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Transerrana RJ

Transerrana RJ

Travessia de 163 km e 15700 metros de desnível acumulado pela Serra do Mar fluminense, realizada em 40 horas (4 dias).

Trekking Mountaineering

Introdução

Antes de iniciar o relato, quero deixar bem claro que não abri nenhuma travessia nova. Tudo o que fiz foi interligar trilhas que já existiam antes mesmo dos montanhistas ou das unidades de conservação. São trilhas abertas por locais, caçadores, tropeiros e até mesmo índios ao longo da Serra do Mar fluminense. Os caminhos sempre estiveram lá, mas acredito que ninguém antes tentou uni-los.

A ideia:

A ideia surgiu há um ano, quando li a respeito da inauguração da Caminhos da Serra do Mar, uma trilha de longo percurso implantada pelo ICMBio dentro do Parna Serra dos Órgãos. Sempre senti falta em nosso país de trilhas de longo percurso, como costuma ocorrer em países que têm uma cultura outdoor mais antiga que a nossa. Nesse momento saquei que não é necessário esperar um órgão 'abrir' oficialmente uma trilha. Os caminhos sempre estiveram lá, é só questão de unir os pontos. E claro, pra ser considerado uma travessia, deve ser executado totalmente pelos próprios meios e da forma mais independente possível. Em outras palavras, 100% na canela.

A Transerrana RJ une 10 travessias na Serra do Mar fluminense, cruzando cristas de montanha, vales e trilhas dentro da Mata Atlântica. 5 dessas travessias ocorrem dentro do Parque Estadual dos 3 Picos, e as outra 5 dentro do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. O título Transerrana RJ é tão bom quanto qualquer outro. Poderia ser chamada de 'travessia 10 em 1' ou 'travessia sobe - desce - sobe - sobe um pouco mais - desce tudo de novo'. Transerrana RJ me pareceu melhor. Também não queria criar confusão com a 'Caminhos da Serra do Mar'. Alguns trechos são em comum, outros não.

A logística:

A organização pra uma pernada desse tamanho é quase tão interessante quanto sua execução. O mais difícil é deixar a mochila leve. Optei por escolher dois pontos de pernoite (Pousada da Íris em Guapiaçu e Alojamento Vila Açu em Bonfim - Petrópolis), dessa forma não precisaria levar barraca e saco de dormir. O fato de morar em Teresópolis é uma vantagem, por isso defini o meio da travessia na minha casa. Então dividi o trecho em 4 dias: os dois primeiros compreenderiam as 5 travessias dentro do PETP e os dois últimos as 5 travessias dentro do PARNASO. A Adriana me levaria no ínicio (Bonsucesso - Teresópolis) e me buscaria no final (Vila Inhomirim - Magé). A travessia seria integralmente a pé.

A execução:

A Transerrana RJ foi executada em dois finais de semana. Nos dias 8 e 9 de agosto foi o trecho que cruza o PETP, saindo de Bonsucesso e chegando em casa depois de 88 km e 18 horas de caminhada. Nos dias 15 e 16 de agosto foi o trecho que cruza o Parnaso, saindo de casa e chegando à Vila Inhomirim (também conhecida como Raiz da Serra) depois de 75 km e 22 horas de caminhada.

Para o primeiro trecho consegui manter a mochila com 3,5 kg (incluindo comida e água). Para o segundo o peso foi pra 4,5 kg, tudo incluso.

Resumidamente, segue o que foi feito em cada dia:

Dia 1 - A Adriana me leva até Bonsucesso, na fazenda onde se inicia a subida para as Torres de Bonsucesso. inicio a caminhada às 6:40.

3 horas depois chego na estrada do Vale dos Frades e sigo em direção à Fazenda Itatyba, onde inicio a travessia para Salinas.

2 horas depois estou saindo pela porteira do lado dos 3 picos, e desço correndo os 6 km até Salinas. De lá sigo até a Fazenda Campestre, até a borda da Serra onde inicia a travessia para Santo Amaro. Nesse ponto me perdi um pouco, há muitos caminhos e não havia tracklog disponível. 20 minutos depois encontrei o caminho certo e iniciei a descida da serra. Mais duas horas de descida chegava à saída da trilha em Santo Amaro, e então foi seguir mais 7 km em estrada de terra até Guapiaçu, onde pernoitei. Nesse dia foram percorridos 48 km em 10 horas de caminhada.

Dia 2 - Saio de Guapiaçu às 07:30 e sigo pela estrada de terra até Areal, o tempo todo margeando a base da serra com um visual incrível. Umas 3 horas depois chego no início da trilha que sobe para Canoas, onde chego 1h 30min depois. Novamente no alto da serra em Canoas sigo por 12 km por estradas de terra e asfalto até Prata dos Aredes e inicio a trilha até o núcleo Jacarandá do PETP. Na portaria faço meu registro (de saída), converso um pouco com os guarda parques e desço sentido ao centro de Teresópolis, chegando em casa antes das 16:00. Nesse dia forma percorridos 40 km em 8 horas de caminhada.

Dia 3 - Esse é o dia mais visual da travessia, assim como o de maior desnível altimétrico. Saio de casa às 5:00, ainda escuro, e sigo caminhando em direção à portaria do Parnaso em Teresópolis. Como havia comprado o ingresso antecipadamente, entro às 6:15 e sigo em direção à barragem Beija Flor, iniciando a subida pro Sino. Meia hora depois entro na discreta bifucação que dá início à travessia da Neblina e sigo por aquele visual alucinante que só conhece quem já passou por lá. Antes das 10:00 estou novamente na trilha do sino, e sigo para seu cume, o ponto mais alto da travessia, onde chego às 10:30. Sigo então para a travessia até Petrópolis, mas como ainda estava cedo decido descer até os Portais de Hércules, ainda inédito pra mim, e fico embasbacado com o visual. Saio de lá 13:30, retomo a travessia e às 14:30 estou no cume do Açu. Desço bem devagar pra ir relaxando as pernas, e saio do parque às 16:30. Às 17:00 chego no alojamento onde passo a noite. Nesse dia foram percorridos 39 km em 12 horas de caminhada.

Dia 4 - Inicio a caminhada às 6:15, sem café da manhã. Sigo em direção à travessia Uricanal, que também é o início da trilha para o Alcobaça, e antes das 9:00 chego ao Caxambu. Tomo o café da manhã em uma padaria e sigo para o início da trilha para o Alto do Ventania, onde chego por volta das 10:00. De lá sigo pela travessia passando pelos cumes da Pedra do Inferno, Morro dos Vândalos e finalmente o Cobiçado. Estava bem cansado neste ponto, a travessia Ventania - Cobiçado segue por uma crista exposta ao sol em sua maior parte, mas sabia que dali pra frente seria só descida, mais precisamente 1700 metros de descida até Raiz da Serra. Liguei pra Adriana pra avisando estava tudo bem e iniciei a descida. 1 hora depois passava pela rua Teresa e segui em direção ao caminho do ouro, o último trecho da Transerrana RJ, um caminho histórico que faz parte do caminho novo da Estrada Real. Descida tranquila, já havia combinado com a Adriana o horário do resgate, chego à estação Vila Inhomirim antes das 16:00, tomo uma água de côco enquanto aguardo a Adriana me buscar e dou por finalizada a travessia. Nesse dia foram percorridos 36 km em menos de 10 horas de caminhada.

No total, a Transerrana RJ uniu 10 travessias: Vale dos Lúcios x Vale dos Frades, Vales dos Frades x Salinas, Campestre x Santo Amaro, Guapiaçu x Canoas, Prata dos Aredes x Jacarandá, Travessia da Neblina, Teresópolis x Petrópolis, Travessia Uricanal, Ventania x Cobiçado e trilha do Ouro. Passou pelos municípios de Nova Friburgo, Cachoeiras do Macacu, Teresópolis, Petrópolis e Magé. Dois dias atravessando o PETP e dois dias o Parnaso. Na verdade, os últimos dois dias foram a Caminhos da Serra do Mar invertida, adicionando a travessia da Neblina e os Portais de Hércules. Os números registrados em um GPS barométrico foram 163 km de caminhada com um desnível positivo de 7294 metros e um desnível negativo de 8448 metros (15742 metros acumulados), realizados em 40 horas (uma média de 10h/dia).

Recomendações:

A Transerrana RJ não é uma trilha marcada ou sinalizada. Embora os trechos comuns ao Caminhos da Serra do Mar sejam verdadeiras avenidas, a sinalização foi feita pensando em um unico sentido, e a Transerrana RJ vai ao contrário. Nos trechos do PETP não há sinalização e, em muitos momentos, é necessário ter algum faro pra encontrar a trilha. Em outras palavras, não é uma trilha para turistas. Mesmo assim, acredito que qualquer um seja capaz de realizá-la dentro do seu próprio ritmo, e tendo a noção que mesmo com o tracklog é indispensável ter boa orientação na mata.

Embora eu tenha feito em 4 dias, pra quem vem de fora eu recomendaria pelo menos duas semanas pra concluir toda a travessia, e dessa forma aproveitar os diversos cumes e cachoeiras que existem ao longo do caminho.

Seja educado com os moradores locais, olhe nos olhos, cumprimente, sorria. Coisas que não são comuns em uma metrópole. Peça permissão de passagem, mesmo que o mapa mostre que é uma área de uma unidade de conservação. Deixe as cercas e porteiras no estado que as encontrou (abertas ou fechadas).

E o mais importante: divirta-se.

Conclusão

Trilhas de longa duração são mais um desafio psicológico que físico. Embora eu tenha feito a travessia integralmente em solitário, não teria conseguido sem a ajuda da minha parceira, amiga e esposa Adriana. Além de me levar ao início da travessia em me resgatar ao final, ela era a única que sabia exatamente onde eu estava (eu ligava ao chegar nos checkpoints combinados - pelo menos quando havia sinal).

Talvez esta seja a maior travessia da Serra do Mar Fluminense até o momento, mas isso realmente não importa. O importante é que, da mesma forma que um lego, é possível juntar as peças e formar algo maior. Esta versão da Transerrana terminou na Raiz da Serra, mas de lá é possível tomar o trem até o Rio e iniciar a Transcarioca. E por que parar por aí? Ao final dela é possível seguir até Mangaratiba, tomar a barca, chegar na Ilha Grande e fazer sua volta completa. E quem sabe de lá seguir até Paraty e fazer a volta do Mamanguá. Não existe caminho definido, o caminho é feito ao se caminhar.

Tracklog e demais dados em http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=10512615.

Marcelo Vieira
Marcelo Vieira

Published on 08/17/2015 16:16

Performed from 08/08/2015 to 08/16/2015

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Renan Cavichi
Renan Cavichi 08/17/2015 23:06

Massa Marcelo! Vou acompanhar por aqui! ahh vc pode exportar o tracklog do wikiloc, fica legal pra galera que está navegando na aventura poder baixar aqui tbm!

Camila
Camila 08/17/2015 23:13

Demais! Parabéns!

Bruna Fávaro
Bruna Fávaro 08/18/2015 06:55

Demais, Marcelo! Tô de queixo caído!

Saul Ayres do Prado
Saul Ayres do Prado 08/18/2015 08:21

Show de travessia....

Bruno Goncalves de Olivei
Bruno Goncalves de Olivei 11/09/2015 11:32

Caraca vc anda bem hein..... Meus parabens

Trilhas Perdidas
Trilhas Perdidas 06/30/2018 11:17

Olá Marcelo Vieira! Relato muito bem feito! Encontrei você aqui por acaso, ao procurar no google sobre travessias de mais de 100km. Deixa eu te falar... estou desenvolvendo (na verdade já está no ar há algum tempo) um sistema sem fins lucrativos que dá acesso a informações cruzadas sobre cachoeiras, cavernas, serras, rios, unidades de conservação etc. Chama-se Trilhas Abertas (www.trilhasabertas.com.br). Sem me prolongar muito por agora, lá tem uma funcionalidade que permite você enviar tracklogs e ver o que há ao longo dele. Estamos querendo colocar tracklogs de exemplo, especialmente aqueles com mais de 100km. Você nos daria a permissão para incluir esse tracklog da Transerrana lá? Com as devidas referências a você, claro. Enfim, parabéns aí pelo relato!

Marcelo Vieira
Marcelo Vieira 07/01/2018 20:04

Olá Guilherme! Dei uma olhada no trilhasabertas e achei muito legal a iniciativa. Claro que tem minha permissão. Só lembrando que fiz essa travessia há alguns anos, e alguns dos trechos menos visitados podem estar fechados pela vegetação. Um grande abraço!

Trilhas Perdidas
Trilhas Perdidas 07/05/2018 19:40

Tranquilo... Obrigado Marcelo!!