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Travessia Baependi - Aiuruoca

A realização de um sonho, a superação de desafios e a confirmação de escolhas.

Trekking

Tudo começou no final de 2016 com um comercial, uma atriz, seu olhar encantado e uma frase “eu nasci em Aiuruoca e aqui todo mundo diz que para subir uma montanha só tem um jeito: passos curtos e paciência”.

Passei a buscar todas as informações sobre aquela montanha (Pico do Papagaio) e como chegar a ela, e os planos era chegar a ela o quanto antes, mas o curso de montanhismo me tomou a primeira metade da temporada e tive de adiar minha ida para a segunda metade da temporada. Numa conversa despropositada, amigos falam da vontade de também conhecê-la e os planos que antes eram sozinha passam a ser em conjunto com mais dois amigos. Por motivos adversos, na primeira data marcada tivemos de adiar e o sonho se adiou para setembro/2017, fim da temporada.

O que seria feito em 3 pessoas passou a ser algo a ser feito por 15 pessoas, mas surpresas nos dias antecedentes a nossa ida quase a frustraram novamente, a dúvida deu margem a alegria quando a poucas horas da partida tudo se encaixava e partíamos rumo a travessia de 4 dias que começaria em Baependi no Bairro da Vargem e finalizaria nele, Pico do Papagaio em Aiuruoca.

Chegamos com um pouco de atraso do programado, mas ainda cedo em ponto diverso do início da travessia, mas ainda próximo, aproximadamente 1,5km antes. Após um café amistoso acompanhado de biscoitos de nata na casa da senhora na qual desembarcamos da van, começamos nossa caminhada por volta de 9hs da manhã. Hoje sei que foi um dos primeiros grandes erros que cometemos, pois, o sol seria intenso, a incidência dos raios UV estaria na sua maior incidência e isso nos prejudicaria muito nesse primeiro dia de subida intensa saindo dos 1183m para 2000m.

A travessia possui muitos pontos de água, o que acaba ajudando e muito na hidratação dessa travessia que tem 90% de sua caminhada em descampado e os 10% de mata fechada maltratam com a intensa umidade.

Ao longo caminho, antes de chegar no primeiro ponto de água uma das integrantes já demonstrava sinal de desgaste e sua cargueira passou a ser levada por outro integrante que tinha uma mochila pequena (bem pequena!) e a dele passou a ser levada por ela e de forma revezada com outros integrantes, antes do primeiro ponto de acampamento que havíamos planejado, no Rancho do Salvador (o segundo seria o casebre), um de nossos companheiros torcera o tornozelo e um casal já iniciava sua instabilidade emocional ante ao desgaste e inconformismo que não haviam pessoas para carregar suas cargueiras. Esse foi nosso segundo grande erro, colocar no grupo pessoas despreparadas e sem o costume de grandes caminhadas com cargueiras nas costas.

Nunca se deixem levar com o discurso de a pessoa ser rato de academia com PHD em Educação Física, somente montanha te prepara para uma montanha, exercício físico ajuda, mas se não tens o costume de caminhar numa montanha, não pense que ela se dobrará a você, é ela quem dita o ritmo e se haverá chegada.

O integrante machucado, apesar do tornozelo torcido se dispunha a continuar, mesmo em passo mais lento, os experts desistiram antes mesmo de chegar ao acampamento, mas muita coisa ainda iria acontecer até a manhã seguinte.

Chegado ao final do dia ao Rancho do Salvador, que não comporta muitas barracas, restou-nos ir espalhando as nossas pela colina, a margem da corredeira de água e no próprio caminho da trilha. Devidamente instalados, hora do banho, jantar e descanso. O dia seguinte seria longo (18km) e precisaríamos sair cedo para não sofrer o que sofremos neste primeiro dia embaixo de sol forte.

No dia seguinte, antes das 6hs da manha os experts batem a barraca do casal de amigos que organizara a travessia para dizer que iriam desistir e pegar um caminho alternativo para chegar até um vilarejo e de lá partir de volta para casa, Nina não havia passado bem a noite (motivos físicos e tenho por mim que também que motivos do coração) e isso a levou também a desistir de seguir, Digão tentou persuadia-la mas sem sucesso. O caminho alternativo, desconhecíamos. O integrante de tornozelo torcido também tinha seus motivos de instabilidade e resolvemos colocar em votação: seguir e deixar os desistentes se virarem sozinhos ou abortamos, a decisão foi abortar.

Um dos grupos que se entravam no Rancho do Salvador tinha 4 vagas em sua van para retorno a São Paulo e concordaram em levar 4 dos integrantes que decidiram seguir por conta.

Nosso ponto de aborto seria após a cachoeira do Juju utilizando uma trilha que nos levaria a um bairro de casas rurais, mas já que abortaríamos de qualquer modo, passamos a aproveitar cada segundo, paramos um pouco na cachoeira sem nome, um pouco na cachoeira do Juju e descemos ate o bairro. La iniciaria a saga de contato com o motorista para nos resgatar, eis aí nosso terceiro grande erro, não havíamos considerado a hipótese de aborto, não o avisamos e com muito custo conseguimos contato com a empresa da van contratada que conseguiu contato com o motorista e que com muita paciência e prestatividade intermediava nosso contato para fazer com que ele nos localizasse. Tudo isso usando o celular rural de uma das casas, vez que nenhum de nossos celulares funcionava. Ao fim do dia por volta de 20hs estávamos sendo resgatados e retornávamos a São Paulo.

Meu coração tinha uma mistura de tristeza, apreensão e alivio, apreensão pelos 4 integrantes que seguiram, alívio por já estarmos em segurança vez que não seria nada saudável seguir com aquela instabilidade toda do grupo e tristeza por abortar e saber que conhecer o Pico do Papagaio ficaria para uma outra oportunidade, eu teria de esperar até a próxima temporada. Contudo, um compromisso ali era firmado, retornaríamos! Afinal ele me esperava e de certava me chamava, ele tinha algo me dizer.

Passada as festas de final de ano, começaria novamente o planejamento de ida a essa esperada Travessia, acertada a data, começavam os levantamentos de trajeto e todos os demais detalhes e tal qual a primeira vez, dias antes de partimos, algumas desistências colocavam em xeque nossa partida, de toda forma eu já havia decidido, eu iria!

Do grupo original, excluindo os experts que não foram convidados, fomos apenas em três, eu, o tornozelo torcido e Dudu, acompanhados de mais 11 pessoas, quatro lugares não foram utilizados na van, dessa vez não tínhamos nenhum senhor máster blaster da galáxia, mas pessoas acostumadas em caminhar grandes distancias e a carregar suas cargueiras, cada um com seu ritmo, mas conscientes do que os esperavam.

Os erros cometidos na primeira tentativa, busquei corrigir nessa nova oportunidade e 1) caminhos alternativos de aborto, 2) telefones de emergência e 3) outros dados, informando isso ao nosso motorista e nossa rede de segurança, bem como a cada integrante foram passados com detalhes. Também busquei passar com detalhes todas as dificuldades e impedimentos.

Desta vez iniciamos a trilha no seu inicio correto, e embora iniciássemos a caminhada duas horas antes da primeira tentativa, ainda assim começamos tarde, a subida do primeiro dia é exigente e faz jus ao seu nome “careta”, mas o ritmo com um todo foi bom e chegamos a base do Morro do chapéu antes das 13hs. Feitas as devidas visitações ao belíssimo morro seguimos ao nosso acampamento (Rancho do Salvador), dessa vez não haviam grupos que chegaram antes e pudemos nos acomodar fronte ao Rancho sem dificuldade.

Acampamento montado, uma surpresa: um dos nossos integrantes havia deixado sua cargueira em outra van (da mesma empresa que ia rumo a Aiuruoca) e retornou com o motorista para pegar sua cargueira e nos encontrar no dia seguinte no segundo ponto de acampamento, fez o trajeto sozinho com base no trajeto que passei ao grupo e chegou no rancho do Salvador com a diferença de uma hora da nossa chegada. Para mim minha primeira grande alegria nessa travessia.

Devidamente acomodados, alimentados e banhados, uns seguiram para descanso, outros para confraternização, mas na manha seguinte todos dispostos para continuar (minha segunda grande alegria). Saímos com certo atraso, por volta de 8:30 e isso nos afetaria consideravelmente, tanto pelo sol quanto pela extensão de caminhada (18km).

A caminhada pela Crista até a Juju foi saudosa fazendo-me relembrar os passos da tentativa anterior, a paisagem agora recuperada do incêndio ocorrido em 2017 transmitia um alento e alegria. Chegada a Cachoeira do Juju, um breve descanso, e iniciamos a subida capciosa do segundo dia. Alguns dos integrantes que saíram antes de nós, equivocadamente tomavam a trilha de aborto utilizada na primeira tentativa, mas logo notaram o erro e retornaram para juntos seguirmos o caminho correto.

Neste segundo dia, minha terceira grande alegria. Logo após a pinguela, a caminhada margeia a mata num vale de capim alto até cair num bosque. Infelizmente a bateria da câmera havia acabado e eu não pude gravar nem tirar foto, mas a cena é muito viva, eu estava passando por um lugar que inúmeras vezes visitei em meus sonhos noturnos.

Após o ultimo segundo ponto de água após essa pinguela, há uma subida íngreme que leva até o ponto onde acampamos (aproximadamente 2km antes do Santo Daime), nessa subida eu literalmente me entreguei ao cansaço e tive me vale de um gel energético para continuar a caminhada.

Para esse segundo dia tínhamos duas opções de acampamento vez que o Santo Daime tal qual a cachoeira do Juju são pontos proibidos de acampamento, a primeira opção foi onde ficamos (aproximadamente 15km da cachoeira do Juju) e a segunda opção seria no Mirante do Gamarra (aproximadamente 20 Km da Cachoeira do Juju ou 2km do Daime), mas meu cansaço não me permitiria chegar antes do anoitecer no Mirante.

Como precisaríamos acrescer 3Km no terceiro dia, Henrique Boney e eu optamos por bivacar para economizar o tempo de desmontagem da barraca, eis minha quarta grande alegria, a noite estava límpida, a lua nascia em seu auge, o céu estrelado, a noite era fria mas não congelante e o descanso merecido se amoldava ao meu corpo sobre o isolante e dentro do saco de dormir...meu viper apesar de não ser para baixa temperatura tem feito milagres desde a ultima temporada.

No terceiro dia, as 4:30 da manhã despertávamos para seguir caminhada, ao longo do dia seriam 15km com muitos picos a nossa frente, saímos do acampamento as 5hs e num ritmo bom sob o friozinho da madrugada, percorremos os 3km ate o Santo Daime em aproximadamente 1hora, no caminho encontramos alguns amigos de caminhada que estavam em outro grupo. Feito os devidos cumprimentos, seguimos mata a dentro, neste terceiro dia a caminhada mescla muito com mata e descampado. Henrique, Oziris e eu chegamos ao Retiro dos Pedros por volta de 9hs e no ponto de acampamento por volta de 12hs. A caminhada sem a grande incidência do sol permitiu uma caminhada proveitosa (erro a corrigir na próxima ida...sim haverá próxima).

A vista do Pico da Tamanduá e do Tamanduá Bandeira são de tirar o folego e permitem uma visão privilegiada do que eu tanto almejava, o Pico do Papagaio.

A água já próxima ao acampamento não permite banho farto como nos outros pontos de acampamento, mas ainda assim eu utilizei todas as garrafas de água que Henrique e eu carregávamos e tomei um banho antes de preparar o almoço.

Logo após almoçarmos, mais alguns integrantes foram chegando, se acomodando e antes das 16hs a trupe estava completa.

Alguns seguiram ao pico do papagaio para ver o por do Sol, mas eu desejava ver o nascer do sol e permaneci no acampamento, depois de descansar um pouco, hora de preparar o jantar, se alimentar e se preparar para as 5hs estar de pé para ver o nascer do sol (previsto para as 6:15) no topo do Pico do Papagaio.

Caminhada rápida de 40 minutos até o topo, com algumas subidas mais íngremes, algumas pedras e finalmente o cume.

Não consigo descrever o que senti ao estar ali, era uma mistura de sentimentos que eu ate o momento não consigo processar, apenas lembrar e me emocionar e a casa segundo a espera do sol nascer eu observava as pessoas que ali estavam, suas atitudes, reações e quando o sol apontou eu me entregava ao que o coração pedia e ali, sentada a pedra distante de todos eu chorava e ouvia o que ele tinha a me dizer, sentia o que ele tinha a me demonstrar e entendia o seu chamado.

Não tinha vontade de sair dali, mas era hora de voltar. Retornado ao acampamento, arrumam-se as coisas e começa a descida até o ponto final onde nosso motorista iria nos encontrar. Descida capciosa e tal qual a subida do “Careta” antes do morro do chapéu, tal descida é passível de careta para quem a faz subindo, vista deslumbrante e ao final dela caímos no truticutário onde fomos recebidos pelo Carlos Henrique e sua esposa, pessoas fantásticas, amistosos e de uma alegria única.

Depois de uma confraternização, deitei-me a grama para uma soneca e aguardar o motorista, era meu momento de satisfação plena, estava onde eu queria, com que eu queria e como eu queria.

Houveram muitos erros e muitos mais acertos os quais ficam para o livro, mas agradeço a cada um dos que me acompanharam nessa empreita, foi um sonho realizado e fizeram parte dele, cada um contribuindo ao seu modo!

Imagino que esperassem um relato menos romantizado, desculpem, deixo isso aos catedráticos, o meu relato é o modo como enxergo essa viagem que de longe nunca há de terminar.

E tomando-me das palavras dela assim encerro “(...) e hoje agradeço a essa montanha que me fez lembrar todos os dias que passos curtos e paciência podem nos levar muito longe.” Isis Valverde.

04/05/2018 – Michelle Engi

Michelle Engi
Michelle Engi

Published on 05/04/2018 12:13

Performed from 04/28/2018 to 05/01/2018

1 Participant

Henrique Boney

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Henrique Boney
Henrique Boney 05/04/2018 15:03

que lindo.

Henrique Boney
Henrique Boney 05/04/2018 15:15

Somente uma montanha te prepara para próxima.

Michelle Engi

Michelle Engi

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