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Expedição autônoma nos Andes

Expedição autônoma nos Andes

Este é um relato de nossa expedição a Cordilheira dos Andes de forma autônoma onde escalamos 2 montanhas entre 4 mil e 6 mil

Mountaineering Trekking High Mountaineering

Antes de começar o relato, vou disponibilizar algumas experiências e materiais no nosso site ViaVertical. Quem tiver interesse, dá uma passadinha por lá.

O projeto dos Andes começou há muito tempo, ainda no início da década de 2010. Por vários motivos sempre a idéia foi sendo adiada até que na volta da Venezuela decidimos por encarar uma das cordilheiras mais belas da terra.

Os preparativos começaram ainda em maio de 2018. A única coisa definida: faríamos uma expedição autônoma. Sem guias, sem porteadores, sem mulas. O primeiro desafio foi aprender como se vive em alta montanha. Equipamentos, técnicas... Tudo novo. O que sabíamos e o que tínhamos, não seria para quase nada.

Definimos que o destino era as montanhas do Parque Provincial Cordón del Plata, com sede em Potrerilhos, Mendoza na Argentina. O primeiro passo foi definir a data e comprar as passagens aéreas para não ter mais volta e em seguida, iniciamos os estudos. Foram uns três meses de pesquisa, aprendizado e planejamento. Também reformulamos nosso rítmo de preparação física e cuidados com a saúde.

Com tudo encaminhado, decidimos adquirir os equipamentos ao invés de optar pela locação na Argentina. Uma pequena parte compramos no Brasil e os equipamentos mais técnicos optamos em comprar na Espanha por um site de vendas especializada em alta montanha. Mesmo com os absurdos 60% de imposto de importação ainda valeu a pena, pois além de muito mais barato, adquirimos produtos de última geração, alguns que ainda não chegaram nas lojas brasileiras.

Quanto ao planejamento da expedição em si, tínhamos em mente que como tudo seria novidade, muita coisa do planejado não seria concretizado. Definimos que antes do Plata, gostaríamos de alguns cumes em montanhas menores.

Com tudo planejado, o grande dia chegou: partimos no dia 18 de janeiro. A primeira etapa da viagem foi de carro: uma viagem curta de Pato Branco-PR até Puerto Iguazu na Argentina, trajeto este de 280km em média cruzando a fronteira por Dionísio Cerqueira-SC.

Chegamos em Puerto Iguazu no início da tarde de sexta. Após ir até a pousada onde passaríamos a noite e deixaríamos o carro até a volta, fomos adquirir chips de celular para que tivéssemos mais contato com nossas famílias. Adquirimos chips da Claro, pois fomos convencidos que era a melhor operadora. Primeira dica: Para a região de Mendoza, adquira chip da operadora Movistar pois é a única que funciona nas montanhas da pré-cordilheira.

Passamos o resto do dia organizando as tralhas, testando a temperatura da água da piscina e degustando algumas Patagônias (quem é fã de cerveja e não a conhece, não sabe o que está perdendo).

No sábado partimos cedo para o aeroporto onde embarcamos no vôo para Mendoza. Chegamos às 13h40 e já em seguida estávamos a bordo do nosso Uber, onde tínhamos combinado previamente com Maxi para nos levar até o refúgio de montanha.

Antes, passamos em uma loja de montanha para comprar alguns botijões de gás, já que não é permitido levar na bagagem em avião e uma breve pausa para um lanche.

Depois de 85km, chegamos ao refúgio, já a 2900 metros, onde passaríamos a noite.

No dia seguinte, logo cedo acordamos, tomamos um café, arrumamos as mochilas e partimos para o primeiro acampamento de montanha - Veguitas - onde passaríamos os próximos 3 dias aclimatando. Em duas horas, chegamos ao acampamento depois de uma subida íngrime. Pouco mais de 3km e estávamos a 3290m. Armamos a barraca e organizamos as tralhas. O restante do dia foi contemplando a paisagem, os condores, os guanacos e os cavalos de porteadores que estavam soltos pelo acampamento.

No dia seguinte, partimos para um ataque ao cume do Cerro San Bernardo, a 4150m e uma visão panorâmica do vale ao leste e das montanhas altas a oeste. Atingimos o cume no início da tarde. Depois de algumas fotos, registro no livro de cume, iniciamos a volta. Seguimos os totens que nos levaram a um abismo. Retornamos e mais a leste recuperamos a trilha. A volta, em cascalho solto foi relativamente rápida porém cansativa.

Chegando ao acampamento, encontramos dois parceiros montanhistas de uma cidade vizinha a nossa que estavam retornando do cume do Plata. Conversamos um bom tempo e combinamos com eles, queno dia seguinte, desceríamos ao refúgio buscar um novo Chip de celular que o motorista do Uber traria, já que os nossos da Claro não funcionaram na região.

Banho próximo a zero grau tomado, tratamos de descansar.

Na terça-feira, próximo às 11h00 partimos do acampamento ao refúgio apenas com água e algumas tralhas que decidimos não levar ao acampamento alto, como fotográficas, baterias, algumas roupas... Chegando, almoçamos com nossos amigos e assim que pegamos o chip, tratamos de voltar a Veguitas.

Na quarta, partimos cedo ao acampamento El Salto, a 4300m para a nova fase de aclimatação, passando por Veguitas superior e Piedra Grande onde paramos para recuperar as forças já que estávamos em torno de 40kg cada e optamos por não fazer porteamento.

Chegamos a El Salto próximo às 17h00. Parecíamos dois favelados atropelados por um trem carregado. Havia em torno de umas 20 barracas e umas 40 pessoas, na maioria montanhistas argentinos. Montamos nosso acampamento próximo a cachoeira num lugar privilegiado.

A quinta-feira foi destinada apenas para o descanso da fadigante subida com carga do dia anterior que aproveitamos para fazer novas amizades, trocar experiências, compartilhar um bom mate...

Na sexta, após um bom café da manhã, partimos para um ataque ao acampamento La Hoyada, a 4800m. Chegamos em uma hora e aproveitamos para uma pernada um pouco mais alta em um banco de gelo logo acima.

Retornamos ao acampamento El Salto.

A programação era para um ataque ao cume do Plata no sábado, onde teríamos a companhia do Matias, um argentino que mora na França que conhecemos no acampamento. Combinamos de partir às 3h00 da madrugada. Acordamos às 2h30 e assim que o despertador tocou, notamos alguns flash's no escuro. Pensávamos que eram as lanternas de outros montanhistas mas logo após o Matias veio até nossa barraca e comentou que estava ocorrendo uma tempestade elétrica muito próximo de nosso acampamento. Decidimos abortar a tentativa de cume do Plata.

Durante toda a expedição, tínhamos duas formas de acompanhar a previsão do tempo: A previsão passada pelos guarda-parque através de rádio VHF e via internet por um aplicativo especializado em clima de montanha. Durante toda a expedição, todas as previsões em todos os dias estavam furadas.

Decidimos tentar o cume no domingo, mesmo com a previsão dizendo que haveria 30cm de neve a 5100m. Partimos apenas eu e o Jr (Matias teve que voltar para o refúgio pois tinha vôo marcado, não conseguindo fazer a tentativa de cume no Plata) às 2h30 da manhã. Com botas duplas desde El Salto e com temperaturas sub zero, atingimos a crista do lomas amarilas no amanhecer. Perto das 7hr estávamos no colo que dá acesso ao Plata e ao Vallecitos, onde paramos para um pequeno descanso e apreciar a paisagem sureal.

Cruzamos alguns campos de gelo e acima dos 5500m os passos já estavam mais lentos. A cada 20 passos, uma pausa para descanso. O ar já estava escasso e o cansaço era visível.

Aos 5700m comecei a ter náusea e dores de cabeça. Mesmo assim decidi continuar e aos 5941m o corpo já estava bastante debilitado. Pedi ao Jr que continuasse que eu o esperaria mas ele se recusava a seguir sozinho. Foi então que encontramos retornando do cume o Felix, um alemão que conhecemos no refúgio na semana anterior. Ele ficou comigo e assim, convenci o Jr a seguir os últimos pouco menos de 50 metros até o cume. Mantivemos contato frequente pelo rádio e em pouco menos de meia hora, o Jr estava retornando até nós.

A volta foi relativamente rápida até o colo. Lá chegando, as náuseas aumentaram e eu diminuí o rítmo. As botas duplas já estavam me matando. Decidimos diminuir o rítmo.

Na segunda, decidimos desmontar o acampamento e retornar ao refúgio. Antes de partir, avisamos o Maxi, nosso Uber, para que viesse nos buscar para retornar ainda na segunda a Mendoza, para que nossa recuperação fosse mais rápida.

Descemos de El Salto (4300m) ao refúgio (2700m) em 4 horas. Almoçamos e logo depois o Maxi chegou. Carro carregado, iniciamos a viagem a Mendoza. Em torno de 22h00 já estávamos no hotel para um belo banho de uma hora de duração cada.

De terça até no sexta ficamos em Mendoza conhecendo a cidade, algumas lojas de montanha, agências e aguardando nosso vôo de volta no sábado que partiria às 8h00 da manhã.

Após a chegada em Puerto Iguazu, pegamos o carro e partimos a nossa cidade, onde chegamos próximo às 16h00.

Por ter sido uma expedição totalmente independente, algumas boas lições foram tiradas. Muita coisa foi desmistificada. Muito aprendizado, muitos novos amigos e agora, enquanto escrevo este relato um mês depois, uma saudade imensa e a vontade de voltar para a montanha. Aliás, o novo projeto para os Andes já começou... Novamente de forma independente, porém com uma bagagem de conhecimento melhor.

Luiz Carlos Piccinin
Luiz Carlos Piccinin

Published on 02/21/2019 11:38

Performed from 01/18/2019 to 02/02/2019

2 Participants

Viavertical Junior Baggio

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1867

3
Pedro
Pedro 02/21/2019 12:23

Sensacional.... Parabéns pela conquista!!!

Ana Retore
Ana Retore 02/21/2019 12:55

Muito legal! Parabéns 👏🏻👏🏻👏🏻

Jone Rodrigues
Jone Rodrigues 02/25/2019 20:03

Muito bom o relato Luiz, parabens!

Luiz Carlos Piccinin

Luiz Carlos Piccinin

Pato Branco, PR

Rox
343

Sou empresário, montanhista, canoista, ex-paraquedista, fundador da equipe ViaVertical.

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www.viavertical.com.br

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