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Maway 08/31/2018 22:14
Rumo ao fim do mundo - cruzando a Patagônia de bicicleta

Rumo ao fim do mundo - cruzando a Patagônia de bicicleta

As viagens nos ensinam, as viagens de bicicleta nos ensinam muito mais!

Bike Trip Long Distance

Quando chegamos de férias, uma das primeiras coisas que fazemos é descansar, certo? Não no nosso caso. Nós já chegamos querendo planejar as próximas férias!

Quando Antonio e eu chegamos do nosso mochilão pelo México, Belize e Guatemala, já começamos a pensar para onde seria o nosso próximo destino. Patagônia já era um sonho antigo, mas ficou ainda mais forte quando eu vi uma foto surreal no Facebook: um casal dentro de uma jacuzzi aos pés de uma montanha com seu topo adornada com neve e um lago azul turquesa que até ofuscava minha vista. Imediatamente mandei a foto para o Antonio, mesmo sem saber onde era o tal lugar. Escrevi para a pessoa que postou a foto. Após alguns dias, a resposta:

- "Los Cuernos, Circuito W, Parque Nacional Torres del Paine - PATAGÔNIA!", dizia a resposta ao meu comentário na foto.

Pronto, já sabíamos o nosso próximo destino!

Alguns dias se passaram e o Antonio veio com a notícia de que um amigo seu estava na Patagônia.

- "Nossa, que legal! Vamos pedir dicas a ele.", eu respondi super animada.

- "Naaa, ele não está mochilando. Ele está de bicicleta", disse o Antonio com uma cara meio desanimada.

Eu meio que congelei na hora, e comecei a questionar e processar a informação recebida:

- "Como assim alguém vai para a Patagônia de bicicleta? Quem é o doido de se arriscar a pedalar naquele lugar inóspito, de terras isoladas, onde a densidade demográfica em alguns lugares não chega a 1 habitante por km²?"

Entre os mil questionamentos, eu percebi uma coisa - era uma ideia simplesmente fantástica! Meu coração acelerou e meus olhos arregalaram! Era como se eu tivesse descoberto a América! O Eder havia plantado a sementinha. E foi naquela conversa que a decisão foi tomada, iríamos cruzar a Patagônia - de bicicleta!

Você deve estar pensando que já havíamos feito isso antes, que eramos cicloviajantes em busca de novos desafios, certo? Pois sinto em te informar que você está errado! Nós nunca havíamos feito uma cicloviagem em toda as nossas vidas. Que cicloviagem que nada! Vamos ser ainda mais precisos: nós nunca havíamos percorrido mais do que 30 km com o bumbum sentado em um banquinho de bicicleta (hoje eu sei que o tal banquinho da bicicleta se chama celim, mas lá naquele dia eu não sabia, não me julgue!).

No dia seguinte iniciou a saga! Precisávamos encontrar as melhores e mais baratas bicicletas do mercado. Uma que aguentasse o perrengue de ser desmontada e despachada para a Patagônia e que também fosse do tamanho do Antonio, que tem 1,95 m de altura. A saga foi longa! Ups, acho que eu não contei para vocês, né? A gente nem bicicleta tinha! Então pode esquecer tudo que você tinha pensado: "Ah eles já pedalavam diariamente" ou "Ah eles já faziam isso nos finais de semana" - não, nós nem bicicleta tínhamos!

Bicicleta compradas, uma cicloviagem de teste que nunca aconteceu, meses de planejamento de rota, leitura de blogs e livros, equipamentos adquiridos, muitos treinos de final de semana que também não aconteceram, aprendizado essencial conseguido no melhor evento do mundo outdoor - o Vivência Outdoor, muitos treinos do Antonio que sim aconteceram, e o pedido de 38 dias de férias nos nossos trabalhos depois...

Chegamos em El Chaltén! Aproveitamos um pouco a cidade, que por sinal dá vontade de ficar muitos e muitos dias! Ela é a meca dos escaladores na Argentina e recheada de trilhas lindas! Acampamos na Casa del Ciclista El Charito e no dia 1 da viagem acordamos com o barulho da chuva na nossa barraca.

- "É sério? Pedalar na chuva? Você tá de brincadeira!", foi o meu primeiro pensamento do dia antes mesmo que eu pudesse abrir os meus olhos.

Decidimos então que aquele não era um bom dia para começar, afinal seria o primeiro dia de pedal da primeira cicloviagem de nossas vidas - e nós decidimos que com chuva não dava e ponto final. Saí da barraca para preparar o café dentro da casa. Após poucos minutos:

- "Amor!", gritei da porta da casa.

Ele colocou só os olhinhos para fora da barraca.

- "Bora levantar acampamento! A Florencia falou que quando começa a chover aqui pode chover por até 20 dias sem parar!"

Pronto, era tudo que precisávamos para sacudir a preguiça e encarar a realidade. Quem inventa aguenta, não é mesmo?

Nosso destino era El Calafate. Como não sabíamos exatamente o que esperar ou quanto aguentaríamos pedalar por dia, planejamos de 2 a 3 cenários por trecho. O primeiro cenário seria o mais conservador, o segundo otimista e o terceiro seria super mega ultra otimista. Tudo foi planejado com base em blogs e relatos espalhados pela internet (o que seríamos de nós sem as pessoas que compartilham em seus blogs?), afinal não era possível acampar em qualquer lugar - o vento patagônico não deixaria!

Um pequeno conjunto de árvores, uma casa de fazenda abandonada, um ponto de ônibus, uma casinha de ciclista, uma antigo restaurante em ruínas, um antigo observatório. Toda e qualquer estrutura que nos protegesse ao menos um pouco do vento era marcada em nosso mapa. Os pontos de água também! Tínhamos todos marcados, mas água é o que não falta na Patagônia, para nossa sorte!

Nosso primeiro dia de pedal foi inesquecível! Pedalamos 120 km! A sensação era mágica! Sentimos como se estivéssemos nascido para pedalar e a felicidade era absurda! Estávamos com o sorriso no rosto até encontrarmos um ciclista vindo na direção oposta - ele sofria. Ele pedalava e pedalava e não saia do lugar. Foi aí que entendemos. Não éramos nós os super ciclistas, mas sim o vento que soprava ao nosso favor. Era o vento que estava no comando, e não nós! A estrada que até então era uma longa reta, em breve chegaria a um cruzamento, e nosso destino, à direita.

Eu fui na frente, estava eufórica! Mas minha alegria terminou no momento que cheguei no cruzamento. Foi como se eu tivesse levado uma bofetada na cara de um gigante com luvas de boxe vermelha - e eu nem tinha visto o gigante. O vento era tão forte, que ao tentar enfrentá-lo eu perdi o controle e o equilíbrio da bicicleta e não importava o quanto eu fizesse força para pedalar, eu não saia do lugar!

Ao chegarmos no local onde queríamos passar a noite, um observatório abandonado, avistamos uma casinha. Em respeito ao morador, nos aproximamos para pedir permissão para dormirmos no local. Quem nos recebeu foi um cachorro com cara e bravo e dentes aparentes, mas com rabo abanando e um carneiro. Após alguns minutos um senhorzinho magrinho e de frágil aparência saiu na porta. Pedimos a ele para dormir no observatório, ele nos ofereceu o paiol de sua casa - nós aceitamos. Tentávamos nos comunicar com ele, mas ele não ouvia muito bem.

- "Eu ofereceria um chá para vocês, mas não tenho lenha cortada", disse o Sr Ramon apontando para uma caixa ao lado da porta com apenas 2 tocos de madeira.

Antonio e eu trocamos olhares, agradecemos a gentileza e sabíamos o que teríamos que fazer. Antes mesmo de fazermos o nosso jantar ou montar acampamento, Antonio foi até o local onde ficava a lenha, pegou o machado e começou a trabalhar. Enquanto eu fui pegar o carrinho de mão e carregar as madeiras até o caixão de lenha dentro da casa do Sr. Ramon.
Entre uma leva e outra, ele se queixou da dor que sentia e me perguntou se eu sabia aplicar injeção:

- "Eu não sei, nunca fiz isso, Sr. Ramon, vou ver se o Antonio sabe", torci para que o Antonio aceitasse a árdua tarefa.

Infelizmente o Antonio também não sabia nem nunca tinha aplicado uma injeção na vida. Eu voltei com a má notícia ao Sr. Ramon, que me olhou com aquela carinha de gato de botas, ainda falando que sua dor era muito intensa e que precisava da injeção para alivia-la e conseguir dormir. Eu não aguentei e enfrentei o desafio. Pedi ao Antonio que pegasse as luvas do nosso kit de primeiros socorros, eu aplicaria uma injeção no bumbum do Sr Ramon! Rezei muito a noite, pedindo que ele ficasse bem. O que seria de nós se algo dera errado? Será que ele ficaria bem?

Meu coração só se aquietou quando o vi na porta de sua casa nos desejando bom dia na manhã seguinte!

Foi assim que terminamos o primeiro dia de uma viagem inesquecível e de muitos aprendizados em mais de 1200 km de bicicleta até o fim do mundo.

Aprendi que as coisas nem sempre funcionam do jeito que a gente quer, ou planeja. As vezes o vento está soprando forte demais, e ao invés de lutar contra ele, a melhor opção é sentar na beira da estrada ou atrás de uma igreja perdida no meio do nada, tirar um soninho e esperar o vento se acalmar - quando ele quiser, quando ele permitir, no tempo dele, seguiremos a viagem.

Antonio foi literalmente o meu escudo quando o vento soprava tão forte que eu não tinha forças para pedalar - e sair do lugar. Por centenas de quilômetros pedalamos grudados, em uma sincronia perfeita (tipo patinação no gelo em dupla, sabe?). Mais uma grande lição: juntos somos mais fortes!

Bons ventos!

PS. Depois de tanto admirar o trabalho das pessoas que compartilham informações e experiências, hoje nós temos o nosso próprio blog. Acompanhe a gente para mais aventuras que estão por vir:

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Maway
Maway

Published on 08/31/2018 22:14

Performed from 12/27/2016 to 02/04/2017

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Carlos Eduardo dos Reis
Carlos Eduardo dos Reis 09/21/2018 08:20

Meus parabéns mestre grande abraço.

Daniela
Daniela 09/21/2018 16:26

Sensacional, cada viagem é uma página na vida a ser escrita.

Thais Reis
Thais Reis 09/21/2018 20:28

Parabéns pela coragem e determinação de vcs sensacional

Rosimary Duarte
Rosimary Duarte 09/24/2018 13:30

Lindas fotos, que Deus realize o desejo do coração de vocês!!!

Nadando Pelo Planeta
Nadando Pelo Planeta 09/26/2018 10:15

MA Way, estamos aprimorando nosso perfil para contar nossas histórias na natação e meio ambiente! Valeu a dica deste blog. =)

Thaís Tagliatella
Thaís Tagliatella 10/02/2018 10:00

As fotografias de vocês são sempre maravilhosas, fico encantada!

Edinho-Sua Casa É O Mundo
Edinho-Sua Casa É O Mundo 10/23/2018 12:43

Yeah!!! Irado o relato, a aventura e a vibe de vcs!!! Abraço forte e bons ventos!!!

Walter Gonçalves
Walter Gonçalves 12/12/2018 21:55

Sensacional amigos! Parabéns pelo arrojo e pelas belíssimas fotos.