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Volta ao Gelo Continental Patagônico Sul

Volta ao Gelo Continental Patagônico Sul

Travessia no campo de gelo do sul da Patagônia, com início na Ponte do Rio Electrico e fim no povoado de El Chaltén / Argentina

Trekking Mountaineering Camping

Percurso: Ponte do Rio Electrico - Refúgio Del Fraile -Plaita - Refugio Gorra Blanca - Laguna de Los Esquiles - Campamento Toro - El Chaltén
Participantes: Keila Beckman, Andreina dos Santos, Matheus Couto e nossos guias Matias Villavicencio (Tibo), Fede Napoli, Pablo Salaverria e Marcos Aguiló.
Fotos: Keila Beckman, Andreina dos Santos, Matheus Couto, Fede Napoli, Matias Villavicencio
Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=Te6nZpJjS7I

Éramos oito. Oito brasileiros decididos a enfrentar o maior desafio de nossas vidas, até agora, todos com seus sonhos, desejos e ambições particulares. Oito brasileiros a percorrer 90 Km sobre trilhas, rochas, neve e gelo, em 8 dias (sendo dois deles reservados a mau tempo). Mas o clima instável da Patagônia resolveu não colaborar. E não colaborar por todos os 8 dias que durariam a travessia. A previsão era de chuva, vento e neve.

Depois de muitas dúvidas, especulações e de muita conversa, cada um toma a sua decisão. Uma decisão difícil, mas assumida de forma sensata por cada um, de acordo com o que realmente ansiavam com aquela travessia.
O meu anseio, naquele momento, era pisar naquele campo de gelo, não importa o quão difícil isso pudesse ser, não importa quanta visibilidade eu pudesse ter. Desde que houvesse segurança, viver uma grande experiência era o objetivo maior. E Andreina e Matheus se conectavam perfeitamente às minhas aspirações.

Prosseguimos, então, nós 3 com os planos, dispostos a enfrentar todas as intempéries que estivessem por vir, sempre com muita determinação e confiança na experiência dos nossos guias: Tibo, Fede, Marquito e Pablito.

Iniciaríamos a travessia no dia 07/11, porém chovia muito, o que levou nosso guia Tibo a adiar o início da caminhada para o próximo dia. Queimamos, assim, um dia extra que tínhamos para a travessia. Restou-nos, então, 7 dias (sendo 1 dia extra por mal clima)

Permanecemos então em Chaltén, ora descansando, ora providenciando os últimos equipamentos, ora papeando com os novos amigos, entre eles a adorável Carol Emboava, com a qual tivemos um agradável jantar de boas energias antes da nossa partida ao gelo.

Primeiro dia: Ponte do Rio Electrico - Acampamento Piedra del Fraile

Objetivo: Plaita (não concluído por mal tempo)

O dia amanheceu sem chuva, mas mudou drasticamente ao longo do dia.

Partimos de carro em direção ao Rio Electrico, local de início da caminhada. No meio do caminho um belo sol e uns poucos pingos de chuva nos presentearam com um lindo arco-íris. Sinal de bom presságio. É como se a mãe natureza estivesse tentando nos dizer "Fiquem tranquilos. Vai dar tudo certo".

Descemos do carro, acertamos as últimas coisas e demos início a travessia, debaixo de uma chuvinha fina e com o vento já mostrando a sua força.

Atravessamos a ponte do Rio Electrico, caminhamos sobre um trecho reto de pedrinhas e por fim, seguimos por uma trilha num bosque verdinho, sem qualquer elevação que pudesse causar algum esforço físico maior.
Porém, no decorrer da caminhada a chuva ficou mais forte, motivo pelo qual paramos no Acampamento Piedra del Fraile para aguardar alguma melhora para prosseguir até a Plaita, já que essa parte da trilha seria mais exposta as intempéries.

Esperamos então, em volta de uma lareira quentinha, secando nossas roupas molhadas. Tomamos um té, recebemos massagem nos pés da Dri, escutamos algumas canções tocadas no violão por Matheus, cantamos e dormimos um pouco enquanto esperávamos o tempo melhorar para continuar. Porém a chuva não diminuiu. E a previsão passada pelo rádio seria que apenas no dia seguinte a mesma cessaria.

A decisão então foi permanecer no Fraile, e passar o resto do dia comendo, se hidratando, e descansando para encarar 12 horas de caminhada no dia seguinte, até o Refúgio Gorra Blanca.

Jantamos por volta da 8:00 e as 9:00 já estamos na cama.

O dia termina bem para todos, exceto para Matheus, que estava se sentindo um pouco mal. Acredita-se que por conta do bife de chorisso que comeu na noite anterior.

Segundo Dia: Acampamento Piedra del Fraile - Playita

Objetivo: Refugio Gorra Blanca (não concluído por mal tempo)

Matheus amanheceu pior. Estava com muita diarréia e se sentindo fraco.

Disse que estava disposto a abortar se seu corpo não aguentasse a caminhada, mas que queria tentar.

A previsão meteorológica indicava, neste dia,uma janela de bom tempo para subirmos o Passo Marcone. Chuva no final do dia, mas sem vento.

O dia realmente amanheceu sem chuva, porém com muito vento.

Tibo informou, então, que nessas condições não seria possível subir o Passo Marcone; que se o tempo não melhorasse, teríamos que acampar na Plaita .

Isso significava que não teríamos mais chance de subir o Passo pois no dia seguinte o tempo estaria ruim, e no próximo pior ainda. Consequentemente teríamos que usar nossos outros dias em outras trilhas.

Seguimos a caminhada, então, sem saber se faríamos ou não a volta ao gelo, mas sempre acreditando que faríamos. No meio do caminho me apeguei ao sobrenatural e comecei a fazer todo tipo de promessa para que o tempo melhorasse e nós pudéssemos subir o Passo Marcone.

Trilha bem fácil, ora plana, ora com alguns desníveis, com vista da face noroeste do Fitz Roy.

Atravessamos o Rio Polone pisando sobre as pedras, sem nos molhar, pois seu nível estava bem baixo. Daí em diante foi só caminhar sobre uma morena bem inclinada e subir mais um pouco para então avistar a linda Plaita.

Chegamos na Plaita ainda pela manhã, sob uma leve garoa, e soubemos que as condições no Passo tinham piorado; que não poderíamos subir naquele dia.

Isso significava o fim da nossa volta ao gelo, já que aquele era o único dia em que se havia previsto uma janela de bom tempo para subirmos.

A única chance que teríamos de dar a volta seria se o tempo melhorasse no dia seguinte, informação que só teríamos no final da tarde, via rádio.

Nessa longa espera por notícias, Matheus tentava se recuperar do mal que lhe acometia para retornar a Chaltén no dia seguinte; Dri e eu, por outro lado, nos pomos a pensar, pensar e pensar.

Foi então que decidimos ter uma conversa franca com Tibo.

Fomos até a barraca dele. Os 4 guias estavam lá, tomando um té.

Dissemos o quanto desejávamos fazer essa volta ao gelo, o quanto foi duro para nós estar alí, e que se o clima no dia seguinte permitisse, mesmo que minimamente, subir o Passo para fazermos a volta nós queríamos subir; que estávamos dispostas a caminhar em 1 só dia o que caminharíamos em 2, atravessando o campo de gelo num só tiro, se fosse preciso; que nós conseguíamos.

Foi então que vimos um brilho nos olhos de todos eles e saímos da barraca dizendo para ele pensar no que havíamos dito e nos dar a resposta mais tarde.

Logo após, Tibo sai da de sua barraca e começa a subir a trilha em direção ao Glaciar Marcone. Eu e Dri nos entreolhamos na hora e abrimos um sorrisão pensando "ele foi ver como o clima está lá". =D

Voltamos a nossa barraca e algum tempo depois Tibo vai até lá e diz que se não amanhecesse chovendo no dia seguinte, as condições seriam mais favoráveis para a ascensão ao Passo, do que as que se apresentavam por hora (chuva e vento), mas teríamos que partir bem cedinho, pois a tarde o tempo estaria muito pior.

Não nos contivemos de tanta felicidade com uma notícia tão boa. Agora era rezar para não chover e podermos prosseguir com a caminhada.

No final da tarde, já sem aquela garoazinha e com um céu azulão, Tibo nos chama para fazer uma caminhada até o mirador do glaciar Marcone.
Na volta, um arco-íris emoldurava toda a Plaita. Mais uma vez a mãe natureza nos dando um bom sinal. =D

Terceiro Dia: Playita - Refúgio Gorra Blanca

Objetivo: Refúgio Gorra Blanca

O dia amanhece sem chuva e com um pouco de vento, mas em boas condições para a ascensão.

Matheus se sente melhor e decide seguir conosco.

Começamos o trekking em direção ao Glaciar Marcone embaixo de alguns respingos que pareciam chuva, mas eram as águas das pequenas cachoeiras de degelo, que desciam das montanhas a nossa volta, sendo borrifadas pelo vento.Trecho de pedra, em aclive, no início, com um leve declive até chegar a lagoa do glaciar. O próximo passo foi contornar a lagoa, pela morena, trecho bem inclinado até alcançar a base do glaciar.

No glaciar caminhamos inicialmente sem crampons, pisando por sobre as pedras. Quando só restou gelo, colocamos os crampons e seguimos a caminhada em um trecho relativamente plano, até darmos início a uma longa subida, sempre pulando as gretas que apareciam a nossa frente.

Enquanto subíamos teve início uma nevasca, seguida de vento, o que não agradou nada o nosso guia. Seguíamos subindo sempre, sem mais paradas, além daquela em que colocamos os crampons.

O vento começou a soprar mais forte dificultando a caminhada.

Certa hora uma rajada me desequilibrou e eu enrosquei um crampon no outro caindo no gelo de cara no chão. Nada de grave, apenas um machucado no nariz.

Continuamos a subida, devagar e sempre, até que alcançamos um trecho bem íngreme, onde Tibo foi subindo em zigue-zague, fazendo uma espécie de escada com suas pegadas, afundas na neve até metade da perna. Nós seguimos logo atrás, tendo que pisar exatamente nessas pegadas. Para mim o trecho mais perigoso do dia, pois não estávamos encordados.

Ao final desta subida minhas luvas impermeáveis, de uma marca conceituadíssima, já se encontravam encharcadas. Minhas mãos estavam duras e geladas, creio eu que em algum estágio de congelamento. Eu não tinha mais sensibilidade alguma nos dedos .

Tirei as luvas e tentei esquentá-las sem êxito. Marquito me ajudou, então, e a medida que o sangue ia irrigando novamente o tecido eu sentia uma dor imensa, como se os meus dedo estivesse sendo dilacerados.

Trocamos as luvas e caminhamos por mais 10 minutos até um ponto onde colocamos as raquetes de neve e nos encordamos. Neste momento o vento começa a soprar muito forte, varrendo a neve da montanha e deixando o caminho com pouquíssima visibilidade.

Seguimos subindo lentamente, sempre atentos as rajadas de vento que tentavam nos jogar montanha abaixo. "Força nos bastones" gritava Tibo a cada rajada. Hora em que parávamos e fincávamos os bastões no chão com firmeza, até que a rajada passasse.

Nos víamos em meio ao pior clima desde então.

Sabe aquelas cenas de filmes de alta montanha em que os caras estão subindo e são pegos por um temporal, com muito vento, muita neve e tal? Foi exatamente assim....

Subida interminável e cansativa, pela constante briga com o vento. Subíamos, subíamos, subíamos e nunca chegávamos, apesar de o fim da subida parecer, aos olhos, muito próximo. Cada vez que eu olhava para cima parecia que estavámos chegando mas quando eu olhava de novo a imagem era exatamente a mesma. É como se não tivéssemos dado um só passo. Uma ilusão de ótica causada pela imensidão branca. Parei então de olhar e me concentrei apenas em dar um passo após om outro, pois naquele momento eu já estava tão exausta que minhas pernas não respondiam mais.

Eu não tinha mais forças para subir, mas eu sabia que não podia parar ali, no meio da montanha naquele clima infernal. Os riscos eram muito grandes caso algo viesse a dar errado. E foi justamente, nesse momento que eu ultrapassei o meu limite, pela primeira vez na vida. Momento em que o meu corpo não respondia mais; momento em que eu precisei conversar com as minhas pernas ("mais um passo, mais um passo... vamos lá, mais um passo") para que elas não me deixassem ir ao chão; momento em que eu arranjei forças de algum lugar extraordinário para continuar caminhando até o final daquela montanha, quando alcançamos finalmente o campo de gelo, com as mão completamente duras em volta dos bastões, sem conseguir sentir ou mexer um dedo sequer.

A uns 100 metros do refúgio Gorra Blanca quase desmaiei de tanta exaustão. Senti meu corpo amolecendo, querendo ir ao chão. Parei de andar nesse momento e consequentemente a corda esticou, fazendo com que Tibo logo fosse ao meu encontro, ver o que se passava. Tirou a mochila das minhas costas e eu segui me arrastando, sem ela, até o refúgio, mas com a sensação de que ela ainda estava lá..
Foi incrível a sensação de entrar naquele lugar quentinho e protegido. Lembro perfeitamente que, assim que entrei, sentei ao lado da Dri, nos abraçamos e chorarmos juntas. Tínhamos conseguido. Foi muito difícil mas estávamos onde nos tanto queríamos estar: no Campo de Gelo da Patagônia.

Matheus foi muito bem durante toda a subida. Ainda não estava curado da diarreia, mas subiu aquilo ali com uma gana tão grande que nada o podia deter. E chegou tão bem que ao final se desencordou para ir mais a frente e tirar foto de nós chegando ao refúgio.

No refúgio colocamos roupas quentes, tomamos uma chá para nos esquentar, dormimos um pouco e ficamos papeando, juntamente com um outro grupo que chegou logo após a gente, até o cair da noite, quando fomos dormir nas beliches que tem no refúgio. Não vimos nada neste dia, pois nevava muito o tempo todo.

Resolvemos tirar o dia seguinte para descansar poi Caminharíamos então em 1 só dia todo o campo de gelo (25 km), indo direto do gorra Blanca a Laguna de Los Esquies.

Quarto Dia: Permanecemos no Gorra Blanca

Objetivo: descansar

A previsão do tempo para este dia era péssima, então aproveitamos para descansar para o dia seguinte que seria muito puxado (atravessar todo o campo de gelo num só tiro - 25Km)

Amanheceu com muita nevasca e permaneceu assim durante todo o dia. Mas tivemos uma janela de bom tempo no decorrer do dia (coisa de 10-15 minutos), quando pudemos finalmente apreciar toda a grandiosidade do campo de gelo.

Passamos o dia todo conversando, comendo, nos hidratando e descansando para o próximo dia.

Quinto dia: -Refúgio Gorra Blanca - Laguna de los Esquis

Objetivo: Laguna de los Esquis

Esse foi um dia muito puxado. Atravessamos todo o campo de gelo (25 Km) em um só dia.

Partimos as 7:00 do Refúgio Gorra Blanca rumo a Laguna de los Esquis, debaixo de muita nevasca e com muito vento, encordados e com raquetes de neve. Trecho longo mas plano. Não se via uma greta se quer pelo caminho o que facilitou muito pois não tivemos que ficar desviando delas. Foi um retão branco sem fim.

Cada vez que pisávamos em um local em que percebía-se uma depressão meu coração disparava pois pensava que certamente alí embaixo havia uma greta, e estávamos passando sobre a ponte de neve que existia sobre ela naquele momento. Foi muito tenso.

Acostumar a andar com as raquetes foi fácil. Difícil foi o vento nos empurrando a todo tempo, pelas costas, e ter que suportar as nossas roupas e botas encharcadas após muito tempo no gelo.

Nossas pausas eram de no máximo 5 minutos a cada 1hora e meia, apenas para reidratar e comer algo. Ficávamos em pé mesmo, em círculo, bem grudados uns nos outros. Não podíamos ficar muito tempo parados pois sentíamos muito frio.

Uma dessas pausas ocorreu no Circo de Los Altares, onde chegamos após 4 horas de caminhada. Não vimos uma montanha sequer, mas nós já estávamos felizes só por ter tido a oportunidade de estar lá.

Seguimos por praticamente todo o campo de gelo sem enxergar nada em volta, com os fortes ventos nos empurrando a todo momento até que, restando cerca de 1 hora para sairmos do gelo, o tempo finalmente melhorou e avistamos todo o campo de gelo e algumas de suas montanhas. O momento mais lindo do dia, que me arrancou muitas lágrimas de tanta felicidade.

Fizemos uma pausa de 15 minutos essa hora para curtir mais um pouquinho aquela paisagem estupenda. Tiramos as mochilas, sentamos sobre elas, comemos, bebemos e demos muitas risadas.

Após, andamos por mais 1 hora até finalmente sair do campo de gelo.

Tiramos as raquetes de neve e começamos a descer uma pequena pendente rumo ao Glaciar Viedma (trecho bem tenso e perigoso), onde caminhamos por cerca de 30 minutos até alcançar um terreno de terra e pedras, o qual seguimos, em aclives e declives, até o nosso próximo acampamento, na Laguna de los Esquis.

A longa caminhada fez com que um problema preexistente, mas que estava sobre controle, desse as caras com muita intensidade. Minha perna doía muito ao final daqueles 25 Km, por conta de uma suposta ciatalgia que me acometeu meses antes da travessia, tornando os últimos metros, daquela caminhada do dia, uma dura jornada. Mas tudo deu certo, enfim, e quando finalmente cheguei ao acampamento dei um forte abraço no Tibo e chorei novamente de felicidade por termos conseguido cumprir a meta do dia com louvor.

Assim que chegamos começou a chuviscar. Armadas as barracas, entramos e de lá só saímos no dia seguinte, após uma noite muito mal dormida, ante aos fortes ventos que assolavam o local e que faziam a barraca tornar-se extremamente barulhenta.

Sexto Dia: Laguna de los Esquis - Acampamento Toro
Objetivo: Acampamento Toro

Após uma noite de chuva e ventos muito fortes, partimos rumo ao Acampamento Toro sob chuva e vento.

A caminhada se iniciou por um trecho de subida constante, sobre pedras sobrepostas, algumas vezes cobertas de neve, até chegar a um trecho em que descemos para um vale. Daí em diante iniciamos a subida do Passo del Viento. Uma subida interminável que sugou todas as minhas forças, tanto quanto o Passo Marcone, não só pela dificuldade mas também pela dor que eu senti na perna desde o início da caminhada do dia, devido ao excessivo esforço do dia anterior, chegando a me arrancar lágrimas de dor e exaustão.

Quando chegamos ao topo daquela montanha paramos para tomar um té, para nos esquentar, e comer algo antes de iniciar a longa descida até o acampamento. Estávamos no topo da montanha, lá naquelas pontinhas nevadas....foi uma sensação indescritível =´)

Fomos descendo um trecho bem inclinado coberto de neve, pisando sempre nas pegadas afundadas do Tibo, até chegar a uma trilha num trecho inclinado de pedras. Minha perna doía muito, muito mais que na subida, e por minha causa o ritmo do grupo caiu, já que eu estava muito mais lenta.

Fizemos uma nova pausa com vista para o Glaciar Túnel Inferior e a lagoa sem nome que nossos guias apelidaram de "Laguna de las Meninas Fuertes Brasileñas".

Após, continuamos a seguir a trilha descendo em direção ao glaciar até chegar a um trecho em que a mesma sumia e só restavam pedras. Era a temível morena do Glaciar Túnel Inferior, que se movia para baixo a cada passada que dávamos.

Conforme caminhávamos, todo o aglomerado de pedras se movia junto. Cada passo uma angústia de rolar uma pedra nas nossas cabeças ou de irmos parar no fundo da greta lá embaixo, junto com todas aquelas pedras.

Mas fizemos tudo conforme nossos guias orientaram e não tivemos qualquer problema. Tudo correu bem e alcançamos o glaciar em segurança.

Após isso percorremos por cerca de 30 minutos o glaciar e logo já estávamos novamente percorrendo um trecho inclinado de pedras empilhadas, bem mais curto e seguro dessa vez.

Em seguida chegamos a um canal de rochas, o qual percorremos até atingir uma planície cheia de pequenos pedregulhos, as margens do Rio Túnel.

Subimos, então, um pequeno desnível e travessamos o mesmo rio por uma tirolesa.

Daí em diante seriam apenas mais 30 minutos até o acampamento toro em terreno completamente plano. Molezinha, se na fossem os ventos de 150 km por hora que sopravam a todo vapor naquele lugar, naquele instante.

Nosso guia foi arrancado do chão pelo vento e jogado contra as pedras. Tivemos que fazer uma força descomunal para não sermos atirados também. Muitas vezes não conseguíamos e seguíamos correndo, sem controle dos nossos corpos, sendo empurrados com toda a força pelos ventos. Matheus foi jogado ao chão e arrastado de joelhos por alguns metros.

Após mais esse último desafio do dia, finalmente chegamos ao nosso último acampamento - Acampamento Toro - num lindo bosque de lengas.

Chegando no acampamento colocamos todas as nossas coisas para secar e ficamos conversando, alongando, tomando um té, uma sopinha e finalmente jantamos e fomos dormir.

O dia terminou com um ar meio melancólico, porque estava acabando a travessia. Não queríamos que acabasse. Gostamos muito de tudo e de todos. Terminar significava cada um voltar para as suas casas e ficar longe uns dos outro. Longe dos amigos queridos que enfrentaram tantas coisas com a gente durante todos esses dias. Restava-nos o consolo de que Chaltén continuaria lá, nossos amigos continuariam lá, e poderíamos retornar para reencontra-los sempre que quiséssemos.

Sétimo Dia: Acampamento Toro - El Chaltén

Para varia só um pouquinho, amanheceu chovendo.

Seguimos por uma trilha em meio ao bosque de lengas até chegar a um campo aberto. Atravessamos um rio com água pelas canelas e logo após um outro, mais revolto.

Ao atravessar um dos rios por cima de um tronco de árvore semi submerso, meu pé foi empurrado pela força das água. Me agarrei com todas as minhas forças na árvore que me apoiava para não ser levada pela correnteza. No fim das contas deu tudo certo. Molhei apenas as pernas.

Subimos um pequeno desnível até chegar a um campo aberto onde atravessamos um outro rio, com um volume bem menor de água, por sobre as pedras.

Começamos a subir, então, a montanha a nossa frente. Uma interminável subida, mas que não chegava nem aos pés do Passo Marcone ou do Passo del Viento. Uma ascenção com trechos com pouco aclive e trechos planos. Do seu topo pudemos avistar o Lago Viedma.

Daí em diante foi só uma longa e demorada descida por um bosque, até avistarmos Chaltén, momento em que sofri bastante com a dor na minha perna.

Chegamos, então ao final da travessia, extremamente felizes por termos vivido momentos inesquecíveis ao lado de pessoas tão especiais, mas tristes por termos que partir e deixar tudo isso para trás.

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Para mais informações sobre essa trip visite o nosso blog.

Keila Beckman
Keila Beckman

Published on 08/14/2015 01:35

Performed from 11/08/2015 to 11/14/2015

1 Participant

Andreina

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Vivi Mar
Vivi Mar 09/08/2015 12:48

Wow, fantastico !!! Ja estive em Chalten, o tempo nao colaborou nada, e nao consegui colocar tudo em pratica, mas pretendo retornar em breve. Adorei o relato, e ja coloquei o roteiro na listinha, heheh. Valeu por compartilhar :)

Keila Beckman
Keila Beckman 09/09/2015 19:56

;)

Natália Gomes Knob
Natália Gomes Knob 11/08/2015 11:49

Keila. Muito dez. Imagino o quanto vocês tenham sofrido com o tempo. Quando estávamos em Piedra Del Fraile encontramos um grupo de 3 alemães que foram fazer a mesma travessia. Eles iam sem guia e com previsão de 7-8 dias. Uns dias depois encontramos eles novamente na cidade e, em virtude do tempo bom, tinham concluído em 4 dias. Estavam pretos provavelmente devido ao reflexo do sol na neve. Fiquei com uma vontade tremenda de voltar e um dia fazer essa travessia. Teus vídeos são demais. Parabéns pela travessia!! Uma hora vou querer umas informações e dicas sobre essa trilha. :D

Keila Beckman
Keila Beckman 11/09/2015 19:28

Obrigada Natália...Será um prazer ajudar ;)

Bruno Araujo Mendes
Bruno Araujo Mendes 01/22/2016 13:44

Nossa, um dos meus objetivos para esse ano de 2016

Italo Siqueira
Italo Siqueira 04/19/2016 09:55

Keila, muito legal o relato! Assisti o vídeo também e fiquei alucinado! Show! Como você fez com a contratação dos guias? Foi por intermédio de alguma agencia? Se foi poderia indicar? Se for possível, você poderia informar o valor do investimento?? :D Estive na patagônia no ano passado e fiquei maravilhado com tudo...em TDP fiz o W e em chalten fiz as principais trilhas. Quero voltar no ano que vem para fazer o circuito O em TDP e essa travessia!!! Se você poder me ajudar com algumas informações, ficarei muito grato! Parabéns pelo vídeo e relato!!!

Cristiane Kinguti
Cristiane Kinguti 09/27/2016 17:13

adorei o relato!!!

Keila Beckman
Keila Beckman 10/09/2016 03:09

Italo... Contratei a Patagônia Hikes, custou 1400 dólares na época. Mas se vc quiser pode contratar diretamente os guias, sem intermédio da agência. Creio que deva sair mais barato. Nosso guia "chefe" foi o Tibo (Matias Villavicencio). Gente finíssima e muito competente. Não sei se pode colocar link aqui nos comentários, então dá uma procurada nele no facebook, ok. Escreve Matias Villavicencio El Chaltén

Keila Beckman

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Apaixonada por montanhas desde que estive pela primeira vez em uma delas, em 2011.

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