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O NASCER NA SERRA DOS ÓRGÃOS

O NASCER NA SERRA DOS ÓRGÃOS

Relato da Travessia Petrô x Terê e sua contribuição para o meu processo de autoconhecimento.

“O mundo inteiro está naquela estrada ali em frente

(...) Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem tem essa pressa de viver”

[Leia este relato ouvindo "Coração Selvagem" de Belchior]

EPISÓDIO I – A descoberta

Por duas vezes já havia tirado as botas e mergulhado meus pés nas águas extremamente geladas que corriam pela montanha. Foi bom, consegui caminhar mais alguns minutos sem incômodo, contudo ele insistia em voltar, como se tivéssemos firmado um acordo de sermos infelizes para sempre. Pensei em parar novamente para descansar, mas era preciso dar cabo do último trecho antes da hora média do dia.

Começaram a cobrar seu preço: as duas noites mal dormidas na barraca, a gélida atmosfera da madrugada nos picos de altitudes, as inúmeras subidas e descidas com a cargueira e seus quase 17 quilos em minhas costas. Somando-se agora a isso tudo, um terreno irregular que numa certa altura e por um longo tempo era repleto de pedregulhos soltos e sedentos para fazerem sua próxima vítima.

Duas outras pessoas do grupo estavam bem debilitadas. Por vezes, fiquei consternado ao observar seu sofrimento. Vendo-as naquela situação, relativizava o meu desconforto e continuava, numa tentativa de ser solidário à dor delas, que deveria ser bem maior do que a minha. Todavia elas seguiam firmes, com dificuldades, mas firmes. Meus exemplos! A descida, embora se apresente intuitivamente como a fase mais fácil e análoga ao velho ditado de que para descer todo santo ajuda, não é.

Embora eu tenha conseguido me sair muito bem, a dificuldade agora estava latente, evocando que a montanha não se deixa domesticar assim tão facilmente. Talvez por isso ela seja tão encantadora e exerça um fascínio tão forte na humanidade. Qual a graça se fosse simples? Que valor daríamos se fosse tão acessível? Que sonhos despertaria caso se entregasse tão docilmente?

Seguia meu caminho refletindo, tentando apurar os reais motivos que me trouxeram até aqui. Tirei belas fotos – pensei num instante, mas imediatamente cai em mim: pelas fotos, com toda certeza, não se pagou o esforço. Deveria haver algo superior que desse um sentido maior a tudo isso... buscava a grande justificação, o grande elo que ligaria todos os pontos.

A verdade é que as vivências excêntricas garantem sua perenidade em nossa memória, ou seja, vou sempre me lembrar do que vivi no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, porque o custo foi alto, houve muita doação de minha parte para conquistar esse projeto. O trivial, o banal, o ordinário está destinado ao esquecimento, o tempo é impiedoso com o que é vivido sem intensidade.

Quando cruzei aquele portão que marcava o fim da Travessia senti que tudo estava, enfim, se conectando e se desvelando diante de mim: o que sentira até ali era a ponte que meus passos necessitavam transpor nessa minha longa jornada de me encontrar… no pain no gain! Neste momento, meu caminho rumo ao autoconhecimento ficava um pouco mais breve. Da dor brotou a euforia, o cansaço se converteu em paz e, repentinamente, já nem me lembrava mais dos apuros que enfrentara nas 51 horas e 19 minutos em que vaguei pela Serra dos Órgãos.

EPISÓDIO II – A Decisão

Em novembro de 2017, estava convencido da real necessidade de uma câmera de aventura para registrar minhas andanças mundo afora. Obstinado, esperei pacientemente que a famosa liquidação (aquela, que vende tudo pela metade do dobro do preço) realizasse meu desejo, porém, eis que um dia antes da sexta-feira tão aguardada recebo o anúncio de uma agência que oferecia um desconto imperdível de 50% no valor da expedição para a Travessia Petrópolis x Teresópolis.

Câmera? Que câmera nada! No mesmo instante, sem hesitar, apliquei minhas economias naquela oportunidade única que se abrira ao meu alcance.

Fazer a Petrô x Terê era sonho antigo. A ideia estava há tempos povoando minha cabeça, no entanto a oportunidade certa ainda não havia aparecido. A falta de companhia e a organização de prioridades me levaram a adiar várias vezes o trekking. Acredito que os projetos devem ser realizados quando estão maduros o suficiente dentro da gente, caso contrário, não vivenciaremos plenamente tudo o que eles podem oferecer. Finalmente era chegada a hora de me lançar ao PARNASO.

Pacote fechado! Comecei a me organizar para a jornada! Os inúmeros relatos que devorei nos primeiros dias de dezembro/17 eram unânimes: a Travessia exigiria um grau de esforço físico maior do que supunha estar preparado; além disso, necessitava de alguns equipamentos dos quais ainda não dispunha, o que exigiu um planejamento financeiro também.

Optei por marcar o trekking para os dias 29, 30/04 e 01/05 de 2018, aproveitando-me do feriado do Dia do Trabalhador para, assim, conseguir uns dias a mais e desfrutar as belezas do Rio de Janeiro. Ahhh, o Rio… seria muito injusto não curtir um pouco dessa cidade que me traz tantas alegrias. Vida de assalariado que mora no interior é assim, tudo é milimetricamente calculado para otimizar o tempo.

Tão logo agendei a saída e entrei na fase de convencer a Gabriela para me acompanhar. Nem precisei me esforçar muito, a Gabis é aquela companheira que topa de imediato todas as loucuras que proponho sem perguntar detalhes. Apenas aceita e se anima! Essa amizade-irmandade-parceria até merecia um capítulo exclusivo.

Conhecia virtualmente a Gabriela há mais de um ano, pois participamos de um grupo de whatsapp que reúne mochileiros da região de São José do Rio Preto, interior paulista. Embora tivesse rolado várias trips com membros do grupo, nunca coincidiu de nos encontrarmos, até que no carnaval de 2018 ela resolveu nos acompanhar a Paraty. Afinidade imediata, evidente, a qual só foi se aprofundando mais e mais. Hoje, não mochilo mais sem ela, mesmo ela indo sem mim (triste isso). Essa história é prova irrefutável de que a estrada é muito generosa com quem se dispõe a encará-la, promovendo encontros marcantes para a vida, e para sempre. Gratidão por você ter entrado em minha vida, Gabis, o mundo inteiro nos espera...

Companhia garantida, passagens aéreas compradas, checklist em mãos, treino na academia programado, restava apenas esperar o tempo se apressar e a trip chegar logo.

Em tempo: continuo sem a câmera, estou esperançoso de que a Black Friday 2018 me traga uma por um preço bem módico. Ao mesmo tempo, tenho medo de receber alguma promoção pro Monte Roraima; não saberei lidar com isso e a aquisição da câmera ficará para 2019… rs.

EPISÓDIO III – O caminho

No dia 26/04, pousava no Santos Dumont, às 20h e sempre tenho a impressão de que a aeronave vai cair na Baía quando pouso lá. Seria só minha essa neura minha? Gabis chegou na Cidade Maravilhosa dia 28 pela manhã e, após nos encontrarmos no hostel, fomos garantir que ficássemos com aquela cor-do-pecado na praia de Ipanema. Lá pelas 16h, resolvemos encarar uma feijoada completa… bem, precisaríamos de reserva energética extra para sobreviver aos três dias de trekking e sentenciamos num acordo de cumplicidade.

No final da tarde, passamos rapidamente pelo hostel para apanhar as mochilas e dirigimo-nos ao lodge da agência para encontrar o Lucas, nosso guia, comprar as últimas provisões e descansar um pouco mais cedo.

Aqui cabe um registro em forma de gratidão. Ao me deparar com o Lucas, fiquei espantado com a pouca idade e tamanha responsabilidade em guiar o grupo. Após meia dúzia de palavras trocadas, entretanto, me convenci de que estávamos na companhia de um grande profissional, pois além da capacidade técnica a qual ele demonstrou dominar, cada palavra acerca do PARNASO pronunciada por ele transbordava amor pelo Parque e ficava evidente ter escolhido isso para ser feliz; mais que um guia, era um realizador de sonhos, como nos disse em certo momento.

No dia seguinte, lá pelas 5h, acordamos, tomamos um café preto e partimos para Petrópolis. Por volta das 10h estávamos na Sede do PARNASO, onde nos juntamos aos outros dois membros da expedição: Marta e Jesus (trilha abençoada essa, hein?), e tão logo os procedimentos burocráticos foram finalizados pelo Lucas na portaria, iniciamos a Travessia com um rápido briefing.

O PARNASO e a Travessia Petrópolis x Teresópolis

A Petrô x Terê é um dos trekkings de altitudes mais explorados do país, uma verdadeira unanimidade entre os montanhistas, indicado por muitos, inclusive, como o trekking mais bonito do Brasil. São cerca de 30 Km de extensão trilhados normalmente em três dias. A ordem Petrópolis→Teresópolis não é obrigatória, porém o maior fluxo de trilheiros a segue por dois grandes motivos: os lances técnicos são mais facilmente domados nesta sequência e segue-se com as montanhas da Serra dos Órgãos à frente, a qual se revela, passo após passo, em toda a sua exuberância.

1° DIA – Aproximadamente 07 Km em 08 horas. Itinerário: Gruta do Presidente, Cachoeira Véu da Noiva, Pedra do Queijo (onde paramos para refeição), Ajax (ponto de água), a temida Isabeloca, Chapadão e finalmente os Castelos do Açu.

Sem dúvida, este foi o dia mais exigente para mim, tanto pela variação de altitude (Sede Petrô a 1100 metros até o Açu a 2245 metros), quanto pela mochila mal regulada que me causou umas dores extras. Além disso, levei apenas duas garrafas de água, que juntas, tinham uma capacidade aproximada de 1,5L. Para mim, que bebo muita água, não foi o suficiente, sendo socorrido algumas vezes pelos companheiros de jornada. Já a Isabeloca, confesso não foi um obstáculo tão difícil como imaginara, ela apenas se insere na dificuldade oferecida pelo dia em si.

Atracamos no Açu já com a noite emoldurando o cenário, tendo a lua iluminando e deixando-o ainda mais bonito. O céu liberto das luzes artificiais das nossas cidades é outro, um espetáculo que a urbe nos priva toda noite.

2° DIA – Aproximadamente 14 Km em 09 horas. Itinerário: Morro do Marco, Vale da Luva e Morro da Luva, Cachoeirinha, Elevador, Morro do Dinossauro, Vale das Antas, Dorso da Baleia, Cavalinho e Pedra do Sino.

Nesse trecho, como em nenhum outro, a Serra dos Órgãos se abre em toda a sua beleza e grandiosidade, reservando as paisagens mais bonitas da Travessia. Mas é aqui também que ela exige atenção redobrada para cruzar alguns dos lances técnicos mais exigentes, incluindo o elevador e o cavalinho. Especialmente para mim, que tenho medo de altura (isso mesmo, tenho medo de altura), o dia teve um sabor raro de superação e conquista.

Chegamos ao Abrigo Quatro com o dia claro, permitindo-nos testemunhar um dos mais bonitos pores do sol da minha vida, arrematando a aventura nessa segunda etapa de forma tão excepcional que não ouso tentar traduzir em palavras.

3° DIA - Aproximadamente 09 Km em 06 horas.

O percurso do terceiro dia inclui a descida do Sino até a Sede Teresópolis do parque, a qual para os menos apressados reserva grandes surpresas: mirantes, rios e cachoeiras pelo caminho, além de uma vegetação encantadora pela diversidade e beleza. Vale ficar atento, pois cada passo, por mais trivial que pareça, oferece grandes descobertas.

Aos companheiros de trilha, Marta (o melhor astral que pode haver para uma trip, convidem-na, pessoal), Jesus (o grande observador, que no silêncio ensinou muito sobre perseverança e conquista), Gabis (a companheira de vida e estrada) e Lucas (o guia que deu a segurança necessária para tudo correr bem) minha admiração e amizade. O que vivemos no Parque selou a camaradagem a qual me faz ser grato por tudo. Bons ventos para nós!!!

Marcio Oliveira
Marcio Oliveira

Published on 08/19/2018 22:20

Performed from 04/29/2018 to 05/01/2018

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1
Gabriela Garcia
Gabriela Garcia 08/20/2018 08:44

caminhos cruzados e agora ligados!! Transformador, emocionante, dolorido e lindo relato da nossa aventura!!

Marcio Oliveira

Marcio Oliveira

Araçatuba - SP

Rox
61

Um aventureiro apressado em conhecer novos lugares e pessoas. Bora pra uma trip?

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