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James Vaccari 02/12/2021 16:03
    Férias na Mantiqueira. Primeira parte -  Ciclomantiqueira.

    Férias na Mantiqueira. Primeira parte - Ciclomantiqueira.

    Cicloviagem pela Serra da Mantiqueira.

    Cicloviagem Mountain Bike

    Agosto de 2019.

    Extrema.

    Vinte e um de agosto. Findava o inverno.
    Saí da porta de casa pedalando até a Rodoviária do Tietê, em São Paulo, logo depois do almoço. Cheguei uma hora antes da partida do ônibus. Desmontei a bike e depois de me certificar que a tinham acomodado minimamente bem no bagageiro, peguei meu lugar na janela e fui vendo o mundo ficar menos cinza até Extrema, em Minas Gerais.

    Sem pressa, a ideia era me hospedar na cidade e tentar conhecer alguma coisa por ali antes de seguir viagem. Eu já tinha estado na cidade algumas vezes para fazer caminhadas à Pedra do Lopo ou a Trilha da Antena, mas nunca tinha visto muito mais que a praça principal e a rodoviária. E continuei sem ver muito mais que isso.

    Me hospedei na Pousada Varanda. Bem na praça central. Que na

    ocasião estava em reforma e cercada por tapumes. Fui ao mercado, farmácia, sorveteria, loja de apetrechos para celular (Tinha esquecido o carregador, comecei bem!) e passei a tarde fazendo um checklist na bike e nas bagagens, revisando mapas e rotas, comendo e fui dormir cedo.


    No dia seguinte iniciaria a Ciclomantiqueira. Rota mapeada por Guilherme Cavallari que compreende 1168 km de trilhas, entre Extrema e Conceição do Ibitipoca, e publicada em detalhes no livro Guia de Trilhas: Ciclomantiqueira, pela editora Kalapalo. Não tinha decidido ainda até onde iria, mas iria.


    Primeiro destino: Joanópolis, terra do Lobisomen.

    Café da manhã tomado, bike equipada, fase da Lua conferida (não era Lua Cheia), parti cedo pedalando morro abaixo. Desce a rua tal, vira na terceira, desce mais um pouco, pega a rodovia, sobe, vira de novo… cadê o celular?
    Lembrava vagamente de ter ligado o Strava na saída da pousada. Será que deixei cair? Quando?
    Voltei até a pousada. Falei com o proprietário e nada. Não estava lá. Comecei a refazer o caminho parando em toda loja aberta e perguntando pra todos na rua se não tinham visto um celular caído. Já tinha me irritado com o esquecimento do carregador, agora essa.
    Desci até a rodovia de novo e nada. Resolvi voltar para a pousada e pedir pra usar o telefone, pra ligar pra casa e avisar que tinha perdido e que não teria contato pelos próximos dias. Melhor sem celular mesmo. Pousada fechada. Comecei a perder o carisma…
    Do lado tinha uma ótica e uma moça saiu, varrendo a calçada. Pedi pra usar o telefone e em vez de ligar pra alguém, tentei discar o meu número, pra ver se alguém atendia.
    Ouvi um toque bem baixinho. Agradeci a moça e saí da loja disfarçando a vergonha.
    O celular estava na bolsa da bicicleta. Nunca tinha colocado lá. Sempre ficava no bolso da bermuda. E ao sair da rotina, nem reparei que tinha colocado em outro lugar.
    Foi o chacoalhão que eu precisava para ficar mais atento dali pra frente.

    Sair da rotina exige um certo esforço e foco. E era só o primeiro dia de férias depois de uma longa rotina batendo cartão.

    Acabei saindo tarde de Extrema e queria chegar logo em Joanópolis. Um caminho, na maior parte de estrada de terra, de pouco mais de vinte quilômetros. Teria a opção de ir até a cachoeira do Salto, mas como tinha já perdido a manhã, decidi seguir viagem.

    Joanópolis

    Em Joanópolis, não achei o hostel, que tinha consultado sobre a existência no dia anterior. O endereço apontava pra casa de uma família, e nunca tinha havido hostel ali. Mais um perrengue. Pensei em seguir pra próxima cidade. Mas meu humor já não estava dos melhores. Dei uma volta pelo centro e só vi um Hotel, com cara de caro. Entrei, passei por um longo corredor de piso de madeira polido, daqueles que você tem até vergonha de pisar e parei na recepção. Pigarreei, tossi, sentei no sofá, levantei, andei pisando forte, e nada de alguém aparecer. Entre no que parecia ser a cozinha, ou parte residencial de quem cuidava do lugar e também não vi ninguém. Soltei o tradicional chamado universal “Ô de casa!”
    Vagarosamente uma senhora apareceu, do nada, ajeitando os óculos. Não havia outra porta na cozinha, nem poderia ter vindo da recepção. Ignorei a possibilidade da existência de alma penada e perguntei se havia vaga e quanto era.
    No fim, não era caro e fui bem recebido. Acomodei a bike no quarto, e fui procurar o que comer.
    Só achei um café no centro. Almocei bolo e café. E depois outro bolo e café de sobremesa.
    O atendente me informou que a noite eles abriam como pizzaria, por outra porta. E me convidou pra que voltasse depois das 19 horas.
    Fui conhecer a igreja, a bíblia de pedra, e dar uma caminhada por ruas aleatórias. Cidade simpática. Mais tranquila que Extrema. E com uma bela praça para se descansar a sombra.

    A noite voltei ao café/pizzaria. Só tinha eu. Silêncio. Ótimo! Pedi uma pizza. Quando chegou, e não tinha mais como escapar, fui surpreendido com um grupo, possivelmente colegas de trabalho, lotando as mesas, ruidosos, falando alto, arrastando cadeiras e com um deles soltando a seguinte frase para o garçom: “O karaokê está funcionando hoje?”
    No salão ao lado luzes coloridas se acenderam…

    Devo ter batido o recorde olímpico de velocidade comendo aquela pizza. E antes das 20h já estava de volta ao hotel. (Não era Lua cheia, mas melhor não arriscar).

    Monte Verde

    Resolvi que não ia me apressar. Tomei o café com calma, arrumei as coisas e saí para os 41 quilômetros até Monte Verde. Uns 1400 metros de subida e 800 de descida no total, dizia o mapa. Mas só senti subida. Depois de uns 6 quilômetros de asfalto saindo de Joanópolis, entrei por uma estrada de terra que começou a subir lá pelo quilômetro quinze e não parou mais até a porta da pousada, que para coroar, também era saindo da rota por uma subida de mais um quilômetro. Doía tudo quando entrei no pequeno e simpático chalé da Pousada Canto dos Pássaros (4km antes do centro da cidade) e fui direto para o banho.
    Passei a tarde tirando um cochilo. Zero vontade de ir para a cidade. Já conhecia e não é muito meu tipo de turismo.
    A noite lembrei de um restaurante alemão que ficava numa estradinha ali perto, peguei a headlamp e fui caminhando jantar lá. Além da descida da pousada até a rodovia, e dos dois quilômetros até a outra estradinha de terra, o restaurante (Rassel Bock) ficava depois de um descidão que eu não lembrava ser tão íngreme e tão escuro. Mas valeu a pena. Eisben, würst, sauerkraut, kartoffelpüree, schnitzel e um strudel de sobremesa. Comi muito, muito, muito bem. Todo o carisma retornou instantaneamente. E a recompensa pelo esforço do dia estava paga. O duro foi voltar tudo até a pousada me arrastando. Desmoronei na cama e apaguei.

    Gonçalves

    No dia seguinte, parti pesado para Gonçalves. Cinquenta quilômetros de sobe e desce. Um caminho que eu lembrava vagamente de ter feito no carnaval anterior, na chuva. Mas estava sol e eu não lembrava muito bem. Só lembrava quando passava pelas pequenas vilas, de meia dúzia de casas que pontuam o caminho de vez em quando. Já não me esforçava muito para pedalar nas subidas. Empurrava sem vergonha nenhuma. E parava bastante para beber e comer. Ou para questionar: “O que estou fazendo aqui?”.
    Geralmente quando isso começa a acontecer, a viagem começa a fazer sentido. Deixa de ser uma viagem, e passa a ser uma terapia. O exercício físico fica automático, a dor passa a ser de uma convivência respeitosa, e a mente esvazia. O que uns chamam de estado de “flow”. A atenção total naquele instante. Sem ansiedade, sem preocupações que não o próprio caminho.
    Não eram nem duas da tarde quando cheguei na Pousada. Há 1.5km antes do centro da cidade. O Sol estava bem forte, então resolvi ficar na pousada mesmo, comer o que tinha na bolsa da bike e descansar.


    A noite a proprietária me deu uma carona até a cidade e me deixou em frente à “melhor cantina”, segundo ela. Não era bem uma cantina, tinha todo tipo de comida, com um toque gourmetizador, mas para não contrariar, pedi um talharim alla Carbonara. Voltei caminhando para a pousada, mas tive um pouco de dificuldade de encontrar a entrada. Não tinha levado a headlamp e a estrada não tinha iluminação ao deixar o centro. Apesar de ouvir latidos dos cachorros por onde eu passava e de ter a sensação de que a qualquer momento um deles pularia alguma cerca pra cima de mim, cheguei tenso, mas ileso a pousada.


    São Bento do Sapucaí

    Acordei ansioso para seguir viagem até São Bento do Sapucaí. Novamente um caminho que eu tinha feito antes, e tinha uma memória um pouco melhor. Seriam “só” 25 quilômetros e um belo descidão com vista para a Pedra do Baú.


    Passei pelas esculturas de madeira do Rafael Mifano, talhadas na base da motoserra. Pela entrada do Refúgio Kalapalo, do Guilherme Cavallari, e subi até o Belvedere, mirante que marca o topo da subida e início da descida para São Bento. Sentei pra comer. Umas bananas e um sanduíche que peguei na pousada e fiz umas fotos. Não demorou muito e chegou um grupo de carro e moto. Falando alto, forçando conversas só pra dizer que tinham ido a Miami, ou comprado não sei que Orlando. Estavam hospedados em Campos do Jordão, deixaram bem claro isso.


    Me senti usurpado do meu direito de apreciar a vista e comer em paz. Ainda fiz o favor de tirar fotos para eles, na esperança de que fossem embora logo, mas não parecia ser o caso, então fui eu.
    Uma longa descida de oito quilômetros com sorriso no rosto. As pastilhas de freio queimando. Tendo que parar de tempos em tempos pra resfriar e pra retomar com atenção. Apesar de gostoso, são curvas fechadas, e eventualmente com carros subindo na mão contrária. Uma curva errada ali, no mínimo vai valer uma visita ao dentista.
    Fiquei na pousada do Fred, próxima ao centro, onde fui jantar.
    Sou o primeiro a entrar num restaurante/pizzaria quando abriu, às 19h.

    Faço meu pedido.

    Logo chega uma família. Duas crianças. O pai, apesar dos quarenta e poucos anos usava boné, à mesa, num ambiente fechado. A esposa, falante, reclamava algo com ele.

    Pediram uma pizza 3 sabores. Calabresa, sem cebola. Bauru, sem tomate. Alguma outra coisa, sem outra coisa. Quatro cocas, uma sem limão.

    A garçonete anotou tudo e ofereceu dois cadeirões para as crianças, pedindo que elas escolhessem a cor. A menina, menor, escolheu vermelho. O menino, não soube dizer.

    Depois que ela trouxe as cadeiras, ele ficou de cócoras em uma cadeira normal. Tomou toda a coca antes da pizza chegar.

    A essa altura, o cara já tinha sido absorvido pelo celular, enquanto a mulher falava na direção dele. Certamente as palavras atravessavam o boné por um lado e saiam pelo outro. Um amigo do cara entrou no restaurante, cumprimentou a família e tentou vender uma caixa de som pro carro. Ele balbuciou algo. O amigo foi-se. A mulher ficou com a pulga atrás da orelha. O cara ficou vermelho como o tomate, que veio na pizza inteira em forma de molho, mas que não fora bem quisto na forma de rodelas na parte de Bauru. Separou num canto.

    Em outra mesa, um trio de amigos. Pediram uma cerveja. Foram servidos. Cada um se enfiou no seu celular. Eventualmente um mostrava algo para o outro. O desinteresse de quem era interrompido para ver esse algo era quase descarado. Os copos continuavam cheios. Não conversavam. De repente posaram para uma selfie. Uma ajeitou o cabelo e fez brotar um sorriso que até então parecia não ser possível existir. A outra fez careta. O rapaz, neutro, tentando enquadrar todo mundo. Selfie tirada, sorrisos desfeitos. Cada um de volta ao seu mundo, com os copos ainda cheios e a espuma sumindo.

    Comfortably Numb tocava. Na parede, uns discos de vinil como decoração. E uma guitarra assinada por não sei quem pendurada na parede.

    Conversando comigo mesmo faço planos pra voltar a estudar, aprender tocar algo bem. Rio de mim mesmo. Faço piada com minha indisciplina. David Gilmour entra com o solo e eu peço a conta.

    Brazópolis

    No quinto dia eu seguiria para Brazópolis. Empolgado! Um trecho de 40 quilômetros com uma bela subida íngreme e um descidão igual até uma pousada com piscina. Minha meta seria chegar lá após o almoço e aproveitar a tarde boiando no cloro.


    Havia pedalado quatro dias sem ouvir música. Tinha decidido curtir o som da natureza.

    Mas comecei a perceber que estava ansioso e preocupado com quilometragem, com altimetria, com água, com clima. Ficava pensando: Tá chegando? Ah, não... Outra subida não...

    Então baixei um podcast do Portal Extremos, e Elias e Israel Coifman subiram a serra comigo. “Conversávamos” sobre os motivos de viajar, sobre os melhores lugares que fomos, sobre as pessoas que conhecemos no caminho. Os planos para as próximas, ou pra vida.

    Elias cutucava o Isra para que ele falasse dos casos amorosos, enquanto Isra desviava do assunto e devolvia questionando a existência ou não de Emily, personagem de um dos livros de Elias.

    Eu ria sozinho por baixo do pano que escondia a boca da poeira da estrada.

    Por vezes os olhos lacrimejavam, e a garganta travava com alguns relatos. Como quando um senhor no Azerbaijão largou as sacolas de compras e deu um abraço no Isra, do nada. Ou lacrimejava por lembrar de casa, dos amigos, da família, do meu pai... Ou ainda, um pensamento sobre como anda a vida atualmente, e o que eu quero, ou não daqui pra frente.

    No fim da subida, nos despedimos. O podcast acabou e não olhei nenhuma vez o quanto tinha subido, quantos quilômetros tinha pedalado. Aquele peso da preocupação com o caminho tinha passado. Às vezes basta só um bom papo pra gente seguir em frente.

    No alto da Serra dava pra ver, na cadeia de montanhas paralela, o observatório astronômico, com sua cúpula refletindo a luz do Sol. Fiquei sabendo da existência do Laboratório Nacional de Astrofísica no dia anterior, pesquisando sobre a cidade. Não achei como fazer uma visita lá. Mas ficou anotado para um plano futuro.

    Chegando no hotel, estacionei do lado da piscina. Dei entrada, troquei de roupa e mergulhei. Lembrei do Elias falando que usava música para relembrar de momentos das suas viagens quando ia escrever. Sempre achei que música era um tipo de gatilho da memória. Que a vida tem uma trilha sonora para cada momento. Lembrei de “Ice Ice Baby”, do Vanilla Ice. Apesar do calor, a água estava congelante.

    Nadar costuma me dar mais fome do que o normal. Depois de um banho quente, comecei a cogitar onde jantar. E minha suspeita se confirmou. Não havia onde jantar em uma segunda-feira à noite em Brazópolis. O momento mais aguardado dos dias de pedal era o jantar, o melhor possível, e nesse dia não ia ter.

    Fui dar uma volta no centro por desencargo e acabei achando um trailer de lanches. Não era minha vontade, mas era o que tinha.

    Às vezes o caminho é mais leve que o destino.


    Itajubá

    Havia estado em Itajubá em 2008. Mais de 10 anos atrás. Fiquei num hotel do lado da rodoviária. Hotel Novo, chamava. Mas era velho. E nem parecia um hotel. Parecia que alguém tinha comprado partes de casas diferentes e emendado, formando um estacionamento no meio.

    Fui com uns amigos do Clube Alpino Paulista escalar na região. Tem vários pontos de escalada em volta da cidade.

    Lembro de ter conhecido um lugar que tinha caldinho de feijão. E um outro que era um toldo grande e vendia porções portentosas.

    Como vários outros lugares em São Paulo e Minas, eu fui até a cidade, mas não conheci nada da cidade.

    Ainda em Brasópolis, tentei localizar esses lugares que eu tinha conhecido. O hotel não constava no aplicativo de reservas. Mas também não estava muito empolgado em me hospedar lá novamente. O restaurante não achei.

    Resolvi reservar num tal de Hotel Centenário. Talvez houvesse alguma curiosidade histórica nele. E ficava em uma praça com restaurantes em volta.

    Saí de Brasópolis um pouco disperso. Meio cansado. Tinha decorado o caminho dos quatro quilômetros iniciais mentalmente. E pedalei sem prestar muita atenção.

    Onde eu deveria voltar a olhar no mapa, continuei pedalando achando que o caminho parecia bem óbvio. Lembrava que haveria um bom trecho de subida depois do quilômetro 4, mas quando vi, já estava no 9 e continuava plano. Havia passado pela bifurcação.

    Voltei os 5 quilômetros e não havia a indicação "Portal da fazenda Sta. Terezinha". Nem havia portal algum.

    Um carro passou e perguntei. O cara disse que não conhecia tal fazenda. Mas que havia uma fazenda Sta. Helena.

    Consultei o mapa digital e parecia ser ali. Um desvio mal sinalizado, que seguia por uma estradinha de terra muito pouco frequentada, com mato crescendo. Duvidei mas fui. Logo começou a tal subida. Botei outro podcast do Extremos, com a Juli Hirata, que estava contando sobre sua viagem por toda a América central de bike. No momento, estava descendo da Colômbia para os Andes. Contou que foi assaltada em Trinidad e Tobago e que levaram a câmera dela com muitas fotos sem backup.

    Mas ela, ainda assim sentia que, por ter visto os olhos do cara, achava que o que ele roubou vai ter mais valor pra ele do que pra ela. Apesar de ter ficado chateada por perder lembranças muito íntimas e importantes, ela ainda achou que o ladrão precisava mais daquilo do que ela.

    Somos muito privilegiados.

    No fim da subida parei para checar o GPS. Tinha pedalado 20km. Mas 10 foram do erro lá embaixo.

    O Sol começava a queimar os joelhos. Desci mais focado, não queria errar mais. E na primeira bifurcação parei de novo para confirmar no mapa. Veio descendo um senhor, seu Joaquim, que me confirmou o trajeto e proseamos um pouco. Ele contou que tinha 76 anos. Que quando jovem era muito aventureiro. Que tinha levado um tiro acidental, calibre 28, na perna. De um amigo que caçava com ele numa mata ali próximo. Que o amigo foi pra cidade procurar um médico e deixou ele lá sangrando. Disse que foi salvo por alguém que passou por ali logo depois, do nada. Um anjo, ele disse.

    Por conta disso, foi dispensado do exército. E que hoje ele é muito religioso.

    Me despedi e ele foi embora subindo o morro com sua bicicleta barra circular de uma marcha só.

    A estrada seguiu plana até Itajubá, assentada sobre o traçado da antiga ferrovia que passava por ali. A única lembrança dessa época, uma ponte de ferro na saída de Piranguinho. Bairro, ou distrito, ou cidade, conhecida como a capital nacional do pé de moleque.

    Chegando em Itajubá, uma cidade maiorzinha que as últimas, o movimento e a quantidade de pessoas e lojas quebrou um pouco o clima de paz e sossego. Apesar de aparentar uma cidade pacata, com muito uso de bicicletas, das crianças aos idosos, o clima é meio caótico de centros urbanos.

    Em volta do hotel, os lugares que o mapa indica restaurantes, são botecos que servem algum salgado ou pratos feitos. Nada do conforto turístico gastronômico de Monte Verde ou São Bento.

    Um conforto que eu gosto, comida boa, que me motiva. Mas fico pensando o quanto dessa falta de conforto é determinante na longevidade e disposição admirável de um Seu Joaquim desses.

    De Centenário o Hotel não tinha nada. Só o nome. Talvez o prédio. Mas de resto era só mais um hotel. Padrão. Sem graça.

    Todos parecem ser assim nesta região. Ou tem cara de hotel. Ou cara de hotel, mas num casarão antigo. Nenhum com mais personalidade, que valha alguma lembrança.

    A cidade de Itajubá, me pareceu ser uma cidade de estudantes e militares. Ou seja, uma cidade de jovens, sem grana, e de habitantes temporários. Nada tinha um cuidado de quem realmente vive ali. Um capricho na decoração, uma coisa mais arrumada. Tudo meio descartável, tosco, provisório. Dos prédios, às praças, às casas.

    A igreja, com toda sua perenidade institucional, parecia a única coisa mantida com esmero.

    Saí do hotel e desci para a rodoviária, onde iniciaria o roteiro do dia. De frente da antiga estação ferroviária, que hoje é um museu. Sem informação nenhuma, mal cuidado.

    Perdi um bom tempo rodando desnorteado. Nenhuma direção batia com o roteiro. As ruas, quando tinham placas, tinham outros nomes. Duas ruas que deveriam ser um cruzamento no mapa, não se cruzavam e ficavam em lados opostos da cidade. Outra rua simplesmente não existia. Tive que apelar para o GPS para conseguir sair da cidade.

    Uma longa e chata via plana, de 15 km sem muito atrativo. A maior parte com uma leve sugestão de asfalto, mas como um longo Chokito onde os amendoins eram pedras, e o chocolate terra. Por um bom trecho não haviam calçadas e as casas começavam logo na rua.

    O que me fez ir pensando na demografia e na formação dessas cidades. Um centro mais antigo, que tenta se manter conservado, mas que não tem mais os meios de antigamente. Um anel em volta do centro onde os comércios e serviços mais contemporâneos se estabeleceram. A periferia, pobre, sem planejamento, onde mora quem trabalha no centro e no comércio. E além da periferia, os possíveis ex-moradores do centro, em sítios, casas bem pintadas e jardins bem cuidados.

    E disso, é muito notável a diferença do impacto que o investimento em turismo causa nas cidades.

    Estudantes e militares são moradores temporários em Itajubá. São mais numerosos e constantes do que turistas, ficam alguns anos, mas não tem dinheiro, não investem em nada na cidade. E os moradores mesmo, apenas tem trabalhos que pagam com o pouco que recebem desses temporários.

    Turistas são mais temporários ainda, mas investem muito e em pouquíssimo tempo.

    Gonçalves e Monte Verde, ou mesmo São Bento que são muito próximas de Itajubá, e cidades até menores, aparentam um cuidado, um capricho em cada coisa, muito maior. Atraindo mais turismo e fazendo com que o custo desse cuidado se pague minimamente.

    Fico pensando o quanto o entorno influencia nas oportunidades das pessoas. O quanto a cooperação entre o município e a iniciativa privada determinam o tipo de pessoa que vai viver ali. Ou que só vai passar por ali.

    Enfim, passei por ali.

    A área urbana e essa estrada crocante não acabavam nunca. E assim que me livrei disso tudo e o cérebro parou de trepidar, fiz uma pausa.

    Delfim Moreira

    Começaria a subir, e os sítios e casas mais bem cuidadas começaram a aparecer. Junto com pequenas igrejinhas e bairros isolados.

    No meio da subida dois bichanos, filhotes, cruzaram a estrada e subiram numa árvore, miando. Parei pra trocar uma ideia com eles e o humor já mudou.

    O resto da subida foi um tiro. Nem vi passar, e de repente estava em Delfim Moreira. Local que é parte da Estrada Real e partida para outros circuitos e trilhas.

    Uma avenida principal, igreja, praça, o pacote padrão das pequenas cidades. Casas simples, antigas, de janela de madeira, mas impecavelmente pintadas, limpas mesmo com chão de terra. Na esquina da praça, um artista pintava borboletas na parede do seu ateliê. Esculturas de ferro velho expostas na calçada. Recriações de coisas que estão ali e que não foram jogadas fora, porque não existe fora. Continuam ali.

    Não custa muito ter cuidado com o lugar que se vive, ou se trabalha. Desde a própria casa, até a cidade, o país, o planeta. Não deveria ser questão de custo, mas de cuidado. Simples assim. Podemos morar um tempo numa casa, numa cidade, e achar que não é nosso, e não ligar muito. Mas enquanto estamos ali, é. Deixar o banheiro limpo pro próximo. Deixar a vida sem cagar o mundo que fica pra quem vem depois.

    A pousada (La Luna) em Delfim tem personalidade, uma decoração pitoresca, e serve um ótimo jantar. Não precisou ser centenária. Mas melhor assim.

    Marmelópolis / Passa Quatro

    No meio da tarde tentei ligar para uma pousada em Marmelópolis, o próximo destino. Tocou, tocou e nada.

    Tentei outra, nada. Tentei novamente na primeira e atendeu uma senhora que não sabia nem o nome dela.

    Pensei comigo... Marmelópolis é uma marmelada.

    Peguei o roteiro, eram "só" 20km. Depois até Passa Quatro, mais 35km.

    Pensei novamente, vai doer. Muito. Mas essa Marmelópolis tá com cara de roubada. Reservei um hostel em Passa Quatro e desencanei.

    Cedo, tomei um café caprichado na pousada, prendi as bolsas na bike, me despedi dos meus anfitriões de Delfim Moreira e parti. Não sem antes comprar um azeite defumado caseiro deles. Era ótimo e é bom incentivar o comércio local.

    O roteiro dizia que havia um projeto de asfaltamento de toda a estrada até Marmelópolis. O guia é de 2009, e o futuro chegou naquele fim de mundo. Foram 20km de tedioso e quente asfalto. 10 de subida, 10 de descida. Quase nenhum movimento de carro. Meti o pé. Só queria sair dali. E no fim das contas meu instinto se provou assertivo. Marmelópolis não tinha nada. Uma única avenida, com algum comércio bem precário, meia dúzia de pessoas na rua e só.

    Ainda bem que não pernoitei ali. Certamente não teria onde jantar, ou o que fazer.

    Saindo da cidade, finalmente terra. Como sempre, subida. Não tinha pesquisado muito o trajeto já que não tinha muita bifurcação onde eu pudesse exercer meu poder de distração e pedalar a toa. Afinal, 55km nas ciclovias de São Paulo são uma coisa. Na Mantiqueira, dói. Muito.

    Estava um pouco macambúzio. Um pouco triste com a questão do asfalto. Pra que?

    O joelho direito já dando sinais de falência. Mas agora tinha que chegar em Passa Quatro de qualquer jeito.

    Após uma curva qualquer, acenando para um senhor que passava com o cachorro, brequei. A roda traseira deu uma derrapada.

    Na minha frente uma montanha bastante conhecida: o Marins. Confirmei no mapa e percebi onde eu estava.

    A estrada que tantas vezes passei de carro, ou de Kombi, ou de caçamba de caminhão, indo escalar o Marins.

    Mais duas curvas e dava pra ver toda a silhueta da travessia Marins-Itaguaré. Minha cabeça encheu de lembranças. Itaguaré foi minha primeira montanha quando comecei a me dedicar ao montanhismo em 2006. Quando deixei de ser o garoto que subia uns morros, e comecei a fazer a coisa direito. Também foi a primeira que fui como guia. Deixei de ser passageiro e passei a conduzir.

    No Marins, perdi as contas de quantas vezes subi e acampei. Perdi a conta de quantas turmas guiei ali como voluntário do Clube Alpino Paulista.

    E lembrei de cada vez que fiz a travessia entre as duas montanhas. Em três dias, ou dois dias, pegando tempestade, ou Sol, ou neblina, com amigos, com pessoas que eu confiava e com pessoas que saíram da minha vida. E outras que chegaram. Fiquei parado olhando. Já tinha perdido qualquer pressa de chegar.

    O caminho seguia por um tempo, paralelo à crista das montanhas e as histórias iam se alternando, brotando da memória. Minha primeira bota, Timberland. Uma bosta. Durou uns 6 anos a desgraça. Mas o desconforto compensava o preço. Minha mochila Trilhas e Rumos. Horrível. Mas era a melhor que dava para comprar.

    Hoje, muito melhor preparado e equipado, as dores da primeira subida nunca se repetiram.

    Continuei o caminho pensando que já estava ótimo terminar essa viagem assim. Mesmo tendo desistido de seguir adiante como no plano inicial. Essa era a melhor forma de terminar, com boas lembranças.

    Mas ainda não tinha acabado.

    Alguns quilômetros adiante, outra curva, e lá estava a Serra Fina. A Pedra da Mina aparecendo por trás do cume do Capim Amarelo e do cume do Três Estados.

    Uma travessia que nunca havia feito. Considerada uma das mais exigentes. Um desejo reprimido.

    Não porque eu achasse que não conseguiria. Pelo contrário. Mas porque subi a Pedra da Mina uma vez, durante um treinamento do curso de escalada em gelo. Foram 9 horas de caminhada morro acima, com mochila cargueira, e uma ligação no meio do caminho. Meu pai tinha falecido. Eu já tinha caminhado 7 horas. Estava no limite das minhas forças, desabei.

    Sentei no chão e não sabia direito o que fazer. Eu não conseguiria descer de volta. Mesmo que eu conseguisse, não conseguiria dirigir. Decidi subir as 2 horas restantes e acampar. Não tive sequer coragem de compartilhar com o grupo que estava comigo.

    Foi uma noite péssima. Fiz um macarrão que desceu sem gosto.

    Não lembro do pôr do sol. Nem do nascer.

    Desci da montanha em 5 horas, entrei no carro, pedi pra minha ex esposa voltar com outra pessoa e fui ver minha avó, direto. Foram os quilômetros mais longos da minha vida até Lindóia.

    Nunca mais havia voltado à Serra Fina. Mas eu sabia que ela estava lá. E ela estava ali para me lembrar disso.

    Depois das boas lembranças, veio essa. Uma dor ainda não muito bem resolvida. Um ressentimento com meu pai, por não ter conseguido largar o alcoolismo, por tudo que minha mãe e minha irmã sofreram. Uma certa culpa minha por pensar que poderia ter tentado ser um filho melhor ou ter tentado ajudá-lo mais do que fiz. Ter feito algo diferente. Ou ter estado lá pra me despedir.

    Quando você tem literalmente uma montanha de 2798m de altura pra te lembrar disso, todo peso cai de uma vez nas costas.

    Fiz uma foto, com a bike na frente e as montanhas ao fundo... pra tentar dar um outro significado àquele momento. Viver um outro momento. Naquele instante decidi voltar pra lá. Pra resignificar aquela subida. E talvez perdoar, me perdoar...

    Recomposto, desci o restante da serra chegando num cruzamento com a linha férrea. Tirei outra foto naquele cruzamento. Com aquelas placas em forma de X que simbolizam o cruzamento. Talvez isso marque alguma mudança.

    No Hostel Ultra P4, fui recebido com café e queijo fresco. Tomei um banho e lavei a terra e um pouco da alma.

    Fim dessa viagem. Começo de outra coisa.
    Gostou? Leia a segunda parte aqui.







    James Vaccari
    James Vaccari

    Publicado em 02/12/2021 16:03

    Realizada de 21/08/2019 até 30/08/2019

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    3 Comentários
    James Vaccari 02/12/2021 16:38

    Agradeço ao Guilherme Cavallari pelos ensinamentos e ao Extremos , Isra Coifman e Juli Hirata pela inspiração.

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    Guilherme Cavallari 02/12/2021 20:49

    Parabéns, amigo! Mantiqueira é para  os fortes, hehehe... 

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    Israel Coifman 03/12/2021 15:54

    Me emocionei com a sua história e me reconheci em suas palavras. Dividir experiências tem esse propósito: encontrar em nossas próprias curvas uma direção a seguir. E há sim importância em repetir caminhos. Alguns deles onde deixamos algo pra descobrir. Foi incrível viajar de volta à minha própria viagem enquanto viajava contigo! Obrigado! Continue girando essa roda! De pedalar e dividir suas próprias estradas, seus próprios segredos!

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    James Vaccari

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