saí pedalando.
Meu plano era percorrer os 35 km até Rio Negrinho logo e tentar conhecer um pouco da cidade, que parecia ser um pouco maior que as anteriores.
Mas não foi tão rápido assim. Muitos trechos da estrada eram complicados de pedalar, e demandavam cuidado. Parecia que havia uma intenção de asfaltar tudo aquilo. Havia uma recente planificação da pista, passei por algumas máquinas na estrada, e por cima muito pedrisco e pedras soltas. Na descida derrapava muito, nas curvas passava ao limiar do tombo, e nas subidas os pneus perdiam o atrito toda hora. Em duas subidas tive que descer da bike empurrar. Em uma descida, tive que escolher entre fugir dos cachorros que me perseguiam ou arriscar uma queda indo mais rápido do que a prudência indicava. Peguei de lado uma pedra maior e a frente da bike quicou de lado. Na hora lembrei da última vez que fui ao dentista e resolvi tentar a sorte com os cachorros. Por sorte haviam ficado pra trás já.
Passei por uma placa que dizia “Fazenda de Patos”. E parei pra um lanche. Não ouvi, nem vi pato nenhum, mas parecia ser uma de muitas da região. Depois vi mais 2 ou 3 no caminho.
Cheguei cansado na cidade. O asfalto das ruas parecia triplicar a sensação de calor. Fui até à placa de final do trecho 7 e também início do trecho 8. E nem quis saber de conhecer a cidade. Me dirigi para a pousada.
No caminho, entrei num bar/padaria e peguei um sorvete. Os donos também faziam passeios de bike pela região e desatamos numa conversa de comparação entre o Vale Europeu, que eles estavam fazendo aos poucos e o Circuito das Araucárias, que apesar de passar na cidade deles, pouco conheciam. Um senhor, sentado à mesa, ouvia a conversa e tomava sua cachacinha. Tinha a cara rosada de Sol e cabelos e barba comprida branca amareladas do tempo. Paguei pelo sorvete e pelo refrigerante e quando eu ia me despedindo dos donos do bar, ele levanta, vem até mim e tira 10 reais do bolso. “Pra você comprar um lanche”, disse ele. Olhei para o dono do bar que sorria. Fiquei sem reação. Claramente aqueles 10 reais fariam mais falta àquele senhor do que a mim. Tentei recusar educadamente, mas ele insistiu e saiu andando.
Um quilômetro depois eu chegava à pousada, que certamente custaria mais de 10 reais, e que provavelmente aquele senhor nunca pôde ou quis se hospedar.
Depois de me acomodar fui dar uma caminhada ao redor do hotel para alongar as pernas. Parecia que aquele hotel já tinha tido dias melhores, tinha um mini golf abandonado, um deck para um mirante fechado para uma reforma que parecia que não iria acontecer tão cedo e até então, não tinha cruzado com nenhum outro hóspede. Sentei no jardim e comecei a planejar os próximos dias.
No final do trecho 8 eu poderia ficar num hotel fazenda, à beira de um lago, já na estrada que seguiria pelo trecho 9, terminando o circuito de volta à São Bento do Sul. Mas aqueles 10 reais tinham me abalado de alguma forma. Não fazia sentido mais ficar num hotel fazenda que custaria três vezes mais que o próprio hotel que eu já estava. Chequei os mapas e mudei a rota. Eu ainda faria o trecho 8 normalmente, contornando Rio Negrinho, mas pedalaria mais 5 quilômetros e voltaria para o mesmo hotel. Poderia deixar as bagagens no hotel, iria mais leve, e economizaria um dinheiro. E ainda poderia voltar ao bar pra ver se encontrava o velho senhor, pra conversar e entender sua história. Fui até a recepção e pedi pra estender minha hospedagem por mais um dia.
Decisão tomada, voltei pro quarto e tirei um cochilo.
A noite acordei mais leve. O rapaz da recepção me indicou uma pizzaria, e depois disse que eles poderiam entregar no hotel. Aceitei. Em meia hora estava traçando uma pizza grande.
O rapaz da recepção me trouxe talheres e um prato e ofereceu o salão de jantar pra eu usar. Nenhum hóspede. E parecia mesmo que estava tranquilo o movimento porque não demorou para o rapaz voltar e puxar assunto.
Diferentemente do início da viagem, agora eu estava curioso com as pessoas da região, e não fugi quando ele começou a falar de política. Até porque ele começou comentando da pandemia, de como o hotel tinha perdido o movimento que tinha antes e como tinha retomado após as vacinas, dos empregos nas indústrias locais, do prefeito eleito que não era dos melhores. Falou que não suportava o presidente, mas que também não apoiava o anterior.
E o papo rendeu bastante, a ponto de dividirmos a pizza. Pessoas normais discutindo e não torcedores fanáticos extremistas. As pessoas são complexas, os interesses individuais, as identificações coletivas, mas todos precisam comer e conversar. E se entenderem.
Dormi em paz.
Rio Negrinho - Fazenda Evaristo - Rio Negrinho
Peguei um bom trecho de asfalto pra sair da cidade, e depois de uma descida longa, com vento na cara, começou uma subida chata com as mesmas pedras soltas do dia anterior. Depois de uma bifurcação, na Igreja São Pedro, a estrada voltou a ser de terra batida, e o pedal começou a fluir melhor. Até uma subida mais puxada onde tive que descer e empurrar. No cume da subida, um monumento ao colonizador, com uma grande cruz e um mirante para um pasto.
Aquele contexto ali suscitaria toda uma discussão interna sobre colonialismo, sobre catequização, sobre terras improdutivas, mas havia uma coruja num poste ali, e ela é um ser mais sábio que eu. Deixei os pensamentos pra ela e segui.
Também encontrei por vezes com algumas corujas que me pareciam julgar com aqueles olhos gigantes. Parei pra tirar fotos de algumas, mas eu tinha meus próprios julgamentos e não bati muito papo.
Passei por um Mosteiro Trapista, que tinham me indicado para visitar, mas uma casa com cachorros soltos na entrada da estrada para o mosteiro e o calor me fizeram desistir da ideia. A vista já era interessante o suficiente de longe.
Dali em diante tenho a sensação que foi só descida. Em um trecho, um trator revirava a estrada, em outro havia sombras e plantações diversas. A estrada foi ficando mais bonita até entrar na Estrada dos Lagos. Apesar do nome, e dos lagos, era uma rodovia asfaltada. E aí você acaba prestando mais atenção nos carros indo e vindo do que na paisagem.
Quando cheguei ao Hotel fazenda, na placa de final do trecho 8, início do trecho 9, agradeci por não ter resolvido ficar ali. Definitivamente não é meu tipo de local. Só a portaria de entrada 5 vezes maior que meu apartamento. Andei mais dois quilômetros pela estrada e peguei uma saída de volta à cidade. Passei pelo hotel e continuei até o bar, mas estava fechado por conta do horário. O dono me viu lá de dentro e abriu a porta. Falou que não tinha muito movimento naquele horário então ele fechava, mas me deixou comprar um sorvete. Não encontrei mais aquele senhor, mas paguei o sorvete com os 10 reais dele.
Voltei pro hotel e à noite pedi um lanche. O rapaz da recepção fez as melhores recomendações sobre aquele lanche específico, seu preferido da cidade. E realmente era muito bom. Nessa noite não falamos de política. Mas falamos de bike versus moto (ele preferia), de bike versus handball (ele jogava). Na mais civilizada cordialidade das discórdias.
Rio Negrinho - Fazenda Evaristo (quase) - São Bento do Sul.
Depois de reforçar o café, segui de volta por cinco quilômetros até o ponto onde havia deixado o trecho 9 no dia anterior. Dois quilômetros e meio após a placa de fim do trecho 8.
Demorou um tempo até sair daquele asfalto e entrar pelas ruas de terra novamente.
Um bom trecho de pedras antigas da Dona Francisca diminuiu bastante meu ritmo, mas era um pedaço bem arborizado e tranquilo. Quando entrei na estrada de terra fui surpreendido com uma boiada ocupando toda a pista. Encostei a bike na cerca e subi no barranco. Não tem nem o que negociar, a boiada que siga seu caminho primeiro.
Atrás vinha a boiadeira, de moto, buzina no lugar do berrante. Tempos modernos.
Cruzei um rio que cruzava a estrada num cruzamento com a ferrovia. E logo depois uma ponte que cruzava o rio que eu havia cruzado.
Passei por cavalos altos de pernas grossas e peludas, que não são muito comuns no Brasil e comecei a subir a última pirambeira da viagem. Conversei rapidamente com dois ciclistas que vinham descendo sentido contrário e me disseram que logo adiante acabaria a subida. Claro que era mentira…
Ainda tinha vários trechos de subida, e mais perto da cidade, verdadeiras rampas, impossíveis de peladar.
Já passando pelos bairros periféricos peguei uma descida que era pior que as subidas. Era muito inclinada e cheia de pedras soltas. A traseira da bicicleta escorregava de lado ao frear, e mesmo descendo e segurando a bike na mão o terreno era escorregadio pra andar. Agradeci por não estar chovendo.
A descida acabava numa rua asfaltada que tinha até ciclovia e ponto de ônibus. Se perdesse o freio ali, era o fim. Entrei num mercado com as pernas bambas, e peguei um sorvete pra relaxar. Depois de uns minutos cheguei de volta à praça de onde havia saído há 6 dias atrás. Zerei o GPS, fiz umas fotos, e fui pro hotel.
Me dei ao luxo de ir pra piscina. Boiando ali, não cheguei a conclusão nenhuma. Mas voltaria mais esperança no povo desse país.
Sensacional James! Região linda!
James cheguei aqui por buscas no Google e acabei criando um perfil. Seu texto é sensacional! Que rolê da hora e que visão de mundo e das coisas.