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Monte Roraima

Monte Roraima

Expedição ao Monte Roraima, de 10 dias e 9 noites, sendo 5 noites no topo. Lugar indescritível!!

A vontade de fazer o Monte Roraima surgiu de uma forma muito natural em nossas vidas: quando eu e o Marcelo estávamos decidindo o roteiro das próximas férias de 2016.

Este roteiro já estava na lista de lugares que queríamos conhecer, mas como demandava vários dias, acabávamos deixando em segundo plano. Felizmente, o dia chegou!

Informações gerais

O Monte Roraima, o mais alto dos tepuis (montanha em formato de mesa) está localizado no norte da América do Sul, mais precisamente na serra de Pacaraíma, na região do planalto coberto pela Gran Sabana. Divide-se entre três países: Brasil a leste (5% de sua área), Guiana ao norte (10%) e Venezuela ao sul e oeste (85%). A parte venezuelana do monte está inserida no Parque Nacional Canaima e a brasileira no Parque Nacional do Monte Roraima.

De origens pré-históricas, o Monte Roraima ergueu-se da terra há mais de 2 bilhões de anos, no período em que América do Sul e África eram unidos em um único continente - Gondwana. Com 34km² de área de superfície e 2.800m de altura, está entre as 10 montanhas mais altas do Brasil. Além dos paredões, há cachoeiras, lagos, jacuzzis naturais e espécies vegetais e animais endêmicas.

Abaixo, a melhor descrição que já encontrei sobre o trekking ao Monte Roraima.

É Makunaima, o guardião do Monte, que comanda a natureza, alterando as condições locais conforme sua vontade. Para os aventureiros que ousam percorrer os caminhos da trilha e subir até seu topo, a força divina de Makunaima se revela numa verdadeira prova de persistência, testando constantemente o poder de vontade dos viajantes. Ao longo do caminho, terrenos escorregadios e acidentados, rochas íngremes e rios gelados desafiam a todos, até o viajante mais experiente. Mas a cada obstáculo superado, uma recompensa de Makunaima. A natureza do percurso que leva ao Monte Roraima é simplesmente espetacular: das samambaias gigantes ao caminho do Vale dos Cristais, da beleza das incríveis formações rochosas únicas à cachoeira do instigante El Fosso - tudo indica que estamos ingressando, pouco a pouco, num universo paralelo, de beleza ímpar, quase inimaginável. Um universo no qual os anseios humanos são suspensos, permitindo ao homem um reencontro consigo mesmo e com as origens do planeta.

Pisa Trekking

Escolha da agência/guias

É imprescindível a contratação de um guia para realizar o trekking ao Monte Roraima. Na entrada do parque você deverá registrar sua entrada e saída e respectivo guia. Além disso, lá em cima, é impossível não se perder!

Entre nossas pesquisas, encontramos muitos relatos dizendo que a contratação de guias na Venezuela seria bem mais barata. Encontramos também alguns perrengues, por conta de guias que “não eram guias”. Infelizmente, fica difícil você conseguir avaliar de longe se o guia é profissional ou não. Ainda assim, se você optar por um guia, no site mochileiros.com há muitas indicações. Nós preferimos contratar uma agência.

Em relação às agências venezuelanas, os valores também eram bem mais baixos do que as agências brasileiras. Ainda assim, nos sentimos mais seguros contratando uma brasileira. Isso é uma escolha muito particular, por isso não vou me aprofundar. E sim, você vai pagar mais caro por isso.

Nós escolhemos uma agência de Roraima, com ótimas referências e com um profissionalismo impecável, cuja sede está localizada em Boa Vista. Optamos pelo pacote básico (sem hotel e transfer em Boa Vista), com 10 dias e 9 noites.

Passagens aéreas

Saindo de São Paulo, não há vôos diretos para Boa Vista e certamente terá de fazer pelo menos uma conexão e/ou escala (normalmente em Brasília e/ou Manaus), o que te renderá praticamente um dia viajando.

Para a pesquisa de passagens mais baratas, utilizamos o app skyscanner. Neste aplicativo é possível monitorar o preço da passagem (ele avisa quando o preço sobe e desce).

Para a compra da passagem, após escolher a opção no app, compramos diretamente no site da empresa aérea. Desta forma, economizamos a taxa cobrada pelo app ;)

Pousadas e hotéis

Como não optamos pelo pacote completo, tivemos que reservar hotel em Boa Vista. Para isso utilizamos o app Booking.

Lembre-se que na volta você pernoitará em Boa Vista novamente. Por isso, é importante já deixar a reserva para o retorno. Não que você vá ficar sem lugar pra dormir, já que a cidade não é badalada, mas porque você pode combinar com o hotel de deixar uma mala com roupas e outras coisas que você não vai utilizar no trekking (tipo, uma muda de roupa limpa rsrs).

Para chegar ao hotel, como eu e o Marcelo estávamos com tempo e gostamos de conhecer as cidades, optamos por ir a pé (cerca de 5 km de caminhada). Minha sugestão é: NÃO FAÇA ISSO! Rsrsrs. O sol estava bem forte, e mesmo a cidade sendo bem plana, foi muito desgastante e desnecessário! Afinal, você poderá fazer isso sem mochilas nas costas. A melhor opção é pegar um táxi mesmo ou utilizar o transfer do hotel (se tiver). Se ainda assim você quiser cometer a mesma loucura que a gente, tem um app chamado Maps.me de mapas off-line que é uma mão na roda!

Em relação ao hotel, não era uma maravilha, mas optamos por um mais barato mesmo, porque nossa intenção era apenas tomar banho e dormir.

Documento obrigatórios

Dentro da América Latina, entre os países que fazem parte do Mercosul (dentre eles, a Venezuela), é possível viajar somente com RG. Abaixo, uma lista dos documentos solicitados:

Para esta viagem, utilizamos o nosso passaporte, mas como disse acima, não é necessário. Somente com um RG válido é possível atravessar a fronteira.

Em relação, ao certificado internacional de vacinação, nós já tínhamos este documento, pois no ano anterior tínhamos viajado ao Peru, Bolívia e Chile. A vacina tem validade de 10 anos, se não me engano, por isso, não precisamos correr atrás disso. No ano anterior (2015), ao viajar pela América do Sul, consultamos no link acima um posto que emitia o documento, em São Caetano do Sul-SP, e lá mesmo tomamos a vacina e saímos com o documento em mãos. Tudo muito simples e rápido.

O que levar ?

Abaixo, uma lista de itens que, na minha opinião, são importantes:

dinheiro vivo para trocar na Venezuela (uns 100 reais - se você não for contratar guias para levar suas coisas)

barrinhas de cereais, frutas secas, biscoitos, castanhas

Equipamentos e utilidades

1 - saco de dormir - mínimo 0 grau conforto

1 - isolante

1 - travesseiro inflável

1 - headlamp

a critério pessoal - baterias/pilhas/carregador portátil

a critério pessoal - celular/máquina fotográfica

1 - Ecohead ou balaclava

1 - óculos de sol

1 - capa de chuva

1 - capa de chuva mochila

1 - Mochila de 50 a 60 litros

1 - Mochila de ataque – Para os dias que você estará no cume e não irá desmontar acampamento e para guardar o dinheiro trocado no primeiro dia.

1 - bota de trekking amaciadas (há quem faça de tênis, mas gosto de bota, porque protege o tornozelo)

1 - papetes ou chinelo (para descansar os pés)

2 - bastão de caminhada (não essenciais, mas ajudam muito!)

1 - boné ou chapéu

a critério pessoal - sacos plásticos (pequenos e grandes)

1 - camel back ou cantil de água

Roupas

1 - anorak (corta vento e impermeável)

1 - Fleece

1 - conjunto de segunda pele – para dormir

5 - meias para trekking

1 - Meia bem quentinha para dormir

a critério pessoal - roupas intimas

2 - camisetas manga longa de trekking

1 - calça que vira bermuda

1 - biquini/sunga

Cuidados pessoais

1 - protetor solar

1 - protetor labial

1 - shampoo/condicionador/sabonete biodegradáveis

1 - remédios de uso continuo

1 - repelente - Exposis Extreme (embalagem preta) – foi o único que parou os puri-puri

1 - Desodorante

1 - papel higiênico

1 - lenço umedecido - para higiene e banhos quando faltar coragem de enfrentar a água gelada

1 - toalha de microfibra

1 - escova, pasta e fio dental

a critério pessoal - Remédios para “coisas comuns”: dor de cabeça, dor de estômago, enjôo, anti-alérgico

1 - Imosec: somente em situações de emergência (fecha o intestino com cadeado e joga a chave fora)

1 - Antiinflamatório em creme/emplasto: para dores musculares

a critério pessoal - Band-aid/Micropore

a critério pessoal - Relaxante muscular

1 - vick vaporub (isso aqui é uma dica valiosa, uma amiga que me passou! Lavar e secar bem os pés, passar micropore nas áreas que incomodam e passar vick). Ótimo para evitar bolhas e chulé

Dia 1

Desembarcamos em Boa Vista na hora do almoço. Logo no avião já conseguimos identificar algumas pessoas que fariam o trekking, só pelas mochilas e roupas hehehe.

Do Aeroporto até o hotel era uma linha reta e por isso decidimos ir caminhando até o hotel. O sol estava bem forte e estávamos com muita fome. Mas também muito ansiosos e curiosos, pois nunca havíamos pisado em Boa Vista. A cidade é bem plana, o que facilitou nossa vida.

Ao chegarmos ao hotel, na recepção, conhecemos um integrante do nosso grupo. Só jogamos as mochilas no quarto e fomos até a sede da agência para combinar os últimos detalhes.

Depois disso, aproveitamos o dia para conhecer a cidade, que é bem pequena, comparada a São Paulo.

Dia 2

Tomamos um café reforçado no hotel em que estávamos hospedados e, conforme combinado com a agência no dia anterior, fomos a um hotel da cidade para um release sobre o trekking, com dicas, curiosidades, muitas informações sobre a região e para que pudéssemos conhecer os outros participantes do grupo e guias.

Neste encontro, conhecemos também, por foto, o nosso “banheiro” dos próximos dias e recebemos o saco plástico para o nº 2. Eles explicaram como teríamos que utilizá-lo, lembrando para não fazermos o nº1 dentro do saco, e após o serviço, jogar cal por cima e dar um nó. Os índios ficariam com a terrível missão de carregar os “presentinhos”.

Eles também armaram uma surpresa para mim e para a Suzana (uma integrante do grupo), aniversariantes do mês, com direito a bolo e refrigerante. Foi muito bacana!

Após o release, almoçamos num restaurante ali por perto (por nossa conta) e aproveitamos para comprar as últimas coisas que estavam faltando.

Retornamos ao hotel onde foi realizado o release e partimos em direção a Santa Elena de Uairenz de van. Antes de chegar lá, passamos pela fronteira Venezuelana para dar entrada no país. No nosso caso, que levamos passaporte, carimbamos sem problemas. O certificado internacional de vacinação não foi solicitado, mas, por via das dúvidas, estava com a gente.

OBS: O nosso guia não deixou a gente tirar foto na fronteira. Ele disse que podia dar problemas e certamente nós o obedecemos.

Após passar a fronteira, já em Santa Elena, a van parou em um lugar para a troca do dinheiro. Creio que uns 100 reais por pessoa são suficientes, caso você não opte por carregadores.

Esse dinheiro será utilizado para pagar seu jantar em Santa Elena, almoço do último dia na aldeia dos índios, lembrancinhas e para presentear os guias e carregadores.

Como estávamos em 2 pessoas (eu e Marcelo), trocamos 200 reais, o que resultou em maços e maços de notas venezuelanas. Mas nós não estávamos preparados para toda aquela grana e acabamos pedindo uma sacola (rsrsrs). Por isso, minha dica é: leve uma mochila de ataque para guardá-la.

Outra coisa que vale a pena falar é que a Venezuela está passando por problemas gravíssimos e o salário mínimo de lá é muito baixo. Muitas pessoas não chegam nem a receber esse valor (R$100,00) por mês. Então, não seja um turista idiota e fique tirando foto com os blocos de dinheiro na rua. Tire a foto dentro da van ou mais tarde no quarto do hotel.

Ao chegar a um hotel da cidade de Santa Elena, conhecemos os guias venezuelanos que nos acompanhariam na viagem: Tiiiiiirso e Luizito, que são uns amores (beijo no coração, amigos roraimeiros!). Como o clima na região é bem instável e certamente pegaríamos chuva durante o percurso, para a proteção das roupas e equipamentos, eles sugeriram comprarmos um saco de plástico chamado “saco mineiro”. Este saco é bem barato, e é feito de um plástico bem resistente. Tem o tamanho certinho para você encaixá-lo dentro da cargueira. Eu e o Marcelo compramos dois cada: um para colocar o saco de dormir e outro para colocar as roupas e restante das coisas.

Após o banho, saímos para jantar na cidade. O grupo acabou se dividindo: Nós e mais algumas pessoas optamos pela pizza, os outros foram em um outro restaurante.

Dia 3

Tomamos um ótimo café da manhã no hotel, enquanto os 4 x4 já estavam a nossa espera. Após guardarmos todas as mochilas, saímos rumo ao início da trilha, na aldeia Paratepuy.

OBS: É neste local que você vai conhecer seu carregador, caso tenha contratado algum (nós não contratamos e levamos tudo na lomba :p).

Antes de iniciar, aproveitamos para dar aquela última ida ao banheiro, ajustar as mochilas, passar (muito) protetor, abastecer as garrafas e assinar a entrada no parque.

Começamos a caminhar por volta das 13h. Neste dia, lembro da gente naquela ansiedade de começar o trekking, e o Tirso me falou: está vendo aquele primeiro morro? Se você conseguir subí-lo, você consegue fazer o Monte Roraima. É ele que define quem consegue chegar até lá. Eu dei risada, mas não sei se foi de graça ou desespero rsrsrs. De fato, é uma subida bem íngreme e chata. Daquelas que você acha que não vai acabar nunca.

Após essa subida, o percurso é bem tranquilo, sem grandes desníveis. A trilha é bem demarcada, sem sombra, com vegetação rasteira e o sol deu uma castigada. Já nesse primeiro dia, os puri-puri deram as boas-vindas. Por isso, deixe seu repelente de fácil acesso.

Neste dia também, o grupo naturalmente se separou, formando 3 subgrupos: nós ficamos no grupo intermediário, o qual batizamos de Stand Up. A gente cantava, contava piada e ria o caminho todo! Turma bem bacana: eu, Marcelo, Raquel, Caiãn e Mateus.

Em um dado momento, tivemos que parar para tirar as botas e atravessar o rio Tek e depois, o Kukenan. Super tranquilo e muito seguro.

O primeiro acampamento fica bem perto do Rio Kukenan. Chegamos lá e nossa barraca já estava montada! Tomamos um banho gelaaaaado no rio que foi revigorante!

OBS: leve o repelente para o banho! Caso contrário, assim que você sair da água, será devorado pelos puri-puri!

No jantar, os guias e índios preparam um delicioso jantar e suco. Quando eu vi o prato que o Chicão (guia chefe) preparou pra mim, não acreditei que eu fosse comer tudo. Doce ilusão! Rsrsrs! Bati uma pratada!

Após a janta, o grupo do Stand Up se reuniu para bater papo e falar besteira. Foi bem legal! Não durou muito, porque o dia foi cansativo e logo fomos descansar.

Dia 4

Acordamos bem cedo e foi o tempo de arrumar a mochila e o café da manhã já estava pronto. Café com leite, pão com manteiga, frutas...café da manhã de patrão!

Levantamos acampamento e seguimos rumo ao acampamento base. A trilha continuava bem demarcada e com vegetação rasteira, mas com um pouco de subidas. Nada muito terrível.

O dia estava um pouco instável, e foi um tira e põe capa sem parar! Ainda assim, fazia muito calor. Neste dia, já pudemos avistar o Roraima!

Ao chegarmos no acampamento, mesma coisa: barracas armadas e fomos tomar banho. Neste dia, a área de banho é um pouco menor e a água bem mais gelada.

Dia 5

Novamente acordamos cedo, e após o café da manhã, a trilha já começa com uma subida pesada. A trilha, ainda bem demarcada, é feita pela erosão da água. São uns degraus bem altos e uniformes. A paisagem muda e a vegetação parece uma floresta tropical, com terreno bem úmido e um pouco escorregadio.

É um dos dias mais bonitos do trekking, com paradas durante o trajeto para fotos, descanso, contemplação da paisagem, flores como orquídeas de diversas espécies e pequenos pássaros.

Em uma dessas paradas para um lanche rápido e fotos, nosso guia Chicão surgiu com bolachas e doce de leite! Foi demais!

Este é também foi primeiro dia de contato com o paredão do Tepui. Nesta hora, fizemos uma curta parada para pedir permissão para continuar a caminhada. É uma energia inexplicável!

Logo após esse contato, chega-se ao temido Passo das Lágrimas. Neste trecho você vai precisar das mãos livres e escalaminhar. O caminho é de pedras soltas e molhadas, ao lado de um penhasco. Porém, é um dos momentos mais emocionantes. As quedas d’água finíssimas que caem pela montanha sobre nós parecem chuva de gotas prateadas. Se dá medo? Dá! Mas não é pra tanto. Até que foi bem tranquilo.

Depois de 3 dias de caminhada, chegamos ao topo do Tepui. Nessa hora, a emoção tomou conta! Deixei as lágrimas rolarem e curti o visual lá de cima, que é lindo! Um momento que me marcou muito foi o Chicão me dando a mão e as boas-vindas ao topo do Monte Roraima!

Como eu disse, o Monte Roraima é um lugar sagrado. Logo de cara, avistamos um dos muitos guardiões da montanha: pedras com caras de índios e camelos formando um portal. O clima lá em cima também muda a todo momento: hora o sol está bonitão, hora somos cobertos por uma névoa branca e densa. Além disso, a trilha que até então era bem demarcada, agora é feita pelas pedras, ou seja, dá para se perder bem facilmente!

Engana-se quem pensa que o dia acaba por aí! Para chegarmos ao acampamento do primeiro dia, ainda tivemos que caminhar uns bons kms. Na verdade, foram mais ou menos 2 km, mas que pareciam infinitos. Mesmo com a euforia por ter chegado ao topo, o cansaço também deu as caras. Para piorar a nossa situação, pegamos uma chuva bem forte no caminho. Porém, quando estávamos quase chegando no acampamento, avistamos um dos carregadores, o Carlão, indo ao nosso encontro com chá quente. Fala se eles não são uns amores?!

Neste dia, acampamos no Hotel Guacharo. Uma espécie de caverna, em que pudemos ficar abrigados da chuva e um pouco do vento. À noite, no topo, a temperatura caiu drasticamente.

O banho neste dia foi, além da chuva, de lenços umedecidos. Neste dia não tive coragem de enfrentar a água trincando das jacuzzis. Quem conseguiu, disse ser o banho mais gelado da vida!

Após o jantar, eu e o Marcelo vimos alguns índios carregadores de bermuda, camiseta e croc tremendo de frio. Não tivemos dúvidas e emprestamos nossos anaroks para eles dormirem. Neste dia descobrimos que eles dormiam ao relento, às vezes, apenas com isolante e nada mais.

Dia 6

O dia amanheceu fechado, mesmo com a chuva que caiu a noite inteira. Durante o café da manhã concluímos que não valia a pena fazer o Vale dos Cristais sem sol. Decidimos fazer o Ponto Triplo e depois conheceríamos o lado brasileiro.

A chuva e névoa não deram trégua durante todo o dia. O percurso foi realizado com muito cuidado, por pedras escorregadias e lama. Mesmo assim, aquela atmosfera do Roraima era espetacular. A cada rocha que eu olhava, enxergava uma figura diferente. O silêncio, as plantas, o famoso sapinho endêmico, a névoa e a chuva faziam da viagem um cenário sensacional.

Chegamos ao Ponto Triplo felizes e animados! O Ponto Triplo é o marco das três fronteiras Brasil x Venezuela x Guiana e é demarcado por um obelisco no meio do nada.

Após muitas fotos, seguimos rumo ao Hotel Coati, apelidado de nosso hotel 5 estrelas! Também dentro de uma espécie de caverna, é um lugar bem espaçoso e possui até um jardim de inverno! Hehehe

O banho foi a base de lenços umedecidos.

Dia 7

Levantamos às 4h30 da manhã para ver o nascer do sol no mirante. O sol estava prestes a surgir no horizonte quando chegamos à borda do precipício. O céu estava limpo e lá embaixo, uma planície um colchão de nuvens seguia um rio. Também era possível avistar a floresta do Parque Nacional do Monte Roraima na Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, onde vivem os índios Ingarikó, que mais parecia um tapete verde. Foi o amanhecer mais lindo que já vi, realmente muito especial. Após o espetáculo, o café da manhã foi servido lá mesmo! Foi um momento muito bonito e que ficará para sempre na memória!

Retornamos ao acampamento, para arrumar uma mochila de ataque e conhecer o misterioso e lendário Lago Gladys. Só o fato de não ter que carregar todo o equipamento já foi um alívio. Engane-se quem pensa que o topo do Tepuy é plano. É um pula pedra sem parar!

O Lago Gladys fica no lado guianense da montanha e é todo cercado por um paredão de rocha de forma que o vemos de cima. Chegamos com o sol a pino.

Os mais céticos podem não acreditar, mas de fato o Lago é mesmo um lugar muito misterioso. Os guias nos falaram que lá é uma espécie de portal e que ficaríamos por volta de 1 hora, tempo suficiente para fotos, contemplação e um lanche. Pois bem, passada a 1 hora, o tempo fechou, a neblina tomou conta e já não conseguíamos ver o Lago. Era Makunaima nos mandando embora.

De volta ao acampamento, o banho novamente foi de lenço umedecido rsrsr.

Dia 8

Café da manhã servido, levantamos acampamento e partimos novamente para o acampamento Guacharo.

No caminho, visitamos o El Foso, um buraco enorme onde se forma uma piscina natural. Aos mais curiosos e aventureiros, há possibilidade de ir ao fundo do El Foso através de uma galeria subterrânea, porém, como estávamos em período de muita chuva (e realmente, chovia muito), o guia disse que não deveríamos descer.

O dia, estava nublado e ora ou outra a chuvinha insistia em cair. Pra quem já caminhou na chuva sabe como é desgastante e triste. Ainda mais no terreno do Roraima, que é de pedra e tem um limbo escorregadio. O ideal é sempre caminhar pelas pedras mais claras e sempre com muito cuidado.

Neste dia, cheguei ao acampamento com uma vontade de um banho quente! Não aguentava mais frio e chuva. O banho até podia rolar, mas quente aí já era demais né?! Fiquei sem coragem de enfrentar as jacuzzis e mais um dia meu banho foi de lenços umedecidos. Meu cabelo estava uma maçaroca e fui tentar penteá-lo. Ele estava preso e quando o soltei, estava duro e ficou na mesma posição. De dentro da barraca, eu e o Marcelo chorávamos de rir. A Quel, umas das integrantes do Stand Up, foi ver o que estava acontecendo e também caiu na risada. Ela sugeriu fazermos um mutirão para a lavagem e cada um ficou com uma função. Um jogava água, o outro passava shampoo e condicionador, e no final o pente. Tcharam! Fiquei nova em folha. O restante do grupo ficou acompanhando de longe, sem entender nada, enquanto a gente chorava de rir.

Dia 9

O dia amanheceu nublado, pra variar. Por isso, fomos direto visitar ao Mirante La Ventana, onde seria possível admirar a imponência do Monte Kukenan, com suas diversas quedas d’águas, inclusive o imenso vale de florestas que há entre os dois tepuys. Seria né?! Chegamos lá e a névoa não deixou enxergarmos nada..rsrsrs. Não adianta, lá é uma loteria. Ainda assim, foi bem legal. Pelo barulho do vento, tínhamos uma ideia da altura do precipício.

No caminho, passamos pelo Salto Catedral, uma queda d’água onde é possível tomar um banho bem gelado. Eu, lógico, continuava sem banho.

No retorno, quando estávamos passando pelas jacuzzi, o sol ameaçou sair e sem pensar duas vezes arranquei a roupa e tomei um banho de gato. A água estava muito gelada e senti a alma sair do corpo.

Logo depois, o tempo fechou e começou a chover, por isso, pasmem, não animamos subir a Pedra Maverick.

Dia 10

Levantamos bem cedo e arrumamos as mochilas, com dor no coração. Era dia de se despedir do Monte Roraima. Não estava chovendo, mas o sol ainda não tinha dado as caras.

Antes de começar a descida, seguimos rumo ao Vale dos Cristais, que pulamos no primeiro dia, por causa do mal tempo. Como se Makunaima soubesse que estávamos chegando, o céu abriu e o sol saiu. Havia uma área bem clara, no meio de todas aquelas rochas escuras: era o Vale dos Cristais. Quando cheguei até lá, deitei no chão e senti aquela energia tomar conta de mim. Descia uma fina corrente de água e aproveitei para matar a sede.

O Vale dos Cristais é algo incrível, o solo é todo forrado de pequenos cristais e algumas pedras maiores. Sim, é muito bonito, e não, você não pode levar um cristal de souvenir para casa. O que é da montanha deve ficar na montanha. Ponto final.

Sempre que viajamos, procuramos um lugar especial para renovar nossos votos. Foi lá que eu e o Marcelo fizemos o ritual de renovação dos votos do nosso amor.

Bem, como tudo tem seu tempo cronometrado por Makunaima, e o dia seria longo, partimos. Descemos com tempo feio e garoa. O percurso de volta é o mesmo da ida, com um pequeno detalhe: o que fizemos em 3 dias, é feito em 2 dias. Portanto, nesse primeiro dia de descida, nosso destino era o acampamento do Rio Tek. Uma das partes mais tensas foi o Passo das Lágrimas. Literalmente, descemos de bunda e com muito cuidado. Outro ponto bem difícil foi a descida pela erosão, logo após o Passo das Lágrimas. O terreno era bem escorregadio e precisava de muito cuidado, fora que descer é mil vezes pior do que subir, em qualquer circunstância!

Paramos no acampamento base para um lanche rápido e para descansar um pouco. Com a chuvas dos últimos dias, o terreno já estava bem molhado. A pernada só foi interrompida por força maior (leia-se Natureza) no Rio Kukenan: por conta da chuva nos últimos dias, o volume do rio estava muito cheio, o que nos impossibilitou de atravessá-lo “pulando pedrinhas”. Foi necessário atravessar, com uma canoa feita de tronco de árvore, primeiro as mochilas, depois um a um, com um dos índios.

Ao chegar ao Rio Tek, já anoitecendo, o cenário era ainda pior: a força da água era tanta, que foi necessário passar uma corda, para que pudéssemos atravessar com segurança, com água acima da cintura. Além disso, os índios e guias fizeram como se fosse uma corrente humana, para nos dar ainda mais segurança. Foi um momento tenso, mas, ao mesmo tempo, muito bacana ver o quanto o nosso grupo se ajudou e vibrou a cada pessoa que finalizava a travessia.

Passado o imprevisto, chegamos ao acampamento para descansar ...Só que não! Rsrs! Durante a noite, a chuva caiu sem parar e nossa barraca alagou. No meio da noite (e da chuva), corremos para um abrigo, que existe no acampamento. O Luizito (guia), sem que eu pudesse negar, me cedeu sua rede para eu dormir o restinho das horas e o Marcelo dormiu no banco.

Dia 11

Última etapa. Tomamos café da manhã e iniciamos a caminhada rumo à aldeia Paratepuy.

A chegada foi emocionante! Cada um, a seu modo, comemorou a vitória de finalizar a expedição. Passamos pelo guarda do Inparques para assinar a saída do Parque, que é obrigatória.

Antes de deixar a Venezuela, fomos visitar uma pequena aldeia, conhecer o artesanato da região e almoçar.

Chegamos em Boa Vista ao entardecer, e embarcamos para São Paulo no dia seguinte.

Outras dicas

  • Você só vai utilizar o repelente nos 2 primeiros dias de caminhada. E vai usar MUITO! As picadas dos puri-puri (esses bichos são bem pequenos e lembram aqueles mosquitos de banana) coçam demais! Quando nós fomos, tivemos a oportunidade de deixar algumas coisas no acampamento base. Pode deixar o repelente sem medo. No topo não há com o que se preocupar. Além do repelente, pode deixar outras coisas que não serão úteis. Só não tire blusas de frio, porque lá em cima é bem gelado! Rsrsrs
  • Leve shampoo e sabonete biodegradáveis, visto que você vai tomar banhos nos rios e nas jacuzzis. Vamos colaborar com o meio ambiente, né?!
  • Caso você não tenha saco de dormir e isolante, a maioria das agências têm para alugar.
  • No último dia, quando chegamos ao final da trilha, de volta a comunidade Paraitepuy, fizemos um juntado de desodorantes, protetores solares, e tudo mais que não iríamos utilizar, ou que não nos faria falta. Eles ficaram muito felizes! Você pode dar gorjetas também! Aliás, acho muito válido (e muito comum por lá), porque os guias e índios que nos acompanharam foram muito especiais e atenciosos! Até hoje temos amizade com boa parte deles!